Laura

14 Wires


Notas iniciais
Haviam marcas em Laura que nem mesmo sua regeneração fazia parar de doer.

Yougotwires going in

Yougotwirescoming out ofyour skin

Yougottears making tracks

I gottearsthat are scared of the facts

•

ANTES,

Transigen.

“– Vamos iniciar... pegue o bisturi e...”

“– Doutor? É preciso abrir os ossos dela...”

“– Vejam, ela está acordando.”

“— Muito cedo. Apaga ela.”

“– X-23! X-23, pode fazer uma contagem?”

Contar era fácil.

“– Uno... dos... tres... cuatro... cinco...”

Respirar? Viver? Aí já era mais difícil.

A cirurgia seria longa, eles disseram, mas sem dor. Laura não era boba, ela sabia que a anestesia não era por preocupação... era para derruba-la.

Quando acordou horas depois, os sinais da mais recente experiência tinham sumido de seu corpo. As cicatrizes sempre sumiam, deixando para atrás apenas o gosto de sangue; gosto de traição; insanidade; horror. A idade não parecia significar alguma coisa para eles... droga, talvez eles estivessem certos, talvez não significasse...

As garras agora eram de um metal chamado adamantium.

Uma cirurgia sem dor enquanto a dissecavam como um animal, implantando em seus ossos o veneno que em alguns anos — ou muitos —, a mataria.

“– Laura. Laura que estás haciendo?”

Ou talvez não.

Ela ignorou o tom aflito de Gabriela e arriscou o metal contra sua pele mais uma vez, o tempo do sangue escorrer o suficiente para o corte se fechar, como se nunca estivesse ali.

Era o que a fazia uma cobaia perfeita; uma regeneração sem defeitos.

Então por que ainda doía?

AGORA,

Instituto Xavier.

Era estranho poder dormir novamente.

Nos braços de seu pai, Laura estava em paz pela primeira vez em muito tempo. Era quente e seguro e... Éden; não uma cabana, não um acampamento, e não o Instituto. Éden era estar com seu pai, onde nada mais importava.

Ela poderia morrer ali mesmo.

Então essa é a sensação?

Mas como todo Éden que surgia em sua vida, acabou subitamente.

Laura se sentiu acordando – sua regeneração tinha cuidado de tudo–, e o ambiente era diferente, mais gelado, até mesmo as vozes soavam estranhas... ecoadas, clínicas, como se estivesse- não.

O cheiro de éter podia ser fraco, mas para uma mutante como Laura, era como se seu nariz queimasse.

Não, não, não.

Papai?

Ele não estava mais ali. Talvez nunca estivesse. Outro sonho, outra cópia... a cópia de uma cópia. Nada real.

Nunca real.

Ela estava de volta ao laboratório.

— ...e de acordo com o raio X está tudo em perfeita ordem, é inacreditável. Vou tirar algumas amostras de sangue pro Hank analisar. Podemos comparar com o seu-

A picada em seu braço foi o estopim de seu pânico.

Perigo.

Perigo!

Ela ergueu-se gritando em desafio, as garras atravessando seus punhos e sendo direcionadas ao primeiro alvo que encontrou. No susto, Laura não a reconheceu, as memórias sendo inundadas pelos experimentos e luta e gritos e sangue e Laura, pare de se cortar agora!

A cópia de uma cópia.

Nunca real. Nunca humana.

A mais perfeita arma,

X-23.

— EI, EI, EI, CALMA AÍ! – o corpo surgiu à sua frente, quebrando toda sua linha de raciocínio. – Abaixa as garras!

— Logan!

— Você não usa as suas e eu não uso as minhas.

— Logan! – a mulher repetiu, o afastando. – Ela só está assustada.

Laura piscou, o coração batendo forte em seu peito. Logan?

— Ela ia machucar você!

— Eu estou bem!

— Jean...

— Está tudo bem, olha pra ela. – a mulher o ultrapassou, mostrando as mãos livres para Laura – Ei... me desculpa, tá? Desculpa pela agulha, eu só queria ter certeza que você estava bem.

A garota franziu o cenho, as palavras sem sentido em sua cabeça. Aquele homem... era o seu pai... o que...

— Aqui, olha. Isso é seu? – tirou do casaco médico um cordão e o ergueu... espera, era a dog tag de seu pai! – É seu, né? Pode pegar, só... abaixa as garras tudo bem?

Laura abaixou a cabeça, percebendo que a mulher devia ter tirado a dog tag de seu pescoço enquanto estava desacordada, e não apenas isso, sua camisa estava cortada até a altura de seu peito, deixando sua pele a mostra; o sangue seco cobrindo todo seu corpo. Droga, os tiros...

O ataque, a realidade... aquele mundo novo... era real? Não mais vazio, real, de verdade, de carne e osso e seguro e... vivo.

Seu pai estava vivo ainda.

Aquele homem era o seu pai.

Logan.

Encarando-a com receio, tenso, como se pronto para rebater a um ataque.

— Oh. – Laura retraiu as garras. – Lo siento.

Seus olhos queimaram em vergonha. Céus, como pudera se deixar levar pelos instintos outra vez?Bem, eles nunca falharam...

— Tudo bem, meu nome é Jean. Eu te garanto que não está em perigo aqui.

Ah, eu duvido muito... a garota pensou consigo mesma olhando ao redor. Sentiu-se arrepiar tanto que se encolheu. Mesmo carregando um ‘X’ por todos os lados, laboratórios continuavam sendo laboratórios, cheios de utensílios de tortura que ela conhecia muito bem...

Como se soubesse o que se passava em sua mente, Jean voltou a dizer:

— Laboratórios não são legais, desculpa... só que seus amigos estavam preocupados com você.

— Meus amigos, aonde eles estão?! Estão bem?!

— Sim! Sim, estão seguros. Estão te esperando na verdade, eles estão comendo... você está com fome?

— Eu...

Laura abaixou a cabeça novamente, ela estava com fome? Ter comida de verdade novamente não era má ideia, e depois de tudo-

Depois... de tudo...

Ela ergueu os olhos, voltando a fitar Logan confusa, sem perceber que seu gesto era imitado com perfeição pelo mesmo.

— Aquilo que você fez por mim-

— Eu faria de novo. — Laura respondeu o interrompendo, sem hesitação. O olhar dele era sério e até um pouco reprovador, mas quando não era?

— Por que?

Ela aproximou-se, os passos moles, e o abraçou pela cintura. Logan não retribuiu, chocado demais.

— Porque você é o meu pai.

Ele está tão mais alto... o pensamento tolo voou por sua cabeça e a garota tremeu, fechando os olhos. As lágrimas escorreram e seu peito voltou a tremer, até mesmo sua face doía... e foram alguns segundos até notar que não estava apenas chorando,

Ela estava rindo.

Rir e chorar ao mesmo tempo? Que tipo de emoção era aquela? Era algo totalmente novo e complicado e, o que?! Não fazia sentido algum.

E ainda assim, ela poderia sentir aquilo todos os dias e não se importaria. Era real.

Então essa é a sensação?

— Ei... guria... – Logan a segurou pelos ombros, tentando afasta-la. – E-e-eu não sou seu pai.

Laura o ignorou, o abraçando mais forte.

— Jean? – ele olhou para a mulher, que franziu o cenho, seus poderes rondando a mente da garota.

— Ela... está feliz.

— Feliz, o que?

— Muito.

— Ela disse que eu sou o pai dela.

Jean sorriu, os olhos brilhando ao ser atingida por toda aquela onda de sentimentos que emanavam da criança.

— Eu acho que você é sim.

— O que?! – Um pouco indignado, Logan obteve sucesso em se afastar. – Eu acho que eu me lembraria se tivesse uma filha da sua idade. Quem é você? Pode ir se explicando e não me inventa histórias, ela pode ler a sua mente.

— Logan!

— De onde você veio? Como eu posso ser seu pai? Como você tem a mesma dog tag que eu?

Surpreendendo–o, Laura riu, sorrindo abertamente enquanto o observava, seus olhos brilhando e as bochechas rosadas, como se não tivesse estado à beira da morte uma hora atrás, como se a situação não fosse desconfortável o suficiente para Logan...

— E ela está sorrindo. Jean! – ele virou e rolou os olhos. – Ah ótimo, você também.

— Ela é adorável. — a ruiva se defendeu.

— Ela tentou matar você.

— Continua adorável.

— Jean!

— Ora, não seja tão duro, não lembra como nos conhecemos?

Logan não a respondeu, voltando a encarar a garota, que não desviava o olhar dele. O modo que ela derrubou aqueles soldados, tão parecida... não, não podia ser... ela estava sangrando em seus braços e agora estava bem... sua filha... isso era loucura... não podia ser real...

— Vai sobreviver, meu amigo. – uma voz ecoou pelo laboratório, fazendo todos virarem.

— Eu espero que tenha uma explicação pra isso, Chuck. A guria não abre a boca.

Pela primeira vez, o sorriso de Laura falhou.

Cadeira de rodas, careca, bem vestido, exatamente como em seus quadrinhos... e totalmente diferente do que Laura se lembrava.

Ele não era jovem, mas estava longe de ter a aparência de seu avô.

E ainda assim, bastava um olhar e ela poderia dizer com absoluta certeza de que era ele sim. Como isso era possível?

— Laura. – Charles Xavier a fitou, a voz suave. Abuelo. — Nós conversamos pelo telefone, querida, como está se sentindo?

Complicado, tão complicado...

NÃO!A imagem piscou diante de seus olhos e de repente ela estava na fazenda dos Munson novamente. Os fones no ouvido, os olhos sonolentos; Charles deitado na cama, próximo. Se ela tivesse prestado mais atenção... se ela tivesse sido mais rápida... talvez...

Ela fechou os olhos, mantendo as memórias trancadas. Não agora, por favor.

— Eu já ia chama-lo, Professor. Ela acordou um pouco agitada.

O homem não desviou o olhar da garota, a observando atentamente: — Sim, eu... Eu sei. E como ela está fisicamente?

— Com o que eu pude analisar, perfeita. Ela tem uma regeneração lenta, mas sem dúvida muito forte. Todos os órgãos perfurados se refizeram e melhores, mais saudáveis, é inacreditável. Como se o corpo dela já estivesse pronto pra qualquer coisa.

— Ela passou um tempão desacordada. — Logan murmurou.

— É, mas ela também parecia esgotada. – Jean respondeu e franziu o cenho. – Laura, há quanto tempo você não descansa? Laura?

— O que há com ela? Guria? Ei?

— Tudo bem Logan, me deixe tentar... – Charles ergueu a mão, fazendo o homem parar de se aproximar. – Laura?

Encolhida e abraçada ao próprio corpo, ela ergueu os olhos lacrimejados.

— Você está bem? — ele perguntou num murmuro e ela balançou a cabeça, mordendo os lábios. — Você quer me abraçar?

Ela assentiu, tímida, mas foi apenas Charles abrir os braços que Laura não se segurou, jogando-se contra ele em um abraço forte e soluçando alto. Mais silencioso, o Professor chorou junto, vivenciando em seu coração toda a culpa, angústia e felicidade que ela carregava. Sua mente era turva –como a dos outros viajantes –, mas os sentimentos eram tão fortes que ele não precisava usar os poderes para senti-los.

— Eu sei, minha querida... Eu senti quando você acordou. Eu sinto muito. — o telepata murmurava, acariciando os cabelos dela. — Sinto muito mesmo.

Os experimentos que haviam sido feitos naquela criança eram inadmissíveis. Ele precisou se conter muito para não dizer a Erik o que havia visto – o medo dela, junto de todos os flashes de agonia–, era nauseante e sabia que seu amigo não reagiria bem. Ele precisava de descanso, todos eles precisavam. Ódio e indignação não ajudaria no momento. Era hora de acolher e escutar.

— Me desculpa. – Laura soluçou. — A culpa... foi... minha.

— Não, claro que não, você nunca mereceu nada daquilo. Laura-

Eu não salvei você. Charles arregalou os olhos ao ouvir o pensamento forte e direcionado da garota.

Ela sabia como responde-lo... O mutante não entendeu porque a informação o deixou tão surpreso, obviamente ela o conhecia na outra realidade. Talvez ele mesmo tivesse a ensinado a direcionar seus pensamentos no outro mundo antes de... morrer.

Céus, mas é claro! Ele estava morto no mundo dela. A realização foi como um balde de água fria, congelado suas veias. O telepata ergueu os olhos, vendo Logan o observar intrigado. Ele também, Charles percebeu preocupado, quem mais estaria morto? Por que?

Beijou-lhe a cabeça e a segurou mais forte.

— Vovô... — Laura murmurou após um tempo, mais calma.

— Sim?

— Eu ‘tô suja.

Eles se afastaram e Charles sorriu triste, o contraste de suas mãos fazendo seu coração se apertar. As dela, tão pequenas; cheias de sangue seco.

— Temos algumas roupas separadas pra você e seus amigos, Jean pode te levar pra tomar um banho e se trocar, eles ficariam menos preocupados não acha?

Ela assentiu e Jean se aproximou, ajoelhando-se no chão, frente a frente com a garota.

— Aqui, isso é seu. – a entregou a dog tag que ela carregava. — Desculpa ter tirado, parece importante.

— É sim. — Laura respondeu, passando o dedo sobre o nome gravado com delicadeza. Logan. —É uma parte minha.

Houve um momento e Logan, que até o momento apenas os observava, perdeu a paciência e resolveu se afastar:

— Certo, eu preciso de uma cerveja.

— Logan, espere. — Jean pediu, mas ele não parou.

Laura arregalou os olhos, tentando segui-lo.

— Não querida, deixe. – Charles a segurou. – Ele precisa de um tempo.

— Mas-

— É tudo muito novo pra ele ainda.

Ela quis contraria-lo, correr atrás de seu pai, dizer que estava tudo bem, que eles ficariam juntos agora... exatamente como deveria ser. Pai e filha... e os dias que nunca vieram.

Então parou, percebendo pela primeira vez que, ele ainda não a conhecia... caramba, este Logan não a conhecia... não como ela o conhecia.

Charles era mais fácil, sempre foi, ele podia entrar na sua mente. Logan? Laura fechou os olhos, Logan era teimoso e ranzinza e idiota e se deixava levar pelos instintos burros que- droga, ela estava se descrevendo.

E ele só havia entrado na sua mente depois de morto.

Papai...

— Eu... Eu posso esperar.

Charles sorriu e Laura tentou imita-lo.

Estava tudo bem, certo? Não havia pressa, eles estavam seguros. Os X-men estavam vivos. Ela sobreviveu a mais um ataque dos Carniceiros. Seu avô inconscientemente ainda mantinha a promessa que fez na outra realidade, de ajuda-la. Seu pai estava ali... bem, ele havia acabado de sair, mas ela sabia como encontra-lo. Estava tudo bem, como deveria ser.

Então por que ainda doía?

•

I see it in your eyes

I see it in your eyes

You’llbe alright

Notas finais
Eu admito, eu me perdi um pouco no final KKKKKKKKKKK mas se eu não postasse o capítulo desse jeito, ele não ia sair nunca. Sorry pela demora guys :3 Este capítulo eu dedico aos meus novos amigos Otos Ordep e Giovanna, que quase me mataram do coração com aqueles comentários lindos e me deram a força que eu precisava, valeu meus amigos do Nyah! Agradeço também a piccolo fiore, e a @Vivi_MJ do Spirit que OMG, elogiou a playlist não creio! E claro, @jujumalfoy que por algum milagre ainda não desistiu de mim. Obrigada a todos os leitores fantasmas também ♥ Eu tava pesquisando sobre X-23: Inocência Perdida (é uma HQ que fala da vida da Laura, bem pesada) e gente! Ainda bem que eles "suavizaram" o background da Laura em LOGAN porque eu não ia aguentar aquilo tudo não, até parei. Mesmo assim, consegui fazer uma referência séria que, além de ser relacionada com essa música maravilhosa "Wires" do Athlete, para bons entendedores meia palavra basta. Ou esse vídeo, se preferirem: https://www.youtube.com/watch?v=Bzmg-RFmH34 Playlist de LAURA: https://www.youtube.com/playlist?list=PLRDqKW8M7-nFVTTtn4E-vvVPq4dypbePZ Atualização em duas semanas ou menos, prometo! :D