P.O.V. (point of view — ponto de vista) Frederick

E lá estava o resultado das minhas expectativas e desejos frustrados: Raiva. O sangue ferveu em meu corpo. Senti minhas mãos tremerem a ponta de querer escondê-las e assim o fiz depois que Annie negou meu toque em seu rosto. Mas eu a entendia. Droga, mas eu sempre a entendia, não é mesmo? Em seu lugar eu também estaria assustado e nervoso, mas não haviam motivos para que ela duvidasse de mim ou do meu clã. Nós já havíamos aberto o jogo e a própria mãe dela, Melissa, condizia conosco.
– Querida, saiba que esta livre pra ir para sua casa a hora que você quiser. — Lauren a avisou, apertando meu braço disfarçadamente. — Frederick apenas não se exprimiu corretamente. Não estou certa, filho?
– Certíssima. — Assenti, baixando o olhar.
– Eu sinto muito. — Murmurou Annie, realmente parecendo arrependida. — Não quis ofender vocês. Muito menos te ofender, Frederick.
– É tudo muito novo pra você. — Lauren se aproximou dela e a embalou em um forte abraço.
– Eu não consegui organizar meus pensamentos ainda, por favor, perdoe-me. — Pediu ela.
– Não precisa se preocupar. — Lauren a afastou um pouco para que pudesse olhá-la. — Tenho certeza que Frederick se sentiria muito feliz em tentar te explicar o que estiver confundindo essa cabecinha linda.

Annie assentiu e me olhou com uma expressão triste. Fiquei me perguntando se ela realmente queria minha companhia. Lauren sorriu e se afastou, saindo do quarto.
– Deixa a porta aberta. — Annie pediu.

Caramba, que falta de confiança! Lauren fez o que ela havia pedido e desapareceu pelo corredor.
– Olha, caso você não se sinta tão à vontade comigo, posso pedir para que Lauren volte. — Disse, ainda de pé.
– Você tem problemas com portas abertas? — Ela perguntou, sentando-se na cama.
– Não. — Encostei-me na escrivaninha. — Você tem algum problema comigo?
– Muitos.
– Quer listar? — Cruzei os braços.
– Nossa conversa é sobre as minhas dúvidas. — Lembrou-me.

Suspirei fundo.
– O que quer saber?
– Porque você estava procurando meu pai?
– Não procurei seu pai. Foi uma coincidência. — Disse.
– Uma grande coincidência você encontrar meu avô e meu pai.
– Eles eram um dos poucos caçadores que existiam pelo país, principalmente por essa região. Não foi, de fato, uma coincidência. Eles sabiam rastrear muito bem. — Expliquei.
– Quantos você matou? — Murmurou.
– Não fiz as contas. — Admiti.

Passei bastante tempo usando o principal método de vida que nós tínhamos, matando humanos e recolhendo seus tempos de vida. A vida e a morte se completam, nós somos o equilíbrio da equação. O real problema eram os grupos mais agressivos, que apenas matavam sem ordens ou sem necessidade. Esses mesmos grupos caçam e exterminavam os clãs como o meu.
– Há quanto tempo você não se alimenta?

Ela sabia aquela resposta. E eu já sabia qual seria a próxima.
– Um século.
– Frederick... Quantos anos você tem? — Bingo!
– Um século e meio. — Tentei deixar menos chocante. Mas ainda com todo esse enfeite ela arregalou os olhos.
– Você é um velhote? — Ela sacudiu a cabeça, confusa com a própria pergunta. — Quis dizer... Sem esse corpo humano... Você tem cabelos brancos e é barrigudo e tudo mais?
– Não! — Disse rindo, sentei-me ao seu lado na cama. — Meu corpo é esse, Annie. Foi com esse corpo que fui transformado há 150 anos atrás. Eu sou híbrido, mas depois de uns 50 anos me alimentando normalmente, eu podia trocar minha aparência. Mas então encontrei seu avô e depois seu pai. Depois que parei de ceifar almas, perdi esse privilégio.
– Isso é tão confuso. — Ela cobriu o rosto. — Achei que híbridos não pudessem mudar a aparência.
– E a princípio não podem. — Acariciei suas costas. — Mas depois de 50 anos fazendo todas as coisas que os demônios de verdade fazem... Precisava ser promovido. -

Disse sarcástico, ela riu.
– E depois perdeu a promoção.
– E foi a melhor coisa que me aconteceu. — Murmurei. — Se seu pai não tivesse me encontrado, eu não teria te conhecido.
– É verdade. — Sussurrou ela. Suspirou fundo e continuou. — Vocês matam para terem mais tempo de vida, certo? — Assenti. — Mas seu clã não mata, então quando esse tempo de vida acabar...?
– Morremos. Viramos cinzas.

Ela estremeceu.
– Quanto tempo você tem? — Perguntou com urgência.

Annie estava preocupada comigo?
– Tempo suficiente para jantarmos juntos novamente. — Mordi meus lábios, ansioso pela resposta dela.
– Frederick! — Suspirou. — O que vai fazer quando seu tempo estiver acabando?
– Vou morrer, óbvio.
– Quanto tempo? — Ela insistiu.
– Uns 200 jantares. O que você acha? — Murmurei. Ela revirou os olhos, então resolvi falar de uma vez antes que ela se irritasse ainda mais. — Uns 6 meses, é o que parece.
– Isso é muito pouco... — Ela segurou minha mão. — Como você sabe?
– Eu sinto. — Disse, sustentando seu olhar.
– Você vai morrer esse ano. — Murmurou com os olhos marejados e me abraçou.

Nunca tinha pensando de um jeito tão dramático como a forma que ela me mostrou. Passei tantos anos tentando mantê-la fora de perigo que esqueci de mim. Eu a tinha agora e já ia morrer. Apertei-a contra mim em um súbito desespero.
– Não havia pensado nisso. — Admiti.
– Nós acabamos de nos conhecer e eu já vou te perder. — Balbuciou em lágrimas. — Você não pode me deixar, Frederick.
– Shh... — Escondi meu rosto em meio ao perfume de seus cabelos. — Eu não vou te deixar, vou dar um jeito.

Lauren havia voltado, estava encostada a soleira.
– Todos nós vamos partir um dia, Annie. — Ela falou, entrando no quarto e se ajoelhou em nossa frente. — Uns mais cedo que outros.
– Eu não quero mais perder ninguém. — Annie choramingou em meu pescoço. — Vocês podem dar um jeito. Não precisam morrer agora. Vocês nem precisam morrer!
– Não há jeito, querida. — Lauren falou.

Disse tentando se convencer. Nós sabíamos que havia uma maneira, mas não era algo que ela quisesse seguir.
– Claro que há. — Murmurei.

Os olhos de Lauren me fitaram com gravidade. Annie ergueu o rosto, e me olhou esperando que eu continuasse.
– É apenas questão de adaptação, Lauren. — Suspirei. — Olha, se as pessoas não morressem, o que seria desse mundo? Não haveria comida suficiente para abastecer uma demanda populacional imensa, sem falar nos problemas geográficos.
– Não começa com esse assunto outra vez, Frederick! — Lauren se levantou rapidamente, seus olhos expressavam preocupação.
– Do que vocês estão falando? — Annie me soltou.
– Eu não vou matar ninguém. Não foi essa vida que pedi! — Lauren gritou.
– Eu também não pedi para que me transformassem, mas deu nisso, sabe? — Levantei. — Não quero morrer, Lauren. Pela primeira vez na minha vida, eu não quero morrer.
– Você já esta morto, Frederick! — Disse Lauren, ríspida.
– Não! — Sacudi a cabeça, imapciente. — Eu estou mais vivo e mais humano que nunca. Você que morreu para o mundo.

Annie, assustada com a discussão, pegou o casaco dela e saiu do quarto.
– Você não entende? — Lauren cruzou os braços. — Essas pessoas tem o direito de viver!
– E nós também, Lauren! — Disse. — Você também tem esse direito.

Ela sacudiu a cabeça negativamente, os olhos já marejados.
– Quando eu era humana, meu maior desejo era ter um filho, Frederick. Mas depois que casei, descobri que não seria tão fácil devido à um problema de saúde. — Murmurou chorando. — Tudo que eu mais queria era o meu bebê em meus braços... E quando eu consegui engravidar, tragaram a minha vida! Roubaram a minha chance de ser uma mãe. Você não entende?
– Foi uma crueldade. Eu entendo...
– Roubaram à mim e ao Simon! — Ela balbuciava. — Meu filho ficou sozinho... Como alguém pode fazer isso, Fred, por pura diversão?

Abracei-a, tentando consolá-la.
– Você é como um filho pra mim... — Murmurou. — Eu entendo que queira continuar vivo, mas não me peça pra concordar com isso.

Hesitei um pouco, pensando mesmo se queria saber a resposta para a próxima pergunta.
– Quanto tempo para vocês? — Perguntei em sussurro.
– Uns dois meses, no máximo.

Notas finais
Será que depois dessa descoberta a Annie desenrola de vez esse relacionamento? Deus! Seis meses é super pouco. E o Frederick, será que ele vai deixar os "pais" desistirem tão fácil assim?