Lauren Page e o Mundo Subterrâneo
3 Capítulo 02: Acordei desmemoriada num lugar desconhecido... de novo.
Notas iniciais
Não me perguntem por que eu ficava desmaiando num canto e acordando lá na boba da peste, porque eu não sei. Ainda estava tudo escuro, mas eu ouvia alguns sons distantes. Parecia uma conversa, mas com uma voz só. Provavelmente algum maluco falando sozinho. Minha cabeça latejava, minhas costas ainda doíam e eu me sentia estupidamente fraca. Decidi abrir os olhos e a luz ofendeu minha retina como um tapa na cara. Tudo naquela sala era branco. A cama em que eu estava deitada, os lençóis, as paredes, o teto de gesso, o piso de porcelanato e a mesinha do lado da cama. Esperei meus olhos se acostumarem melhor à luz e tentei me sentar. Péssima ideia, doía como se eu tivesse levado várias porradas no estômago (eu realmente levei, mas tudo bem). Como eu não sou o tipo de pessoa que aprende com o primeiro erro, sempre aprendo do segundo para frente, resolvi que me levantar seria uma ótima ideia. Bem burro, eu sei, concordo com você, mas escute, eu estava com uma ressaca de paulada, ok? Eu só queria saber que porra estava acontecendo. Mas meus joelhos pareciam feitos de geleia, e eu me vi em pé por um pequeno momento, com uma calça e uma camiseta folgada de algodão (adivinha a cor? Exato. Branco!), e antes que eu pudesse até mesmo olhar para o outro lado, me senti caindo. Mas dessa vez, tinha alguém para me segurar.
Havia essa moça lá. Ela colocou seus braços debaixo das minhas axilas bem em tempo de evitar que eu me quebrasse ainda mais. Ela vestia uma blusa de botões branca, com um suéter azul claro e calça skinny cáqui, com um jaleco branco que ia até o meio da coxa. Pelo jeito que ela me segurou, meus olhos pararam em frente do bolso do jaleco em seu peito, que dizia "dra. Fernandez". Isso explicava o jaleco. Dra. Fernandez me deu um sorrisinho compassivo antes de me colocar de volta na cama.
—Tome um pouco de cuidado, mocinha. Você podia ter se machucado feio.
A voz dela era bem gentil e um pouco grave. Seus olhos negros brilhavam através dos óculos estilo secretária. Ela era absolutamente linda.
— Obrigada, eu acho — admito que eu fiquei meio hipnotizada na hora. Ela era bonita e gentil, parecia inteligente, não pude não me distrair. — Bem, já que a senhora... doutora Fernandez, foi tão gentil comigo, poderia fazer a gentileza de me dizer onde caralhos eu me meti?
Ela pareceu assustada. Eu tentei imitar o sorriso compassivo dela, mas saiu um Coringa sem mostrar os dentes e de olhos esbugalhados.
— Desculpe, foi só um dia cheio. Escute, doutora, eu não faço a mínima ideia de onde estou, ok? Eu exijo respostas. Quero saber por que merda me trouxeram aqui, quem eu sou e onde é aqui, e todo o resto que eu tiver para saber. Não é exatamente hospitaleiro sequestrar os convidados e dopá-los, sabe?
— Tivemos que dopá-la, srta. Page. A senhorita tem uma resistência muito forte a remédios comuns e digamos que sua situação ao chegar aqui não era das melhores. Mas não se preocupe, eu chamarei o diretor e ele vai explicar a você tudo o que tem para explicar.
— Page? — Eu testava a palavra na minha boca, como se esperasse um gosto familiar ou coisa do tipo. — Esse é meu sobrenome?
— Sim. Lauren Page, provavelmente 19 anos. Eu não tenho muitas informações. Para falar a verdade, ninguém tem notícias ou informações suas há 9 anos. O diretor foi o único de nós que a conheceu antes do seu desaparecimento, então ele é o melhor para explicar toda a situação.
— Espera, não o chame ainda! — A doutora me olhou um pouco surpresa, como se aquela fosse a coisa mais sem noção que ela tinha ouvido nos últimos dias. — Por favor. Eu quero... quero... ai...
Fui atingida por uma dor de cabeça imensa. Parecia que meu cérebro ia explodir em milhões de pedacinhos de cerebrozinhos e fazer um cabum tão grande para levar tudo abaixo junto com a minha sanidade. Me lembrei de estar subindo escadas ouvindo vozes. E descer ouvindo vozes. E correr pela rua e encontrar esse homem. Alto, branco do cabelo loiro liso e olhos muito negros. Lembrei de ele me levar no colo a um elevador e me mandar entrar numa sala, onde aquela criatura de não sei onde começou a gritar na minha cabeça e eu... eu...
— O diretor Beaumont? O que porra aquele filho da puta... vocês! Vocês me fizeram esquecer toda essa merda, não fizeram? Vocês estão com os ninjas!
— Calma, srta. Page, não queremos machucá-la. E não sei de que ninjas você está falando.
— Havia ninjas e você sabe que sim — nesse ponto, eu comecei a gritar como uma lunática que errou a esquina do hospício e acabou chegando na casa de sequestradores mafiosos. — Por que não me contam que merda está rolando aqui, porra?
— Srta. Page, se acalme. Só o diretor Beaumont vai poder explicar isso, e eu preciso chamá-lo, e só posso chamá-lo se tiver certeza que você vai ficar calma — ela sentou na cama e apertou minha mão que estava ao lado do meu corpo. — Lauren, por favor. Eu sei que você consegue. Quer fazer exercícios de respiração?
Ela tinha sardas no nariz e bochechas. Sua roupa estava toda amassada, sua blusa estava abotoada errado, o que permitiu a mim ver que ela tinha sardas no colo também. Seu cabelo preto estava todo bagunçado no rabo de cavalo, e ela tinha gigantes olheiras abaixo dos olhos. Ok, eu olhava muito para ela, mas eu sou humana, droga! Ela era atraente, sim.
— Não, não quero. Só quero saber onde estou, quem sou e por que estou aqui. E quem são vocês também.
— Tudo bem, apenas espere...
A porta se abriu. Um homem alto apareceu: branco, loiro e dos olhos pretos. O cabelo liso estava penteado para trás, e parecia que ele tinha tomado banho de gel, pois não tinha um fio sequer para cima. Depois de tanto tempo, ali estava o diretor Beaumont.
— Quando me falaram que tinham te encontrado, eu não acreditei. Mas aqui está você. Nove anos depois. Eu sequer achava que você estava viva.
— Eu também não sei como fiquei viva também não. Perdi nove anos da minha vida, e mal lembro dos outros dez. São dez? O senhor me colocou naquela bagunça, o senhor me mandou entrar naquele lugar e agora eu nem lembro meu nome!
— É Lauren Page — ele diz. — Posso anotar, se você quiser.
Eu olhei para ele como se estivesse me segurando para não dar uma voadora nele, e de fato, eu estava. Meus dez anos de vida eram confusos e eu não lembrava de muito, e não lembrava do diretor, mas tinha quase certeza que ele não era tão chato quanto agora.
— Você tem dezenove anos. Você sumiu nove anos atrás naquele incidente. Depois de eu ter resolvido as questões com quem queria te levar embora, eu te procurei por toda parte do prédio e fora dele, em todos os andares, mas você não estava em lugar algum. Chamei reforços, anunciamos e até imprimimos folhetos e nada. Procuramos seus pais, mas eles tinham desaparecido também.
— Meus pais? Quem eles são? Como eles são?
— Bem... — o diretor e a doutora trocaram um olhar rápido. Ela se afastou o suficiente para não ouvir a conversa. — Não conheci bem os seus pais. Eles não pagavam mensalidade, já que você era bolsista, e nunca apareciam nas reuniões de pais e mestres. Era difícil manter contato com eles, e nós também não os encontramos nesses nove anos. Seus nomes eram Tim Page e Laura Torres.
— Entendo...
E eu fiquei lá, pensando. Pensando por que não tinha sentido falta deles de primeira. Tudo estava confuso, e nas minhas memórias, eles não estavam. Haviam flashes, mas pareciam uma gravação de uma câmera velha e com uma qualidade de imagem e áudio horríveis.
— Por que estou aqui?
Ele me olhou profundamente antes de responder.
— Existe um parasita chamado Téras. O batizamos assim, mas não sabemos o que é ainda. Pode ser vírus, bactéria ou até um verme. Sequer sabemos se é um parasita, isso é apenas especulação, é a teoria mais aceita. Enfim, há nove anos atrás, um pouco depois de você sumir, o primeiro terian apareceu. Terian é o nome que damos a toda criatura contaminada com o Téras. Esse parasita, ou seja lá o que for, causa alguns sintomas... incomuns, eu diria. A pessoa, ou o animal, contaminado passa a apresentar alguns comportamentos estranhos. Isolamento, dificuldade para dormir, dificuldade para comer, e por aí vai. Depois de um tempo, ela é abalada por uma fome por carne humana. Depois de ela conseguir certa quantidade de carne, não tem mais volta. Ela se transforma num monstro que não é capaz de se comunicar ou pensar racionalmente, mas que só consegue comer e destruir. Eles parecem sentir algum prazer destruindo as coisas, é estranho. O sangue deles vira ácido, e só de encostar na sua pele já pode queimá-la, e até derretê-la, dependendo da quantidade. Isso e o fato de que eles costumam se autodestruir quando morrem dificultam bastante nossos estudos para achar uma cura.
Eu tentava digerir a informação. Afundei minha cabeça mais no travesseiro e fiquei olhando para o teto. O mundo tinha mudado. Coisas tinham surgido. Coisas que eu não entendia, mas que estava decidida a ver, de um jeito ou de outro.
— E onde eu entro nisso?
O diretor passou a mão no cabelo e deu um suspiro sonoro. Parecia cansado. Eu sentia seu cansaço, como se essa sensação irradiasse dele e chegasse até mim, do mesmo jeito que eu sentia uma aura cansada, solitária e cheia de dúvidas vindo da doutora.
— Lauren, há nove anos atrás você desapareceu. Um pouco depois disso, essas criaturas surgiram. Nós, e quando digo nós, quero dizer a organização, fizemos uma lista de crianças que teriam possibilidade de serem... especiais. Algumas eram, algumas não. Achamos crianças incrivelmente rápidas, crianças que podiam escalar prédios e crianças que podiam montar robôs e armas gigantes sem ajuda. Mas você foi a mais especial de todas. Como suspeitávamos de você, eu fiquei por perto, te monitorando e te protegendo. Quando você entrou naquela casa e disse que ouviu coisas, eu tive certeza. Você conseguiu ouvir coisas que aconteceram há muito tempo. Você fez uma viagem psíquica no tempo ou algo assim. Lauren, isso é impressionante. Isso é impossível. Algo nessa sua capacidade extraordinária possivelmente foi a chave para que as coisas chegassem onde chegaram. Só quando eles conseguiram você, puderam fazer essas experiências e transformações malucas. Você pode ter sido a chave para começar tudo isso, e agora queremos que você seja a chave para acabar com tudo isso também.
Eu fiquei em silêncio. Definitivamente, era muita informação de uma vez. Eu estava com a cabeça a mil, mal conseguia raciocinar direito e digerir todos os conhecimentos do mundo atual. Me sentia exausta.
— E o que você quer de mim? — Perguntei um pouco mais fraca. Eu me sentia mais fraca só em ter recebido as informações, apesar de nem as ter entendido direito. Precisava pensar calmamente nelas para poder me preocupar com seja lá o que fosse.
— Quero que você trabalhe para nós. Quero que coopere conosco para salvar a humanidade. Quero que nos ajude, que seja nosso trunfo contra todos aqueles que querem acabar com o nosso mundo.
— E quem são eles?
— Não sabemos. Não têm nomes. Mas são muitos. São inúmeros. E precisamos de você.
Com isso, ele foi embora. O filho da peste jogou esse Everest de informações bombásticas em cima de mim e se mandou. Filho da puta! Podia me oferecer um chá, ou perguntar como eu estava me sentindo ou coisa parecida. Que cara chato. A doutora se aproximou mais uma vez.
— Muita informação de uma vez, né? O diretor tem essa péssima mania. Joga a bomba e depois corre. Não está tão ruim quanto parece. Quero dizer, está ruim, mas ele é pessimista demais. Vamos dar um jeito. Você está bem?
Eu acenei fracamente. Ainda estava meio assustada.
— Qualquer coisa, peça para que a levem no laboratório I. Ou melhor, peça para que me chamem, não é bom você sair andando agora. Descanse um tempo primeiro.
— Eu não quero ficar sozinha.
— Desculpe?
Eu odeio, odeio, odeio ter que pedir esse tipo de coisa. Parece fraco. Parece idiota e frágil. Parece algo tipo "príncipe encantado, eu estou com medo daquela barata, por favor, me salve! ". Eu não sou esse tipo de garota. Principalmente porque, num conto de fadas, eu estaria flertando com a princesa e dizendo que ela podia entrar e sair na torre quando quisesse e sem esperar por ninguém. Mas, às vezes, até eu desço do alto da minha torrezinha de orgulho e peço ajuda. Pedir ajuda é importante, crianças, principalmente quando você está um pouco em choque por ter perdido a memória, esquecido a vida inteira, ter sido perseguida por ninjas coloridos e parado no fim do mundo. Caso vocês estejam nessa situação, peçam ajuda.
— Eu não quero ficar sozinha.
Ela parou e me avaliou. Eu sentia as emoções dela: Solidariedade, empatia e um pouco de... reconhecimento? Algo me dizia que ela não queria ficar sozinha tanto quanto eu, então não foi uma surpresa tão grande quando ela disse:
— Tudo bem. Só me deixe pegar o trabalho no laboratório. Eu fico aqui a noite inteira, para o caso de você acordar ou ter algum pesadelo. Não precisa se preocupar, e eu vou ser rápida buscando o material. Ok?
— Ok. — Eu ainda me sentia estúpida por parecer tão fraca, mas pelo menos a doutora não estava me julgando. Meu medo era maior que o meu orgulho.
E quando aquela porta branca e pesada fechou atrás dela, eu fechei meus olhos e fui para debaixo do cobertor, pensando em todas as perguntas que eu ainda ansiava por resposta.
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