Notas iniciais
A justiça divina chega com presentes agradáveis.

Estático no meio do quarto olhava para a televisão e um misto entre revolta e incredulidade tomou conta de mim. Ao mesmo tempo me sentia vingado e uma vontade imensa de chorar. Talvez isso tirasse o aperto no peito que teimava em continuar, mesmo depois de algumas horas já terem se passado desde o assalto.

Vontade de gritar e contar para todo mundo. Naquele instante olhei pra cima como se pudesse ver Deus no Céu e agradeci. Deus havia dado minha vingança e não demorou, como acontece na maioria das vezes.

Resolvi que era uma ocasião muito especial e que eu precisava comemorar. Procurei uma roupa legal no armário, vesti e terminei de me arrumar com cuidado. Liguei pra dois amigos e convidei-os para comer uma pizza comigo.

Cheguei a pizzaria em poucos minutos. Esperei uns quinze minutos pelos meus amigos. Quando chegaram fomos para a mesa e pedimos o rodízio. Meus amigos estavam curiosos sobre esse convite de última hora. Comecei a contar-lhes sobre o assalto e como acabou tudo bem. Disse-lhes inclusive que tinha o palpite que conseguiria reaver tudo ou pelo menos parte do que havia sido roubado.

Claro que acharam que eu estava louco. Quem recuperava algo roubado nos dias de hoje. Em alguns casos até conseguem prender os ladrões, mas recuperar o que foi roubado, nunca acontece.

Enquanto aguardávamos que começassem a nos servir. Meu amigo Alberto recebeu uma atualização na rede social e resolveu checar. Depois de alguns instantes prestando atenção, desatou a rir. E resolveu nos mostrar. Ao olhar a tela vi o mesmo que havia visto na televisão em casa. Parece que o vídeo tinha virado um fenômeno de acessos. Diante do meu silêncio e cara fechada. Os dois quiseram saber porque não estava achando graça.

Com paciência disse que esse vídeo era a razão de estarmos ali comemorando e de eu achar que conseguiria reaver pelo menos parte do que foi roubado. Eles olharam-se como se não acreditassem e depois me abraçaram e fizeram uma farra. Entenderam meu motivo de alegria.

Comemos e nos divertimos a valer. Perto da meia-noite pagamos a conta e nos despedimos. Combinamos de fazermos um churrasco no domingo. Voltei andando as poucas quadras até meu apartamento. Fiz um agendamento mental do que faria na manhã seguinte. Dormiria até mais tarde, pois a Paula abriria a loja. Eu já havia deixado tudo arrumado depois do roubo. Ela não teria nenhum trabalho extra. Depois iria na delegacia pra saber mais a respeito do meu caso e se haviam conseguido recuperar algo.

Adormeci quase que instantaneamente. Quando despertei no outro dia com o sol batendo no meu rosto sentia-me como se houvesse dormido uma semana. Estava descansado e com muita disposição. Vesti minha roupa de corrida e desci para fazer meu exercício. O dia estava lindo com um sol maravilhoso nos brindando com um calor gostoso. As plantas pareciam mais verdes.

Comecei com uma caminhada rápida até o parque. Enquanto fazia meu alongamento antes da caminhada vi a garota do prédio vizinho ao meu. Ela era muito bonita e de vez em quando me brindava com um lindo sorriso, quando nos cruzávamos no parque. Aquele dia parecia tão bom, que resolvi fazer algo que não era meu estilo. Aproximei-me dela e cumprimentei-a. Recebi um “bom dia” acompanhado de um sorriso e um convite para caminharmos juntos. Mesmo tendo ido até lá para correr, achei que valia a pena mudar de planos.

Depois de uma caminhada na trilha mais longa do parque, voltamos juntos pra casa. Ela perguntou sobre meu cachorro e falou-me sobre o cãozinho que possuía. Tínhamos gostos parecidos. E gostei do caminho que aquela conversa tomou. Creio que em breve eu teria uma namorada. Uma pessoa legal.

Bom é o ditado popular que diz que depois da tempestade o sol volta a brilhar. No meu caso, a vida parece que estava me presenteando com presentes muito bons.

Depois do dejejum fui até a delegacia. Como estava com tanta sorte, não me surpreendi quando o policial me comunicou que todas as coisas roubadas na farmácia, foram recuperadas. Incluindo o dinheiro.

Saí da delegacia com todas as coisas recuperadas. Levei tudo de volta para a loja. E recoloquei no estoque. Paula queria saber de todos os detalhes. Contei-lhe tudo e no final mostrei-lhe o vídeo que o Alberto me mandara.

Ela desatou a rir. Quando lhe disse que o sujeito do vídeo era o ladrão que havia nos roubado ela olhou-me incrédula. E resolveu olhar mais uma vez.

Na pequena tela via-se um Pierrô com a tinta do rosto borrado por causa de lágrimas. Com voz chorosa contava ao repórter:

– Este mundo está perdido. O senhor imagina que eu fiz o meu assalto e resolvi parar no supermercado pra comprar umas coisas pra levar pra casa. Quando saí, cadê meu carro? Tinham roubado. Estava comigo fazia só três dias. Levaram com tudo o que estava dentro. Onde está o companheirismo? A gente nem pode mais fazer uma compra que acaba ficando sem o carro! Que mundo é este em que a gente vive? Eu tinha que prestar queixa. A polícia tinha que saber e procurar o meu carro! O senhor não acha?

Um policial o conduziu pra dentro do carro da polícia. E o repórter informava que o carro já tinha sido localizado e o outro ladrão também estava sendo preso naquele momento. Pela calça pressenti que devia ter sido o cara que fez o roubo com ele, pois estava com calça camuflada.

Realmente era uma justiça divina ou uma dessas ironias que a vida aplica de vez em quando. Ver os dois caras na traseira do carro da polícia me trouxe uma sensação muito boa. E senti como se estivesse livre.

Outros sustos viriam, mas estava livre dessas lembranças ruins. E nesse sentimento de liberdade conseguia ver muitas possibilidades pra minha vida. E elas me agradavam muito.

FIM.

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