Lamb of God

5 Capítulo 5 - Revelações


Continuava em estado de choque, enquanto Peter vestia-se e Destiny limpava a bagunça de pele esfolada e sangue de seu chão, entre alguns suspiros de frustração. Eu estava encolhida no sofá, segurando uma das almofadas contra meu peito, tentando controlar minha respiração e fazer o choro cessar de uma vez por todas. O que eu havia presenciado? Aquilo não parecia nem de longe um truque ou uma ilusão devido ao meu cansaço. Aquilo me parecia bem real. Mas como? Como era possível uma criatura daquelas existir? E como Peter podia ser uma delas? Eu tinha tantas perguntas, mas minha voz simplesmente não saía para fazê-las. Apenas observava os dois a minha frente, deixando meu pensamento acelerado tomar conta de minha mente.

— Irina? Você 'tá bem? — Peter sentou-se do meu lado, colocando uma de suas mãos nas minhas e me encarando com um olhar gentil.

Olhei para ele, ainda com os olhos marejados e o corpo trêmulo, apenas acenando positivamente com a cabeça, sem forças para respondê-lo de forma apropriada. Minha cabeça doía e meu corpo estava paralisado. Estava tão vulnerável como uma criança ingênua.

— É claro que ela não 'tá bem. Você se transformou na frente dela. Como pode ser tão teimoso, Peter?! Já disse que essa merda é perigosa! — Destiny dizia, enquanto levantava-se do chão, terminando de limpar a bagunça do moreno.

— Espero que entenda que foi necessário. Não somos golpistas. Isso não é um truque, isso foi real. — Peter me encarava, acariciando minhas mãos com o polegar, na tentativa de me acalmar. — Essas criaturas existem. E eu sou uma delas.

— Com certeza ela acredita agora. Fica tranquilo, você conseguiu traumatizá-la para sempre. — Destiny usava de uma ironia ácida com o rapaz, devido a sua irritação. Eu não a culpava. Teria a mesma reação se um segredo daqueles vazasse para uma pessoa qualquer.

Peter olhou para Destiny antes de respirar fundo e voltar a me encarar com o mesmo olhar gentil de antes. Eu ainda não sabia o que estava acontecendo, mas estava disposta a descobrir e a ouvir o que tinham a me dizer. No caso, eu me sentia sem escolha, agora que tinha visto mais do que deveria.

— Vou deixar você com a D. Ela vai te explicar tudo. E tente abrir sua mente, ok? — O jovem Rumancek disse, dando um tapinha no topo de meus cabelos e se afastando, dando espaço para Destiny sentar-se próxima a mim.

Concordei com a cabeça, deixando a almofada de lado e tomando coragem para encarar a ruiva de uma vez por todas. Destiny tinha um semblante sério, como se aquilo fosse mais sério do que minha mente pudesse processar, mas eu tentaria. Afinal, o que vi foi algo incrível e horrível ao mesmo tempo.

— Certo, jornalista de Nova York, o que você viu aqui, fica aqui, entendeu? Se você expor a transformação do Peter, vão matá-lo. E se isso acontecer, eu te caço até o inferno. — Destiny disse me encarando com seus olhos esverdeados tornando-se cinzentos pela raiva eminente.

— S-Sim... — Minha voz ainda era falha, mas eu precisava respondê-la. Engoli em seco, umedecendo meus lábios antes de falar novamente com a ruiva — Pode por favor me explicar o que quis dizer com sangue de bruxa?

— Ora, achei que estivesse óbvio; você é descendente de bruxas. Não há muito o que dizer. — Destiny olhava para as próprias unhas agora, como se aquele assunto fosse simples de ser explicado.

— Isso eu... Eu entendi. Mas como descobriu isso? Como está tão claro? — Perguntei, segurando o braço da ruiva, como se implorasse para que ela me olhasse.

— Sua mão direita tem uma cicatriz, que apenas descendentes de clãs de bruxas têm. Mas pelo visto sua família escondeu isso de você, seja lá qual o motivo para isso. Magia é algo tão incrível. — Destiny olhou para mim, agora um pouco mais animada para me explicar as coisas.

— Certo e... Como eu desenvolvo esse meu lado? Como eu posso entrar em contato com essa parte adormecida em mim? — Minha curiosidade também tornou-se uma excitação em saber mais sobre aquela loucura na qual tinha me metido.

— Eu não faço ideia. — Destiny sorriu e piscou a mim. — Acho que isso é algo que você vai ter que aprender sozinha. Mas... Comece a tentar sentir a energia das pessoas. Se são boas, ruins... É um bom jeito de começar.

— Energia? Ok... — Disse pensando por um momento. Teria que colocar muita concentração para conseguir aquele feito. — E como sabe tanto sobre bruxas e os antigos clãs?

— Ciganos e bruxas sempre foram aliados. Eram rejeitados por todos e levavam uma vida nômade. Um clã ajudava o outro, e vice e versa. Bruxas eram a sabedoria dos ciganos, conseguindo pressentir o perigo ou ameaças antes mesmo de algo acontecer. Mas os clãs de bruxas foram exterminados há anos. Não sabíamos que ainda haviam remanescentes. — A ruiva disse, agora com os olhos brilhantes.

— Vocês são... —

— Ciganos? É, somos. — Mal pude terminar a frase e Peter já respondia minha pergunta.

Dei um breve sorriso. Tudo começava a se encaixar. Tinha um porquê de minha mãe nunca me deixar visitar minha avó quando mais nova, provavelmente porque não queria que eu descobrisse esse lado quase místico em mim. Não me sentia mais assustada, mas conseguia sentir algo novo fluindo dentro de mim, como se algo tivesse despertado, mas ainda estivesse com dificuldade de vir à tona. Via Destiny e Peter agora como aliados, como se o passado estivesse encontrando-se com o presente de uma forma natural, como deveria ser.

— Certo, muito para processar em uma manhã. — Ri da situação, levantando-me do sofá e esticando os braços para cima. — Posso receber um tour por Hemlock Grove agora?