Notas iniciais
Olá! Tudo bem com vocês? Eu sei, a demora... Não existem desculpas passíveis de aceitação para a demora na atualização, por isso, eu resolvi recompensá-los de outra forma, com esse capítulo que é, de longe, o meu preferido. Nele, teremos a presença de mais alguns Delacour e, sobretudo, muito Fleurmione... Espero que na medida certa para vocês não me odiarem tanto pela demora Hahahaha Enfim, caso queiram escutar algo enquanto leem, eu volto a indicar Hozier (eu sei, repetitivo, mas, esse homem é a cara das duas). "From Eden" (é a descrição da Fleur dessa história), "Run" e "In a Week". Espero que gostem!

Hermione não teve a melhor das noites em sua primeira vez na Mansão Delacour. E a sua insônia não teve relação alguma com a cama que lhe era desconhecida ou com qualquer desconforto físico. A sua ausência de sono era motivada pela ausência de Fleur próxima a si.

Foram as poucas noites em que dividiram a cama, mas, muita era a saudade que a morena sentia do corpo da francesa próximo ao seu. Naquela noite, a cama aparentava ter tornado-se maior e mais fria e o seu corpo parecia entregue a um torpor em que nem mesmo o sono era capaz de penetrar.

Hermione vagou entre o sono e a vigilância, mas, jamais, se entregou aos braços de Morfeu. Era uma sensação sufocante, como se, em sua primeira noite sem Fleur, fosse subitamente acordar em uma realidade em que a francesa, de fato, não pertencia. A morena não lembrava ter se sentido de tal forma, muito menos, sabia como lidar com aquela sensação.

Uma noite sozinha foi necessária para despertar, dentro de Hermione, o sentimento de necessidade. Era prematuro afirmar, mas, naquele momento de sua relação com Fleur, a advogada não lidava bem com a ideia de se afastar. O que era estranho visto que, apenas há alguns dias, cogitara deixá-la por não tê-la sentido inteira junto de si.

Contudo, Fleur Delacour não era Astoria Greengrass e nem podia ser comparada a tal.

A francesa era exatamente tudo que Hermione desejara, encontrada quando não procurava. Fleur sorria verdadeiramente quando estava ao seu lado e tudo que a advogada queria era proteger aquela felicidade, queria que Fleur a sentisse em todos os dias e queria que esse sentimento iluminasse os olhos cerúleos que aprendera a amar.

Sim, o amor.

O sentimento que era confuso e abstrato para Hermione e que se personificou em Fleur. Aquilo que lera em livros e que, agora, sentia intensa e inteiramente em seu corpo. Sequer se levantara e seu coração estava acelerado, mal pensara em Fleur e toda a sua mente já projetava a imagem saudosa dela em sua mente... Hermione sorriu, bobamente, para suas mãos quando as flagrou tremendo ao lembrar Fleur.

Estava perdidamente apaixonada por aquela francesa complicada e intempestiva. E, assim como a sua razão era teimosa, o seu coração também era e, por isso, Hermione estava disposta a lutar.

Não somente contra Othon e, também, contra qualquer obstáculo que se interpusesse entre ela e Fleur. E, em seu íntimo, silenciosamente sabia que a francesa estava disposta a fazer o mesmo... E era reciprocidade de um sentimento dessa magnitude que a trouxera a França.

E era, sobretudo, pelo amor correspondido que ela aceitara aquela noite sozinha.

Os olhos castanhos de Hermione despertaram efetivamente somente quando ela tomou um banho frio. Suas mãos tatearam por roupas que ela não se preocupou em escolher e ela saiu do quarto quando apenas uma luz pálida ousava desenhar-se no céu de Paris.

No corredor, uma brisa fresca lhe deu bom dia. Hermione sorriu para a corrente de ar que tocou a sua pele e caminhou devagar pelo corredor dos quartos da Mansão Delacour. Diferentemente de seu quarto, o quarto de Fleur ainda encontrava-se fechado e silencioso. Ainda que seu coração tivesse apertado, a morena sabia quão esgotada — física e emocionalmente — a francesa estava.

E ainda tinha a inauguração naquela noite!

Os punhos de Hermione imediatamente se fecharam quando ela lembrou-se do evento, assim como sentiu a fúria percorrer sua corrente sanguínea, tornando seus olhos frios e suas bochechas rosadas.

Othon Delacour estaria naquele local e, a partir da primeira impressão, Hermione tinha a certeza de que ele não deixaria Fleur em paz. Othon era um perseguidor do pior tipo e, pior, estava impune. Não poderia contar com alguém da família para proteger Fleur.

Mas, não era como se precisasse... Frente a Othon, Hermione sentia-se uma leoa e sabia que o dilaceraria quando pudesse.

Sabia que seria capaz de destruí-lo se ele ousasse se aproximar de Fleur. Ela jamais deixaria aquele homem se aproximar para, novamente, ferir quem ela amava. Hermione estava ali por Fleur e não vacilaria se tivesse que cometer uma loucura por ela.

Os pensamentos de Hermione se calaram quando outro som chegou aos seus ouvidos. Uma porta se abrira no corredor e saltos ecoavam no piso, próximos a si. A morena virou o corpo e recebeu quem também acordada, estremeceu ao encontrar Apoline Delacour, perfeitamente vestida e desperta. A senhora não sorriu e educadamente, cumprimentou:

— Bom dia, Mademoiselle Granger.

— Bom dia, Mrs. Delacour. — O tom educado na voz de Hermione fazia companhia à frieza. A morena sabia que Apoline não simpatizara com ela e até tentava não julgar, levando em conta toda a tensão entre Fleur e a mãe, mas, não podia disfarçar o seu incômodo e, principalmente, o seu desprezo. Não sabia se a desaprovação era fruto do preconceito ou da decepção em relação ao que Fleur era, contudo, Hermione não podia tolerar. Apoline sorriu pequeno e arqueou a sobrancelha direita, atos que a morena já presenciara em Fleur e, divertida, perguntou:

— Dormiu bem?

— Não foi a melhor das minhas noites, mas, nada a reclamar das acomodações de sua casa, senhora. — Hermione respondeu aguerrida, pronta para travar uma batalha de indiretas. Apoline não desaparecera com um sorriso e até dera uma natureza maligna a ele, a senhora sabia o que estava fazendo e não tentava esconder. A senhora aproximou-se dela e fez sinal, com uma das mãos, para que Hermione caminhasse ao seu lado.

Um discreto revirar de olhos e Hermione caminhou, contrariada.

— Então, por que está acordada tão cedo? — Apoline dissimulou quando as duas desciam a escada. Hermione fechou a mão direita no corrimão, esperando que essa atitude dissipasse um pouco da irritabilidade naquela manhã e sorriu, de forma agressiva, ao responder:

— Meus dias começam cedo em Londres. E nem sempre, as minhas noites são para serem dormidas... Estou acostumada.

— Ah claro, o ramo da advocacia não é fácil... — Apoline comentou de forma respeitosa e aquela foi a primeira vez que Hermione percebeu algo além da manipulação. A morena ergueu os olhos, corajosa, para a mais velha e Apoline abrandara a máscara de frieza e deixara um pouco de seu amor maternal envolvê-la. Ela estava visivelmente preocupada com a filha e, talvez, debaixo de toda aquela postura distante, ainda existisse uma mãe. As duas chegaram ao hall e pararam. — Assim como os negócios familiares não são fáceis de lidar.

Hermione permaneceu olhando fixamente para a senhora enquanto as palavras dela faziam sentido em sua mente. Por mais que o tom viesse carregado de neutralidade, existia uma leve preocupação permanente na fala de Apoline. A morena não gostava daquela conversa e, muito menos, da forma como estavam em círculos até que finalmente o assunto essencial fosse abordado. Hermione cruzou os braços e, séria, perguntou:

— O que a senhora quer me dizer, Mrs. Delacour?

— Eu não tenho nada contra o relacionamento que você tem com Fleur, o meu marido também não. Mas, o que Fleur fez há anos prejudicou a todos nós. Ainda existe certa amargura em nossa família, Raoul e Gabrielle são bons em disfarçar, mas, eu não. — Foi como se Hermione tivesse visto Apoline Delacour pela primeira vez. Ela tinha abandonado a postura adotada até então e seus ombros se encolheram pelo cansaço, assim como, as suas feições, tão mascaradas, finalmente se emocionaram.

E existia amargura, tristeza e melancolia em cada uma de suas rugas e marcas de expressão.

A morena não sabia como reagir com aquela ação, nem mesmo sabia se deveria ter escutado aquelas palavras. Quem deveria estar, no seu lugar, era Fleur. Aquele era o momento em que a verdade abandonada no passado poderia ser tida, aquela era a hora de desmascarar Othon e mostrar quem ele verdadeiramente era... E Hermione estava tentava a fazer cada uma dessas coisas. Entretanto, não sentia como se aquilo lhe pertencia.

Os Delacour, tão complicados e estranhamente compreensivos, não eram a sua família — a sua família, aliás, era complicada e extremamente preconceituosa — e tudo o que tinha para ser dito deveria ser feito por Fleur.

Por isso, Hermione suspirou diante do peso das palavras que não lhe pertenciam, mas, importavam. As suas feições também abrandaram e existia pena em seus olhos, a morena olhou firmemente para Apoline e aconselhou:

— Fleur jamais faria o que fez se tivesse um bom motivo para tal, o maior medo dela em voltar era encarar o que a esperava aqui... Se eu fosse a senhora ou qualquer outro Delacour, eu pararia de julgar as suas escolhas e questionaria os seus motivos. Porque ela está tão abalada quanto qualquer um de vocês.

Apoline crispou os lábios rosados, os seus olhos semicerraram e Hermione sentiu como se ela tentasse ler além das palavras que escutara. A morena passou por ela e caminhou decidida até a cozinha, os olhos de Apoline — curiosos e interrogativos — grudaram em suas costas durante todo o trajeto.

A morena se satisfez para a dúvida que colocara na cabeça de Apoline, Agnès sorriu para ela e cumprimentou:

— Bonne journée, Mademoiselle Granger!

Hermione, em mais uma das poucas vezes desde que chegara àquela casa, sorriu. A morena chacoalhou a cabeça para as palavras e, tentando imitá-la, sussurrou insegura:

— Bonne journée...?!

— Não tente ensinar francês a ela, Agnès. Ela vai começar a entender os meus resmungos! — A voz de Fleur soou aveludada àquela hora da manhã e o corpo de Hermione respondeu automaticamente ao som. Virou-se e encontrou Fleur sorridente, as olheiras debaixo dos olhos indicavam que a noite também fora difícil para ela, usando um leve vestido e com os cabelos trançados do lado esquerdo do rosto. Hermione não conseguiu conter a leve surpresa em vê-la tão bonita e tão diferente do que estava acostumada.

Fleur colocou as mãos na cintura e riu de Agnès que resmungou algo em francês. Ela somente percebeu que Hermione não tirara os olhos dela quando os olhares se encontraram. O sorriso rapidamente se derreteu em uma expressão apaixonada e foi Hermione quem sorriu, corando de vergonha e de timidez. A francesa aproximou-se dela e agarrou-lhe a mão, guiando-a para a bancada, Hermione apertou a mão, saudosa e Fleur sussurrou em seu ouvido:

— Bom dia, mon amour.

Hermione não precisou responder a esse bom dia porque seus olhos denunciavam quão bom o dia se tornara. O castanho estava intenso, visceral e apaixonado pela elegante mulher ao seu lado. Agnès as serviu com café preto e croassants, ali mesmo, na cozinha. A morena observou Fleur tomar um gole da bebida e, enquanto ela degustava o café, sussurrou:

— Foi o meu dia que acabou de melhorar, meu amor.

Fleur olhou surpresa para ela, ainda segurando a xícara de café próxima aos lábios. Era a primeira vez que Hermione se declarava daquela forma, a morena geralmente era uma mulher de atitudes e não de palavras. Essa mudança se deu pelo que conversara com Apoline.

As palavras importavam e, por isso, ela diria todas as que pudessem descrever o seu amor por Fleur.

A francesa, eufórica, esperou Agnès colocar o café em um bule e levá-lo para a sala de refeições. Apoline, provavelmente, a espera. Mal a senhora saíra, Fleur aventurou-se e beijou Hermione nos lábios, sussurrando próxima:

— Então, que esse dia compense a minha noite sem você.

O coração de Hermione acelerou e elas ainda se beijaram mais uma vez antes de Agnès voltar à cozinha. Quando a senhora chegou, as duas estavam coradas e ofegantes. E, a ignorância abençoada dela apenas deduziu que o café estava quente demais.

Harry Potter não era um homem das manhãs, ainda mais depois de voltar das férias. E essa particularidade de sua personalidade apenas se agrava agora que estava sozinho em Londres depois de todo o turbilhão emocional avassalador que passara em Ottery St. Catchpole.

As manhãs eram difíceis, mas, tornavam-se ainda mais complicadas quando ele estava indeciso e sem a sua voz da razão — que também era sua melhor amiga — para lhe iluminar os dias.

Por isso, o moreno de olhos verdes praticamente arrastava os pés pelo corredor que levava ao seu escritório com Hermione enquanto tentava expulsar o sono de seus reflexos e Gina de sua cabeça. Estava falhando miseravelmente nas duas frentes e tinha a leve impressão de que aquele seria mais um dia de bocejos, resmungos e silêncios contemplativos.

Entretanto, Harry foi despertado de maneira instantânea quando seus olhos enxergaram a figura trajando vermelho que se destacava no corredor branco e em meio às portas negras.

O rapaz pigarreou, a sua garganta seca pelo temor que o tomou e o fez se encolher. Porém, os olhos escuros o buscaram e encontraram-no, debilmente parado no meio do corredor. Harry ajeitou a postura e estalou o pescoço — um tique que desenvolvera para seus momentos de nervosismo dentro e fora do tribunal — iniciou a sua caminhada decidida até a outra pessoa que, durante todo o percurso, não fez menção alguma de alcançá-lo.

Harry chegou a figura e ela barrou completamente seu caminho até a porta, ele franziu a testa para aquele comportamento invasivo e arrogante. Já esperava por algo daquela forma, Hermione fora bastante descritiva durante os seus desabafos. Então, Astoria Greengrass o olhou, entediada e perguntou:

— Onde ela está?

— Se você ainda não a encontrou, eu julgo que ela não queira vê-la, Miss Greengrass. — Harry respondeu de forma irônica, degustando-se com a satisfação de ver Astoria desesperada por Hermione. Finalmente, aquilo acontecera e, naquele momento, ele sentia que deveria até mesmo agradecer a Fleur Delacour (por mais complicada que esta também seja). Astoria bufou irritadiça diante de sua resposta e cruzou os braços, dramaticamente ofendida.

Harry, então, se fez passar por ela e abriu a porta do escritório. Existia um leve cheiro de mofo pelo local ter ficado algum tempo fechado, ele não se importou, mas, Astoria espirrou atrás de si e ele se perguntou o que ela ainda fazia ali. O advogado ignorou-a e passou a abrir as janelas, a pálida luz de Londres tocou as superfícies do local e ele suspirou satisfeito.

Tudo estaria em uma paz temporária se Astoria Greengrass não estivesse importunando a sua já conturbada vida pós Gina Weasley.

— Você sabe que ela sempre volta para mim, então, é melhor desembuchar, Potter. — Astoria ordenou de forma autoritária, Harry novamente a encarou, a expressão surpresa rompeu-se em gargalhadas enquanto a mulher batia o pé como uma criança mimada. Ele até teria respondido com sarcasmo, mas, foram interrompidos por uma terceira pessoa a entrar, sem ser convidada, no pequeno escritório.

E o dia de Harry Potter, que começou mal e tornou-se pior, acabara de atingir um nível insuportável quando ele visualizou os olhos acinzentados, o cabelo platinado perfeitamente penteado para trás e a expressão enojada. Draco Malfoy — o noivo de Astoria e o maior rival de Harry dentro dos tribunais — acabara de entrar no escritório e tinha a face contorcida em ódio e desagrado.

— Eu deveria saber que você estaria pronto para mais uma das minhas sobras, Potter! — Draco exclamou acusatório, apontando o dedo indicador para Harry enquanto puxava Astoria para si. A mulher se contorceu em seu aperto e o afastou com um leve empurrão enquanto Harry não sabia se ria ou se ficava ofendido com aquela situação.

Astoria Greengrass? Jura? Draco não sabia nada a respeito da noiva.

— Olha... Eu não sei nada a respeito dos problemas quase conjugais de vocês, mas, posso garantir que eu não tenho nada a ver com eles, Malfoy. — Harry respondeu enojado, tanto pelo raciocínio perturbado de Draco quanto pela presença daqueles dois em seu escritório. O punho do loiro se fechou e ele deu um passo a frente, parecendo mais inquieto do que ameaçador, Harry revirou os olhos e colocou a mão sobre o peito dele, empurrando-o para longe. — Se eu tivesse ficado com a sua garota, eu, com certeza, não teria perdido a oportunidade de mostrar que você é corno. Contudo, eu tenho mais coisas para fazer da minha vida do que roubar a mulher alheia.

Com essas palavras e aproveitando-se do choque do casal, Harry empurrou os dois para fora e conseguiu trancar a porta antes que eles pudessem entender o que acontecia. Os gritos e xingamentos vieram do outro lado da madeira e Harry os escutou de olhos fechados, massageando as têmporas e respirando devagar, procurando-se acalmar. Por fim, os gritos foram substituídos por passos duros até, finalmente, o sono se fazer presente.

Sozinho e, finalmente, sem som algum a perturbá-lo, Harry finalmente deixou-se afundar em sua poltrona confortável de trabalho. O dia mal começara e tudo que ele queria era sair correndo dali, daria tudo para voltar a Ottery St. Catchpole. Porém, ele tinha que pensar assim como tinha o que fazer, apanhou o celular e discou o número de Hermione.

A sua amiga atendeu no segundo toque e ele, completamente impaciente, disse:

— A louca da sua ex veio até aqui e trouxe o imprestável do Malfoy, nem preciso dizer que isso já estragou o meu dia, não é?

— Olá, Harry. Eu estou bem e você? É ótimo escutar a sua voz, também estava com saudades. — Hermione tagarelou sarcástica e Harry apenas bufou, indignado, para a atitude dela. Quem teve que agüentar as pessoas insuportáveis pela manhã fora ele e bem, ele merecia um desconto. O fundo da linha estava silencioso, o que preocupou Harry... Onde estava Fleur? — E eu não tenho nada a ver com aqueles dois. Astoria tem que entender que nós duas nem começamos e eu, infelizmente, não fui a agraciada por colocar chifre naquela cabeça platinada do Malfoy.

— Eu sei, só precisava conversar com alguém. Estou cansado de silêncios ocupados por pensamentos e sentimentos que não deveriam ser tão audíveis. — Harry divagou, seus dedos brincando com os papéis que estavam empilhados de forma desorganizada em sua mesa. Do outro lado da sala, a mesa de Hermione estava perfeitamente organizada e ele sorriu. Sentia falta da amiga. — Tem certeza que está tudo bem? A linha está estranhamente silenciosa...

— Eu vou fingir que não percebi a discreta perversidade em sua observação. E sim, está tudo bem. Não é nada do que eu não esperava encontrar. A família é tão difícil quanto Fleur foi, no começo. — Hermione poderia tentar disfarçar, mas, Harry a conhecia bem demais, inclusive, percebera a preocupação entremeada na segurança de sua voz. Um som finalmente se fez presente na linha, alguém parecia ter chamado Hermione e Harry aguardou. — Preciso desligar agora... Se esses dois voltarem a aparecer, os ameace com uma ordem de restrição. Estou com saudades e volto assim que puder.

— Tudo bem... E me desculpe pela ligação abrupta. Também estou com saudades e ligue se precisar de algo, eu estou sempre aqui, sabe disso! — Harry despediu-se pesaroso e esperou até que a linha voltasse a ficar muda. Olhou distraído para o escritório, sentindo-se subitamente sozinho.

O rapaz estava evidentemente preocupado com a sua amiga como sempre estivera desde o início de toda aquela relação com Fleur. Hermione gostava de parecer forte, destemida e auto-suficiente, contudo, era normal que ela se perdesse quando estava apaixonada. Ele não queria presenciar o que vira quando ela se afastou de Astoria... Confiara a sua amiga a Fleur e sabia que a francesa seria incapaz de feri-la, porém, não podia dizer o mesmo da Família Delacour.

Famílias eram conjuntos complicados de serem lidados e Harry sabia perfeitamente disso, o que passara com os Weasley era um belo exemplo de quão explosivo poderiam ser familiares tentando proteger os seus.

O moreno suspirou e jogou a cabeça para trás, seus olhos encontraram o teto, mas, os seus ouvidos escutaram o seu telefone tocar. Era uma mensagem e Harry estava disposto a ignorá-la, porém, o sobrenome Weasley voltou a se fazer presente na tela de seu celular.

Gina Weasley acabara de enviar uma mensagem.

Com os dedos trêmulos, ele teclou e o aplicativo demorou segundos intermináveis para abrir o conteúdo da mensagem. Porém, quando o abriu, Harry sorriu.

Espero que tenha chegado bem e mantenha a sua promessa, ok? Não me esqueça... Tenha um bom dia! Beijos!

O moreno não soube quanto tempo olhou para a mensagem e nem quantas vezes a releu. O sorriso não desapareceu de seus lábios e o coração acelerou intensamente em seu peito... Ele não esqueceria Gina, todas as reações de seu corpo comprovavam que ela era inesquecível.

Tal qual o seu amor por ela.

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Hermione deveria saber que aquele seria um dia longo, entretanto, ainda estava surpresa com a morosidade e a pouca vontade do tempo para ser passado. Talvez, estivesse extremamente irritada por ter se desencontrado com Fleur ao longo do dia — a francesa tinha saído com a irmã para comprar roupas há mais de duas horas, logo após o almoço — ou, talvez, ela estivesse ansiosa demais para reencontrar Othon Delacour.

Independente do motivo, aquele foi um dia sem Fleur. Ela escutou Fleur entrar pela porta da frente aos sussurros e risadas com Gabrielle quando se preparava para entrar em seu banho e, diante de mais esse desencontro, a morena preferiu tomar o seu banho e se arrumar para a batalha que teria naquela noite.

O primeiro objetivo de Hermione era não dar motivos superficiais para que Othon falasse a seu respeito, também, não queria que Fleur passasse algum tipo de vergonha na frente dos demais familiares. A escolha de sua roupa tornou-se extremamente difícil por causa dessa exigência, não era como se tivesse trazido uma dúvida de roupas elegantes.

Por isso, Hermione improvisou.

A morena encontrou uma calça social escura no fundo da mala, combinou-a com uma camiseta em tom acinzentado e um leve blazer marrom completou o seu visual. Nos pés, preferiu colocar algo confortável e optou por seus bons e velhos sapatos Oxford de couro marrom. Não estava perfeitamente alinhada ou atraente, mas, se saísse daquilo, não estaria sendo ela mesma. Os seus cabelos castanhos foram penteados e Hermione sorriu para o espelho ao constatar que eles pareciam ter dado uma trégua.

Uma leve maquiagem, apenas para não parecer tão cansada e tão mal humorada. Logo, ela estava nas escadas. Os seus passos pareciam soar alto demais na mansão silenciosa, mas, quando chegou à sala de estar, Raoul estava instalado na poltrona, com um livro em mãos. Ele também estava pronto e, ao escutar os passos da morena, sorriu para as páginas e comentou brincalhão, o sotaque deleitando-se em seu inglês:

— Ah, a pontualidade britânica... Sempre admirei isso em vocês.

— Vou levar isso como um elogio, Mr. Delacour. Muito obrigada. — Hermione sorriu genuína para o senhor, ele rapidamente ergueu os olhos azuis, acalentadores e semelhantes aos de Fleur, do livro e franziu a testa para as palavras da morena. Hermione pigarreou e colocou as mãos nos bolsos da calça, envergonhada. — Me desculpe, senhor. Eu realmente não sou boa em abandonar os vocativos... É uma péssima mania adquirida depois de anos de tribunais.

— Sendo assim, eu irei revelar. Mas, não deixe de tentar. Eu ficaria satisfeito se você me chamasse pelo nome, o uso desse tipo de vocativo me deixa mais velho. — Raoul respondeu com a voz brincalhona, o inglês tropeçava em sotaque, o que o tornava ainda mais receptivo. Hermione conseguia enxergar muito de Fleur naquele homem, claro que a chef fora criada à imagem da mãe, mas, debaixo de toda a superfície incisiva e amedrontadora, ela ainda tinha a mesma simplicidade e o mesmo carisma daquele homem.

Os olhos cerúleos de Raoul voltaram-se ao livro e Hermione olhou em seu redor, a rica decoração dos Delacour mostrava que eles possuíam dinheiro e, principalmente, bom gosto. Era uma família naturalmente elegante, pelo menos, naquela Mansão, não era necessário que sua herança e seus bons modos fossem comprovados, eles simplesmente eram daquela forma. Ainda que possuísse seus problemas velados com Apoline e a sua desconfiança em relação a Gabrielle, Hermione os admirava silenciosamente.

De uma forma quebrada, eles ainda pareciam formar uma unidade firme e forte.

Existia um frasco com uísque em cima de uma mesa de madeira ricamente adornada. Hermione olhou desejosa para o líquido dourado dentro do recipiente de vidro, um suspiro sedento também escapou de seus lábios... Um pouco de álcool não faria mal, ainda mais em uma noite que prometia tanto como ela.

— Não precisa ficar tarando a garrafa, pode se servir, Hermione. — Não foi a voz gentil de Raoul que chegou aos ouvidos da morena e sim, o sarcasmo de Gabrielle Delacour. A morena virou-se para a caçula que sorria maldosa para o flagra, ela usava um vestido azul-escuro colado, na altura do meio das coxas. A maquiagem estava pesada e ela parecia pronta para uma festa e não uma inauguração. Quando Hermione permaneceu paralisada de vergonha, a caçula passou por ela e serviu-se de um copo de uísque, entregando outro para a britânica. — Agora, eu consigo ver o que Fleur viu em você. Não é fácil acompanhá-la no copo.

— Eu não...! — Hermione começou a se defender, mas, logo viu que não daria em nada. Os olhos azuis de Gabriele brilharam divertidos e ela escondeu um sorriso maldoso na borda do copo que levou aos lábios. Hermione revirou os olhos para ela, mas, aceitou o copo e tomou um longo gole.

O líquido âmbar queimou a sua garganta e aqueceu o seu corpo, de certa forma, a queimação acalmou a sensação desagradável do nervosismo que tomava seu corpo. Sua mão direita apertou-se em torno do vidro, segurando-se nele para não tremer e, muito menos, vacilar. Hermione descansou a mão esquerda dentro do bolso da calça e Gabrielle acompanhou o seu gesto, rindo baixinho. A morena estava prestes a interrogá-la quando Raoul levantou-se da poltrona e estalou os ombros, avisando:

— Vou retirar os carros da garagem, espero vocês no jardim.

Gabrielle ergueu o copo para o pai e ele sorriu para ela, divertindo-se. Logo, o homem elegante as abandonou na sala de estar e a caçula voltou os olhos astutos para Hermione. A morena fechou a expressão para ela e perguntou impaciente:

— Você tem algum problema comigo?

— Bem que Fleur disse que você não gostava de ser observada. — Gabrielle disse de forma invasiva e com certo desafio em sua voz, ela tomou o que restava de seu copo e voltou a se servir. O cheiro do perfume doce e muito diferente de Fleur fez Hermione franzir o nariz antes de bufar. A caçula tomou mais um gole e suspirou. — E sim, falamos de você durante a tarde. Essa conversa era o mínimo que ela podia me dar depois de anos de silêncio.

— Você não pode culpá-la pela ausência se não sabe o que a levou a ir embora da França. — Hermione sequer precisou pensar para defender Fleur, as palavras simplesmente fluíram de seus lábios como se ela estivesse defendendo a si mesma, não fora tão obstinada em uma defesa nem mesmo quando esteve em um tribunal pela última vez. Algo na fragilidade encoberta de Fleur motivava esse seu lado protetor. Gabrielle arqueou a sobrancelha para as suas palavras, surpresa e sussurrou magoada:

— Independe de qual tenha sido o motivo, ela poderia ter me falado. Eu sei que não era como Othon ou Phillipe, os seus eternos confidentes... Mas, tampouco, eu era como os nossos pais. Eu não ia julgá-la, ela é a minha irmã! Uma das pessoas que eu mais admiro no mundo e ela simplesmente se foi... Sem dar adeus.

A advogada esperava por qualquer outro sentimento em Gabrielle, menos a mágoa. Era a segunda Delacour que vinha a ela, naquele dia, para dizer que não julgava o comportamento de Fleur e, sim, se magoava com a falta de explicações que a levaram a deixar a França, anos atrás.

Hermione estava, mais uma vez, surpresa. As peças que tinham em mãos e dispersas ao seu redor começavam a se juntar e ela entendia que, mais do que tudo, o que realmente machucara os Delacour era a falta de explicações de Fleur. Claro que eles a condenaram, no começo, por não voltar a França por causa de um casamento. Contudo, agora, tudo que eles queriam era a verdade e eles sabiam que Bill Weasley não foi o único motivo que a fez abandonar a França.

E Fleur parecia confusa — além de ofendida pelo legado da família estar nas mãos de Othon — para não perceber que os Delacour a amavam. Eles já tinham a perdoado há anos, isso se existia algo a ser perdoado.

A morena jamais via a situação sob aquela óptica e, por mais exigentes e estranhos que os membros daquela família pudessem parecer, eles estavam tentando demonstrar que ainda a amavam ao trazê-la para França. E faziam tudo às cegas, imaginem se soubessem o que Othon havia feito? Eles, com certeza, não a abandonariam.

E, para uma pessoa que não acreditava tanto assim na unidade familiar, aquele tipo de raciocínio era avassalador para Hermione Granger.

Subitamente, a morena sentiu a sua implicância com Gabrielle se esfarelar aos seus pés. Uma simpatia genuína chegou aos seus olhos quando observou a mais jovem, encolhida em torno de seu próprio copo, parecendo pequenina e frágil. Fleur era o seu maior exemplo e a sua grande inspiração, era de se esperar que ela parecesse tão amarga e descolada o tempo todo, afinal, ela não queria se sentir como se sentira quando a irmã mais velha a deixada.

Hermione até teria lhe dito algo confortante quando, mais uma vez, foi interrompida por passos na escada. Esperou ansiosa pela dona dos saltos que ritmavam na madeira, entretanto, não era Fleur e sim, Apoline. A matriarca daquele ramo dos Delacour usava um belo vestido de coloração lilás, a cintura marcada e a saia solta. Muito diferente do estilo de Gabrielle.

Aliás, Apoline torceu a expressão ao ver o vestido da filha e pareceu surpresa diante da roupa de Hermione. As bochechas da morena coraram e ela abaixou a cabeça, Apoline pigarreou e disse:

— Fleur já está vindo e você, Gabrielle, poderia ter nos poupado desse tipo de traje. Eu daria graças ao bom Senhor se você tivesse um pouco de sua irmã ou um pouco da Mademoiselle Granger.

Hermione ergueu a cabeça tão rápido que as primeiras vértebras de sua coluna se estalaram. Apoline tinha uma expressão surpreendente e divertida no rosto, ela até mesmo sorriu antes de acenar para as mais jovens e sair em encontro do marido no jardim. Gabrielle encontrava-se boquiaberta, olhando da mãe, para Hermione e para a sua roupa. A mais nova bufou e, irritadiça, esbravejou:

— Eu devo ser muito impossível para a minha mãe preferir você a mim!

— Em minha defesa, tivemos uma conversa interessante pela manhã e eu acho que ganhei alguns pontos com ela. Mas, nada que a faça preferir a mim. — Hermione respondeu com um sorriso nervoso nos lábios, estava arrepiada por Apoline ter se referido a ela de forma bondosa pela primeira vez desde que entrara naquela casa. Gabrielle olhava para Hermione como se ela fosse anormal e a caçula, ainda mal humorada, grunhiu:

— Ela que continue reclamando, eu nunca quis ser a filha perfeita e não tenho culpa se Fleur destruiu os sonhos dela.

A morena procurou por algum resquício de mágoa naquela observação e ele, de fato, existia. Entretanto, estava pequeno perto da diversão que encontrou nos olhos azuis escuros. Gabrielle sorriu de forma misteriosa, deixou o copo em cima da mesa, a marca de seus lábios vermelhos tingiu a borda, e, depois, seguiu o caminho da mãe para o jardim.

Hermione se viu sozinha, mais uma vez, na mansão à espera de Fleur. Os seus ouvidos rapidamente captaram os sons dos passos que ela esperava. A francesa finalmente terminara de se arrumar e descia as escadas.

O perfume de Fleur, feito de lavandas, chegou primeiro à sala do que a dona dele. Entretanto, segundos depois, Fleur entrou distraída, de cabeça baixa e à procura de algo dentro da bolsa. Por isso, diante da distração dela, Hermione deixou-se observar.

Fleur usava uma saia pregada na cor branca, tinha sapatos de saltos nos pés e uma camisa social azulada, por dentro da saia. Hermione nunca tinha a surpreendido daquela forma, tão elegante e tão feminina... De certa forma, era como se a França fizesse brotar esse lado mais sensível e mais delicado de Fleur. Hermione sentia como se enxergasse mais uma faceta da chef teimosa e birrenta pela qual se apaixonara.

E essa faceta, tal qual às outras, continuava extremamente sedutora e apaixonante aos seus olhos e, mais importante, ao seu coração. Diante de seu coração acelerado em seu peito, de sua mão trêmula que depositou o copo de uísque sobre a mesa, do sorriso que tomou os seus lábios e dos seus passos que, inconsciente, se direcionaram a ela... Hermione voltou a afirmar que se apaixonaria por Fleur, quantas vezes fossem necessárias, quantas facetas ainda enxergasse e lutaria por ela, quantas batalhas fossem e pelo tempo que fosse.

Porque, afinal, os olhos cerúleos que alcançaram os seus ainda eram os mesmos que a reprimiram tão violentamente no primeiro encontro no La Petite Mort. Assim como os lábios que lhe sorriram eram os mesmos que sussurraram o seu nome, sôfregos, nas noites em que dividiram. E o corpo que gravitou até o seu era o mesmo do qual sentira falta naquela noite... E as mãos que tocaram as suas eram as mesmas que a seguraram, que lhe tiraram o fôlego e, principalmente, que lhe ensinaram o que era o amor.

As duas se encontraram, tímidas e Fleur sorriu acanhada quando os olhos castanhos não desgrudaram os seus. Hermione se permitiu ser corajosa e beijou-lhe uma das mãos que segurava a bolsa, Fleur riu baixinho e a morena suspirou cavalheiresca:

— Você está linda.

— Não é como se você não dissesse isso sempre. — Fleur ainda estava envergonhada, o que era surpreendente para uma pessoa tão segura de si. Hermione ofendeu-se com a resposta e a francesa apressou-se em consertar, beneficiando-se da diferença de altura, acentuada pelos saltos, para beijar a bochecha de Hermione. A morena derreteu-se ao seu toque e sussurrou ao seu ouvido:

— Talvez, eu repita tanto porque seja a mais absoluta verdade. É melhor acreditar.

— Eu acredito, vindo de você, eu acredito em qualquer coisa... — Fleur tinha a voz densa ao dizer essas palavras, como se fosse uma confissão e, também, um pedido. E Hermione entendeu ambas as coisas, tanto a confissão quanto ao pedido para que não a magoasse com uma mentira. A morena não agüentou e, mais uma vez, a coragem encheu as suas veias.

Um beijo casto foi trocado, exatamente como aquele da manhã e mais cheio de significado do que muitos dos beijos mais perigosos que tinham trocado anteriormente. Aquele beijo era uma promessa, mais uma das que Hermione estava obstinada a cumprir.

Era a promessa de que nada tocaria Fleur enquanto ela estivesse por perto. Nem mesmo toda a dissimulação de Othon seria capaz de ferir a francesa. Ao segurar a mão de Fleur e guiá-la para fora da Mansão Delacour, a leoa dentro de Hermione rugiu feroz.

A galeria de arte, La Belle Frontiére, era um prédio tradicional antigo francês, de fachada na coloração creme e iluminados por luzes alaranjadas, localizava-se no 7ème, nos arredores da Torre Eiffel e no bairro mais elitista de Paris.

O carro dos Delacour entrou na pequena e selecionada fila em frente ao prédio, alguns minutos depois, todos os componentes do carro desciam. Hermione ignorou a mão que lhe era oferecida pelo guardador e agradeceu, até teria ajudado Fleur se soubesse como deveria se comportar em público. A morena teve sua atenção imediatamente atraída pelo pequeno contingente de fotógrafos que os aguardava do lado de fora.

Fleur, que desceu do carro, auxiliada por um dos guardadores, parou ao seu lado em frente às portas da galeria. Mesmo que não a tocasse, Hermione podia sentir que ela estava tensa e, observando-a atentamente, podia enxergar os olhos cerúleos atentos e nervosos. A morena fixou os olhos castanhos na mesa de recepção em que o cerimonial os aguardava e perguntou:

— Você está bem?

— Um pouco nervosa, mas, nada que eu não possa lidar. — Fleur confessou com a expressão incomodada, o nariz franzindo-se ligeiramente diante de seus pensamentos. Hermione gostaria de poder tocá-la, mas, só lhe cabiam as palavras e, ela não sabia o que dizer naquele momento. Porém, os olhos de Fleur tocaram sua pele e, pelo canto de sua visão, Hermione viu o sorriso corajoso brotar nos lábios rosados. — E você está aqui, isso que importa.

O sorriso nos lábios de Hermione não foi contido, tampouco, a morena não ignorou a necessidade de olhar (e se perder) nos olhos de Fleur. E foi isso que fez, encarou os olhos cerúleos, tão brilhantes e tão intensos, que a olhavam como se a vissem pela primeira vez. Hermione piscou para a morena e, no instante seguinte, deixou-se levar para a voz de Apoline Delacour que passara por elas e falava com o cerimonial:

— Raoul, Apoline, Gabrielle e Fleur Delacour acompanhadas por uma amiga britânica. Othon nos convidou pessoalmente.

O cerimonial checou a lista e logo sorriu para Apoline, acenando para as portas de vidro que tinham sido abertas. Contudo, assim que o pequeno contingente de fotógrafos escutou o nome de Fleur, eles se lançaram à herdeira como se ela fosse um pedaço de carne a ser devorado.

Os flashes das câmeras fotográficas cegaram Hermione e fizeram com que o corpo de Fleur se encolhesse automaticamente junto ao seu, em busca de proteção. A morena, instantaneamente, colocou Fleur atrás de si e Gabrielle se adiantou. Enquanto o fazia, a caçula piscou e sussurrou marota:

— Leve-a para dentro, isso não é nada do que eu não tenha visto antes.

Hermione a obedeceu e, enquanto os fotógrafos estavam distraídos pela bela figura de Gabrielle que posava gratuitamente para suas lentes, Fleur foi levada em segurança para dentro. Raoul e Apoline participaram da operação e o senhor, com a face rubra de fúria, disse entre os dentes cerrados:

— Malditos mexeriqueiros!

— Chérie, a volta de Fleur ao seio da família Delacour é considerado um evento e tanto para esses abutres... Temos que nos acostumar e aprendermos a lidar com isso. — O tom presente na voz de Apoline era conciliador e, ao olhar para a senhora, Hermione percebeu que ela estava visivelmente preocupada. Os olhos da morena procuraram Fleur e ela estava ofegante em seus braços, mas, não parecia amedrontada e nem assustada, só surpresa. — Para a nossa sorte, Gabby está do nosso lado e adora ser o centro das atenções. Vamos entrar, não precisamos de comentários desagradáveis a respeito da nossa demora no átrio.

O quarteto atravessou o átrio, de pintura branca e colunas de mármore e portas duplas voltaram a serem abertas para a passagem. Um pequeno salão tinha as paredes ocupadas por quadros, esculturas, fotografias e as mais diversas obras de arte. Garçons circulavam entre um aglomerado de cerca de setenta pessoas que caminhavam entre as obras e conversavam entre si. Também existia um pequeno palco no fundo da galeria e o espaço se agigantava além da galeria de arte, Hermione discerniu as cadeiras e mesas de um bistrô — que julgou ser a porcentagem Delacour no empreendimento — e salas de portas fechadas, provavelmente, dedicadas às aulas de dança, música, pintura e fotografia.

Era um empreendimento grandioso e, certamente, caro. O bairro era considerado o mais elitista de Paris e, a julgar pelos convidados da inauguração, o público alvo era justamente esse. Hermione possuía poucos conhecimentos a respeito de administração, mas, sabia que era muito arriscado investir tanto dinheiro em um negócio limitado a um determinado público, por mais que este tivesse muito dinheiro.

E, de acordo com Apoline, as finanças da Família Delacour não estavam aptas para aquele investimento. Não era hora de arriscar e sim, de ponderar.

— Pour l’amour de Dieu! Alguém coloca um freio no Othon! — Gabrielle acabara de chegar à família e já assoviara para um garçom, apanhando uma taça de champanhe para si e outras para a irmã e para a mãe. Hermione olhou intrigada para a caçula, parada entre ela e uma Fleur que bebia da taça com um sorriso, ainda não conseguira se acostumada com a impulsividade de Gabrielle. — Esse homem consegue gastar mais do que eu!

Raoul deixou que uma gargalhada rouca irrompesse de seus lábios, a irritação proporcionada pelos fotógrafos desapareceu e até Apoline segurava um sorriso nos lábios crispados. Hermione balançou a cabeça, mas, sorriu de lado para as palavras da caçula. Aquela noite tinha tudo para ser cruel e, talvez, devesse rir enquanto podia.

Mais um garçom passou pelos quatro e ele carregava garrafas de uísque, copos e gelo. Raoul adiantou-se e solicitou um copo e Fleur entregou a taça para Hermione, voltando em seguida com um copo de uísque sem gelo. Hermione lhe agradeceu com um sorriso e Gabrielle comentou:

— Que Deus não me deixe ficar sozinha com vocês duas a noite toda. Eu já estou vomitando arco-íris e a noite mal começou!

Fleur voltou a rir da irmã e Raoul também, Apoline reprovou as palavras da filha com um abanar de cabeça e logo se retirou, carregando o marido a tiracolo. Hermione tomou um gole de seu uísque e bem sabia que as suas bochechas não estavam rosadas pelo álcool e sim, pela vergonha.

Os dedos de Fleur cutucaram a sua cintura, sobressaltando-a. Hermione olhou para a chef que sorria, os olhos brilhavam e ela parecia deliciada naquele ambiente que prometia ser hostil. Não havia sinal de Othon em local algum e, por isso, a advogada se permitiu retribuir o olhar. Os dedos de Fleur tornaram-se mais determinados e logo, era a mão dela que estava apoiava no osso do seu quadril. A morena envolveu a mão dela com a sua e deixou que o silêncio entre elas, cercado de vozes desconhecidas, falasse por si.

E o silêncio falou.

Hermione podia sentir todo o carinho e todo o agradecimento de Fleur naquele gesto tão delicado e sutil. Ninguém, naquela galeria, poderia entender o que aquele entrelaçar de mãos significava. Daquela forma, elas se sentiam próximas à outra, ainda que houvesse certa reprovação e muita distância desde que haviam pisado em solo francês.

Era um gesto pequeno que significava muito. Os olhares sussurravam as palavras que não poderiam ser ditas e as mãos desenhavam o amor que estava seguramente dentro do peito de cada uma.

Gabrielle, ao lado delas, falava a respeito de um garoto que atraíra sua atenção e as duas não reparavam e, sequer, escutavam direito. E até teriam permanecido dessa forma se uma voz, estranhamente familiar, não tivesse soado curiosa e próxima a elas:

— Fleur?

A morena virou-se abruptamente, não precisou buscar o reconhecimento daquela voz em suas memórias porque ele ainda era recente em seus pensamentos. Contudo, quando os olhos de Hermione encontraram o dono da voz, ele não era Othon Delacour.

Mas, não existiam dúvidas de que aquele rapaz era um Delacour. Os cabelos possuíam um tom loiro escuro, arrepiados e a emoldurarem um rosto de feições bem regulares e extremamente bonitas. Só que, diferentemente de Othon, não existia malícia em seus olhos verdes e sim, gentileza. E o sorriso que aquele rapaz dava era repleto de ternura e saudade.

Ele estava acompanhado de uma garota também loira e, com certeza, também uma Delacour. Ela aparentava ser um pouco mais nova do que Fleur e tão bela quanto. O rosto tinha um formato levemente quadrangular, de bochechas altas e de tez clara, emoldurado por um corte repicado na altura dos ombros. Os olhos eram esverdeados, mas, pendiam para um tom mais acinzentado e eles se iluminaram quando reconheceram Fleur.

A chef parou a taça a caminho da boca e a teria derrubado se Hermione não tivesse sido rápida o bastante para resgatá-la das mãos trêmulas de Fleur. Ela se adiantou e apertou o rapaz em um abraço saudoso, ele juntou-se a ela da mesma forma e apesar de ser mais alto, aninhou-se no pescoço dela e suspirou. Hermione olhou para Gabrielle que lhe deu de ombros, antes de voltar a olhar para um rapaz moreno próximo a eles. Fleur afastou-se do rapaz e envolveu o rosto dele entre suas mãos, ela sorriu com lágrimas em seus olhos e disse emocionada:

— Je vous ai manqué, Phillipe!

Os dois sorriram um para o outro e Fleur se aproximou, beijando cada uma das bochechas do recém-chegado. A mulher que o acompanhava sorria satisfeita para a cena e se aproximou, acanhada, de Hermione. As duas se olharam e a outra, sorridente, disse insegura:

— Vous parlez français?

— Oh, perdão. Eu não falo francês perfeitamente! — Hermione desculpou-se com a expressão frustrada, Gabrielle riu as suas costas, mas, a recém-chegada lhe sorriu de forma compreensiva e, insegura, respondeu cheia de sotaque:

— Também não falo um inglês perfeito, mas, posso me arriscar... Sou Lorena, uma prima em segundo grau de Fleur.

Ela adiantou-se e beijou ambas as bochechas de Hermione, dessa vez, a morena não se assustou e sorriu receptiva para Lorena. Fleur pigarreou e a atenção das duas foi direcionada a ela que estava abraçada de lado ao rapaz. Os dois continuavam a sorrir e Hermione simplesmente repetiu o gesto, inebriada pela boa energia que vinha dos dois. Fleur gesticulou para o rapaz e apresentou-o carinhosa:

— Hermione, esse é Phillipe, meu querido primo e irm...!

— Por favor, ela não precisa saber da pior parte que envolve meu odiado irmão. — Philippe interrompeu Fleur, ofendido e desconfortável, a chef riu da atitude dele e ele adiantou-se, apanhando a mão direita de Hermione e beijando-a de forma galante. Lorena revirou os olhos para Phillipe e ele riu rouco. — É um prazer conhecê-la, mademoiselle.

— Igualmente, eu já escutei muito a seu respeito... É bom dar um rosto aos boatos. — Hermione respondeu brincalhona e Phillipe piscou para ela. Aquele rapaz era a antítese de Othon.

Se o seu irmão mais velho invocava sentimentos desagradáveis quanto estava por perto, Phillipe tinha uma energia leve e brincalhona e também trazia uma energia positiva e sedutora ao se aproximar. Hermione começava a acreditar que os Delacour, em sua maioria, eram feitos de pessoas como Phillipe e Fleur e não de seres desprezíveis como Othon.

Fleur, agora, encontrava-se abraçada a Lorena. A francesa apontou da prima para si mesma e comentou divertida:

— Como pode perceber a beleza realmente é de família.

— Espero que eu esteja inclusa nessas estatísticas. — Gabrielle comentou amarga e todos se viraram para ela, Hermione surpreendeu-se ao perceber que a caçula já estava com uma nova taça de champanhe em mãos. Lorena riu da prima e aproximou-se dela, beijando-a no topo da cabeça. Gabrielle sorriu depois de tentar, em vão, conter a careta emburrada.

A advogada sentia-se mais tranqüila agora que Lorena e Phillipe se aproximaram. Realmente, fora uma surpresa encontrar o antigo confidente e protetor de Fleur naquela inauguração, mas, não podia deixar de se sentir mais calma agora que mais uma pessoa sabia e temia por Fleur naquela galeria.

Não tinha medo de travar uma batalha contra Othon, entretanto, era bom saber que tinha apoio.

A simples menção a Othon rapidamente o trouxe para a realidade, o outro Delacour se aproximou pomposamente do pequeno palco e disse algumas palavras. Hermione não as ouviu, mas, Fleur e Phillipe prestaram atenção nele.

Os dois primos tinham abandonado as posturas relaxadas e, agora, estavam tensos e duros, como pedra. Os olhos verdes de Phillipe pareciam tornar-se mais vivos e intensos, frios como esmeraldas e extremamente furiosos. Já os olhos cerúleos de Fleur tinham a mesma expressão opaca que, tristemente, apagava-lhe e a reduzia a algo que não fazia jus a sua beleza interna e externa.

Os aplausos ocuparam a galeria e Hermione observou Phillipe, no meio deles, envolver o corpo de Fleur. A chef encolheu-se de encontro a ele e os dois fecharam os olhos. A morena aproximou-se e, da mesma forma sutil como Fleur lhe tocara anteriormente, ela dedilhou a cintura delgada da francesa.

Um simples toque para provar que estava ali.

Contudo, Fleur agarrou-se aos seus dedos. Ela se afastou de Phillipe e virou-se para Hermione, abraçando-a no meio de toda aquela gente desconhecida que não tinha a menor noção do que se passava ali.

Hermione afagou os longos cabelos loiros e deixou que Fleur encontrasse, em seu corpo, algo que também procurava desde que entrara naquela galeria. A morena desejou que Fleur encontrasse a coragem e a força que se esforçava para ter, por e para ela. E, quando Fleur se afastou depois de longos segundos, certo brilho voltara aos seus olhos, ainda que seu rosto estivesse pálido.

Phillipe apertou os ombros da prima e sorriu, um sorriso generoso que entregava muito dele a todos os que o enxergavam. Lorena também se aproximou, existia uma expressão triste em suas belas feições, ainda assim, ela se forçou a sorrir e perguntou orgulhosa:

— Fleur, você soube que Phillipe está se aventurando na Gastronomia por sua causa?

— Isso é sério? Você mal sabia ligar o fogão da última vez que eu lhe vi! — Fleur, tomada pela satisfação de ter o primo ainda tão ligado a ela, deixou que um sorriso desenhasse suas feições como se fosse uma obra de arte. Hermione tomou um gole de seu uísque e seus olhos astutos vasculharam a multidão à procura de Othon. Phillipe deu de ombros e, acanhado, respondeu:

— Grand-mère me levou para a cozinha em uma das minhas visitas aos restaurantes e eu meio que me apaixonei pelos aromas, as texturas e os sabores. Acho que ela está certa ao dizer que a arte da Gastronomia corre nas veias de qualquer Delacour.

— Não posso falar muito sobre os seus pratos, mas, você já fala como um chef! — Fleur exclamou orgulhosa e as bochechas de Phillipe tingiram-se de vermelho, Lorena estava ainda mais orgulhosa e beijou o ombro de Phillipe, um gesto simples que revelou muito da intimidade dos dois. Fleur arqueou a sobrancelha para o gesto e trocou um breve olhar com Gabrielle, a pequena fazia corações e simulava um beijo às costas dos primos. Tanto Fleur como Hermione riram de sua imitação.

— E você? Tivemos breves e desencontradas informações a respeito de sua vida na Inglaterra... Seria ótimo escutarmos a verdade diretamente da fonte. — Phillipe comentou malicioso, olhando de Hermione para Fleur. A morena desviou os olhos e fingiu estar atenta a algo, mas, a chef enlaçou a sua cintura de forma natural e segura.

O peito de Hermione explodiu em desesperadas batidas de seu coração. Uma energia quente preencheu o seu corpo de forma preguiçosa, como se derretesse toda aquela fria ocupação que se instalara em seu peito desde que abandonaram Ottery St. Catchpole. Tinha plena certeza do que Fleur sentia, mas, vê-la admitir daquela forma, mesmo naquele gesto carinhoso e tão delicado, era especial.

Ao assumir a relação, ao menos para Lorena e Phillipe, Fleur deixava claro que não estava amedrontando-se com o ambiente cruel que as circundava. Fleur segurava muito mais do que a sua cintura e sim, toda a sua vida naquele momento. E Hermione não podia sentir-se de outra forma que não fosse aquela... A razão sempre falara mais alto em sua vida, porém, Hermione estava caminhando entre nuvens nos braços de Fleur.

A francesa nada disse, deixou que os primos olhassem curiosos para a interação entre elas, deixou que eles sorrissem maliciosos e trocassem olhares de compreensão. Fleur sequer ligou para Gabrielle que começou a imitá-las de forma pitoresca e cheia de maldade. A francesa apenas respirou profundamente entre os cabelos de Hermione e a morena fechou os olhos para o calor que era exalado a partir do corpo dela.

Fleur deixou que os outros compreendessem o que ela já entendera muito bem há muito tempo.

Mais um garçom passou por eles, carregando uma bandeja de aperitivos. Fleur deu uma breve espiada na bandeja e acenou para que ele esperasse, ela apanhou dois e levou um à boca. A morena acompanhou tudo com os olhos desejosos nos lábios da francesa, Fleur sorriu e fez sinal para que ela se aproximasse, depois, sussurrou:

— Brusquetta italiana, prove.

Hermione sentiu o alimento chegar aos seus lábios e envolver-se em seus lábios. Antes disso, a superfície dos dedos de Fleur tocou, de forma delicada, a sua boca e ela suspirou para, logo em seguida, ser envolvida pelo sabor do aperitivo. Ela sentiu mais do gosto do azeite do que gostaria, o alho pareceu faltar e o pão estava mais tostado do que ela estava acostumada. E o recheio — em tomate seco, pimentas verdes e rúcula — também foi agradável ao paladar.

Aquele aperitivo tinha tudo, menos o equilíbrio que acostumara a encontrar na culinária de Fleur.

A morena fez uma careta para a mistura de sabores estranhos em sua boca, ainda assim, mastigou e engoliu. Fleur, a sua frente, lambia a ponta dos dedos de forma charmosa e também fez careta ao engolir a sua parte. A chef tomou um longo gole de sua taça de champanhe e Hermione fez o mesmo com o copo de uísque, as duas sorriram uma para a outra e Hermione disse:

— Com certeza, isso não estava bom.

— Concordo, depois dessa afronta culinária, eu estou com medo de quem Othon anda contratando para gerenciar a cozinha dos Delacour. — Fleur grunhiu a resposta, ofendida e de orgulho machucado, ela fez um gesto para o garçom se afastar. Os olhos azuis voltaram aos castanhos e a irritação desapareceu. — Mas, eu assumo certa culpa nessas suas novas exigências, mademoiselle. Eu estou lhe acostumando mal.

Hermione riu satisfeita, terminando o seu copo de uísque e servindo-se de mais, a partir de outro garçom que passou por elas. Sentia saudades daquele tipo de comportamento de Fleur, daquela aura de sedução que esteve presente na relação delas desde aquela noite do festival em Ottery St. Catchpole... Fleur lhe apresentava novos sabores e Hermione deixava-se envolver por eles e pelas palavras dela que sorviam qualquer necessidade e qualquer forma que lhe castigasse.

Fleur era assim, feita de sedução, sabor e equilíbrio. O perfeito equilíbrio que Hermione sempre precisara e encontrara quando menos esperara.

— Vocês duas acabaram? Porque eu realmente fiquei com vergonha pelas duas. — A voz estridente de Gabrielle impediu que elas, novamente, se encontrassem e se prendessem em seu próprio mundo. Fleur virou-se irritadiça para a irmã enquanto Hermione voltava sua atenção para Lorena e Phillipe, os dois tinham as bochechas coradas e sorriam desconcertados. Fleur jogou os cabelos e, charmosa, sussurrou:

— Você ainda não viu nada para ficar com vergonha desse jeito, Gabby.

Dessa vez, foram as bochechas de Hermione que se avermelharam. Ela se afundou, de cabeça baixa, no calor de vergonha que lhe consumiu enquanto escutava os xingamentos ofendidos em francês de Gabrielle direcionados à irmã e as risadas satisfeitas de Lorena e Phillipe.

No meio de todas aquelas sensações e de todos os sons, mais uma vez, foi algo de Fleur que se destacou. A francesa lhe tocou o braço e, ofegante pelas risadas que dera da irmã, sussurrou rouca e quente em seu ouvido:

— Pardon, mon amour.

Hermione sorriu. Não havia o que perdoar quando Fleur sorria daquela forma hipnotizante, não precisava de perdão quando era a única dona e a única razão daquele sorriso nos lábios de Fleur Delacour.

# # # # #

As horas da inauguração se arrastavam. Hermione estava cansada emocional e fisicamente, mas, ainda assim, se mantinha alerta e, sempre que via os olhos de Othon se demorarem em Fleur, fazia questão de afastá-lo ou de arrastar Fleur para mais uma volta na galeria que começava a conhecer como a palma de sua mão.

Depois de tantas voltas, começara a compreender os temores de Apoline. Não havia nada de especial no estabelecimento, era algo elegante e privado, mas, sem grandes artistas presentes na inauguração. Era um risco que os Delacour não podiam estar correndo diante da aparente situação financeira de seus empreendimentos. E, depois de tanto caminhar pelas obras, estava cansada o bastante para recolher-se junto ao bar.

Gabrielle desaparecera de suas vistas depois da quinta taça de champanhe. Hermione achava tê-la visto escapar para os jardins na companhia do moreno que olhara durante toda a noite. Fleur estava distante, mas, ainda em suas vistas, conversando com alguns membros da família. Surpreendentemente, Éponine Delacour não comparecera a inauguração e Hermione soube, por Lorena, que ela não estava bem disposta.

Esse fato motivou uma série de preocupações a Hermione, ela chegou até mesmo a fantasiar que, talvez, Othon tivesse feito algo a senhora. Só que, pelo pouco que conhecia o desprezível homem, sabia que ele não teria culhões para tanto. Contudo, ainda estava preocupada. Éponine tinha que estar bem pela manhã, Fleur precisava conversar com ela.

Levemente alta pelas doses de uísque que consumira e extremamente entediada pelo tipo de público que Othon convidara para aquela inauguração, Hermione encontrava-se sentada ao bar improvisado, observando tudo com os olhos dispersos e sonolentos. Tão distraída, não percebeu quando Raoul sentou-se ao seu lado e comentou risonho:

— Não fraqueje, jeune... É somente o seu primeiro evento com os Delacour.

— Eu ainda estou cansada da viagem, eu acho. — Hermione respondeu de sobressalto, aprumando a postura e ajeitando o blazer em torno do cabelo. Raoul sorriu para ela e acenou para o barman, minutos depois, entregou um mais um copo de uísque a ela e Hermione o aceitou, mesmo sonolenta e levemente ébria. — Na verdade, eu estou entediada. Isso não tem previsão de acabar?

— Se fosse algo de Éponine ou de Apoline, com certeza, já teria acabado. As duas são firmes e diretas em seus eventos, mesmo quando eles envolvem mais do que uma comemoração. Othon só está sendo arrogante enquanto prorroga a comemoração na tentativa de adquirir mais investidores. — Raoul respondeu amargo, tomando um gole de seu uísque e observando os poucos remanescentes no evento, os artistas de pouco renome e os membros da família. Raoul parecia tão cansado quanto à advogada e ele afagou o joelho dela. — Como Apoline disse nas entrelinhas, esse moleque é um irresponsável.

Hermione tentou disfarçar a risada, mas, os seus lentos reflexos não valeram de nada e ela riu abertamente, acompanhada por Raoul. Os olhos da morena, então, voltaram-se novamente para Fleur. A chef estava há alguns metros, no centro de uma roda de familiares, parecendo cansada e, ainda assim, radiando beleza. Em seus raciocínios levemente bêbados, Hermione se perguntou quando foi que se tornou o bastante para aquela mulher.

A resposta não chegou de forma racional e sim, de forma emocional, quando o olhar de Fleur encontrou o seu mesmo àquela distância e com tantas outras pessoas ao redor delas. Hermione sorriu e ergueu o copo, Fleur sorriu abertamente para o seu gesto. Raoul observava as duas e, gentil, disse:

— Eu passei muito tempo distante da minha filha, mademoiselle Granger. Mas, sou eternamente grata por você fazê-la sorrir dessa forma. Depois de mais de trinta anos de casamento, eu bem sei como é difícil ser um Delacour... Você teve uma prova disso quando chegamos e em nosso jantar na noite anterior. Muitas vezes, as mulheres dessa família só encontrarão um pouco de paz em nossos braços. E eu fico satisfeito em perceber que você está disposta a tudo por Fleur, ela precisa disso, mais do que ninguém.

Pela terceira vez naquele dia, um Delacour a surpreendia. Hermione observou Raoul desviar o olhar do seu, mas, ainda manter um sorriso satisfeito e orgulhoso nos lábios. Ele levou o copo de uísque aos lábios enquanto também observava a filha e Hermione viu nele o mesmo que enxergou em Apoline. A mágoa talvez tivesse maculado o amor, mas, ele ainda existia.

Era um pai saudoso que falava com ela. Um pai preocupado e, sobretudo, um pai que amava a filha independente das más escolhas que ele julgava que ela tivesse tomado.

Hermione virou o seu copo de uísque e um sorriso brincou em sua boca enquanto ela contemplava o fundo do copo. Raoul nada mais disse, mas, deu algumas batidinhas em suas costas antes de levantar-se. Ele ajeitou o blazer e desamassou a calça social, depois, caminhou até a esposa e a envolveu pela cintura enquanto ela conversava com alguns convidados.

Apoline sorriu ao reconhecer o toque do marido e se inclinou de encontro a ele, da mesma forma que Fleur se deliciava com os seus toques. A morena suspirou para os dois, tão cúmplices e tão apaixonados mesmo depois de todos aqueles anos e de toda aquela pressão que a família depositava sobre eles, seus olhos também procuraram Phillipe e Lorena e esse casal estava próximo, conversando entre sussurros e sorrindo enquanto se olhavam.

A morena, amarga, se perguntou se, algum dia, poderia ter aquele tipo de coisa com Fleur. O frio novamente fez casa em seu peito e ela voltou os olhos, procurando pelo calor dos olhos cerúleos que incendiava o seu peito.

Mas, Fleur não estava mais no grupo de familiares.

Hermione levantou-se tão rápido quanto pudera. Todas as vértebras de sua coluna se estalaram e o copo de uísque se espatifou aos seus pés, o som o vidro se quebrando chamou a atenção de alguns atentos, dentre eles, Lorena e Phillipe. A morena olhou de um lado para o outro conforme o casal se aproximava e, quando eles chegaram, ela perguntou alarmada:

— Vocês viram Fleur?

— Não, ela estava aqui, não estava? — Lorena perguntou temerosa e Phillipe, imediatamente, soltou de seus braços e foi em direção ao grupo que, até então, conversava com Fleur.

Hermione olhou para Lorena e a francesa tentava acalmá-la, segurando-a próxima. Porém, o aperto no peito de Hermione estava intenso demais para que ela agüentasse parada, por isso, ela se desvencilhou de Lorena e marchou na direção oposta a Phillipe.

E, talvez, a sua intuição — e, muito provavelmente, o seu amor — soubesse exatamente para onde a levava. Hermione atravessou uma das portas, passou pelo bistrô e o letreiro da Cuisine Delacour lampejou aos seus olhos. O bistrô tinha uma saída para o exterior e foi exatamente lá que Hermione encontrou Fleur.

E a chef não estava sozinha, para o seu desespero e para o seu temor, Othon estava junto dela. Na verdade, ele estava com as mãos na cintura dela, prensando-a violentamente de encontro à janela de vidro enquanto ela, inutilmente, tentava desvencilhar-se dele.

O sangue subiu à cabeça de Hermione, ela enxergou em vermelho e a leoa rugiu e exigiu a cabeça de Othon entre os seus dentes.

A advogada esqueceu-se que era uma mulher e que era menor do que Othon. Tudo que via era aquele homem, desprezível e intragável, com aquelas mãos sujas e podres em Fleur. Hermione rompeu a distância que os separava e os seus passos duros eram altos o bastante para atrair a atenção de ambos.

Othon se virou, ele suava e estava pálido, uma mistura de loucura e insatisfação tomava os seus olhos azuis, ele deu um passo distante de Fleur, mas, Hermione achava que ele ainda estava perigosamente próximo dela.

Fleur, por sua vez, olhou Hermione de uma forma que a morena nunca mais queria ver de novo. Ela estava frágil, as lágrimas estavam em seus olhos assim como escorriam por suas bochechas. Fleur tremia e estava com tanto medo que mal conseguia se mexer.

Foi esse temor que impulsionou a fúria de Hermione. Ela deu um passo à frente, Othon abriu a boca para se explicar, mas, tudo que ele teve foi um soco em seu rosto. Um soco que latejou o nariz e, depois, outro que abriu o seu supercílio. O sangue manchou a face pálida e outro soco atingiu a sua boca, ele engoliu sangue enquanto era empurrado.

O estrago era desproporcional para o tamanho de sua agressora.

Hermione continuava a bater às cegas, a dor em seus punhos não era nada comparada a fúria irracional que estava em sua mente. Ela avançou e arranhou a bochecha de Othon e teria avançado mais se um toque não a tivesse acalmado. Fleur segurou seu pulso e a puxou para perto, abraçando-a.

A morena se viu envolvida no aroma de lavandas, suas mãos latejavam e inchavam enquanto eram envolvidas pelas delicadas mãos de Fleur e o corpo da francesa estava envolvido ao seu, protegendo-a de Othon e de si mesma.

O que aconteceu em seguida foi um borrão, Phillipe chegou à cena e bastou olhar do casal para Othon para entender o que aconteceu. Ele voltou a empurrar Othon enquanto esbravejava as piores palavras em francês, Lorena não tentou segurá-lo e sim, virou-se para o casal, dizendo:

— Saiam daqui, eu as aviso quando for seguro voltar!

Em seguida, Gabrielle apareceu acompanhada dos pais e Fleur fugiu com Hermione pelo exterior do prédio da galeria.

Às costas das duas, a Família Delacour gritava por elas. Mas, as duas não os ouviam, muito menos, os enxergavam. Tudo que viam era a outra, tudo que tinham vinha da outra.

A noite de Paris se abriu para as duas, Fleur e Hermione se jogaram em seus braços e desapareceram, fugindo para um local em que somente elas existissem, à procura do que havia sido negado desde que pisaram na França...

E elas encontraram o que procuravam nos olhos uma da outra quando, na escuridão de uma esquina qualquer do 7éme, elas se beijaram.

As lágrimas de Fleur desapareceram e a fúria de Hermione se abrandou — assim como a dor em seus punhos — quando, na escuridão distante da galeria, o silêncio entre elas sussurrou uma única expressão que cabia a ambas...

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Je t’aime.

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Notas finais
Estive muito insegura com o capítulo a partir desse último ato, mas, espero que tenha gostado do que Hermione fez ao Othon (e juro, esse homem ainda tem mais o esperando no próximo capítulo). Quanto aos novos Delacour... Eu amo muito Phillipe e Lorena, eles são sensacionais e, por isso, eu os baseei em dois dos meus crushes: Sam Clafin e Melánie Laurent Hahahaha O que acharam dessa nova visão da Apoline? E do Raoul? E Gabrielle não é a dona dessa fanfic? Hahahahaha Espero que tenham gostado, deixem sua opinião e sua crítica nos comentários... Estou no aguardo! Nos vemos na próxima e sigam-me no Twitter (@redfieldfer). Beijos :)