La Petite Mort

2 Primeira Impressão


Notas iniciais
Boa noite, leitores! Como estão? Obrigada a todos que leram e mesmo com o pouco feedback (e as minhas poucas resoluções a respeito da história), resolvi postar mais um capítulo como presente de Natal. Espero que gostem, boa leitura!

As batidas na madeira da porta do escritório não foram escutadas em meio aos sons do trânsito do lado de fora. A figura feminina, sentada em uma rica cadeira de couro, continuou a ler atentamente o chumaço de papel que tinha em mãos. Os olhos castanhos corriam pelas linhas impressas e a testa tinha rugas de concentração. A franja caía sobre os olhos, mesmo que estivesse presa de lado, junto com algumas mechas.

A jovem permaneceu concentrada, até mesmo quando a porta de seu escritório foi aberta. Os olhos verdes do rapaz reviraram-se, por debaixo dos óculos, ao notar a colega tão concentrada no trabalho, ele respirou fundo e comentou divertido:

– Isso é sério, Hermione? Estou batendo em sua porta há pelo menos cinco minutos.

– Eu duvido muito, Harry. Você não é paciente o bastante para agüentar cinco minutos de espera. — Hermione respondeu no mesmo tom, levantando os olhos dos papéis que segurava por breves momentos. Harry sorriu para ela e caminhou até a cadeira em frente à mesa da amiga, sem que ela notasse, esticou-se e retirou os papéis das mãos dela. Hermione franziu a expressão para ele. — Qual é o motivo para você ter me interrompido tão educadamente?

– Preciso conversar com alguém. Na verdade, você é o assunto. Mas eu preciso discutir todos os outros empecilhos da situação. — Harry parecia um pouco temeroso naquele momento, Hermione encostou-se em sua cadeira e observou o amigo, a expressão séria e pensativa tomou-lhe a face e Harry, a sua frente, coçou os cabelos escuros, um pouco desconfortável. Hermione pigarreou e perguntou direta:

– O que foi que você aprontou dessa vez, Harry?

– Eu realmente fico admirado como você sempre pensa em mim como o causador de tudo, nunca como vítima. — Harry comentou ofendido, os olhos verdes estavam, como sempre, transmitindo tudo que ele sentia e Hermione abriu um sorriso quando leu como o amigo estava preocupado através deles.

Hermione e Harry eram amigos há muito tempo, cursaram Direito em Cambridge e depois de formados, montaram um escritório de advocacia em Londres. Para Hermione, Harry era o irmão que ela nunca tivera a oportunidade de ter, já que era filha única. Enquanto para Harry, Hermione era um pouco da família que ele nunca tivera, pois os pais do jovem faleceram em um acidente de carro do qual ele herdara uma cicatriz na testa, e ele fora obrigado a viver com os tios, dos quais nunca fora muito próximo.

Os dois estavam sempre juntos, enquanto podiam. Isso levara muitos a crer que, talvez, os dois estivessem em uma relação. Harry e Hermione sempre negavam, reforçando o quanto eram amigos. Mas a proximidade de ambos resultara em uma relação em que um conhecia muito bem o outro. E Hermione sabia muito bem como Harry desprezara certas regras e normas, mesmo sendo um excelente advogado.

Não se surpreenderia caso fosse chamada à polícia para atuar como advogada de seu melhor amigo.

– Tudo bem, me desculpe pelo julgamento premeditado... Mas eu não posso pensar menos de você, Harry. Foram anos tirando você das piores enrascadas em Cambridge, eu lhe conheço muito bem. — Hermione amenizou a situação com um pedido de desculpas e um sorriso, Harry corou levemente e concordou com a amiga, abrindo um sorriso enorme também. Ele suspirou e recostou-se relaxadamente na cadeira, ajeitou os óculos e perguntou:

– Você se lembra daquela garota ruiva que eu conheci em um pub aqui em Londres?

– Ah claro, aquela pela qual você ficou falando dias e dias... Sobre quão maravilhosa ela era e em como se arrependia por não ter ido se despedir quando ela voltou para a cidade dela. — Hermione comentou em um tom sério, mas que acabou provocando ainda mais rubor em Harry. Ela conhecia todas as expressões do amigo e sabia muito bem o que aquele corar significava. Harry acenou com as mãos, envergonhado. — Como era o nome dela? Weezly?

– Gina Weasley, ela é caçula de uma família enorme. Eu conheci um dos irmãos dela na época, o Bill. — Harry continuou a sua explicação, respirando com um pouco de dificuldade, tentando conter as palpitações e estranhas reações em seu corpo toda vez que pensava na ruiva do sorriso maravilhoso. — Eu mencionei que tinha um escritório de advocacia enquanto falávamos sobre trabalho. E ele me ligou ontem.

– Ele precisa da gente? — Hermione perguntou ansiosa, retirando alguns papéis de cima de sua mesa, de casos que já estavam resolvidos. Sua mesa estava bem mais vazia do que a de Harry. O rapaz sempre estava atribulado de serviço, Hermione o ajudava algumas vezes porque ele parecia não trabalhar bem com prazos a serem cumpridos. Harry acenou com a cabeça e continuou:

– Na verdade, ele me pediu para indicar alguém para ele. Disse que era melhor eu não me envolver nisso porque envolvia a família dele e Gina estava contra ele naquele momento. Parece sério.

– E você pensou na sua melhor amiga para isso? Bela amizade, Potter. — Hermione comentou um pouco desolada, olhando tristonha para o amigo. Harry gargalhou diante de sua carranca e continuou:

– Você adora desafios, Mione. Sua série de confrontos contra a “toda poderosa até então” Parkinson são famosos. Bill me explicou um pouco da história e me parece ser ideal para você. E ele me pediu um bom advogado. Você é uma das melhores de Londres, não sou somente eu que acho isso.

Naquele momento, foi Hermione quem corou diante dos elogios de Harry. O seu amigo sempre fora muito sincero na admiração que nutria por ela e Hermione sempre fora muito dedicada nos estudos, suas notas na universidade nunca foram piores do que “Excelente” e seu currículo era vasto, apesar de ter apenas 27 anos. Era jovem, mas não eram poucos especialistas que já a colocavam entre os melhores, de certa forma, ela já estava construindo uma reputação junto com Harry.

A jovem advogada levantou-se e começou a caminhar, de um lado para o outro, em seu escritório. Podia sentir os olhos de Harry a observarem e ele estava bastante ansioso. Hermione parou bruscamente e virou-se para o rapaz, em seguida, colocou as mãos na cintura e disse mandona:

– Pode ir me contando a história.

Harry sorriu. Bill ficaria satisfeito.

Eis a história: aparentemente, Bill era casado e estava separando-se. Sua futura ex-mulher e ele investiram em um negócio da Família Weasley, um antigo estabelecimento que eles transformaram em um requintado dinner na pequena cidade de Ottery St. Catchpole. Os dois casaram em comunhão de bens e estavam separando-se amigavelmente, só que a Família Weasley não aceitava a proposta de Bill para resolver tudo aquilo: ele queria a ex-mulher como sócia, meia porcentagem de lucro para cada um.

Para Hermione parecia bastante justo. Para os Weasleys, na verdade, para a matriarca e Gina (a paixonite de Harry) parecia loucura. As duas alegavam que o negócio era de família antes de ser entregue a Bill e a ex-mulher não tinha direito algum sobre o estabelecimento, mesmo que tivesse se dedicado a ele nos últimos anos. Aparentemente, um prazo fora dado para que a mulher de Bill desistisse de tudo.

E Bill, como um perfeito cavalheiro que aparentava ser, foi até Harry para pedir um advogado neutro para toda aquela confusão. Hermione não negava que parecia ser algo interessante e até mesmo leve após os pesados casos dos quais ela vinha tratando ultimamente. Sem mencionar que viajar até o sudoeste da Inglaterra sempre era bom, pareciam ser uma espécie de férias remuneradas com trabalho.

E além de Hermione Granger ser uma espécie de workholic, ela também estava curiosa para conhecer a matriarca Weasley com toda aquela postura protetora sobre a família e ver em que Harry tinha se metido ao se apaixonar por Gina Weasley, quer dizer, ela parecia ser uma versão mais jovem e selvagem da mãe.

Hermione remexeu o cartão de Bill Weasley entre seus dedos, observando o número de celular. Por fim, tomou um último gole do chá e decidiu-se por, enfim, aceitar o caso. A jovem advogada apagou as luzes de sua casa e caminhou até a sua cama, adormeceu assim que sua cabeça tocou o travesseiro.

# # # # #

Fleur estava um pouco emocional nos últimos dias. Seus olhos azuis estavam um pouco inchados e ela sabia que estava mais pálida, mesmo assim, se opusera às sugestões de Bill de ficar em casa e descansar. Ela sabia que se desaparecesse do “La Petite Mort”, viraria motivo para ser envenenada no povoado. Molly Weasley estava esperando uma oportunidade para começar a acabar com sua imagem.

Então, motivada por isso e por toda a ânsia de continuar no pequeno estabelecimento que era a sua vida, Fleur trabalhara normalmente nos dias que se seguiram à batalha em sua sala de estar. Porém, ela não podia ser forte o tempo todo e chorara em muitas vezes, como também parecia insegura de seus movimentos e errara algumas receitas que eram fáceis para ela.

Fleur Isabelle Delacour Weasley nasceu em Paris, porém, conhecera praticamente toda a França devido ao trabalho de seus pais. Fleur era descendente de uma longa linhagem de chefes de cozinha, a Gastronomia parecia ser uma exigência para ser uma Delacour. Entretanto, Fleur entrara em algumas desavenças com seus pais e acabara vindo para a Inglaterra estudar Gastronomia em Oxford. Conhecera Bill na universidade, a empatia entre os dois foi instantânea e quando dera por si, ambos tinham terminado suas respectivas faculdades e estavam noivos.

Naturalmente, os dois foram parar em Ottery St. Catchpole e Fleur, naqueles cinco anos, compreendera bem como era ser indesejada pela Família Weasley. Apenas Arthur, Rony, Charlie e o próprio Bill pareciam gostar dela, das poucas vezes que vira Percy, ele também parecia ser agradável. Ah, e os gêmeos gostavam de qualquer um que pudesse irritar a mãe. Mas as duas mulheres da família e, como pode perceber depois, os pilares de sustentação dos Weasley, jamais gostaram dela.

E Fleur não era bem o tipo de pessoa que mudava para agradar os outros.

Quando seus olhos encontraram o pequeno e aconchegante dinner da Família Weasley, Fleur não conseguiu impedir a sua mente de trabalhar nele. Bill lhe deu todo o apoio e a ajudou em todas as mudanças que ela se comprometera a fazer. Fleur mudou o cardápio, incluiu algumas comidas francesas e mudou o nome do estabelecimento. Molly Weasley detestara tudo, desde a inauguração, até o sucesso do local.

E ela mal sabia o que o nome significava em francês.

A guerra que Fleur travara contra as duas Weasleys era desgastante, mas revigorante. Ela estava disposta a continuar as batalhas, desde que tivesse Bill e o dinner como recompensas... Entretanto, Bill se apaixonara novamente e Fleur era amiga demais dele para prendê-lo em um casamento que nunca passara de uma excelente amizade. Porém, Bill também a conhecia bem e sabia que ela não poderia sair de mãos vazias...

Fleur só sabia que não podia perder o “La Petite Mort”. Amava cozinhar, amava a vizinhança e, não gostava de admitir, mas amava aquele pedacinho da Inglaterra... Não queria voltar para França.

– Você está trêmula... Está tudo bem? — A voz grave de Bill chegou aos ouvidos de Fleur e ela, assustada, derrubou a pequena panela que segurava. O som do metal chocando-se contra a pia assustou alguns funcionários, principalmente Neville que estava lavando alguns pratos e acabou derrubando-os também. Bill aproximou-se mais e beijou a bochecha da esposa. — Me desculpe por assustá-la.

– Não deveria ficar tão próximo, mon cher... — Fleur sibilou incomodada com um sorriso de lado, desvencilhando-se do futuro ex-marido e apanhando a panela na pia. A chefe colocou-a no fogo e apanhou um punhado de manteiga com a colher, na bancada ao lado do fogão, jogando-a no fogo. Depois, apanhou o músculo bovino e colocou na mesma panela. Enquanto mexia a carne com uma colher, Fleur olhou por cima dos ombros e encontrou o jovem garçom do restaurante olhando sua interação com Bill atentamente. — Cedric está nos observando.

– Ele já sabe de tudo, eu expliquei a ele. — Bill respondeu desconfortável, o rubor subindo-lhe pelo pescoço. Fleur sorriu para ele e afagou-lhe a face, Bill sorriu envergonhado e ela lhe apertou a bochecha, risonha. Era impossível não se apaixonar por Bill Weasley, seja pelo sentido amoroso da expressão ou pelo sentido fraternal. Ele era um homem incrível e isso estava em falta nos dias atuais.

Fleur limpou a mão que afagara Bill em uma toalha que trazia presa à cintura de seu dólmã e voltou sua atenção para a panela, a manteiga derretia lentamente e banhava a superfície do músculo. Bill trocou um breve olhar com Cedric e apontou com a cabeça para Fleur, fazendo uma careta, o rapaz de olhos cinzentos sorriu abertamente provocando risos no ruivo. Fleur levantou os olhos e encontrou os dois rindo dela, a francesa franziu a testa e bronqueou:

– Vocês dois não deveriam estar trabalhando?

Mais risos e alguns cutucões de Bill em sua cintura até que, finalmente, Fleur fosse deixada em paz na cozinha, com um sorriso no rosto. A cozinha voltou a ficar silenciosa, exceto pelos sutis sons dos vidro de copos e pratos se encontrando na pia, enquanto Neville os lavava. Aquele som era familiar e a tranqüilizava, Fleur voltou sua atenção para a carne que continuava a ser banhada pela manteiga.

Quando a carne finalmente secou e incorporou toda a manteiga, Fleur acrescentou alho e cebola, refogando-os. Em seguida, acrescentou os demais temperos e abriu um sorriso ainda maior quando um cheiro delicioso tomou conta da cozinha. A chefe fechou a panela e tomou um gole da taça de vinho que sempre deixava por perto enquanto trabalhava.

O vinho tinto, levemente seco, chegou aos seus lábios e ela o saboreou grandemente. A torrente de água cessou e os olhos azuis de Fleur encontraram Neville que secava as mãos em um pano, antes de secar a louça. O tímido garoto pigarreou e comentou:

– O cheiro está maravilhoso, Miss Delacour.

– Eu já disse que você pode me chamar de “Fleur”, Longbottom. — Fleur comentou levemente impaciente, o garoto corou e acenou com a cabeça, mas não mais falou. Fleur agitou a cabeça negativamente, arrependida da forma como respondera e voltou-se para a panela. A carne já estava pronta e ela colocou-a em um prato branco simples, arrumou um pouco a aparência da refeição e deixou-a em cima do balcão de madeira, tocando o delicado sino em seguida.

Aquele sino era uma das coisas que Fleur não se atrevera a tirar do antigo “Molly’s Kitchen”. Bill explicou toda a história por trás dele, de como Arthur o comprara para tentar fazer a mulher parar com a mania de gritá-los quando chegava a hora do almoço e de como isso não funcionara. Fleur achou engraçado e resolveu mantê-lo.

Segundos depois de ter tocado o sino, Cedric apareceu com aquele sorriso e apanhou o prato, colocando-o sobre a bandeja. Ele era um dos poucos funcionários que possuíam no dinner. Cedric tinha só mais um companheiro para servir as mesas, Seamus fora intimado a ser garçom depois de ser reprovado, por Fleur, para ajudá-la na cozinha. Ele tinha uma tendência particular a queimar as refeições. Neville lavava os pratos e auxiliava quando o movimento estava exacerbado, na maioria das vezes, quem ajudava Fleur era Luna que não era muito melhor do que Seamus, ela se distraía frequentemente, mas era prestativa. Cho acompanhava Bill no fechamento das contas e atuava como uma secretária da administração.

Aqueles poucos funcionários eram o mais próximo de uma família que Fleur possuía na Inglaterra. Por mais que os tratasse mal e que, ás vezes, fosse uma megera, ela não queria perdê-los. A administração no dinner era daquela forma: Bill era bonzinho e ela que levava a fama de má. Era tudo tão familiar que já estava inerente à pessoa que Fleur Delacour se tornara.

Haviam poucos clientes no local, já era o fim do expediente de sábado e Ottery St. Catchpole era uma pequena cidade que ainda assim oferecia alguns programas para o final de semana. Fleur conseguia escutar o som da banda que tradicionalmente tocava e atraía algumas pessoas para a praça da cidade.

A chefe voltou à cozinha e colocou-se a limpar seus utensílios. Neville estava encolhido de encontro à parede, um pouco amedrontado. Fleur sorriu mais calma para ele e, como se quisesse se redimir da grosseria anterior, sugeriu charmosa:

– Vá para casa, Neville... Eu posso lavar o que restar das demais louças.

Neville parecia estar prestes a explodir, ele apenas acenou com a cabeça freneticamente e saiu da cozinha pela porta dos fundos enquanto retirava o avental. Fleur esperou que ele saísse para rir do gestual desengonçado do rapaz. Fleur lavou uma de suas facas até escutar os passos de Cedric em seus domínios, ela sabia que era ele pelo andar apressado, Bill era muito mais gentil, até mesmo no andar. O garçom pigarreou e disse:

– Chegou mais um pedido, Fleur.

– Essa hora? Nós não tínhamos fechado a porta da frente? — Fleur perguntou na sua tradicional fúria contida que era desencadeada diante do descumprimento de alguma ordem sua. Cedric engoliu em seco e a observou, as bonitas feições dele estavam distorcidas em uma careta desconfortável. Fleur não aplacou suas atitudes, já era quase meia-noite e ela estava cansada. A porta já deveria estar fechada há muito tempo. Cedric respirou fundo e, após suspirar longamente, respondeu:

– A porta estava fechada. Mas a cliente parece conhecer Bill, os dois estão conversando lá fora.

Mal Cedric tinha terminado de falar, Fleur já tinha esmurrado a porta da cozinha e caminhava através do dinner.

Hermione observava o pequeno estabelecimento com o ar ligeiramente impressionado, a sua frente, Bill Weasley sorria diante da sua aparente surpresa. Realmente, era impressionante o que ele e a futura ex-mulher tinham feito com o local. Era pequeno, aconchegante e se o exterior ainda aparentava ser um típico dinner britânico, o interior aparentava ser um pequeno, mas respeitoso, restaurante da alta culinária.

Agora, ela conseguia compreender por que os dois queriam manter o local funcionando. Parecia que funcionara melhor com a administração dos dois. Casamento falido, negócios lucrativos à parte.

Entretanto, Hermione jamais estaria preparada para o que viria a seguir. Assim que seus olhos castanhos desviaram-se da pequena adega da qual o garçom viera anteriormente, eles encontraram olhos azuis, gélidos e furiosos.

Olhos hipnotizantes, selvagens... Apaixonantes.

Aqueles olhos a prenderam instantaneamente. Hermione só conseguiu entender quem era a dona daquele olhar tão penetrante quando a mesma rompeu-lhe o contato visual. Aquela era a futura ex-mulher de Bill Weasley?

Hermione não conseguia entender por que alguém seria capaz de largá-la.

A mulher era extremamente alta, o corpo era magro, mas Hermione conseguia enxergar algumas curvas na bela estrutura encoberta pelo dólmã. A chefe retirara a bandana azul que lhe prendia os cabelos e os fios loiro caíram-lhe pelas costas, emoldurando o delicado rosto oval, branco como porcelana. Ela também desabotoara o dólmã e o puxara bruscamente pelos ombros, Hermione então conseguiu enxergar o corpo que não parecia pertencer a uma chefe de cozinha e sim a uma modelo.

Ela não parecia sequer uma modelo. Qualquer definição parecia muito pouco para o que ela era.

Hermione voltou, hipnotizada, os olhos para a face da mulher que, mais próxima, conseguiu enxergar o discreto rubor furioso em suas bochechas alvas e até algumas sardas cor de mel em seu perfeito nariz reto. A boca de lábios cheios estava entreaberta e ela parecia estar com dificuldades de respirar após uma caminhada tão intensa. O ritmo ofegante dos seios dela parecia ser sedutor, mesmo que denotasse cansaço.

E, pela primeira vez, os olhos azuis pareceram finalmente enxergar os olhos castanhos. A mulher paralisara mesmo com a cadeira que o garçom puxara para ela, o ritmo de sua respiração também se abrandara e ela crispou os lábios enquanto olhava Hermione. A advogada remexeu-se incomodada em sua cadeira enquanto sentia aquela mulher estudá-la com um afinco digno dos melhores juízes que enfrentara nos tribunais. Hermione, não agüentando a posição de inferioridade em que se encontrara sentada, colocou-se em pé e estendeu a mão, relutante ao se apresentar:

– Boa noite, Miss Delacour. Sou Hermione Granger.

– Quem é essa mademoiselle, Bill? — O sotaque francês estava forte e delicioso na voz grave, Delacour praticamente ignorou a mão estendida de Hermione e voltou os olhos gélidos e elétricos para o marido, o ruivo passou a mão sobre a testa, o sorriso havia desaparecido de suas feições e a advogada compreendeu que ele teria que se explicar, de qualquer forma. Delacour parecia ser tão enérgica quanto era linda. Bill suspirou e, olhando derrotado para a esposa, respondeu:

– Ela é amiga de Harry, o atual romance de Gina, em Londres. Ela é advogada.

– E você acha que precisamos de uma advogada, chérie? — Hermione observou as palavras gélidas de Delacour atingirem Bill, o dono do dinner fez sinal para o garçom que se apressou a servir vinho para todos. Mal a taça tinha sido enchida e a mulher já tomara um gole. Hermione bebericou sua taça e, cautelosa, falou:

– Bill me explicou a sua situação. Estou aqui para ajudá-la.

– Acontece que não precisamos de sua ajuda, mademoiselle Granger. Eu não vou a lugar algum e não serão as ingratas da Família Weasley que me expulsarão do que também é meu! — Delacour contra atacou Hermione com o mesmo ar gélido com o qual se referiu ao marido, a advogada observou as gotículas de vinho nos lábios da chefe com profundo interesse, precisou balançar a cabeça várias vezes para se concentrar. Hermione respirou fundo e insistiu:

– O estabelecimento é tão seu quanto de Bill, mas, infelizmente, a hereditariedade e a herança são componentes que ainda pesam muito dentro de um tribunal e a senhorita corre o risco de perder tudo pelo qual trabalhou senão for bem orientada por um advogado.

A loira tomou mais um gole de sua taça, esvaziando-a. Bill agitava a cabeça negativamente enquanto escondia o rosto entre suas mãos. A chefe colocou-se em pé e respirou fundo, o rubor em suas bochechas indicava que ela não estava no melhor de seus dias em relação à bebida. Hermione observou cada um de seus movimentos, perfeitamente hipnotizada pelas formas daquela mulher.

Delacour apanhou a folha com o pedido de Hermione e o leu com um sorriso discreto, a chefe suspirou e ajeitou a calça e camisa que usava antes de dizer sarcástica:

– A senhorita não me parece tão experiente assim. Asseguro que eu mesma posso me orientar, passei cinco anos enfrentando as duas e sei muito bem como elas agem e no que eu me meti quando casei com Bill.

Bill colocou-se em pé, também e sua expressão deixava claro que ele ia intervir e bronquear a esposa. Entretanto, Hermione também se colocou em pé com um discreto sorriso nos lábios, sorriso que provocou uma expressão curiosa nas belas feições da loira. Hermione era viciada em desafios. A advogada caminhou até a chefe e o cheiro de temperos e lavanda que ela exalava tomou conta de todo o ar respirável ao seu redor, Hermione vacilou, mas a olhou nos olhos, sem temer e pronunciou-se:

– A senhorita que não me parece muito experiente ao negar os meus serviços. Você não sabe quem eu sou em Londres. E não custa nada aceitar um pouco da ajuda que lhe é oferecida, Miss Delacour.

– Eu não preciso de ajuda, mademoiselle! Nunca precisei da ajuda de ninguém! — Delacour esbravejou dramaticamente ofendida, a francesa olhou ferida para o esposo, deixando claro que aquilo que dissera também cabia a ele. Bill fez menção de aproximar-se dela, mas ela recuou um passo. A chefe tornou a olhar para Hermione e, por mais que seus olhos brilhassem diante da iminência do choro, ela não fraquejou. — Arrume outra pessoa, mais experiente do que eu, para fazer o seu Bouillabasse.

Hermione observou surpresa quando Fleur Delacour virou-lhe as costas e saiu do dinner com passos leves, mas que pareciam carregar a fúria de um vulcão. A advogada voltou-se para Bill que, mesmo diante da tensão de todo o acontecimento, tinha um discreto sorriso nos lábios. O ruivo respirou fundo e comentou divertido:

– Infelizmente, o Bouillabasse dela é o melhor que eu já comi.

O garçom que os servia também riu e Hermione também, por mais que os olhos marejados de Fleur estivessem em sua mente. Aquela mulher parecia tão complicada quanto linda.

Naquele momento, Hermione quis matar Harry por ter mencionado aquele caso.

Notas finais
Agora que tivemos a interação das duas, espero que os comentários venham mais intensamente... Preciso do feedback de vocês para averiguar se eu exagerei, extrapolei ou deixei a desejar com todo esse universo que estou criando. Espero reviews! Com carinho, FerRedfield