Ladrões de Almas
13 Desconfianças
Melissa subiu a escada correndo ao ouvir o ronco do motor do carro de Ethan se aproximando na rua.
– Deve ser ele! — Ouvi o barulho vindo do primeiro andar de um vidro se espatifando no chão e em seguida, uma série de palavrões de Melissa. — E eu nem sei qual sandália usar!
Ethan estava realmente mexendo com aquela mulher, parecia até que tinha 15 anos novamente. E o pior é que ele estava apenas a usando e eu não poderia dizer nada sobre o assunto, mas iria tentar afastá-los de alguma forma. Ele não tinha o direito de enganar a minha mãe.
O som estridente da campainha ecoou pela sala, assim como a voz de Melissa me pedindo pra ser educada e abrir a porta. Desliguei a TV e levantei do sofá com má vontade. Girei a maçaneta da porta e lá estava o filho da mãe, bastante elegante e bonito, mas ainda assim um filho da mãe. Seus olhos varreram a sala, como se estivesse em busca de algo.
– Cadê o diário? — Foram as primeiras palavras que Ethan falou assim que abri a porta.
– No inferno. — Gesticulei para que ele entrasse.
E assim o fez. Ethan entrou, estava com um buquê de rosas e uma caixinha quadrada com o que pareciam ser bombons em seu interior.
– Que romântico. — Ironizei.
Ele olhou rapidamente a cozinha.
– E o vídeo? — Ele sussurrou. — Eu te falei que preciso ver esse maldito vídeo, Annie!
– O trato foi feito: Troca de informações. — O lembrei.
– Que droga você vai fazer, hein? — Ethan segurou meu rosto furioso.
– Vai se fu... — Interrompi-me rapidamente ao ouvir minha mãe voltar.
– Querido, mil desculpas pela demora. — Melissa estava descendo a escada rapidamente. — Pelo visto já conheceu a minha filha.
– Estava agora mesmo dizendo que ela possuí sua beleza. — Ele se afastou de mim e virou-se para Melissa, entregando o buquê. — Eram as rosas mais bonitas que vi. E os bombons são para Annie.
– Ah, que amor! Não precisava... — Ela sorriu emocionada, mas logo me fuzilou com o olhar.- Não vai agradecer o mimo, filha?
– Obrigada. — Tive que sorrir para aquele imbecil.
Atravessamos a rua, indo em direção à casa dos demônios. Estamos indo para o inferno, pensei. Melissa levava uma cesta com diversas frutas e estava de mãos dadas à Ethan. Ambos caminhavam em minha frente cochichando uma coisa ou outra. Antes mesmo que pudéssemos tocar a campainha, a porta foi aberta por Lauren. Aquilo me lembrou a cena do vídeo em que ela puxava o velho com brutalidade. Droga, eu deveria ter avisado ao Ethan sobre o que havia descoberto sobre aquela família.
– Entrem e sintam-se em casa! — Lauren nos cumprimentou com beijinhos no rosto e recebeu a cesta que Melissa havia preparado.
– Lauren, ficou tudo tão lindo. — Melissa elogiou a reforma da casa.
O exterior havia permanecido o mesmo desde o tempo em que a família Stewart morava lá, mas o interior havia sido totalmente mudado. As paredes e o teto haviam sido pintados com um branco desbotado, ajudando ainda mais a iluminação do cômodo.
Um homem também se aproximou, estendendo a mão para mim. Observando suas feições, percebi que era o mesmo homem que havia visto pela janela, quando eles ainda estavam se mudando para a casa. Era o pai de Frederick.
– É um prazer conhecê-la. — Disse ele com sinceridade. — Annie, não é? Me chamo Simon.
– Frederick fala bastante em você. — Lauren tocou meu ombro sorrindo. — E ele não falou nenhuma mentira quanto a sua beleza. É muito bem-vinda aqui, querida.
– Obrigada. Fico feliz em conhecê-los. — Disse sorrindo, constrangida pelo comentário.
Simon e Lauren nos levaram até a área de lazer, onde havia uma mesa repleta de frutas, pães e bebidas. O ambiente verde e a brisa trazia a tranquilidade que eu precisava naquela tarde, no meio daqueles demônios. Ethan quase não falava, assim como eu, apenas observando e concordando com tudo o que Melissa dizia. A conversa fluía apenas entre Simon, Lauren e a minha mãe. Pareciam íntimos!
Ouvimos os sons de pneus cantando e logo a porta bater contra a soleira com violência. Lauren esticou-se um pouco tentando ver quem estava entrando na casa. Frederick passou pela porta quase que marchando.
– Eles falaram que não vão abandonar! — Gritou ele para Lauren.
Ele certamente não havia nos visto. Simon ergueu as grossas sobrancelhas.
– Não vai cumprimentar nossos convidados? — Lauren perguntou.
Frederick suspirou irritado e virou-se para nós.
– Boa tarde. — Seus olhos pararam nos meus, sustentando meu olhar por alguns segundos.
– Melissa, pode me ajudar com o suco? — Lauren inclinou a cabeça na direção da cozinha.
Senti meu coração palpitar mais rápido.
– Claro. — Ela assentiu e levantou-se de forma urgente, indo com Lauren para dentro de casa.
Ethan pegou mais uma fatia do bolo de chocolate e virou-se para Simon, iniciando uma conversa sobre um novo modelo de carro, algo que eu não entendia.
– Não se preocupe. — Frederick sussurrou para mim enquanto pegava um salgadinho.
– Eu deveria me preocupar? — Perguntei já levantando.
Eu iria em busca de Melissa, mas Frederick segurou minha mão.
– Elas estão conversando apenas, Annie. — Ele me guiou para dentro de casa e no caminho pude ver que Melissa estava realmente apenas conversando. — Ninguém vai machucar sua mãe.
– Porque esta dizendo isso? — Perguntei desconfiada, mas ainda tentando parecer indiferente, ainda caminhando com ele de mãos dadas.
Paramos em frente à escada, Frederick suspirou e quando voltou a falar, quase pareceu irritado.
– Você sabe o motivo. — Sussurrou de forma sombria.
Senti um arrepio percorrer minha espinha. Estremeci.
– Frederick, eu não sei o que esta falando...
– Você me testou. — Ele mostrou a palma da mão ainda vermelha, que havia queimado um pouco ao ultrapassar o limite da porta em minha casa sem ser convidado.
– Vai me matar? — Tranquei a cara, juntando as sobrancelhas na pior expressão que alguém pode possuir: Raiva.
Ele sacudiu a cabeça e subiu a escada, gesticulando para que eu o acompanhasse.
– Eu preciso te explicar algumas coisas. — Disse ele, abrindo a porta de um cômodo.
Um escritório. Várias estantes guardavam inúmeros livros e havia à frente de uma janela de vidro coberta por cortinas grossas um gabinete. Frederick entrou e me puxou para dentro delicadamente.
– O que precisa explicar? — Perguntei inquieta. — A forma que a Lauren matou aquele velho semana passada? Ou a forma que você vai acabar com a minha vida?
– Ninguém aqui vai machucar vocês. Eu não vou te machucar, Annie. — Frederick apertou um pouco minha mão. — Confie em mim.
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