Laços De Sangue
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Não, não, não... Não poderia ser ele. Não ele. Por quê? Ele veio terminar o serviço? Acho que não teria coragem para me matar aqui, com minhas amigas e todas essas pessoas. Por que eu digo serviço? Vou explicar de uma maneira bem calma e simples...
ELE É UM DOS CANALHAS QUE ESTAVAM ATRÁS DOS MEUS PAIS. Simples. Só isso.
Mas mesmo estando longe da Rússia, da minha “família”, de todos aqueles que faziam parte da mesma, por que eles ainda me querem? Por que ainda querem me ver morta?
Tentei disfarçar meu susto e me recompor para que Ariele e Bridget não percebessem. Mas, pelo jeito, não deu muito certo.
- Hannah? Nossa você tá parecendo que se jogou na farinha. – Ariele disse dando risada.
- Ahn? N-n-não a-a-acontec-c-ceu na-a-da – Eu disse gaguejando e balançando a cabeça em modo negativo. Engoli a saliva e continuei – Sério. Não aconteceu nada, só senti um pouco de frio.
- Então tá né...
Senti que Bridget me olhava como se estivesse me analisando, o que em parte é verdade. Então retribui o olhar com medo, e um aviso mudo: “Mais tarde conto tudo... De novo”. Ela balançou a cabeça positivamente e deu uma última olhada em Ariele que já comia um pouco da pipoca e tomava seu refrigerante, então se virou para frente.
As luzes se apagaram, mas o homem ainda estava lá. Olhando-me, como se estivesse preparando-se para atacar e me levar para a escuridão eterna. Então o filme começou. E eu tentei relaxar na cadeira almofadada.
***********
Os créditos finais passaram e as luzes acenderam. O homem não estava lá. Suspirei de alívio e desci as escadas para fora da sala de cinema. Recebemos a luz artificial com desgosto e então fomos à caça de acessórios para a festa que eu não iria, mas pelo menos daria alguma ajuda para elas.
[...]
Depois de 1 hora e meia a procura de acessórios, finalmente elas encontram. Bridget comprou acessórios simples, apenas com alguns brilhantes, já Ariele... Bem, já deve pensar como foi a base das compras dela não é? “Brilho acima de tudo.”
Tomamos sorvete e ligamos para os pais de Ariele. Enquanto caminhávamos para fora do shopping para esperar, vi de relance o mesmo homem, parado próximo à uma pilastra do outro lado da rua. Tão rápido como apareceu, também foi embora. Ainda acho estranho o fato de a Rússia estar atrás de mim, mas por ora ignorei essa perseguição contra mim.
[...]
No caminho de volta para o estúdio, fui pega pensando em algo que há muito tempo não refletia. Não me recordo se foi na minha breve infância na Rússia, ou se foi minha criação em Nortumbria. Mas agora fiquei surpresa com a minha própria mente, a mesma mente que planeja todas as noites uma maneira de descer da árvore e a mesma que escolhe as roupas que vai usar ao longo dos dias.
Mas em quem ou o que, ela deve estar pensando? Quem, seria a pergunta correta a se fazer ao meu pensamento.
Mais uma lembrança que tenho de quando estava no jardim de infância, onde eu era mais caçoada ainda. Onde eu vivia me escondendo das outras crianças que insistiam em puxar meus cabelos e me empurrar ao chão. Lá eu descobri um amigo, apenas ele não ria nem me machucava, e sim me protegia. Seu nome era... Como era mesmo?
- É... Ela desligou de novo... – Ariele me tirou dos devaneios.
- Mas o que...
- Tá na Lua amiga? – Pra falar a verdade eu bem que queria estar – Ei. Já chegamos ao estúdio.
- Nossa que rápido... Você não vai ficar aqui?
- Não, eu tenho que ver algumas coisas em casa e depois um... argh... Jantar dos sócios do meu pai.
- Ah não se preocupe, não deve ser tão chato... Qualquer coisa, ficamos conversando até a hora de você ir embora desse jantar. – Bridget disse.
- Pensando assim... Mas por ora, até depois. – Ariele se despediu de mim e de Bridget e nos ajudou a descer as sacolas do carro. – Beijinhos
Vi o carro sumir no horizonte que escurecia aos poucos e então viramos para entrar no estúdio. As portas automáticas de vidro espelhado se abriram revelando uma decoração que antes não estava lá. Junto com uma música do mesmo tema.
Dia das bruxas. O único dia que era divertido, além dos erros de gravação. 31 de Outubro estava próximo. E junto dele algum sentimento estranho crescia, um tipo de ansiedade com pavor, mas resolvi ignorar.
Bridget e eu entramos no elevador e apertamos o botão 11. Ao longo do caminho, ninguém entrou no elevador e o porquê foi respondido assim que as portas metálicas se abriram, revelando luzes brilhantes e excessivamente coloridas vindas do quarto de alguém. Nos entreolhamos e seguimos para nossos quartos, dei boa noite à minha melhor amiga e busquei a chave para abrir a porta, mas justo quando a pego alguém fala atrás de mim:
- Ora, ora, ora se não é a minha arisca Hannah... – Ryan disse com uma voz rouca
- Merda de novo – disse sussurrando. Por que ele sempre aparece para me infernizar? – O que quer Ryan? Por que não volta pra festinha, seja lá onde for, e me deixe dormir?
- Ah que isso Hannah, não seja má comigo... – Agora eu conseguia sentir o cheiro de álcool misturado com alguma fruta no seu hálito. – Nós podemos ser mais que amigos, não é?
- Ryan, me deixe. Volta pra sua namoradinha e me largue. – Eu disse empurrando seu corpo para longe, depois o encarei furiosa – Me diga aquela droga de aviso que você tinha para me dar e vá embora.
- Ah sim, o aviso... Olha... – Ele se aproximou novamente de mim e pegou meu maxilar, trazendo-o para perto dele – Seria bom que você cooperasse comigo, Hannah... Não quero precisar te machucar, então faça o que eu mando.
- Para que toda essa ceninha Ryan? “Faça o que eu mando ou você vai se ferrar” – Eu disse arrancando sua mão do meu maxilar e imitando sua voz – Chega de palhaçada, fala o que quer comigo.
- Mas eu já disse, Hanninha... Eu quero você e ninguém vai te ter além de mim... Vamos para meu quarto e façamos nossa festinha particular...
- Jamais.
- Então creio que será a força... – Com isso ele agarrou meu pescoço e tentou me puxar para perto dele, mas com o resto de força que tinha, chutei o meio de suas pernas e o vi cair drasticamente no chão enquanto abria a porta do quarto.
- Isso é pra você aprender, que ninguém mexe comigo. – Cuspi em seu rosto e fechei a porta, trancando-a para abri-la somente de manhã. Mas ouvi os resmungos baixos de Ryan atingirem meus ouvidos.
- Você vai ver Hannah, você vai ser minha quando menos espera.
Me afastei da porta e joguei meus sapatos longe, e deixei minha bolsa em qualquer lugar. Pendurei minhas roupas e coloquei meu pijama mais confortável, uma calça de moletom e uma regata, e só então me enfiar debaixo das cobertas e fechar os olhos para tentar esquecer o recente ocorrido. Mas as lembranças insistiam em voltar para me atormentar cada vez mais...
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