Landra

2 Uma Noite inesquecível


Julie também se orgulhava muito de seu pai. O homem de atitude firme e ao mesmo tempo de extrema cordialidade e presença de espírito. Nos últimos quatro anos, Leudrius e Julie se falavam quase que exclusivamente por telefone, mensagens instantâneas ou vídeo conferências, mas ela não escondia seu descontentamento por não poder ter o abraço do pai nos aniversários, após uma desilusão amorosa ou quando tinha suas crises de asma cada vez mais frequentes. Ele era seu confidente, seumelhor amigo. Mas Leudrius sempre a lembrava de sua “missão” e pedia perdão à filha por ficar tanto tempo ausente. Julie se mostrava forte, mas seu pai, conhecendo bem suas fragilidades fazia de tudo para não perder o contato com ela.

— Filha, minha missão está quase no fim. Vamos poder passar mais tempo juntos. Você é meu maior tesouro, minha querida!

— Ô pai, o senhor não pôde nem mesmo abrir um espacinho na agenda para vir ao meu aniversário?! O senhor vai ter que se esforçar mais pra me convencer de que eu sou seu "tesouro"!

— Em breve você vai entender o porquê de tudo isso, minha criança... Não fique triste! Como você está? Teve alguma crise respiratória esta semana?

— Peraí pai!... Entender tudo o quê? O senhor tá falando de quê? Eu posso levantar um bonde lotado, mas ainda sou uma geek asmática!... É isso? O quê o senhor tá me escondendo?

— Você sabe que não posso ficar falando sobre essas coisas por vídeo conferência... Chego depois de amanhã e a gente poderá conversar...

Julie sentiu sua asma começava a afetar sua fala de novo e mesmo com todo esforço, não conseguiu convencer seu pai a não desligar o computador. As aulas de yoga e artes marciais sugeridas por sua tia ajudavam a diminuir a frequência e a intensidade das crises, já que os medicamentos não ajudavam, mas o estresse causado pela ausência de seu pai lhe causava falta de ar.

Enquanto esperava por sua família, Julie estudava, navegava pela internet, conversava com seus contatos em várias universidades e centros de pesquisa sobre superdotados e pessoas com dons especiais, e lia notícias de acontecimentos estranhos por todo o mundo envolvendo estas pessoas. Sempre que podia, ela ouvia o rádio da polícia e se voluntariava a ajudar. Sempre discreta, usava seus dons sempre como último recurso. Ela chegou a pensar em entrar para a polícia quando terminasse seu curso... Ou fazer o curso de medicina... Mas ainda era pouco! Ela queria poder fazer mais... Era como se uma força superior a instigasse e fizesse aumentar seu senso de responsabilidade... Um turbilhão de pensamentos e questionamentos vinham a sua mente: “Eu sei que não sou a única que posso fazer estas coisas! Eu deveria agir mais como uma estudante normal... Normal? Nem consigo manter um namoro?! E se eu cometer um erro desastroso? E se eu encontrar alguém mais forte e cheio de más intenções? O que eu faço?”

Já que não conseguia dormir, Julie mantinha o rádio receptor ligado na frequência da policia... Era uma noite com poucas ocorrências. Apenas brigas de vizinhos, reclamações de barulho de festas... Quando perto de duas horas da madrugada, uma mulher desesperada pediu ajuda para impedir que seu irmão cumprisse a ameaça de matar a ex-mulher. Julie reconheceu o endereço que era bem próximo de sua casa, vestiu uma roupa com capuz e cor escura, e correu para tentar impedir um assassinato. Ela ouviu a discussão, se aproximou da janela da sala e bateu no vidro com cuidado. O homem, aos berros, mandou a moça na janela ir embora caso não quisesse “levar chumbo também”. Como Julie não dava sinais de que fosse desistir, ele se aproximou e a ameaçou apontando a arma: _ Saia daqui vagabunda se não quiser levar um tiro na testa! A conversa não é com você...

—Calma... O senhor não quer se encrencar com a polícia que já deve estar chegando! Disse, erguendo as mãos. _Vamos tentar resolver o problema sem que ninguém saia ferido...

— Vai embora! Sai daqui, droga...

O homem estava transtornado, uma das mulheres chorava compulsivamente e a outra estava paralisada ao lado da janela, em choque. Então ele se volta pra mulher à janela e engatilha a arma: _ Nunca mais, nunca mais!!! Eu não vou fazer papel de idiota, nunca... Sem que ninguém percebesse, Julie já havia entrado pela janela e estava bem na frente da arma. Ela agarra o braço do homem desviando a trajetória da bala. A mulher cai desmaiada, a bala acerta a perna de Julie, mas ela não sentiu dor! A mulher que chorava agora gritava por socorro. Com um golpe rápido, Julie acerta o queixo do homem que cai no chão desacordado.

As sirenes das viaturas ficam cada vez mais próximas e Julie ofegava. Ela nunca havia sido atingida por uma arma de fogo antes. Enquanto a mulher tentava sentir o pulso do irmão, Julie silenciosamente saiu pela mesma janela que havia entrado. _ Moça, espere aí! Fique... Obrigada por não ter deixado meu irmão tirar a vida de minha cunhada. Julie não ouviu a mulher, estava perdida em pensamentos enquanto corria de volta pra casa.

Quando chegou em casa, esperava ver sangue escorrendo pela sua perna, mas não havia nada! Nem um hematoma!

— Esta é nova... Ou a arma daquele cara estava “bichada” ou minha pele tem a resistência de um colete a prova de balas! Mas e os estragos que ela fez no assoalho da sala?! Meu Deus!... O que eu sou?!

Notas finais
Sei que muita gente vai se identificar com esta moça!