Laranja Azeda
64 Capítulo 64 –Os amores de Felix
Notas iniciais
Claro que tinha que chover, o que poderia deixar um enterro mais melancólico do que o frio e a chuva? Sempre é difícil perder alguém que amamos, mas para o pequeno Felix aquela perda era devastadora, seus pais lhe foram tirados num simples acidente de carro. Como a vida podia ser tão frágil? O garoto estava parado diante daqueles dois túmulos em silêncio, não estava sozinho, pois dezenas de familiares e amigos tinham ido se despedir de seus pais.
Felix não sabia o que fazer. Deveria chorar? Estava com vergonha de chorar na frente de todos, afinal sempre fora tímido, odiava ser o centro das atenções, e naquele enterro todos olhavam para ele, para o pobre órfão, aquela era uma palavra tão triste, órfão, quem a houve ou fala remete para uma criança sem pais, mas para o recém órfão significava muito mais que isso, aquela palavra roubara as pessoas que mais amava, roubara os sorrisos, os toques, abraços, cafés da manhã, tardes no parte, histórias antes de dormir, beliscão nas bochechas, as vozes... Deus! As vozes! Ele nunca mais ouviria a doce voz de sua mãe, nem a rouca de seu pai, tudo terminava ali.
Era isso que a palavra órfão significava, o roubo de todo seu amor. Seu lábio inferior tremeu, seus pais eram seu primeiro amor, eram seu “tudo”. Um buraco enorme foi aberto em seu peito, um vazio tão profundo que Felix teve medo de ser sugado, como se fosse implodir e desaparecer, talvez aquilo fosse o melhor a se fazer, desaparecer.
Então alguém segurou a sua mão, era um aperto quente e firme, parecia transmitir força, não um simples “meus pêsames”, mas uma força de verdade, como se mandasse energia de seu próprio coração para o dele. Felix olhou confuso para sua prima, a ruiva sempre fora louca, se metia em muita confusão, era meio burrinha e nunca calava a boca, entretanto naquele momento havia algo novo em seus olhos, não sabia que a doida conseguia assumir aquela feição, transmitir toda aquela compaixão pelo olhar. Felix olhou para baixo vendo suas mãos juntas, sua prima apertava sua mão com tanta força que as pontas de seus dedos estavam vermelhos.
–Felix, eu sinto muito.
Ela o abraçou, seu cheiro era tão bom, tão confortável, se é que um cheiro pode ser confortável, Felix ouviu o coração dela bater desesperado como se gritasse para o seu dizendo que tudo ficaria bem. A ruiva sempre fora de contar tudo para o pequeno, embora não entendesse muita coisa, adorava vê-la falando e gesticulando daquele jeito animado, ele gostava dela, mas foi naquele momento em que começou à ama-la, foi quando estava em pedaços, destruído, sem nem saber como agir que viu a verdadeira Santana, a garota amável e intensa que se esconde no meio de tanta maluquice.
Felix chorou, ouviu as pessoas exclamarem coisas como: “coitadinho, perder os pais tão novo”, aquilo o matava de vergonha, mas que se fode-se a timidez, aquele era um momento necessário. Ele chorou alto, um choro livre, deixou toda a dor sair do seu peito.
Quando acordou naquela manhã teve uma sensação estranha, não era um vidente como o Fabrício, mas sabia que algo muito ruim iria acontecer. Ele sentou-se e viu seus dois amores dormindo ao seu lado, dois? Seria mesmo possível amar duas pessoas ao mesmo tempo?
–San-ta-na –Cochichou Hector dormindo e Felix sorriu.
–Você não gostava dela e agora fala seu nome até dormindo, adoro ver como se tornaram amigos –Cupido chegou na porta.
–O médico, pai do Hector, pediu para dizer pra vocês dois encontra-lo na plantação de bananeira.
–Obrigado Cupido, vou acordar o Hector e já vou.
Os dois deixaram o Fabrício continuar dormindo e foram encontrar o Dr. Logan que por sua vez lhes contou que pretendia pedir Shania em casamento. Felix sentiu um aperto no peito, durante muito tempo tudo que desejava era poder ficar para sempre com o Hector, sentiu uma pontada de inveja e imaginou quando seria pedindo em casamento, no entanto tinha o Fafa. Os dois apertaram as mãos e se olharam sorrindo, um sem saber o turbilhão de pensamentos e incertezas que se passava na cabeça do outro. Aquele aperto de mão o fez se lembrar do enterro de seus pais, de como Santana apertou sua mão e de como sentiu o buraco em seu coração ser preenchido.
Eles desejaram felicidades ao Logan e seguiram em silêncio, Felix ficou tendo várias lembranças, ele era alguém de sorte, as pessoas sempre gostavam dele, na escola mesmo sendo tímido era um dos mais populares, todos sempre queriam ficar perto dele. Atualmente estava junto dos dois garotos que amava, entretanto os dois não se amavam entre si, o que era um problema, eles não eram um casal triplo, os dois só amavam tanto o Felix que preferiam ter que dividir seu amor do que perde-lo.
Entretanto aquilo não estava certo, nem o Hector, nem o Fabrício estavam felizes, Felix estava sendo egoísta em querer ter os dois? O correto seria escolher de vez com quem ficaria? Só que pensar em fazer um deles sofrer partia seu coração, o problema é que já estava fazendo isso.
–Hector.
–O que foi?
–Não sei, é essa história de casamento, sabe? Fiquei me sentindo estranho.
–Ai, ai –O loiro suspirou –Pra falar a verdade eu também fiquei –Ficaram um tempo em silêncio, esse tempo se prolongou até ficar desconfortável –Sabe, ao invés de voltar para cabana podemos caminhar por aí. A não ser que queira ir chamar o Fabrício.
–Tudo bem, podemos ir só nós dois.
Hector deu um largo sorriso, apertou sua mão e caminharam na direção oposta.
Perto das proximidades da tribo três jovens estavam num impasse, Tobias tinha que levar Anna para James, no entanto Fabrício se pusera em seu caminho.
–Nós estamos com pressa, pode nos dar licença? –Pediu Tobias.
–Para onde esta levando a Anna?
–Não é da sua conta?
–A partir do momento em que meu pai pretende sacrificar duas pessoas em nome do seu deus, passa a ser da minha conta –Tobias espantou-se deixando transparecer que se tratava exatamente daquilo.
–Que história é essa de sacrifício? –Anna quis saber. Tobias trincou os dentes com raiva, teria que dar um jeito naquele garoto intrometido, mesmo ele sendo filho do James.
–Só vou pedir mais uma vez, saia do nosso caminho.
–Não.
Tobias avançou pra cima dele, Fabrício desviou da primeira investida, ao invés de ataca-lo, aproveitou-se da abertura e correu agarrando a mão da Anna.
–Covarde!
–Não sou covarde, mas também não sou burro!
O problema é que também não era tão rápido quanto o negro, que o alcançou e se atirou contra ele rolando no chão. Tobias ficou por cima e deu um soco abrindo-lhe um corte na bochecha.
–Tobias pare! –Ele golpeou o vidente mais duas vezes. Anna puxou um faca do cinto do próprio Tobias, que para na mesma hora.
–Me dê isso, Anna.
–Se afaste do Fabrício!
–Você não vai me ferir –Anna gostava de Tobias, também não queria lhe fazer mal, mas não permitiria que ele machuca-se o Fabrício, então teve a ideia de uma ameaça mais forte a se fazer, apontou a faca para própria barriga.
–Se afaste dele, se não acabo com seu deus agora mesmo –Tobias empaleceu e se levantou erguendo as mãos.
–Não faça isso! –Fabrício se levantou atordoado se apoiando numa árvore.
O jogo virou, agora era Anna que dava as cartas, mas isso não durou muito. A faca voou de sua mão e se fincou num tronco.
–Sabia que estava demorando de mais –Era o James que surgira translucido levitando acima deles –Não se assustem, não sou um fantasma, isso é projeção astral. Anna você vai vir até mim com o Tobias a não ser que queira ver seu amiguinho/namoradinho morrer –Fabrício voou erguido pela força de seu pai.
–Ele é seu filho!
–E seu feto é meu deus, isso tudo é parte de algo muito maior, não posso deixar nem mesmo meu filho ficar no meu caminho.
–Pai! Pai você tem que parar com isso!
–Cale-se! –Fabrício foi atirado contra uma árvore e caiu desmaiado.
–Fabrício!
–Tobias traga meu filho com você, se Anna não colaborar, mate-o –E James desapareceu no ar.
Tobias colocou Fabrício em seus ombros e partiu até o local do ritual com Anna o seguindo de “boa vontade”.
Na barraca hospital Logan estava acocorado mexendo numa gota vermelha no chão de terra.
–Isso parece... Sangue?
–Logan! –Rosa entrou abrindo caminho para Tony que vinha trazendo Lau desmaiado em seus braços.
–Coloque-o naquela maca –O garoto estava com um corte na parte de trás da cabeça, Logan pegou uma pequena lanterna e chegou as pupilas dos olhos dele –O que aconteceu?
–Não sabemos, a equipe de caça o encontrou e me levaram até ele.
–Eles chamaram você ao invés de mim?
–Não é hora para uma crise de ciúmes, senhores –Repreendeu a anã.
–Eu vou limpar a ferida –Disse Logan.
–E eu vou pegar linha e agulha pra preparar para suturar –Se dispôs Tony.
Em menos de quinze minutos, a ferida estava limpa e fechada com três pontos, Lau acordou atordoado devido a um medicamento aplicado em sua veia.
–Onde?
–Calma garoto você levou uma pancada na cabeça –Disse Tony.
–O que aconteceu com você? –Logan perguntou.
–Estávamos na plantação de bananeira e... O Nicolas! –Lau começou a ficar nervoso, mas seu corpo mal se mexia –Eles vieram do nada e nos atacaram e levaram o Nicolas!
–Eles quem?
–Os caras novos, aqueles da seita do bode.
Logan sentiu um aperto no peito e olhou para a pequena gota de sangue no chão. Onde estava a Shania?
–Tem algo errado acontecendo. Fiquem com ele, irei resolver isso com o Otto.
Logan correu e sentiu um medo percorrer lhe a espinha, algo muito ruim estava acontecendo, a seita do bode estava aprontando alguma coisa. As alianças de coco pulavam no bolso de seu jaleco.
Num lugar um pouco afastado da tribo Santana e Diana conversavam, a primeira curiosa e a segunda tentando enrola-la o máximo de tempo que fosse possível.
–Já andamos um bocado e você não me disse nada importante, até parece que esta só me enrolando –Diana ajeitou uma mecha do seu cabelo disfarçando o nervosismo pela Santana ter acertado em cheio suas intensões.
–Bem, você é uma pupila do James, uma xamã. Não sou ligada aos espíritos como vocês dois, mas meus poderes foram me dados pelo próprio Sinep, através do esperma de James e é por isso que somos ligados e...
–Ser ligados por causa de uma gozada? Querida a vida é bem mais que sexo.
–Querida, estamos na ilha do escorpião, tudo sempre tem a ver com sexo.
–Que seja, mas não entendo onde quer chegar com esse papo.
–Bem... –Diana tinha planejado improvisar, mas na hora “h” ficou sem ideias –Eu queria te convidar pra transar com nós dois.
Santana virou a cabeça de lado, aquela história estava muito estranha, Diana vir de uma hora pra outra chama-la pra transar? As duas estavam longe de se darem bem.
–Você esta me distraindo –concluiu a ruiva.
–Eu? Lhe distraindo de que? –Uma súbita ventania sacudiu as árvores, os cabelos de Santana dançaram e seus olhos brilharam como lanternas.
–Se você esta me distraindo para James atacar o Otto, vou destruir vocês dois.
Diana deu um passo pra trás e trincou os dentes, como aquela garota ousava ser tão despeitada? Ela não era ninguém, não era uma possuidora dos hormônios, não era uma afilhada dos deuses e muito menos uma escolhida de Sinep e ainda assim conseguia ser incrível. A oráculo sentiu inveja do seu poder, de sua juventude, a diferença de poder podia ser enorme, mas Diana ia ensinar uma lição para aquela garota arrogante.
–Essa conversa acabou, vou ver o que o James esta aprontando –Disse Santana dando dois passos à frente, mas Diana se põe em seu caminho.
–Não vou permitir que saia daqui.
–Você e qual exército? –Diana trincou os dentes de raiva.
–Sua petulante!
Diana moveu as mãos pra cima fazendo uma nuvem de poeira se erguer, Santana fechou os olhos e não viu sua inimiga chegando até levar um tabefe na cara tão forte que a fez bolar no chão. A ruiva não teve tempo pra se recompor, pois foi atacada repetidas vezes, um impulso de força a atirou no ar, depois lhe jogou contra um coqueiro, foi puxada pelos cabelos e sua cara pressionada contra a areia.
–Esse é o seu lugar garota, abaixo dos meus pés.
Diana a imobilizara puxando seu braço pra trás e prendendo sua cabeça no chão com seu pé. Os olhos de Santana ardiam por causa da areia, mas ela deu um jeito nisso, abriu os olhos novamente em lanternas e sentiu a areia ser destruída. Ela levitou e se jogou contra o coqueiro, Diana bateu de costas soltando a garota, que já se vira e lança uma rajada de chamas em sua direção. A oráculo se abriga atrás do coqueiro, mas ainda assim teve seus ombros e cochas queimados a fazendo gritar em agonia.
Ali perto Hector e Felix estavam sentados numa pedra, a perna do loiro sobre a do moreno, os dois riam e se tocavam como se todos os problemas tivessem desaparecido, pelo menos naquele passeio.
–Depois temos que ir na sua caverna –Disse Felix –Não a usamos desde...
–Desde quando a usei como câmara de tortura contra o Ned –Completou Hector –Sei que fui cruel, mas tive que fazê-lo pagar pelo que fez –Felix olhou pra baixo e apertou os punhos lembrando daquela noite traumática quando Ned o estuprou. Hector puxou seu rosto em sua direção –Calma, não precisa ter medo, até por que ele já morreu e em todo caso eu estou aqui por você.
Hector sentiu um calor dentro de si ao dizer aquelas palavras e sem perceber desabou a falar.
–Sinto saudades de você, de nós. Lembro de quando me encontrou chorando naquela caverna, de como tentou me consolar, ali mesmo tivemos nossa primeira transa, mas tem algo de que lembro de forma muito mais intensa, lembro de quando senti seu cheiro.
–O cheiro de virgem?
–Não, de quando senti o “seu” cheiro. Você era tão pequeno e frágil e olhe só pra você agora, esta do mesmo tamanho que eu e esta forte e decidido e... –Os olhos do loiro transbordaram de lágrimas –Você é tão bonito, tão...
Felix sentiu que seu coração ia sair pela boca, parecia que não via o Hector há séculos, como se mesmo estando perto fisicamente, estivessem a milhas de distância e naquele curto passeio tinham se encontrado.
–Hector...
–Eu não sei o que pode acontecer no futuro, mas nada na minha vida é mais real do que o que sinto por você –Felix não aguentou e também caiu no choro.
–Obrigado por me fazer me sentir seguro –Disse enxugando as lágrimas.
–Obrigado por me amar –Hector o puxou lhe dando um beijo desesperado. Quando Felix perdeu seus pais, sentiu ser escavado um buraco em seu peito, quando Santana o apoiou sentiu seu amor o preencher e a cada coisa boa que acontecia em sua vida, era como se o buraco fosse sendo cada vez mais preenchido, até que ele conheceu o Hector e seu peito transbordou de amor. Ele deixou de ser tímido, permitiu-se abrir para a vida, sorriu abertamente, viveu alegremente e amou com tudo que tinha.
O beijo foi um misto de sentimentos, saudade, alegria, desejo, tesão, amor. Então houve uma explosão próximo dali que fez o chão tremer e um clarão ofuscar sua vista.
–O que esta acontecendo? –Perguntou Felix e logo houve mais duas explosões na mesma direção.
–Vamos ver do que trata! –Disse Hector o puxando pela mão.
Quando chegaram no local das explosões viram Santana levitando e atirando bolas de fogo na direção de Diana que fazia de tudo para desviar e contra atacar, mas pelo seu estado já havia sido atingida várias vezes, seu vestido tinha sido reduzido a farrapos chamuscados, seus cabelos antes longos e belos, estavam curtos e queimados, seus braços, pernas e rostos estavam repleto de queimaduras de diferentes intensidades.
–Elas estão lutando –Felix disse se direcionando até lá, mas Hector o puxou de volta pra trás de uma árvore.
–Se fomos até lá, só vamos atrapalhar a Santana e ela esta se virando muito bem sozinha.
–É melhor parar logo com essa palhaçada Diana, não tenho tempo pra brincar com você.
–Brincar?! –Diana estava toda acabada e furiosa –Eu não vou morrer aqui garota, eu sambarei sobre seu cadáver e pisarei nessa sua barriga esmagando o maldito feto que você carrega –Os garotos se olharam boquiabertos, Santana estava grávida?
–Sabia que o James te contaria.
–Ele não precisou, sou uma vidente. Eu vi sua filha nascer e crescer.
–Filha? –Santana pousou surpresa e tocou em sua barriga, então seria uma garota, ela sorriu sentindo um calor no peito e nos olhos que lacrimejaram.
–Mas o futuro pode ser alterado, quando Sinep retornar, nós, seus fieis, nos banharemos com o sangue dos nossos inimigos! E sua filhinha não vai nem nascer, você nunca verá a menina com cabelos ruivos da mãe e os olhos verdes do pai –Diana deu um sorriso ao ver sua rival empalidecer. Os garotos se olharam confusos e Felix comentou:
–Olhos verdes do pai? O Otto tem olhos castanhos.
–Você sabe –Disse Santana em tom de ameaça para oráculo que dá uma gargalhada.
–Sim, eu sei, nem o James sabe, mas eu sei. Espere só pra ver a reação de todos quando souberem que você esta gravida do Hector.
Os queixos dos garotos caíram, Hector teve que se segurar ao ouvir aquela notícia, Felix ficou com uma cara confusa sem entender o que aquilo significava, alguma coisa estava errada, aquilo não podia ser verdade. Ele olhou para o loiro e quando enfim compreendeu, sentiu o buraco em seu peito ser novamente escavado como se tivesse enfim implodido e perdido todo o amor que já teve em sua vida.
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