Le mal du pays

1 Le mal du pays


Notas iniciais
A ideia de escrever essa fic veio enquanto eu ouvia Le mal du pays, de Franz Liszt. Ela foi citada em um livro que eu lia ("O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação", é muito bom, recomendo!), e então resolvi escutá-la. Foi amor à primeiro acorde! Por ser uma música clássica, resolvi escrever esse MidoAka. Boa leitura.

Le mal du paysAnnées de pèlerinage, Première année: Suisse

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Era uma calma tarde de verão, não ventava. O sol estava com um cheiro saudoso. Estava claro e tranquilo.

Caminhava pelos corredores, indo até a sala de música. Durante sua caminhada conseguia ouvir o delicado som de um violino. A melodia era muito bonita, mas ele não a conhecia. Nunca chegara a escutá-la em algum concerto na tevê ou no rádio.

Suas mãos estavam dentro do bolso de sua calça preta. Trajava uma camiseta azul e gravata preta, o blazer branco estava bem fechado. Continuou a ouvir a melodia, era doce e saudosa. Apressou mais um pouco os passos e então ficou de frente para a porta, puxando-a para o lado. Ao fazer isso, a imagem do rapaz foi revelada. Ele estava de costas, com o violino sobre o ombro e o queixo tocando a madeira escura. Seu braço se movimentava devagar, sua mão segurava o arco firmemente.

Olhou pela janela e viu o céu vermelho de fim de tarde. Igual aos cabelos e os olhos dele. Quando se deu conta, a melodia havia acabado.

— Vai ficar aí parado, Midorima? – a voz chegou aos seus ouvidos.

Piscou algumas vezes e depois focou seus olhos no rosto de Akashi. Os olhos rubros lhe encaravam, combinavam com o céu. O violino havia sido devolvido ao estojo preto que estava sobre o banco em frente ao piano de cauda preto Yamaha. Enfim, Midorima moveu suas pernas, andando em direção ao ruivo. As janelas estavam abertas, fazendo uma rajada de vento adentrar no local e balançar as cortinas de cor creme.

Assim que se pôs em frente ao ruivo, abaixou a cabeça, fitando-o. Akashi pegou o estojo do violino e sua bolsa, e assim saíram da sala de música. Dirigiram-se até os armários que tinham na entrada e trocaram os calçados.

Durante o caminho conversaram sobre assuntos agradáveis. Combinavam em certas coisas (gostos musicais, esporte). Só que havia mais uma coisa. E nisso Midorima não sabia se combinavam. Enquanto conversavam podia ver os sorrisos do capitão da Teiko. Sempre que recebia um, lançava um mais tímido para ele.

Achava bonito como as mechas vermelhas ficavam com um tom alaranjado por conta da luz do sol, como os olhos cor de sangue ganhavam um brilho intenso. Parecia que a cor vermelha havia sido criada apenas para aquela pessoa de tanto que combinava com ela. Desejava poder dizer tudo aquilo abertamente. Mas não conseguia. A vida era feita de códigos e anotações estranhas, que quanto mais ele tentava entender, mais confuso ficava. E não sabia o que sentia diretamente a Akashi.

Andaram até chegarem a um bairro de classe alta. Enormes casas espalhadas, mostrando o tamanho de cada família. Nenhuma daquelas belas casas pertencia à sua família, mas uma pertencia à família do ruivo. Não demorou a que chegassem até a casa onde o menor morava. Tinha o design antigo e bonito. Na placa de madeira estava escrito “Akashi”. Cumprimentaram o jardineiro que podava um arbusto e entraram na residência.

Foram diretamente para o quarto do ruivo, ruivo este que ligou o interruptor e pediu para que sua companhia entrasse e se sentasse. Midorima acomodou-se em um assento que havia no chão, perto de uma mesinha, pôs a bolsa ao seu lado e apoiou suas costas no encosto. Colocou suas mãos sobre a madeira escura. Observou pelo vidro a imagem do menor deixando sua bolsa sobre a própria cama e se dirigir até o guarda-roupa. O viu tirando de lá de dentro um kimono vermelho e marrom, indo até o banheiro e pedindo para que ele esperasse.

A porta do banheiro foi fechada por alguns minutos e logo voltou a ser aberta, revelando outra vez o ruivo. Aquele kimono lhe caia bem, combinando com seus cabelos e pele clara. Sentiu-se enrubescer com o que acabara de achar do rapaz mais baixo, levou a mão até os óculos e os ajeitou rapidamente. Ele segurava um cabide, onde se encontrava seu uniforme e depois o pendurou na parede. Riu baixo ao perceber que ele ficou na ponta dos pés. Depois disso, Akashi foi em direção ao piano que obtinha em seu quarto.

Mesmo tento uma baixa estatura, Akashi possuía um grande ego e talento (para a música e para o basquete). Admirava-o tanto em quadra quanto fora dela. Enquanto o via tocar piano, prestava atenção em cada pequeno detalhe: os dedos bem torneados sobre as teclas brancas e pretas; as panturrilhas formosas, brancas e lisas como cerâmica; Clair de Lune, de Claude Debussy, que ele tocava.

Parou inesperadamente de tocar, enrijecendo o corpo. Dobrou os dedos e depois fechou a mão em forma de punho. Ele se levantou e foi até o outro lado da mesa, também se sentando.

— Eu gostaria de conversar com você – anunciou Akashi. Também pousou suas mãos sobre a mesa.

— Pois converse. – disse Midorima.

— Vinte minutos de sinceridade.

— Como?

— Vamos conversar em vinte minutos, sendo sinceros um com o outro. Esquecer sentimentos constrangedores, proteger pessoas. Sermos verdadeiros. Depois podemos agir como se nada do que dissemos ou fizemos tivesse acontecido. O que acha?

— É uma boa ideia. – olhou no relógio, faltavam dois minutos para sete horas. – Comece.

Deu um suspiro profundo e fitou as mãos de Akashi que estavam sobre a mesa. Dava para ver que elas tremiam muito. Midorima desviou os olhos das mãos dele, encarando a janela que mostrava o céu já escuro. O clima que pairava sobre eles era sufocante, preenchido por uma profunda timidez.

— Está pronto? – o esverdeado acenou em positivo, olhando novamente no relógio. Sete horas em ponto. – Ok... Eu gosto de você. Só comecei a perceber isso depois de ter recebido aquele beijo durante o verdade ou desafio, na casa do Tetsuya. E me senti mal por depois te ouvir falando aqueles elogios para o Ryouta. Sinceramente, senti uma vontade de esfolá-los vivos naquela hora. Os dois. Você e Ryouta. Antes de dormir, fiquei imaginando o que você diria sobre mim. Hã... – pareceu pensar sobre o que continuar dizendo. Por fim, falou: – E também te acho, realmente, muito atraente. Bonito. Sei que soa clichê, mas é o que acho de você.

— Isso não soa clichê; é apenas bom gosto.

O ruivo riu, permaneceu em silêncio e fitou dentro de seus olhos, como se passasse a vez para ele.

Respirou fundo. Como iria decifrar aqueles códigos estranhos tão rapidamente? Não era a mesma coisa que tocar piano, pois nisso já era experiente. Nunca havia dito para outra o que sentia, pois nunca chegou a gostar de outro ser vivo. Mas, naquele momento, quem estava na sua frente era Akashi Seijuurou. Seu coração palpitou forte. Foi decifrando um código de cada vez.

— Bom... Eu também gosto de você. Não sei se gostar pode ser a expressão correta, mas enquanto eu não achar outra, será essa mesma. Diferente de você, percebi que me sentia atraído quando passei a prestar mais atenção em você. Enquanto tocava piano ou violino, eu tentava prestar atenção em cada detalhe. Quando nos beijamos naquele dia, pode-se dizer que, se eu não fosse eu, teria pulado de alegria, pois realmente me senti bem quando te beijei. Sobre os elogios que dei a Kise: eu havia, com todas as minhas forças, desejado que tivesse, mais uma vez, caído em você. Mas naquele dia a sorte não estava do meu lado, não naquele momento.

— Qual posição? – perguntou o ruivo.

— Terceiro. Sagitário estava em primeiro. – ouviu-o soltar uma risada. – Se tivesse que elogiar você, eu diria que... Que te admiro. Admiro-te em vários quesitos. Você também possui bastante força, mas não força física. Mas prefiro não falar sobre isso.

Akashi inclinou um pouco da cabeça para o lado.

— Por que não?

— Porque não quero te ver chorando. – as sobrancelhas rubras se ergueram e ele logo voltou a sua expressão habitual. Continuou: – Já te ouvi chorando algumas vezes quando vinha aqui, e quando me recebia, agia normalmente. Você não sabe atuar, não sabe fingir direito. Ao menos não para mim. Não gosto quando chego aqui e escuto os seus soluços dentro daquela sala.

Olhou rapidamente para o relógio, já eram sete minutos.

— Realmente, te acho muito bonito. A cor vermelha combina bastante com você. Principalmente com sua pele, que é bem clara. –desviou os olhos para algum canto, não sabia o que mais tinha a dizer. E então botou as seguintes palavras para fora: – Todas as vezes que te vejo desejo me tornar essencial para você! Por algum motivo, é algo que não consigo controlar.

Fitou Akashi curvar-se para frente sobre a mesa e pôs a mão dele sobre a sua, em silêncio. Era uma mão quente e delicada. Macia. Esse contato mais íntimo deixou Midorima feliz, e ele acabou por ficar grato, mas ao mesmo tempo confuso. Não sabia se o ruivo fazia isso por querer dizer algo, ou por simples coincidência. A resposta logo chegou aos seus ouvidos.

— Você é essencial para mim. Eu também desejo o mesmo. Quero que fique ao meu lado todos os dias, eu não diria para sempre, pois um de nós irá embora primeiro. Quero avançar com você, não importa se for rápido ou lento demais, quero apenas ficar ao seu lado, Shintarou!

Ajeitou os óculos nervosamente, tentando disfarçar um pouco. Ouviu o menor comentar que nem ele sabia disfarçar. No fundo, sentia uma pontada de gratidão por aquelas palavras. Suspeitava se o ruivo sentia o mesmo.

— E... Ah... Não gosto quando fica muito tempo ao lado do Murasakibara. Quando fica mimando ele com doces. Ele não é seu filho nem nada, por isso não gosto. E ponto final.

— Meu Deus. – disse levemente espantado. Sorriu. – Ciumento?

— Sim.

— Quanto tempo ainda temos?

Olhou para o relógio em seu pulso direito.

— Onze minutos.

Observou o outro rapaz se levantar e caminhar novamente até o piano, sentou- se e disse:

— Quero que me ensine uma música.

Akashi queria que ele lhe ensinasse uma música?

Caminhou até ele, mas não questionou, cada minuto naquele momento valia — literalmente— uma verdade a ser dita. Posicionou-se atrás dele e se curvou um pouco, o que fazia o tecido de seu blazer branco roçar no tecido do kimono do menor. Colocou suas mãos sobre as mãos de Akashi, colocando um dedo sobre o outro.

Engoliu em seco antes de perguntar:

— Já escutou Le mal du pays?

Ele maneou a cabeleira ruiva em negativo. Aquilo aliviou seu peito.

Começou a movimentar seus dedos sobre os dedos de Seijuurou, começando a tocar a música. Le mal du pays, de Franz Liszt. Sempre que ouvia essa música, procura ouvir diferentes sonatas, mas nenhuma se comparava à versão de Lazar Berman. Chegara àquela conclusão após ouvir a versão da sonata de Alfred Brendel, era boa, sim, mas não tanto quanto a de Berman. Era um pouco mais elegante.

Era uma música melancólica, calma, oferecia aos poucos um contorno à tristeza aos corações solitários. Resolveu aprender a tocar aquela música ao ouvir uma gravação de seu avô materno tocando-a. Sua avó gostava daquela música, e como passava muito tempo na casa dela, resolveu aprender para poder tocar para a mulher.

Durante a música, pronunciaram-se poucas vezes. Diziam o que gostavam e o que não gostavam um no outro. O que achavam e o no que discordavam em relação ao que diziam de si mesmos.

Permaneceram naquilo até o último acorde ser dado e então retirou suas mãos de cima das mãos de Akashi. A melodia desapareceu do ar, mas ainda deixou as sensações na atmosfera.

— Quanto tempo? – perguntou a pessoa abaixo de si.

— Cinco minutos.

E então estavam se beijando.

Shintarou se inclina e o menor não se afasta. Seus lábios estavam um pouco ressecados e a ponta de seu nariz tocava na bochecha corada, mas aquilo não atrapalhava em nada. Sentia um gosto de hortelã em sua boca, era açucarado. Tocaram um no rosto do outro. Seus fios de cabelo se juntavam, misturando o verde no vermelho e o vermelho no verde. Assim como uma árvore que possui folhas verdes e laranja-avermelhadas durante o outono. Era um beijo com sentimentos; apaixonado. Era como se colocassem todas as palavras e sensações bem ali. O esverdeado queria tocar suas costas, joelhos, braços, barriga e tudo o mais que ele possuía, mas estava tudo coberto pela roupa que ele usava. Seijuurou sorriu durante o beijo.

Separaram-se. Um minuto.

Midorima disse:

— Cada minuto que tivemos agora foi para provar o quanto te quero.

E voltaram a se beijar.

O tempo de sinceridade já havia acabado, mas o que eram vinte minutos para dois corações jovens que acabaram de se confessar?

No fundo, sentia como se soubesse e não soubesse nada de Akashi até aquele momento. Ele era repleto de códigos estranhos e indecifráveis. Mas com o passar dos dias, com um trabalho árduo, conseguiu decifrar alguns desses códigos, sabendo assim mais dele. Mais daquela melodia. Alguns desses códigos não iriam lhe satisfazer ou lhe deixar feliz para sempre. Pois é assim. Quando as pessoas descobrem o verdadeiro significado daqueles códigos, podem ou não acabar gostando. Era assim a vida humana. Descobrir e sofrer as consequências.

Enquanto beijava os lábios macios de Akashi, Midorima podia ouvir, nos confins de sua mente, Lazar Berman decifrando notas e códigos, tocando Le mal du pays várias e várias vezes. Aquela música melancólica e calma, que depois de muito tempo, se misturou com o sentimento de paixão que sentia e aqueceu o lado esquerdo de seu peito.

Notas finais
Sabe, por alguma razão, eu shippo quase todos os personagens que o OnoD e o Kamiyan dublam (eu até acho que eles devem se pegar um pouco *foge*). Sei que fugi um pouco (ou muito) da personalidade deles, mas eram 20 minutos de sinceridade, então... Ficou bom? Ficou ruim? Ficou mais ou menos? Comentem, me deixem saber a opinião de vocês e me façam feliz! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!