Notas iniciais
Bem, essa é a minha primeira história no site entrei aqui faz uns quinze (?) minutos. Espero que gostem X)

Era uma garotinha de dez anos que saía da escola. Mochila um pouco gasta e pesada nas costas, cabelo preto bagunçado, calça folgada com um rasgo no joelho, mostrando todas as cicatrizes que ela recebera em pega-pegas e esconde-escondes por aí.

Ela andava distraída, o que era normal. Seus olhos âmbar olham para o céu esperando encontrar formas engraçadas nas nuvens; sua pele sentia a brisa fresca; seus ouvidos ouviam o assovio do vento. Atravessar uma pista, virar uma esquina... aquele bairro era tranquilo. Sua casa não ficava longe da escola, a vizinhança era calma, todos se conheciam, e por isso seus pais não tiveram problema em deixá-la voltar para casa sozinha a partir dos oito. Isso e o fato de que os dois eram muitíssimo ocupados e estavam com problemas financeiros o suficiente para não poderem bancar uma empregada doméstica ou algum ônibus escolar.

Passando por baixo do viaduto, a garotinha viu uma casa em estilo colonial, com uma cor que há muitos anos devia ter sido azul claro. Ela estava quebrada e suja, fitas mandando as pessoas se afastarem estavam em toda a fachada. Os vidros estavam quebrados ou rachados, as cortinas visíveis estavam sujas e encardidas, com rasgões imensos em toda a sua extensão. A garotinha parou na frente da casa. Algo naquela construção sempre a tinha atraído, a tinha chamado, como se ela devesse entrar ali e dar uma espiadinha. Aquele tinha sido seu último dia de aulas, e ela só passaria naquele local novamente no ano seguinte. Que mal poderia fazer? Era uma casa suja, pobre e feia, mas estava vazia e não ofereceriam risco nenhum. Apesar da pouca idade, foi tomada por um ímpeto de coragem e adentrou na casa a qual até adultos pareciam evitar.

Ela passou a faixa por cima da cabeça e pulo a que batia em sua canela. A casa era escura, o papel de parede manchado de... sangue? Havia vários porta-retratos no chão, fotos rasgadas e marcas de garras; mesas reviradas, o sofá mofado e quebrado, e uma cadeira sabe-se lá como pendurada no lustre. Tudo estava com um cheiro horrível de mofo e poeira, e haviam marcas de sangue no chão que subiam por uma escada até o primeiro andar. A garotinha decidiu que teria que levar sua aventura até o fim, então colocou sua pequena mão sobre o estragado corrimão de madeira e começou a subir.

Os degraus rangendo sob seus pés.

O vento fazendo balanças as cortinas do andar superior enquanto assoviava fantasmagoricamente.

Uma janela que começou a bater.

Até ela começar a ouvir a primeira voz.

Olhou em volta: ninguém. Tudo estava no lugar. Nada havia sido mexido ou tocado. Olhou para cima e constatou que não havia nenhum movimento, som novo ou vulto. Só havia ela ali. Então ela subiu mais três degraus.

Escute, Charles. As coisas não funcionam assim. Elas não podem funcionar assim. Você não entende? Nem tudo pode ser do jeito que você quer. Aceite isso.

Seu coração começou a bater mais rápido. Ela subiu mais alguns degraus.

Lorena, se eu quisesse sua opinião, eu a pediria. Agora escolha: está comigo ou contra mim?

Charles, eu não posso fazer isso.

É uma pena, Lorena. De verdade.

O suor brotava de seu rosto e suas mãos. A garotinha respirou fundo e começou a subir mais alguns degraus e notou marcas de garras gigantes nas paredes, o sangue espirrado no chão e no teto, como se simplesmente estivessem espirrando-o por aí.

Peguem-na.

Charles, não, por favor! Eu imploro! Pelo nosso...

E gritos lancinantes, sons de carne sendo cortada, arrancada e jogada, um choro baixinho ao fundo. A garotinha tinha os olhos marejados quando chegou ao topo da escada, podendo ver um esqueleto arranhado com o crânio quebrado espalhado por todo o andar. A ânsia de vômito e o enjoo a dominaram, junto com as lágrimas que caiam como se seu rosto tivesse duas enormes cachoeiras. Ela deu um passo para trás.

Mas ela estava numa escada. Sua mão se soltou do corrimão e ela rolou escada abaixo, ralando os braços, batendo a cabeça, chorando de dor e terror enquanto a tontura e o enjoo ficavam piores e piores. Chegando ao térreo, enxugou o rosto do melhor jeito que pôde com a barra da camiseta e começou a correr para a saída, até perceber que havia torcido o tornozelo. Os gritos ficavam maiores, o barulho dos monstros e das garras quebrando toda aquela casa, enquanto ela saia mancando enquanto reclamava consigo mesma pela estúpida ideia de ter entrado ali e por não ter tido sucesso em parar de chorar. Ela passou pelas faixas mais uma vez, a for em seu tornozelo começando a ficar insuportável de tanto que ela tentava ir mais e mais rápido, até que ela caiu e começou a chorar, abraçando os seus joelhos enquanto deitada no chão. Ela abriu os olhos ao ouvir um som, e consegui ver dois sapatos sociais pretos que acabavam de entrar em seu campo de visão. O homem se abaixou.

Seus cabelos louros e seus olhos muito pretos apareceram. Cameron Beaumont, o diretor da escola onde a garotinha estudava. Ela olhou para ele, assustada, mas ele se limitou a perguntar:

— Onde você esteve?

— Na casa abandonada azul... eu sei que não devia estar lá, mas...

— Por que seu tornozelo está torcido e você está chorando?

A pequena começou a pensar se deveria dizer a verdade ou não. Poderia ser levada como louca. Entretanto, ele mesmo poderia subir e ver os ossos no andar superior, então ela decidiu arriscar.

— Entrei na casa e ouvi vozes. Gritos. Coisas matando... coisas. E tinha um esqueleto no andar de cima. Eu escutei tudo como se tivesse estado na hora. Foi... — ela começou a soluçar. — Tão, tão assustador...

Os olhos do diretor se arregalaram. Ela o ouviu xingar enquanto ele a colocava nos braços, tendo cuidado com seu tornozelo machucado e começando a correr com ela no colo. A garotinha achava tudo isso muito estranho, mas se aninhou em seu peito e continuou chorando baixinho enquanto ouvia o diretor falar sozinho.

— Eu preciso de ajuda. Sério, apareçam. Agora! Eu a achei, mas não vai demorar muito tempo até que a achem também. É essencial que a gente a proteja, entenderam?

Ele entrou com ela no colo em uma loja de ferramentas sabe-se lá a quantas quadras de distância. Para um diretor de escola, ele era incrivelmente rápido, forte e resistente. Sem falar com nenhum funcionário, ele foi até os fundos da loja e arrombou a porta com um chute, o que fez a menina dar um gritinho. Ele entrou brutamente no novo cômodo que era, na verdade, um elevador. Ele colocou sua testa em algum metal esquisito e uma luzinha saiu, apontando para seus olhos. Uma luz verde se acendeu e ele voltou à posição normal.

— Último andar.

E o elevador descia rápido. A garota já tinha parado de chorar, e agora olhava aterrorizada as paredes de metal enquanto se sentia baixar. O elevador para de súbito, fazendo o diretor se desequilibrar e bater na parede. Ele xinga alto, e os dois ouvem uma explosão. Os olhos da menina se arregalam e ela sente a boca tremer, enquanto o diretor passava a mão nos cabelos loiros pensando no que fazer. Ele olha um pequeno painel que dizia "Sub-3", e aparentemente decidido quanto ao que fazer, ele solta a garota e a deixa encostada na parede enquanto tenta forçar a porta a se abrir.

— Me escute com atenção. Só temos uma chance — ele dizia, fazendo uma força enorme. — Eles ferraram com esse elevador. Eu vou abrir a porta. Quero que você saia e entre na primeira porta aberta que encontrar enquanto eu resolvo isso. Fique quieta e calada até alguém aparecer para te buscar.

— Quem são eles? E como eu sei que eles são bonzinhos?

Uma explosão maior. O diretor trinca os dentes.

— Não posso explicar. Mas eles são bonzinhos se falarem de mim para você — ele fez mais força. -Se prepare para ir. Não se mexa, só saia quando vierem te buscar. Tome cuidado, criança.

A garotinha acenou com a cabeça, trêmula, enquanto o diretor gritava e fazia mais força para abrir a porta. A veia em sua cabeça latejava, e a menina se abaixou ao lado dele, até que a abertura foi o suficiente para que ela passasse engatinhando o mais rápido que pôde. Assim que passou, ela olhou para o diretor.

— Cuidado, criança.

E ele soltou as portas, que se soltaram com um barulho. Agora ela ouvia o som de tiros. Se levantou rápido e começou a mancar pelo largo corredor. Haviam quatro portas. A primeira estava trancada, e a segunda também. Mais uma explosão. O tornozelo doía, e ela girou a maçaneta da terceira porta. Ao ouvir o familiar som de porta abrindo, ela adentrou na sala escura sem pensar duas vezes, fechando a porta e se encostando nela, como se a porta pudesse protege-la de todo o mal que estivesse lá fora.

No fundo da sala, ela conseguiu enxergar, havia um homem. Estava ajoelhado. Parecia estar amarrado ou coisa do tipo. Ela encostou o ombro na parede e deu um passo manco na direção dele.

— Quem é você?

Sem resposta. A garotinha deu mais um passo, respirando pesadamente, os olhos fixos na sombra à frente. Ela respirou fundo, prendeu o ar e o soltou, como seus pais haviam a ensinado a fazer quando estivesse com medo.

— Fale comigo, por favor.

Então ela ouviu um grito, um urro apavorante e lancinante dentro de sua mente, que a fez gritar também. O grito parecia ecoar em seu cérebro, e de alguma maneira, ela sabia que estava restrito ao seu interior, não exterior. Ele estava gritando nela. Como um copo de cristal quebrando com uma nota muito aguda, seus olhos reviraram e ela caiu, sua mente se unindo à escuridão da sala fria.

Notas finais
Obrigada por lerem!
Se puderem, comentem o que acharam. Sejam elogios, críticas (o mais construtivas possíveis, por favorzinho) ou qualquer coisa que me ajude a saber o que estou fazendo certo e errado. O feedback de vocês é importante e ajuda bastante. ♥