Laranja Azeda
48 Capítulo 48 – A História de James Malamar
Notas iniciais
–Isso não é justo! –Otto jogou uma cadeira contra parede a despedaçando. Estava no deposito do hospital –Por que não posso simplesmente ser feliz? Por que as coisas nunca dão certo na minha vida?!
Otto, o rei gostosão da Ilha do Escorpião, que poderia ter qualquer pessoa que desejasse, estava furioso por Santana ter perdido seu hormônio da repulsão. Quando criança, viveu trancafiado no castelo, que nem existe mais, pois foi explodido, ao crescer e finalmente conseguir controlar seu dom, pode sair de seu cárcere. No entanto sentia-se vazio, como saberia se as pessoas gostavam mesmo dele ou se só estavam sendo afetadas pelo seu hormônio da irresistibilidade?
Tudo mudara quando Santana apareceu, a ideia de alguém imune a suas habilidades era fantástica, mas só isso era suficiente para se apaixonar por ela? A ruiva provara mais de uma vez o quanto era apaixonada pelo moreno sedução, quando finalmente iam se casar selando seu final feliz, veio a alma parasita de Adam e estragou tudo. Graças à Santana, Otto agora estava livre da influência do primeiro homem, os dois poderiam ficar juntos, tudo estaria perfeito. Mas não estava.
–Será que um dia poderemos ficar verdadeiramente juntos?
Nos corredores cinco pessoas caminhavam rumo a ala de pós-cirurgia. A recepcionista os repreendeu:
–Ei vocês não podem entrar aí sem se registrar! Ei! Seguranças!
–Vocês quatro me esperam aqui –Disse James seguindo em frente.
Os seguranças vieram, mas foram facilmente derrotados pelos poderes tele cinéticos das três mulheres, Tobias foi até a sala de segurança para se livrar das filmagens. James seguiu em frente e ouviu um casal conversando, um médico e uma anã:
–Sério Rosa, ela disse: Estou doida pra que você meta essa piroca em mim. Assim, na frente de todo mundo.
–Os jovens de hoje em dia são bem liberais.
–Com licença, senhor –Tony parou James –Sou o médico responsável por essa ala, quem o senhor deseja visitar?
–Vim ver meu filho, Fabrício Malamar.
–Oh claro. Fui eu quem o operou, ele esta fora de perigo. Siga-me –Depois se voltou para sua esposa –Aguarde um momento querida.
Os dois seguiram até o quarto de Fabrício e Santana, onde também estavam Hector, Felix, Bruce e Taís.
–Com licença –Disse Tony ao entrar –O pai do garoto veio visita-lo.
–O que?! –Perguntaram surpresos os tios e nessa hora James adentra o recinto.
–James?! –Exclamou Bruce.
Fabrício fica tão chocado ao ver o pai que fica sem palavras. Santana sorriu, ela tinha contado a ele sobre Fabrício e espera que ele viesse visita-lo. Felix ficou surpreso ao ver aquele homem livre e Hector cochichou pro seu namorado.
–Quem é esse?
–É o pai do Fabrício.
–Ele não estava preso?
–É, estava.
–Pa-pai?
–O que esta fazendo aqui James? –Perguntou Bruce, mas ele o ignorou e foi até seu filho e o abraçou.
–Meu querido filho! Da última vez que o vi, profetizei e o alertei para ter cuidado com a serpente, mas infelizmente estava sobre o efeito dos medicamentos e depois não lembrei disso. Eu previ que você iria para Ilha do Escorpião! Não acredito que pude me esquecer disso!
–Mas como você sabe sobre a ilha? Como você saiu do hospício? Pai não estou entendendo nada.
–Irmão, você esta mesmo bem? –Perguntou Bruce e dessa vez James se virou pra ele e o abraçou.
–Obrigado por ter cuidado do meu filho.
Tony sorriu, no mesmo instante Rosa entrou no quarto e recebeu um olhar recriminador do marido.
–Por que entrou aqui?
–Eu estava ouvindo atrás da porta e pareceu uma história muito interessante.
–Meu filho –Começou James –Eu te contarei a verdadeira história da minha vida e no final te farei uma proposta.
–Do que o senhor esta falando?
–Primeiro me ouça. Eu nasci na Ilha do Escorpião, amava minha casa, minha família, nossos costumes, principalmente o sexo! Desde pequeno demonstrei grandes habilidades sobrenaturais que me capacitavam para se tornar o próximo xamã da ilha.
–Xamã? –Perguntou Felix.
–Ouvi histórias que antigamente existiam xamãs na tribo –Explicou Hector –Mas o Senhor Dois proibiu tal prática.
–Deixe-me continuar sem interrupções. Meu mestre me treinou por anos, até que finalmente pude assumir o seu lugar, mas ainda assim meu treinamento nunca acabou, estudei os livros escritos pelos antigos xamãs, comunguei com espíritos aprendendo sobre seu mundo e então vi os deuses. Vi a verdade, vi que no início eram sete, mas que a Serpente havia sido banida, vi a história de Adam e Eve e chocado fui confrontar o rei regente, o Senhor Dois.
–Não acredito que você nasceu numa ilha onde todos idolatram o sexo –Disse Taís, sobre as histórias que Felix e Hector tinham lhe contado.
–Não acredito que existe uma ilha onde todos idolatram o sexo –Disse Rosa chamando momentaneamente a atenção de todos.
–Continuando –Disse James –Como podia permitir que um rei possuído por uma alma parasita governasse a Ilha do Escorpião? Ao confronta-lo, fui repreendido e castigado. O velho implantou uma magia que impedia que se usasse projeção astral e algumas outras habilidades dentro da tribo. Desse modo eu tinha que sair escondido de casa, ir para zona proibida para só então praticar meu ofício. O maldito velho estava praticamente tentando anular minhas habilidades e direitos de exercer meus dons xamãs. Peregrinei pelo lado desconhecido e foi nessa época que conheci o verdadeiro deus da ilha, aquele que me concedeu a visão de um verdadeiro ideal. Conheci o deus bode, Sinep.
Fabrício se arrepiou ao ouvir aquele relato, lembrando-se de seus sonhos, de quando estava sentado de baixo de uma árvore olhando para floresta e avistou uma enorme sombra caminhando em sua direção. James continuou o seu relato:
–Conversamos muito naquele dia e ele me contou sua história, a qual não contarei agora. Naquele dia jurei fidelidade ao deus verdadeiro e ele me deu um presente. Tirou minhas calças e chupou meu pênis abençoando meu sêmen. Disse que quem bebesse dele ganharia o poder de me ajudar em minha nova missão. Voltei para ilha e fui até a mulher mais devota a mim, a mulher que frequentemente me visitava, algumas vezes para consultar os espíritos, outras para sexo, ela era uns quinze anos mais velha que eu. Transei com ela e no final gozei em sua boca, eu sempre gozo uma quantidade absurda de esperma, mas ela bebeu tudo.
Felix, Hector, Taís e Bruce olharam para Fabrício quando ouviram de James que ele gozava uma quantidade absurda de esperma.
–Pelo jeito isso é de família –Disse Hector e James continuou:
–A mulher se tornou o oráculo, juntos criamos um pequeno grupo para idolatrar o verdadeiro deus, juntos realizamos os melhores bacanais em adoração à Sinep. Nós ansiávamos pelo dia em que expulsaríamos o rei da alma impura e tornaríamos a ilha, um lugar verdadeiramente santo aos olhos de nosso deus. Entretanto um dia quando meditava fora da tribo, fui visitado por um deus, achei que fosse Sinep, mas quando abri os olhos me deparei com um homem negro enorme, pelado e com um rabo de escorpião.
–Scorpion! –Exclamou Santana.
–Ele me disse que ouviu falar de minha famosa gozada e veio transar comigo. Eu odiava aqueles falsos deuses, mas fui obrigado a transar com eles, não podia deixar que descobrissem sobre Sinep. Então transei com Scorpion, ele prefere ser o ativo, então fui penetrado pela sua rola preta, mas no final quando fui gozar, ele ordenou que o fizesse sobre seu corpo. Minha porra sujou seu rosto inteiro, escorreu por seu peitoral e barriga, lambuzei a divindade inteira.
–Foi por isso que Scorpion me disse que já tinha transado antes com alguém, que gozava em quantidade absurda, antes –Disse Fabrício se lembrando da vez que transou com Scorpion, Shania e Canino.
–Pensei que estaria livre depois daquilo –Prosseguiu James – Mas o deus contou aos outros e acabei recebendo a visita dos outros cinco. A cada vez sentia que estava traindo Sinep. Quando um dia os seis vieram juntos acabei explodindo e os amaldiçoando, clamando pelo verdadeiro deus! Então usei toda minha força e lancei um feitiço para bani-los da ilha, mas não fui forte o suficiente. Aquela falha me custou muito.
James deu uma pausa como se perdesse em seus devaneios, mas a pausa foi grande demais e foi Santana que o despertou.
–Quem apertou o botão de “pause”? James!
–O que? –Ele olhou pros lados, como se tivesse se esquecido onde estava –Oh sim! A história. Senhor Dois foi informado sobre minha tentativa falha de expulsar os deuses e me acusou de traição e me sentenciou à morte, no entanto meus fieis me apoiaram e o rei teve que revogar minha sentença, pois não podia matar todas aquelas pessoas. Foi então que fui expulso. Um barco foi construído, eu e meus seguidores fomos obrigados a deixar o paraíso. No entanto o rei não estava satisfeito e usando seus poucos conhecimentos sobre magia e ajudado pelos deuses, me lançou uma maldição para me fazer esquecer do meu ofício. Entretanto eu era mais forte do que imaginavam e me defendi, mas ainda assim minha mente foi afetada, me fazendo perder a sanidade em alguns momentos.
–Isso explica vários episódios engraçados da faculdade –Disse Bruce.
–O maldito Senhor Dois queimou minha casa, queimou os livros dos xamãs e proibiu a prática de tal arte. Eu e meus seguidores sobrevivemos ao mar de monstros graças as minhas habilidades e viemos parar na Cidade. Estávamos todos tristes, mas o oráculo previu que votaríamos para o paraíso! Nos separamos jurando nos reencontrar quando esse dia chegasse. Resolvi então viver a vida de uma pessoa normal até lá. Resolvi fazer faculdade que foi onde conheci Bruce, Taís e minha futura esposa. Graças as minhas habilidades consegui retardar meu envelhecimento, por isso todos sempre achavam que eu era mais novo.
–Tá vendo aí?! –Exclamou Bruce para esposa –E você dizendo que ele era mais bonito, que tinha o rosto limpo e tal, era tudo macumba!
–Continuando! Acabei me casando e fui muito feliz, no entanto os momentos em que minha sanidade me deixava estava aumentando e tive que começar a tomar medicamentos. Meu amado filho, o dia que você nasceu foi o melhor dia da minha vida, quase me fez desistir de voltar pra casa, quase. Resolvi que voltaríamos os três juntos! Até que o segundo pior dia da minha vida aconteceu: Perdi o controle, matei minha mulher e fui preso –Todos ficaram em silêncio que foi quebrado por Fabrício:
–Segundo pior?
–Sim, o primeiro foi quando me expulsaram do paraíso –Fabrício ficou boquiaberto, mas antes que pudesse protestar, James continuou:
–Mas finalmente é chegado o dia prometido! A Ilha do Escorpião esta desprotegida, sem deuses, sem possuidores dos hormônios, sem rei! Eu e meu povo voltaremos pra casa e tomaremos o trono! –James se voltou para Bruce e Taís –Como vocês cuidaram de meu filho, estão convidados a se juntar a nós e ir para o paraíso.
–Ir para um lugar onde as pessoas batem o olho e já vão logo transar? –Perguntou Taís com cara de desdém.
–Sinto muito, mas não! –Respondeu Bruce.
–Mas vocês dois adoram sexo, todo mundo adora sexo! –Disse James chocado com a resposta do irmão.
–Nós gostamos de seduzir outras pessoas, gostamos do jogo de olhares e indiretas. Um lugar onde todo mundo vai logo transando não faz nosso estilo, irmão –Disse Bruce.
–Nós o amamos James –Disse Taís –E amamos ainda mais o Fabrício, mas não vamos para essa tal Ilha do Escorpião. Nossa vida é aqui.
Tony e Rosa se olharam e conversaram baixinho:
–Essa é a história mais insana que já escutei em toda a minha vida.
–Você tem toda a razão, querido.
–A Ilha do Escorpião é um lugar único! –Exclamou James ainda tentando convencer seu irmão –Lá nenhum tipo de prazer é proibido, ninguém olha torto para casais gays, ninguém chama pessoas bissexuais de indecisas, não existe monogamia, todo mundo pode transar com todo mundo! Sem obrigações, limitações morais, pudores!
–Na verdade existe monogamia –Disse Hector –Otto criou a lei do casamento para casais que querem ficar apenas os dois.
–Essa foi a coisa mais ridícula que já escutei na minha vida! –Disse James irritado e chocado –Aquela maldita prole do Senhor Dois quer destruir a beleza da ilha?! Isso vai mudar quando eu for o rei.
–O que?
As palavras de James circulavam pelo interior de Tony, um lugar sem limitações morais? Será que lá pessoas de idades bem afastadas podem transar sem que seja visto como um pecado ou crime? Sua mente começou a se encher de imagens e desejos que ele sempre reprimia, jovens corpos nus, meninos e meninas de quatro aguardando que ele os penetrasse. O médico balançou a cabeça e respirou ofegante. Rosa segurou a mão do marido como se adivinhasse seus pensamentos. Tony ficou com vergonha, o que sua esposa iria dizer se soubesse de seus pensamentos pecaminosos naquele momento? Mas a anã acabou se metendo naquela conversa.
–O que o povo de sua ilha diria sobre um anã? –E quem respondeu foi Santana.
–Minha pepeca é azeda, ou era.
–O que?
–Pensei que ninguém nunca iria querer ficar comigo por causa do meu gosto cítrico, mas quando cheguei na ilha, todo mundo praticamente fazia fila. O diferente é visto com bons olhos naquele lugar. Se você chegasse lá, iria ser uma sensação! Todo mundo ia querer te comer! Eu seria a primeira da fila!
Rosa ficou toda vermelha, mas não conseguia esconder o sorriso. Tony olhou para esposa. Será que ela estava pensando no mesmo que ele?
James sentou ao lado do filho e segurou sua mão.
–Filho, agora você sabe minha história, quando eu voltar para ilha irei curar minha mente e nunca mais terei crises de insanidade, podemos ser uma família normal. Venha comigo para casa, para o paraíso.
Fabrício olhou no fundo dos olhos de seu pai e o lágrimas escorreram pelo rosto do garoto que puxou a mão que o pai segurava.
–Você disse que o dia em que você matou a mamãe foi o segundo pior dia da sua vida. Eu poderia viver mil vidas e aquele ainda seria o pior dia de todas elas. Sabe como eu fiquei ao te ver coberto de sangue, o sangue da minha mãe! E o pior ainda foi que eu não podia odiá-lo, não podia gritar te amaldiçoando por ser o assassino de minha mãe! Por que eu te amava, por que você era meu pai, por que eu sabia que você estava doente! Mas agora que sei que você se importa mais em governar uma ilha do que com sua esposa, acho que finalmente posso ser livre pra te odiar. Não pai, não vou com você, pai, eu te odeio.
Mais uma vez o silêncio tomou conta do lugar. James estava de boca aberta olhando para seu filho, olhando para aqueles olhos molhados, para aquela expressão de ódio e dor.
–Eu te amo Fabrício e sempre te amarei –Ele se levantou –Um dia você voltará para casa filho prodigo –Ele se voltou para Bruce e Taís –Mais uma vez obrigado por tudo, eu também os amo, mas acho que isso é um adeus –Depois se voltou para Santana –Obrigado por me dizer sobre meu filho.
–De nada mestre, mas sabe que da próxima vez que nos virmos, vou chutar a sua bunda, não sabe?
–Sei que você vai tentar –Dito isso James olhou uma última vez pro filho e caminhou pra fora do quarto.
–Espere! –Disse Fabrício e o pai se virou com esperança –Seu oráculo pode mesmo ver o futuro?
–Mas é claro que sim.
–Foi Sinep quem deu esse poder a ela, mas será que ela vê o futuro ou que ele quer que ela veja?
–Não estou entendendo onde quer chegar.
–Eu sou especial –Disse Fabrício –Tenho visões verdadeiras, e meu dom não provem de nenhum dos deuses, meu dom é meu, e vejo que o bode esta voltando, mas também vejo que ele não é um deus.
–Como ousa?! –James levantou a voz pela primeira vez ali.
–Vá pai, mas guarde minhas palavras, você vai se arrepender de um dia ter comungado com Sinep.
James saiu do quarto com raiva, mas não gritou ou amaldiçoou o filho, no fundo de seu coração acreditava que um dia Fabrício voltaria pro seus braços. O xamã caminhou em passos largos pelo corredor, sem perceber que estava sendo seguido.
–Senhor James! –Ele se virou e viu o casal que ouvira sua história –Eu e minha mulher queríamos perguntar se essa tal Ilha do Escorpião existe mesmo.
–É claro que existe, se duvida venha e veja com seus próprios olhos.
Os dois se olharam, só de pensar nas possibilidades Tony quase tinha uma ereção. Rosa sentiu seu coração se encher de alegria e esperança, ir para um lugar onde ela poderia ser considerada normal, mais do que isso, ser considerada especial! Seria fantástico.
–Nós vamos com você! –Ela exclamou.
–Como você doutor salvou a vida do meu filho, é mais do que bem vindo.
Os três caminharam até a recepção onde as três mulheres e Tobias os aguardavam.
–Pensei que voltaria com seu filho –Disse a jovem.
–Ele virá até mim eventualmente. Já podemos finalmente voltar pra casa e esses dois virão com a gente.
–Olá –Disse Tony sem jeito.
–A gente ainda tem que fazer as malas –Disse Rosa.
–Não sejam ridículos, não precisarão de nada dessas coisas na ilha. E o melhor é não precisar de preservativo, odeio camisinha! Lá tem frutos que impedem a gravidez e inibe doenças sexualmente transmissíveis.
O grupo seguiu até o caís da cidade onde encontraram o resto dos fieis. Ao verem James fizeram uma reverencia.
–Irmãos e irmãs animem-se! Amanhã de manhã iremos para o paraíso!
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