Ladrões de galinhas
1 único
A noite numa cidade era algo extraordinário, luzes e neons, com cores verdes e rosas arroxeados. Pessoas estranhas e perigosas andando nas calçadas, estacionamentos desertos, prostíbulos de todos os gostos. Fumaças saíam dos bueiros, o vento carregava consigo páginas de jornais. Cheiro de maconha e esgoto no ar.
Mais uma cidade por qual atravessavam Lúcia e Abel. Os dois no seu chevette vermelho, Abel no volante e Lúcia no banco do carona. A cabeça loira de Lúcia estava tombada na janela, observando as luzes, as pessoas com pressa e o céu azul escuro e laranja.
— Por essas bandas, o pôr do sol é diferente. — Disse ela, direcionando o olhar para o rapaz que amava.
— Eu notei isso também, nunca vi o céu dividido em duas cores bem chapadas. — Respondeu Abel, segurando o volante e atento por um hotel.
— Nunca pensei que azul escuro e laranja seriam uma boa combinação. — Voltou a tombar a cabeça na janela.
Abel riu. — Mas o azul com rosa também é bonito, não acha?
— Dizem por aí que é a poluição que faz essas cores no céu.
— Sério? — Indagou num tom tristonho. — É tão bonito.
Lúcia virou o rosto para ele mais uma vez, mas dessa vez com um sorriso. — Errado e bonito como nossa fuga.
Abel sorriu olhando seus olhos amendoados e voltou a prestar atenção na avenida. Acharam uma estalagem, de prédio pequeno e velho. O quarto era igualmente pequeno e velho, mas não se importaram, era melhor do que dormir no carro como fizeram algumas vezes. Lúcia foi tomar banho e Abel estava sentado na cama de casal, abria uma mala cheia de dinheiro e pegou um grupo de notas amarradas num elástico, usaria aquele dinheiro para as despesas seguintes. Guardou no bolso e fechou a mala, depois pegou da mochila um objeto enrolado num pano e o descobriu, era um revólver que só usaria em situações extremas.
Lúcia saiu do banheiro envolvida numa toalha branca, seus cabelos loiros estavam molhados e viu a arma nas mãos de Abel. Nesse momento lembrou mais uma vez que estavam foragidos e que podiam acabar mortos. Ela se sentou ao lado dele e colocou uma mão no seu rosto. — Não vamos precisar disso, vai ficar tudo bem. — Disse enquanto olhava o olhar fundo do amante, olheiras de noites sem sono. Definitivamente estava nervoso e ela sabia que ele queria protegê-la. — Não tem como nos acharem.
Abel deu um aceno e embrulhou o revólver mais uma vez, depois guardou na mochila. Ele pegou na mão dela sobre a coxa da perna e deu um sorriso afetuoso. — Dias melhores virão, “isso” vai valer a pena.
— Sim.
Dois ladrões de galinhas inexperientes e apaixonados. Dormiram abraçados e acordaram com um barulho, um tiro e o dono da estalagem estava morto por trás do balcão. Logo em seguida um chute forte abriu a porta de seus aposentos. Pularam da cama nus, Lúcia ainda se cobriu com o cobertor. Um dos homens, que parecia o líder, estalou os dedos e dois subordinados seguraram Abel pelos braços depois do rapaz fazer um movimento, ele pretendia pegar a mochila, mas terminou com socos desferidos nele.
Mais um barulho.
Abel arfava o ar chocado com o que acabara de ver, a cabeça de Lúcia fora estourada por um tiro. Continuava sendo imobilizado e ganhava socos na barriga de homens de preto que vestiam ternos e chapéus, eles estavam à procura do dinheiro. Abel cuspia sangue e chorava por ter a perdido pra sempre. Havia dito onde estava a mala, mas ainda assim eles a levaram dele.
Não valeu nada a pena.
Dois ladrões de galinhas inexperientes, apaixonados e imbecis por se meterem onde não se deve.
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