Laços
4 Morte
O inverno chegou sem piedade, cobrindo as cordilheiras do Oeste com uma camada espessa de gelo e céus pesados de neve.
Os ventos gelados trouxeram consigo um nome carregado de um imenso peso.
Ah-Un conhecia aquele nome.
Já o ouvira muitas vezes quando ainda era pequeno, sempre acompanhado de vozes mais baixas e expressões preocupadas. Ryūkotsusei era uma criatura antiga, poderosa e perigosa — uma daquelas que até os grandes yokais tratavam com cautela.
Para o reino do Oeste, a batalha do grande Inu no Taisho contra aquele dragão era apenas uma questão de tempo; as tensões entre os dois acumulavam-se há gerações. Quando o conflito finalmente explodiu nas montanhas, todos sabiam que não seria um confronto comum.
A batalha durou dias.
Ao fim, Ryūkotsusei fora selado na rocha. O Senhor do Oeste vencera. Mas não saíra ileso: o confronto deixara feridas profundas e mortais, que nem mesmo a regeneração de um dai-yokai conseguia curar.
A notícia do combate avassalador espalhou-se rapidamente pelos ventos. Nos salões de pedra do Palácio do Oeste, mensageiros chegavam a todo instante, e não foram apenas os yokais que perceberam o peso daqueles acontecimentos. Os humanos, observando à distância, viram a oportunidade que esperavam. Sabendo que o grande general estava mortalmente ferido, os nobres do feudo humano moveram-se rapidamente. Liderados por Takemaru, os guardas cercaram a mansão onde a Princesa Izayoi, prestes a dar à luz, residia.
Quando o relato do cerco chegou à sala de audiências, Inu no Kimi não demonstrou surpresa.
Suas mãos repousavam sobre o tecido nobre de suas vestes, os olhos fixos na neve sobre os jardins de bordo mortos. À sua frente, o vapor de sua xícara subia em um facho fino, desaparecendo no frio da sala.
— O sangue de nosso clã não foi feito para ser derramado por criaturas insignificantes, Sesshoumaru — disse ela, a voz fluindo calma, mas cortante como a geada. — Seu pai venceu o dragão, apenas para permitir que a mortalidade o alcance através dos humanos.
Sesshoumaru permanecia imóvel junto à grande pilastra de pedra. A poucos passos, Ah-Un mantinha as duas cabeças baixas contra o chão de mármore gelado, sentindo a turbulência silenciosa entre mãe e filho.
— Os humanos do feudo estão se movendo — declarou o jovem príncipe, o tom desprovido de qualquer calor. — Cercaram a mansão onde a mulher reside. Ele mal deixou o campo de batalha contra Ryūkotsusei e já marcha para lá, sangrando até a morte.
Inu no Kimi não desviou o olhar do jardim.
— Humanos reagem ao medo como feras acuadas. Era uma questão de tempo até que tentassem se aproveitar da fraqueza de seu senhor. — Ela fez uma pausa sutil, deslizando os dedos pela porcelana. — Ele marchará para aquela armadilha. Você sabe disso.
— Se for na condição em que se encontra, não retornará.
— E você pretende impedi-lo? Ou pretende recolher o que restar da coroa dele?
Sesshoumaru manteve a postura rígida. O silêncio que se seguiu foi a única resposta.
Inu no Kimi ergueu o queixo devagar, encarando a determinação gélida nos olhos dourados do filho.
— Vá, então — concluiu ela, a voz baixando num sussurro aristocrático. — Testemunhe até onde a escolha de seu pai o levará. Garanta que o poder deste clã não se perca no lamaçal dos mortais.
O jovem príncipe não respondeu.
Apenas fez uma breve reverência.
Quando se virou, Ah-Un imediatamente se levantou.
Os dois deixaram a sala.
Inu no Kimi permaneceu diante da mesa, ouvindo o som dos passos desaparecer pelos corredores.
Só então voltou os olhos novamente para o jardim e para a neve que voltava a cair.
—
A noite não trouxe a lua.
O cheiro que o vento trazia não era de água, nem de terra molhada — era o amargor denso de sangue fresco.
Ah-Un sentiu primeiro. O dragão inquietou-se no alto da rocha, as duas cabeças erguendo-se ao mesmo tempo enquanto as garras pressionavam a pedra. Sesshoumaru permaneceu imóvel a alguns passos dali, os olhos dourados fixos na estrada de terra batida que cortava a floresta abaixo.
Quando a figura surgiu entre as sombras das árvores, o tempo pareceu desacelerar.
O grande Inu no Taisho caminhava devagar. A túnica branca estava manchada de vermelho-escuro, o braço esquerdo sustentado junto ao peito sob o tecido, e a aura colossal que costumava afastar qualquer ameaça a milhas de distância oscilava como a chama de uma vela prestes a se apagar. A luta contra Ryukotsusei havia cobrado um preço que nem mesmo o Senhor do Oeste podia pagar sem sangrar.
As duas cabeças do dragão se agitaram. A da esquerda soltou um sopro quente e inquieto; a da direita inclinou-se devagar, os olhos fixos na figura familiar que avançava. O dragão conhecia o cheiro do senhor do oeste, mas agora ele vinha acompanhado por um amargor profundo.
Ah-Un olhou para Sesshoumaru.
O jovem senhor não se mexia, mas o dragão sentiu a mudança imediata no ar ao redor dele. Os ombros do inu-yokai estavam rígidos. Seus olhos dourados nem sequer piscavam.
Sesshoumaru saltou do penhasco.
Aterrissou com leveza no meio do caminho, bloqueando a passagem de seu pai. Ah-Un desceu logo atrás, mantendo a distância prudente que o ar pesado daquele reencontro exigia.
O grande general parou. Apesar da perda de sangue e do corpo ferido, seu olhar continuava firme ao encontrar o do filho.
— Sesshoumaru.
O jovem inu-yokai não fez reverência. Não perguntou sobre o sangue que empapava as vestes de seu pai, nem sobre as feridas abertas sob a armadura. Seus olhos desceram para as espadas presas à cintura do general.
— O senhor pretende partir de novo? — A voz de Sesshoumaru saiu tão fria quanto o vento da tempestade. — Na condição em que se encontra?
— Preciso ir.
— Para salvar a humana? — O tom de Sesshoumaru cortou o silêncio com um desprezo afiado. — O senhor é o líder do Clã. O Senhor do Oeste. E arrisca a própria vida por uma criatura insignificante que nem mesmo pertence ao nosso mundo?
O Inu no Taisho não respondeu de imediato. Apenas respirou fundo, segurando uma pontada de dor no peito.
— Deixe-me as espadas — exigiu Sesshoumaru, dando um passo à frente. A voz não implorava; decretava. — Deixe a Tetsusaiga e a Sou'ounga comigo antes de ir. Se o senhor cair hoje, o poder do clã deve permanecer em mãos capazes.
O pai olhou para o filho por um longo e angustiante segundo. Havia uma tristeza profunda naquele olhar — não pela ganância de Sesshoumaru pelas espadas, mas pela incapacidade do jovem em compreender o verdadeiro significado do poder.
— Sesshoumaru... — a voz do pai soou suave, quase um murmúrio entre o som do trovão. — Você tem alguém a quem proteger?
A palavra pareceu ecoar de forma estranha no silêncio da noite.
Ah-Un notou o movimento imperceptível da cabeça de seu senhor. Sesshoumaru não fraquejou; em vez disso, sua postura tornou-se ainda mais ereta, rija como o aço gelado. Para o jovem príncipe, aquela pergunta não fazia sentido algum — era a prova viva de como o grande general havia se deixado amolecer.
O ar ao redor de Sesshoumaru esfriou instantaneamente.
— Proteger? — A resposta veio sem hesitação, carregada de uma soberba inabalável. Sesshoumaru ergueu o queixo, encarando o pai do alto do seu orgulho. — Eu sou Sesshoumaru. Não preciso de ninguém para proteger. A força existe para subjugar e dominar.
O Inu no Taisho fechou os olhos por um breve instante. Não havia raiva em suas feições. Apenas uma silenciosa resignação.
— Vejo que você ainda não entende…
Ao dar o primeiro passo, o ar ruiu. Uma luz prateada e incandescente emanou do peito do general, expandindo-se em um facho colossal que engoliu sua figura humanoide e evaporou a neve ao redor.
A luz cresceu e se moldou no ar. Quando o clarão cedeu, deu lugar ao lendário Cão Gigante do Oeste em toda a sua glória e imponência. A pelagem branca e densa ondulava com o vento congelante, marcada pelo vermelho-escuro do sangue fresco que escorria das feridas abertas contra Ryūkotsusei — uma ferida mortal que não apagava a majestade da criatura, mas destacava o brilho vivo e incandescente de seus olhos vermelhos, queimando como brasas sob a neve.
Ah-Un encolheu os pescoços, o peito vibrando em pavor e reverência diante daquela manifestação pura e trágica de yoki.
O grande cão soltou um rugido grave que fez a montanha tremer e saltou sobre as árvores, cortando a tempestade como um cometa prateado em direção ao feudo humano.
Sesshoumaru não se virou. Não tentou impedi-lo.
Permaneceu parado no meio da estrada, imóvel sob a neve que caía, até que a figura do pai desaparecesse entre as nuvens.
Ah-Un aproximou-se devagar e encostou uma das cabeças em suas costas.
Sesshoumaru não reagiu.
Horas se passaram. No horizonte distante, em direção ao feudo humano, uma luz avermelhada cortava a escuridão. Não era o amanhecer. Era o fogo de uma mansão em chamas.
E então, aconteceu.
Não houve som. Não houve estrondo.
Mas o ar simplesmente mudou. A presença que sempre preenchera o território do Oeste — tão familiar quanto o cheiro das florestas e das montanhas — simplesmente desapareceu.
Ah-Un soltou um uivo baixo e doloroso. As duas cabeças ergueram-se para o céu escuro, a dor da perda reverberando no peito do dragão.
Enquanto Ah-Un gemia pela perda do grande general, Sesshoumaru não se mexeu.
O vento açoitava seus cabelos prateados e a neve começava a encharcar suas vestes, mas o jovem inu-yokai continuava de pé, rígido e em absoluto silêncio. Seu olhar dourado refletia as chamas distantes sem demonstrar qualquer oscilação — uma presença fria e inabalável que cortava a tempestade.
Mas o cheiro do ar trazia a confirmação do que ocorrera naquela mansão: o cheiro de fumaça, de sangue e... o cheiro inconfundível de um recém-nascido. Um meio-demônio.
Uma criança nascida da escolha que, aos olhos de Sesshoumaru, havia levado seu pai à morte.
— Ele escolheu — murmurou Sesshoumaru para o silêncio da noite. A voz era tão baixa que só o dragão conseguiu ouvir. — Escolheu a fraqueza.
Lentamente, ele girou nos calcanhares e deu as costas para o incêndio e para as escolhas do pai. Era uma despedida sem palavras, um ato de absoluto desdém pelo caminho que o velho general havia trilhado.
Ele começou a caminhar para a escuridão na direção oposta, sem olhar para trás.
Ah-Un baixou os pescoços por um breve instante, soltando um suspiro, antes de dar os primeiros passos pesados para acompanhar a marcha silenciosa do novo senhor do Oeste.
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