Notas iniciais
Agora me amem.

Erwin não estava mais no banheiro quando foram obrigados a voltar à superfície pela falta que o ar fazia, mas continuaram escondidos dentro do buraco enquanto isso. Eren havia sido baleado no braço por uma das balas que haviam passado de raspão.

Quando Levi abriu os olhos depois de tossir fraco para não chamar a atenção, mordeu o lábio inferior com força antes de se virar de costas para a cena à sua frente. As três crianças estavam mortas, todas baleadas na cabeça pelos disparos de Erwin. O Capitão abraçou Eren, encostando a cabeça no peito do moreno, que apertou o abraço com o braço bom enquanto erguia o ferido para que o afastasse da sujeira enquanto estivessem ali.

Nenhum dos dois dormiram durante aquela longa noite, onde foram obrigados a mergulhar mais vezes na água suja de fezes e urina quando alguns soldados entraram para procurar por prisioneiros escondidos. Com o tempo acabaram por se acostumar com o cheiro, mas não com o som dos disparos e dos corpos sendo queimados ao lado de fora. Até que, aos poucos, todo o campo se silenciou. Eren se esgueirou e colocou apenas os olhos para fora do buraco, avaliando a situação e, aparentemente, não haviam mais soldados. Porém, não correram o risco de deixar o esconderijo até o dia amanhecer, quando foi possível ouvir poucos barulhos ao lado de fora.

Quando vozes conhecidas se fizeram presentes o moreno voltou a olhar para o lado de fora, conseguindo enxergar alguns poucos prisioneiros caminhando, ainda relutantes, como se estivessem procurando por sinais de soldados.

– Nós dever sair agora? – Ele perguntou, ainda em tom baixo, voltando os esmeraldinos para Levi.

– Acha que estamos seguros? – Moveu-se pela primeira vez pelo estreito lugar, apoiando as duas mãos no próximo buraco e erguendo o corpo, olhando para o lado de fora quando recebeu uma resposta negativa do moreno. – Não podemos ficar aqui para sempre, precisamos pensar no que fazer agora.

– Nós sair então. – decidiu, erguendo os braços e forçando-os para que a tábua se erguesse. Eren deixou espaço suficiente para que Levi passasse, este que ergueu mais a tábua pelo lado de fora para que o moreno conseguisse sair.

Os pedaços de fezes se desprendiam das roupas que usavam e caíam no chão, juntamente com a água que pingava, mas aquele era o menor dos problemas que estariam por enfrentar. Caminharam juntos ainda relutantes, escondendo-se nas paredes e olhando de esgueira para o lado de fora. Haviam poucos prisioneiros caminhando por onde estavam, todos na mesma situação em que se encontravam no momento, perdidos e com medo do que poderia vir a acontecer.

Levi foi o primeiro a sair, puxando Eren pela mão. Em nenhum momento se separaram um do outro enquanto caminhavam olhando em volta, dentro dos barracões, construções e alojamentos, e também nos cantos onde geralmente escondiam comida. Não havia sinal algum dos soldados, apenas de pilhas de corpos carbonizados. Encontraram até mesmo pilhas intactas, além, claro dos corredores de mortos que se acumularam entre as vielas das construções, a maioria deles baleados.

Os dias que se seguiram resumiram-se à praticamente enterrar os corpos e limpar o campo para que não surgissem doenças piores que as que já eram obrigados a conviver. A procura por comida era algo que também consumia tempo, visto que estavam abandonados em uma zona tão remota que não havia nenhum centro comercial próximo. Eren havia pego toda a comida que ele e Nanaba haviam escondido no alojamento e juntou com as que os outros prisioneiros sobreviventes esconderam, começando então a fazer um racionamento severo enquanto não sabiam o que fazer. No entanto, a comida estava acabando rápido demais.

Levi havia emagrecido mais naqueles últimos dias, assim como os outros prisioneiros. Com a falta de comida, precisaram se sacrificar mais que o necessário, ficando alguns dias sem comer. Pessoas continuavam a morrer a cada dia que se passava, porém, dessa vez não era pelo cansaço, trabalho ou assassinato, e sim de fome. E como se não fosse suficiente, Levi começava a se preocupar com o ferimento no braço de Eren, causado pelo disparo de Erwin no dia em que os Nazistas deixaram Monowitz.

Cicatrizar logo. Não precisar se preocupar. – Ele disse quando o Capitão o examinava mais uma vez, limpando como podia o ferimento antes de cobri-lo. Porém aquilo não o tranquilizava, afinal, a cor do machucado não o agradava nem um pouco.

– Você precisa se alimentar mais, pode ficar com as minhas porções hoje. – comentou, terminando de ajeitar a roupa do moreno.

– Não! Você precisar também! – negou imediatamente, segurando o pulso de Levi, fazendo-o erguer os olhos para si.

– Eu insisto. Pelo menos assim seu machucado pode cicatrizar mais rápido. – Suspirou, levando as duas mãos aos cabelos negros, puxando-os levemente e fechando os olhos em seguida. – Essa situação é tão deprimente...

Eren não respondeu, apenas respirou fundo antes de levar as duas mãos aos pulsos de Levi, impedindo que ele puxasse seus cabelos novamente. Aquilo atraiu a atenção dos olhos cinzentos mais uma vez, que fitaram a expressão sorridente do moreno.

– Melhor nós dormir. Amanhã ser dia longo. – sugeriu e Levi não negou.

Continuavam abraçados mesmo com o maior "conforto" que agora tinham nas beliches por conta da quantidade de pessoas que haviam sido executadas há alguns dias atrás. Havia se acostumado com o corpo do moreno próximo ao seu daquela forma e admitia, agora, gostar daquela sensação. Imaginava também se o moreno pensava ou sentia o mesmo.

– O que vai fazer quando sairmos daqui? – perguntou pouco tempo depois, atraindo a atenção dos esmeraldinos para si.

– Se sair. – respondeu, apertando mais o abraço e batendo de leve a cabeça na madeira. – Eu não saber. Eu não querer voltar para Alemanha... Eu não ter nada.

– Quer ir para a França comigo e recomeçar? – Aquela pergunta havia pego o moreno de surpresa, que se afastou do Capitão por breves momentos, olhando-o fixamente por alguns segundos.

– Eu... Poder ir? – perguntou em um tom levemente animado ao ver uma resposta positiva, abraçando o corpo de Levi com mais força. – Obrigado!

Sorriu bem de leve antes de fechar os olhos e se entregar ao sono. Porém, foram acordados por um som alto vindo do lado de fora. Era, provavelmente, de manhã quando ouviram barulhos de motores próximos dos alojamentos, seguido por algo que se assemelhava à vozes que ordenavam algo. O dormitório inteiro havia acordado, mas um silêncio perturbador reinava sobre todos, já que imaginavam que os Nazistas haviam voltado.

Levi foi o primeiro a se levantar, movimentando-se pelo corredor que as beliches faziam agachado até se aproximar de uma das janelas, onde se ergueu apenas o suficiente para que pudesse olhar para o lado de fora. Para o seu espanto, alguns soldados caminhavam armados pelo campo, seguidos de perto por uma considerável artilharia. Em um primeiro momento Levi pensou em se abaixar e se entregar ao pânico, no entanto, estreitou os olhos para conseguir enxergar melhor. Aqueles soldados não usavam os uniformes que estava acostumado a ver.

– Não pode ser... – comentou alto, levantando-se por completo, ainda parado em frente à janela. Ouvia a voz de Eren atrás de si, que o questionava sobre o que estava vendo, mas não respondeu e a única reação que teve foi correr para a porta, escancarando-as antes de correr para o lado de fora, gritando e gesticulando exageradamente. – Estamos aqui!

Os cinzentos fitaram arregalados quando os soldados que andavam por ali pararam e se voltaram para si, ajoelhando no chão logo em seguida. Eram soldados soviéticos e, mesmo sabendo que eles não entendiam uma palavra do que dizia, continuou ali, pedindo ajuda à eles, que fitaram atônitos quando vários homens magros, cansados, desnutridos e mal tratados passaram a sair do dormitório de Levi e, em seguida, dos outros alojamentos também.

Levi se permitiu, naquele momento, agarrar os próprios cabelos e puxar com força enquanto chorava audivelmente, queria acreditar no que seus olhos estavam vendo, queria acreditar que aqueles eram realmente os soviéticos e que os resgatariam daquele inferno. Queria acreditar, com todas as forças, que a guerra havia finalmente chegado ao fim.

Mas principalmente, queria acreditar que teria a chance de abraçar a mãe mais uma vez.

Notas finais
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