Ladrões de Coroas
1 UM RECORTE DA HISTÓRIA
Notas iniciais
Afinal de contas ele sangrava, não o líquido espesso e rubro, mas um fluido luminoso e radiante de um dourado magnífico, como ouro derretido. Seu corpo estava ferido. Encolhi-me diante da cena, impotente. Eu podia sentir o cheiro da pele queimando sob as correntes. Sua face estava contorcida de dor. E havia toda aquela neblina de angústia emanando dele, fazendo com que as criaturas ficassem estagnadas, assustadas e depressivas.
Questionei-me como ele conseguia parecer ainda mais perfeito naquele estado deplorável com o corpo deteriorando, sem a sua característica aura de beleza. Seus esforços para ser mais do que uma mera peça na trama universal havia fracassado e isso partiu meu coração. Mas também fez com que eu o amasse mais, pois agora eu via a vulnerabilidade. E vê-la me fez sentir.
Eu queria correr até ele, arrancá-lo dali, poderíamos descobrir um novo significado para existir, iríamos fazer isso juntos. Eu lutaria por ele até o último instante, era essa a minha escolha. Eu faria isso por ele, assim como uma vez ele cuidou de mim. Tentei deixar minha intenção palpável, havia esperança em meu coração.
Contudo ele negou com a cabeça e sorriu, o ódio flui entre nós, as bestas sacolejaram as amarras. Ele me olhou com aqueles belos olhos flamejantes, não disse uma única palavra, mas parecia uma súplica. As criaturas que antes estavam paradas subiram do abismo agitadas prontas para matar. Eu ordenei que se afastassem, mas elas não recuaram. Eu jamais havia presenciado tal comportamento. Gritei novamente. Eu era a Senhora delas!
As bestas estavam descontroladas. Eu podia sentir a crueldade no ar, quase como se tivesse cheiro e forma. Por um instante pensei que elas estavam direcionando o ataque ao ser preso em minhas correntes. Mas elas passaram por mim e continuaram em direção a ele.
Só então eu entendi o que ele pretendia. Eu não poderia deixar que isso acontecesse, sua existência era a minha, eu precisava dele. Podem dizer que foi amor ou egoísmo, mas eu deixei que ela o levasse.
Eu preferia viver em um mundo que ele me odiasse do que em um que não existisse.
Fale com o autor