Perfeição. O que é perfeição? Pra mim, perfeição é exatamente o que o nosso mundo é agora. Meu nome é Alida Van Haley. Eu sou popular, linda e inteligente. Porém, não foi sempre assim. Há muito tempo, eu era só uma órfã lutando pra sobreviver. Uma peça perdida da sociedade. Porém, eu fui resgatada. Porque o mundo é perfeito. Porque o trabalho e esforço de alguém sempre serão recompensados. Nada neste mundo foge a esta regra suprema. Como uma amante da perfeição, eu odeio o que é imperfeito. Eu odeio a injustiça. Acima de tudo, eu odeio os states. Muitos anos atrás, um certo país foi atacado por um vírus estranho. Como resultado, toda sua população se transformou em um grupo de criaturas horrendas, poderosas e assustadoras. Os tiros eram refletidos contra suas peles resistentes, a radiação de 3 bombas nucleares não só foi inútil como também as deixou mais poderosas. Eu odeio esses seres, pois só é possível alcançar a perfeição se você possui a razão. Aquelas pessoas possuíam a razão, elas cometeram seus erros e cometeriam seus acertos, mas todo o processo foi interrompido a partir do momento em que elas se transformaram em states. Eu odeio os states quase tanto quanto odeio aquele garoto... Aquele tal de Blake Water. Eu o odeio agora, mas nem sempre o odiei. Na verdade, houve um tempo em que eu até me... Interessava por ele. Alguém que não perdeu a razão, mesmo tendo vindo de um lugar onde todos a perderam. O problema só veio depois. Meu ódio por ele só veio depois. Se eu tivesse que escolher um início pra história de meu ódio por Blake Water, então talvez tenha sido aquele dia nefasto. Ora essa, não há dúvida alguma! Com certeza foi lá que eu comecei a me envolver com o maldito poço de imperfeição que de fato é Blake Water.
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Era um dia como qualquer outro, talvez somente um pouco claro demais. Eu andava em direção a escola, acompanhada de um grupo de colegas. Eu digo colegas, pois elas não eram minhas amigas. Elas eram como parasitas que só andavam comigo por causa do meu dinheiro e popularidade. Isso é tudo. Mesmo assim, eu as deixava me acompanhar. Como castigo por ter tanto, acho que é justo que eu tenha de fingir ser algo que não sou. De fato, é justo.
- Garotas, vocês não vão acreditar! Alonzo Agnelli me convidou para sair! – Disse uma delas, com uma emoção que faria a maioria das pessoas sãs vomitarem.
- Não é grande coisa – Comentou uma das outras. -Ele convidou quase todas nós para sair.
- O que? Não acredito!
- Pois é amiga!
E rimos todas como se algo extremamente engraçado tivesse acontecido. Foi aí que aconteceu. Pode ser maldade dizer isso, mas que bom que aconteceu. A professora Russeau, nossa professora de história, atravessava uma rua movimentada, vindo em direção à calçada em que estávamos. Foi aí então que um carro que parecia vir do nada a acertou em cheio. Deixe-me explicar melhor: o carro não estava na rua. Ele não estava desgovernado. O motorista não havia cometido um erro. O carro, literalmente, veio do nada e a acertou. Não bastasse ele ter vindo do nada, o carro também havia vindo voando, girando no ar como se seu peso não importasse. Eu acho que ele estava em chamas quando acertou a professora, mas foi tudo muito rápido para notar. De qualquer forma, aquilo com certeza parou as risadas. Na verdade, ninguém falou nada por um bom tempo. Estavam todas paralisadas de medo. Se eu me movesse agora, perderia a imagem de garota rica e nobre, estaria sujando minhas mãos. O carro, após acertar a professora, não parou acima dela. Ele acertou o lado direito de seu corpo, mas continuou voando até bater contra a parede de metal de uma casa, no nosso lado da rua. Naquele momento, eu pensei: “Onde está a perfeição?”. Por que uma pessoa seria acertada por um carro ao puro acaso, sem que sequer tivesse faltado com atenção ao atravessar a rua ou cometido um erro para se machucar? Por que minha professora estava a alguns metros de distância de mim, em uma poça de sangue no chão e eu não podia sequer ajudá-la? Por quê? A resposta apareceu. Alguém havia chamado uma ambulância. Era possível ouvir a sirene, mas a ambulância não poderia passar por alguns escombros que por algum motivo bloqueavam a rua por onde ela vinha. A professora, por motivos óbvios, não poderia andar até a ambulância.
- Ela vai morrer. – Murmurei com os olhos arregalados. Toda a esperança havia sido perdida. Meu conceito de perfeição estava errado. Estaria errado, mas então...
- Rápido Alonzo! Aproveite que está aqui e tente mover aquela parede de metal que caiu no meio da rua! Eu pego a professora, rápido!
Um garoto se abaixava para pegar a professora que estava quase morta no meio da rua. Ele a carregou em seus braços sem hesitar por um instante. Ele a levou até a ambulância sem qualquer ajuda, a não ser de seu amigo que tentava abrir espaço para que ele o fizesse. Ele estava lá, pois se uma pessoa se machuca sem sentido, então haverá um herói para salvá-la. Seu nome era Blake Water, foi assim que tudo começou. Meu coração nunca bateu tão rápido...
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Plack! Era o som da mão da professora substituta batendo contra o rosto de Blake Water na sala de aula. Aparentemente ele se dirigiu a ela de forma muito pessoal após ser pego dormindo. Aquilo não mudava em nada meu conceito sobre ele, nem poderia. Blake Water era alguém diferente de tudo que nós conhecíamos. O que ele sofreu e o que ele passou só ele sabia. Ele também era o único além de mim que entendia a dor de ser um órfão, alguém que eu respeitava. Porém, o mundo é justo. O mundo não simplesmente me daria a oportunidade de falar com Blake só porque eu queria. Graças a minha popularidade, eu não poderia simplesmente ir até Blake e conversar com ele. Mas eu ainda precisava chamar sua atenção de alguma forma, então eu imaginei que, ao menos por enquanto, eu poderia ser sua inimiga. Até agora eu tratei Blake com desinteresse. Eu deveria continuar tratando-o com certo desprezo até que tivesse uma oportunidade melhor. Bem, pelo menos foi o que eu pensei. A realidade é que, ao menos naquela época, eu ainda não sabia o que o nome Blake Water realmente significava. Eu não poderia imaginar o que ele representaria na minha vida. Tenho que admitir: eu gostei de Blake Water, mas isso foi antes de ele se tornar o que é agora. Isso foi antes dele destruir toda a minha vida, antes que ele destruísse toda e qualquer perfeição sobre este mundo! Talvez este seja meu pagamento por ser tão ingênua. Talvez por isso eu deva morrer como a professora Russeau iria morrer naquele dia. Ouça bem, pois eu sou a poderosa Alida Van Haley, herdeira da família Van Haley. Estas são as minhas últimas memórias.
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