Isso aconteceu há muito, muito tempo atrás. Muito antes de toda essa baboseira de agente secreto, quando eu era só uma criança. Na verdade, eu era um pequeno marginal, então nem tente imaginar alguma coisa fofa. Sério. Enfim, eu andava pelas ruas como todo bom marginal. A única coisa que eu tinha era a pequena casa que meu pai deixou pra mim antes de me abandonar. Eu não tinha água nem eletricidade, e comia o que achava ou pegava dos outros. Mas naquele dia, eu não tinha voltado às ruas por comida. Eu era um predador, só esperando alguma vítima em potencial aparecer. 11 anos, essa era a minha idade.

Procurando alguém em quem descontar minha raiva do mundo, foi quando eu avistei um garoto mais ou menos da minha idade entrando em um beco. Ele vestia uma roupa toda arrumada e um sobretudo com um M nas costas que arrastava no chão por ser muito maior que ele.

- Perfeito.

Eu segui o garoto até lá, parando na entrada do beco para observar, porém quando olhei vi algo inesperado. O beco era bastante estreito e sujo, só tinham algumas caixas e pequenas barras de metal espalhadas pelo chão. Haviam mais quatro crianças com ele, porém todos eram mais velhos, mais altos e obviamente mais fortes. Eles faziam uma roda em torno do menino, empurrando ele de um pro outro enquanto falavam coisas nada bonitas.

- E aí americanozinho, por que não se transforma em state e nos devora?

- É seu monstro, vai fazer o que agora?

E todos riam enquanto o machucavam. Eu suspirei. Não havia nada para mim lá. Eu estava para dar meia volta, mas foi quando eu ouvi.

- Você não é nada! Você não merece viver! — Um dos garotos tacou o menino de sobretudo no chão e começou a chutá-lo. — Seu pedaço de lixo! Você nem deveria existir.

- Ei, você aí! — Gritei da entrada do beco. Assim que um deles se virou pra direção da minha voz, recebeu uma voadora no rosto caindo no chão imediatamente. Os outros ficaram sem ação por um instante, enquanto eu parava no meio da roda onde o garoto de sobretudo estava e olhava pra eles em fúria. — Tentem repetir que ele não devia existir mais uma vez.

Não deu outra. Os três me atacaram de uma vez, já que o quarto já estava nocauteado no chão. Um deles veio diretamente pela minha frente tentando me dar um soco. Eu segurei seu braço e o atirei para trás de mim, por sorte acertando outro deles que vinha pelas minhas costas. Os dois ficaram no chão por poucos segundos, tempo o bastante para eu levar um soco no rosto do garoto que sobrou, caindo de joelhos no chão. Eu olhei pra ele seriamente, percebendo que era o mesmo que chamou o menino de sobretudo de lixo.

- Você acha que isso é algum tipo de brincadeira, não acha?

Eu peguei uma das barras de ferro que estavam no chão. Era bem pequena, mas com certeza era o suficiente para matar alguém. O garoto se assustou. Ele era provavelmente um delinquente qualquer só se divertindo, não fazia ideia de que poderia chegar a tanto. Deu meia volta e tentou correr, mas eu lancei o pedaço de ferro nas pernas dele, fazendo-o cair com um berro de dor. Eu pulei em cima dele o segurando no chão pelo pescoço, enquanto usava uma das mãos para socar seu rosto sem cessar.

- Seu imbecil! Tente repetir aquilo novamente, só tente! — Eu o segurei pela gola e levantei até mim, o rosto dele não estava nada atraente. — Todos tem direito a uma escolha não é você que decide isso.

Por último, eu cuspi no rosto dele e o deixei no chão. Os supostos amigos dele nem sequer tentaram ajudá-lo, correndo assim que eu me levantei. Havia sangue nas minhas mãos. Por último, eu encarei o garoto de sobretudo. Ele ainda estava deitado no chão, olhando pra mim com medo. “Nada mais do que o esperado”, eu pensei. Porém quando eu me virei de costas, ouvi algo que nunca pensei que ouviria.

- E-eu sou Blake... — Olhei pra ele como quem não acreditava no que estava vendo. O olhar dele transmitia uma sinceridade que eu nunca havia visto em ninguém. — … Você quer ser meu amigo?

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Eu queria muito, muito mesmo te contar sobre o Festival. Como eu e Black usamos uma sacada genial, que obviamente eu inventei, para burlarmos o sorteio dos grupos. Eu poderia te contar como a professora ficou tacando pedaços de giz em nós dois por zuarmos a aula dela, poderia até te contar como o Black ficou vermelho ao perceber que Aya Tsuyameku estava no nosso grupo, ou mesmo sobre o olhar de ódio de Alida Van Haley em nossa direção quando ela descobriu que estava conosco. Porém, eu não poderia contar nada disso, sinceramente. Porque o que ocorreu naquele dia a partir do término das aulas ficou marcado na minha memória de uma maneira que todo o resto são só borrões.

As aulas acabaram, mas eu e Black permanecemos dentro da sala de aula enquanto eu tentava convencê-lo a tomar iniciativa com a Tsuyameku. Já íamos sair, quando a Lisa pediu que eu ficasse dentro de sala. A maioria diria que eu estava pra levar uma bronca mas eu sabia muito bem que o assunto ali era outro.

- Te vejo no inferno – Disse Black, como de costume.

- Só se ele for cheio de gatinhas! — E saiu. Uma voz irônica apesar de infantil já começou a falar assim que Black saiu da sala.

- Parece que seu último trabalho foi bem explosivo, Alonzo.

- Cala a boca Lisa, eu não preciso ouvir isso de uma criança.

- Eeei, isso é maldade comigo. Você sabe que eu não tenho essa aparência infantil porque quero.

- Na verdade eu estava falando da sua idade mental. — De forma quase imediata, Lisa atira um giz na minha direção, porém dessa vez eu o pego no ar a poucos centímetros do meu rosto. — Não precisa ser tão agressiva, eu estava só brincando.

- Que seja, só não seja tão malvado. Enfim, não te chamei aqui pra ficar atirando gizes em você.

- Que bom, porque sua mira é terrí... — Eu preferi não terminar ao perceber que ela me olhava com um tipo de aura assassina. — Continue.

- Bem, como eu ia dizendo, me ligaram da Organização. O senhor Van Haley precisa falar com você.

- Comigo? Mas o procedimento padrão é que eu só devo ir na Torre uma vez por semana para falar com ele.

- Pois é, mas acontece que ele precisa falar contigo. E “alguém” perdeu o celular num beco na última missão.

- Perdi? A culpa não foi minha. Aquele troço virou um casulo do nada.

- O que aliás me lembra, por que diabos você atirou num Imp daquela distância? Você sabe muito bem que esse tipo de state causa uma explosão se morto com as balas vermelhas.

- Bem... Eu fiquei temperamental.

- Pelo menos dê uma desculpa decente.

- Urgh.. Você me chamou aqui só pra isso, Lisa?

- Não. Eu te chamei aqui para algo sério.

Repentinamente, o clima mudou de uma forma muito brusca dentro da sala.

- Alonzo, você sabe por que eu estou na Organização não é?

- Sim... Por causa de sua doença, você ficará jovem para sempre porém teria morrido 10 anos atrás se não fossem os cientistas da Organização.

- Isso mesmo. E eles me mantém viva porque acham que o segredo da vida eterna pode estar nos meus genes. Mas você não precisa estar na Organização também.

- Não seja ridícula! Se eu sair, o Black vai...!

- E se eu te dissesse que há outra maneira?

- O quê?

- Uma guerra está para acontecer, Alonzo. Algumas pessoas estão nascendo com anticorpos como os seus, que as protegem do vírus state.

- …

- O problema é que algumas dessas pessoas também estão nascendo com o próprio vírus.

- O que você quer dizer?

- Graças a um cientista, elas estão se tornando capazes de controlar o vírus sem se tornarem em states, com o poder dos anticorpos. Imagine a força de um state na mão de um ser humano...

- A Organização está controlando states?! — Meus olhos se arregalavam, enquanto eu engolia seco.

- Não. Não é a Organização. A Organização está tentando erradicar essas pessoas, sem que a população da metrópole descubra. Por isso eu disse, uma guerra está para começar. Essa nova entidade que está se formando pretende subjugar a Organização se for preciso. É a sua chance de obter liberdade e proteção.

- Lisa... Não me diga que você... De que lado você está nessa guerra?

Ela não pôde responder. Não que ela não quisesse, mas algo nos interrompeu. Foi o som de um grande estrondo do lado de fora da escola. Eu corri até a janela e acabei por observar algo inacreditável. A três ou quatro salas de distância, uma garota... Aya Tsuyameku se debatia no chão, com metade do seu corpo dominada por uma rocha...

- Statenito? — Mais incrível que isso, uma parte da parede, com uma janela, estava presa no chão como se houvesse sido derrubada em linha reta.

Imediatamente peguei a arma dentro da minha mochila, colocando-a dentro da roupa e abri a janela da sala. Me segurei na borda da janela para diminuir o impacto do pulo e soltei, caindo no chão com um pouco de dificuldade. Não havia tempo a perder. Talvez tanto tempo na Organização houvesse me dado um instinto, mas eu tinha certeza de que algo ruim estava para acontecer. Eu ainda não havia pensado no que fazer, mas precisava chegar lá. Eu parei de correr por um instante, ao notar que um homem alto de jaleco simplesmente pulava do segundo andar com ninguém menos do que Alida Van Haley em seus braços. O homem chegou no chão, deixando Alida, que por algum motivo não se movia, no chão. Eu me movi instintivamente, tirando a arma de dentro da roupa pra mirar no homem, assim que noite que ele segurava também uma arma e mirava a mesma em Aya...Porém, eu não pude fazer nada. Ele nem mesmo me deu atenção. Com um sorriso macabro no rosto, o homem atirou em Aya com sua pistola um tipo de cápsula verde parecida com a minha bala azul. O que eu vi em seguida foi... Inacreditável em todos os sentidos.

- Não pode ser. Ela é só um monstro, não pode ser... — Disse Alida, tirando as palavras da minha boca. O que acontecia na minha frente ia contra tudo que a Metrópole acreditava. Tudo que o governo havia nos feito acreditar.

- Isso é...

- A cura. — Disse o homem de jaleco, terminando minha frase. Sim. Aya Tsuyameku perdia todas as escamas de statenito do seu corpo. Elas se dissolviam em pequenas faíscas de luz verde que desapareciam no ar, num festival de luzes tão lindo quanto a própria vida. Minhas pernas tremeram, tremeram tanto que eu fiquei de joelhos, sem nunca olhar para outro lugar. Meus olhos estavam hipnotizados. — Como?

Depois de tantos anos, tantos anos que todos já haviam até desistido de achar qualquer cura. Depois disso tudo, eu via uma pessoa sendo curada bem na minha frente? Não tem como. Ninguém nem mesmo sabia o que era o vírus state ainda. Mas mesmo assim, esse homem na minha frente tinha a própria cura? Porém, eu não tive tempo de pensar sobre isso.

- Eu não sei quem é você, mas você viu demais. — O homem alto e ruivo disse, apontando sua arma pra mim após colocar uma bala na mesma.

Rapidamente, rolei para trás do pedaço de parede com janela que estava fincado de cabeça para baixo no chão, desviando do primeiro tiro. Mesmo assim, eu ainda estava sob o impacto do que acabara de ver... Não havia nada que eu pudesse fazer. O homem deu mais um tiro, destruindo por completo tanto a parede quando a janela. Um dos pedaços da mesma penetrou meu corpo, enquanto que os demais pedaços e a explosão bateram contra mim me fazendo cair no chão sem poder me mover.

- E...Eu...

- Deite-se aí. Pelo menos aproveite seus últimos segundos, antes que sangre até morrer. — O homem falou, mas não de uma maneira amarga. Ele parecia estar sendo sincero. De qualquer forma, eu não podia fazer nada. E ele saiu, e eu não ouvi mais nada além dos passos dele se distanciando.

- Adeus... Black.

As feridas eram grandes demais. Nenhuma ambulância iria chegar lá tão rápido, mesmo se me encontrassem. Eu estava sozinho... Mas quer saber? O paraíso tem um cheiro bem melhor.