Ladrões de Almas
14 Descobertas
Respirei fundo algumas vezes, tentando manter meu foco. Frederick me fez sentar no sofá, ao seu lado.
– Você é muito corajosa, Annie. — Disse ele, segurou minha mão direita carinhosamente.
– Trouxe-me aqui pra falar apenas isso? — Perguntei, lançando-lhe um olhar longo e exasperado.
Frederick sacudiu levemente a cabeça. Delicadamente, retirei minha mão sob a dele.
– Eu te trouxe aqui pra dizer que eu estou... — Ele se interrompeu assim que a porta do escritório foi aberta.
– Precisamos conversar. — Comunicou Melissa, entrando no cômodo. — Nós todos.
Lauren estava logo atrás dela e fechou a porta assim que entraram. Ambas sentaram no outro sofá, em nossa frente. Melissa estava com uma expressão séria — o que me deixou bastante preocupada -, mas Lauren mantinha o mesmo sorriso que me recebera no rosto delicado.
– Filha, eu sei que você vai me chamar de louca e não vai acreditar... Mas, por favor, ao menos tente.
Frederick deu um suspiro fundo.
– Melissa, sua filha é mais inteligente do que pensa. Ela já sabe de tudo. — Disse ele, suavemente.
– Você não tinha o direito de contar à ela... — Melissa franziu o cenho, frustrada.
– O que esta acontecendo aqui? — Levantei-me inquieta. — Eles mataram meu pai e você esta conversando...?
– Nós não matamos seu pai! — Lauren falou rapidamente, parecendo ofendida.
– Não somos demônios, Annie. — Frederick me puxou de volta ao sofá.
– A sua mão queimou em minha porta! — Gritei para ele.
– Shh... — Ele gesticulou pedindo que diminuísse o tom. — Não nos rotule assim.
– Filha, eles foram expulsos. — Melissa se ajoelhou em minha frente, tentando me manter calma.
– Nem Lúcifer os quis. — Ri ironizando.
Lauren cruzou os braços, nitidamente chateada com a brincadeira de mau gosto, mas Frederick não conteve um sorriso.
– Estamos há um século sem nos alimentarmos... Fomos banidos. — Ele explicou. — Perdemos alguns privilégios.
Caramba! Ele tem mais de cem anos? Apaixonada por um velhote, ótimo.
– Um século?! — Olhei-o, incrédula. Fechei os olhos tentando me manter concentrada. — Quais?
– Bem, ficamos presos nesses corpos, então é um pouco difícil nos escondermos dos inimigos. — Ele deu de ombros. — Normalmente, podíamos trocar de aparência...
Hesitei pensativa. Melissa me observava preocupada.
– Quem são seus inimigos? — Insisti.
– Outros demônios. — Dessa vez Lauren respondeu. — Eles dizem que seres como nós, que não matam, envergonham a raça.
Engoli em seco. Aquilo tudo era loucura. Há um dia, achei que Melissa estava completamente fora disso, e hoje é ela quem estava me contando toda a verdade, ao lado das pessoas que pensei serem nossos inimigos.
– E quanto ao homem que você disse ter visto Lauren o machucar... Era um demônio ativo e estava tentando nos matar. — Frederick sussurrou, explicando o mal entendido.
Fiquei quieta por um tempo, tentando digerir. Aquilo tudo me deixou enjoada... Demônios, Semidemônios– eu nem sabia como chamá-los — e caçadores...
– O Ethan sabe sobre vocês terem sido expulsos? — Sussurrei imersa em pensamentos.
– Eu jamais contaria isso à ele... Iria achar que eu sou uma louca.
– Ele é um caçador, mãe. — Disse à eles, lembrando-me de Simon.
Frederick se levantou rapidamente e Lauren o acompanhou, saindo do escritório. Eles deveriam ter pensado o mesmo que eu.
– Como você sabe? — Melissa sentou-se ao meu lado.
– Ele me procurou na escola, perguntou sobre o diário do meu avô e percebeu que eu sabia sobre essas coisas. — Suspirei. — Ele se aproximou de você para pegar o diário, mãe.
– Você achou o diário? — Melissa perguntou, parecendo afetada.
Assenti com a cabeça baixa.
– Ele conhecia o papai... -Sussurrei. — Disse que eles caçavam juntos... Que ele morreu porque não parou de caçar.
– Dan parou de caçar depois que seu avô foi morto... — Ela falou. Ethan estava certo, meu pai havia mentido para ela.
– Não, ele ainda estava caçando junto com uns amigos... O pai do Tony, por exemplo.
– O Tony sabe? — Melissa arfou.
– Ele descobriu mexendo em uns documentos do pai e me falou. Ele quem me entregou o diário... Então, testamos com o Frederick e deu certo. — Cobri o rosto, nervosa. — Estávamos planejando matá-los... Mas eu me apaixonei pelo Frederick e...
– O que você disse, Annie? — Melissa puxou meu rosto, fazendo-me olhá-la.
A preocupação aparente na expressão de Melissa me deixou ainda mais nervosa. Não contive minhas lágrimas, elas escorriam freneticamente em meu rosto.
– Essa história em nossa família de novo, não. — Melissa gritou furiosa.
– Que história, mãe? — Choraminguei.
Melissa se levantou e eu também, por impulso. Quando voltou a falar, quase pareceu estar com raiva.
– O seu avô... Ele era uma dessas criaturas. — Ela hesitou antes de continuar.
Senti minhas pernas bambas e fracas, então sentei-me novamente.
– Ele foi transformado enquanto caçava, mas assim como a família da Lauren, resolveu não matar pessoas e foi banido. — Melissa continuou. — Então, o demônio que o transformou matou a sua avó, com raiva por ele não seguir as regras. E por fim, o matou.
Estremeci.
– Eu tenho medo, filha... Que aconteça o mesmo com você.
– Mas você mesmo estava me empurrando para ele... — Tentei argumentar.
Nós duas viramos para a porta que rangeu. Frederick estava lá, parado e me fitando.
– Annie, sua mãe nos conhece há bastante tempo... — Ele começou. — E durante esse período, nós não tínhamos tantos ataques como hoje. Nesse momento estamos em guerra. Somos centenas contra milhares. — Frederick se aproximou, sustentando meu olhar. — Eu estou apaixonado por você. — Ele admitiu. Melissa apenas abaixou a cabeça. — Mas ela tem razão, não é seguro. Meu dever é te proteger, não te sentenciar.
Meus batimentos se aceleraram ao ouvir aquelas palavras saírem da boca dele, mas eu não podia amolecer. Não agora.
– Vocês se conheciam? — Arfei, confusa e limpei as lágrimas.
– Dan o encontrou caído e o ajudou a encontrar a Lauren e o Simon, que os ensinou tudo. — Melissa disse de costas para nós.
– Espera... — Suspirei, tentando colocar meus pensamentos no lugar. — O que meu pai era, afinal? Humano ou...?
– Ele era híbrido. Um caçador híbrido. — Frederick se aproximou. — Podia ceifar almas, sem precisar ser convidado... Mas ele não podia mudar de pele.
Trinquei os dentes com o pensamento que me veio à mente.
– Eu não sou nada disso, não é?
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