La Petite Mort

9 O irracional, o certo e o perfeito


Notas iniciais
Boa noite, galeraa! :) Como vocês estão? Eu espero que todos estejam vivos e bem Hahahahaha Bem, estou aqui com mais um capítulo dessa história. Acho que foi um dos mais trabalhosos, até requisitei uma beta pela primeira vez na vida (Valeu Olguita! *-*)... É um capítulo cheio de emoções, eu realmente espero que vocês gostem porque ele é muito especial. Ainda não havia indicado músicas para serem escutadas durante a leitura, mas esse capítulo fará muito mais sentido se vocês escutarem (e lerem a letra) de "Hate and Love" do Jack Savoretti com a Sienna Miller. Vão por mim, vai ser uma experiência muito boa ler o capítulo com ela porque eu escrevi ao som dela Hahahaha Bem, é isso. Boa leitura!

Hermione entrou no “La Petite Mort”, a noite do lado de fora continuava fria e, aparentemente, os ventos tornaram-se mais cortantes e praticamente congelavam as partes expostas de sua pele. A advogada retirou o sobretudo ao sentir o calor aconchegante do local e o pendurou nos ganchos ao lado do hall de entrada, não ocupou-se em olhar para as mesas do salão que estavam vazias e sim, para a cozinha, de onde vinha um cheiro doce delicioso.

Seus passos ecoaram dentro do silêncio que estava no dinner anteriormente. Hermione escutou alguns sons metálicos, provavelmente, resultantes de panelas sendo agitadas no fogão. Assim que a advogada chegou à cozinha, o calor do cômodo, mais forte e aliado ao cheiro que hipnotizava seu olfato, a fez sorrir de lado. Hermione encostou-se na madeira do portal e sorriu quando seus olhos castanhos encontraram a figura alta e elegante próxima ao fogão.

Fleur usava seu dólmã e a bandana azul prendia seus fios loiros, ela estava inclinada sobre o fogão e no momento, abria uma panela e mexia no conteúdo em seu interior. Depois, sem perceber que era observada, a francesa se virou e secou as mãos na toalha presa em sua cintura, apanhando uma faca na bancada as suas costas e cortando os filés de peixe em uma tábua.

Ela parecia tão atenta e nunca esteve tão bonita, pelo menos, aos olhos de Hermione.

A advogada continuou na mesma posição que estava e pigarreou, Fleur olhou assustada para a entrada da cozinha, mas a sua expressão amenizou-se assim que ela viu quem a observava. Hermione aproximou-se e parou ao lado dela, Fleur sorriu para os filés que cortava e, corada, perguntou:

– O que você está fazendo aqui?

– Eu estava nas redondezas... — Hermione respondeu com um sorriso cheio de segundas intenções que resultou em Fleur franzindo o nariz em uma careta envergonhada. A chefe colocou os filés recém-cortados dentro da panela e, rumou para o fogão, mexendo o conteúdo da panela. Fleur olhou de lado para Hermione e sedutora, disse:

– Pelo que eu saiba, o Shell Cottage fica do outro lado, na praia... E você vai ter que se esforçar mais que isso para conseguir alguma coisa de mim.

A morena caminhou até Fleur e enlaçou a cintura dela, beijando-lhe o meio das costas e ficando na ponta dos pés para alcançar-lhe a nuca, afastou o tecido do dólmã e deixou que seus lábios entrarem em contato com a pele pálida e cheirosa da francesa. Hermione pode sentir, com os próprios lábios, Fleur ficar arrepiada e também escutou o ofegar da respiração dela.

Com um sorriso vitorioso nos lábios, a morena beijou-lhe o ombro direito e perguntou rouca:

– A minha abordagem está melhorando?

– Vou ter que experimentar um pouco mais para lhe dar o devido veredicto... — Fleur respondeu com a voz rouca e a respiração pesada, Hermione avançou um pouco mais, encostando seu corpo totalmente às costas dela. Uma das mãos, mais atrevida, retirou todas as barreiras teciduais encontradas e chegou à pele do abdômen. A advogada arranhou a pele lentamente e Fleur mordeu os lábios, virando-se bruscamente. Hermione abriu um sorriso quando sentiu seu corpo ser empurrado bruscamente e bater de encontro à mesa de metal, os olhos de Fleur estavam animalescos e ela tinha um sorriso sensual nos lábios. — Acho melhor você melhorar seus argumentos, mademoiselle...

Os olhos castanhos desceram para os lábios cheios e boca bem desenhada, Hermione sentiu o corpo de Fleur praticamente sobre o seu, seu corpo estava em chamas e só não estava mais quente do que os olhos de Fleur, praticamente a despindo. Hermione esperou para, enfim, aquela boca que tanto desejava encontrar a sua...

Esperou, mas não sentiu.

– Achei que tivesse lhe mandado dormir fora daqui! — O que veio foi a voz de Harry, seguida do arrastar de cortinas da janela de seu quarto e da claridade que entrou através dela. Hermione colocou-se sentada rapidamente, a náusea e a dor de cabeça cegando-a enquanto ela procurava entender o que estava fazendo em seu quarto no Shell Cotage. — E, pelo visto, o que a noite teve de álcool, não teve de ação.

– Feche as cortinas, Harry. — Hermione grunhiu entre as pontadas de dor em sua testa e a frustração que enviava arrepios por todo o seu corpo. A morena tinha esquecido o quanto a sua imaginação ficava fértil depois da bebida, ainda mais, depois de toda a ação na noite passada.

Hermione voltou a jogar o corpo no colchão e deixou-se afundar em sua ressaca física. Mas, como se não bastasse, a sua mente começou a lhe enviar todas as lembranças de seu último encontro com Fleur... Os toques sutis, o ar de sedução que as embriagava, as palavras sussurradas em tons roucos e predatórios... Portanto, ressaca emocional foi inevitável.

A suposta “coragem líquida” fizera o seu interior revelar mais do que devia. A noite anterior, por mais que tenha sido feita de álcool e de irracionalidade, fizera Hermione entender muito do que se passava dentro dela. A atração física entre elas fora percebida desde o início, mas Hermione sabia que tinha algo mais... Algo do qual ela estava fugindo há um ano.

A advogada não estava preparada para deixar-se perder entre sentimentos, ainda mais por que sabia quão frágil se tornava quando perdia-se entre as emoções... Hermione sequer recuperara-se do seu último relacionamento para já estar disponível para outro. Não fazia o menor sentido acreditar naquilo que o seu coração queria.

E se tinha uma coisa que Hermione aprendera nos últimos meses era de que seu coração não era o seu melhor conselheiro. Emoções tendiam ao descontrole e não queria perder o controle.

Entretanto, teria que lidar com as conseqüências de suas atitudes bêbadas.

– Hermione, você está bem? — Harry estava preocupado, a teste franzida em apreensão enquanto ele se sentava ao lado da amiga que continuava afundada em seus travesseiros e a coberta sobre a cabeça. Hermione fingiu não escutá-lo, mas o rubor em seu rosto podia muito bem denunciar que seus pensamentos estavam na noite anterior e no sonho. Ouviu a risada rouca e nervosa de Harry e rangeu os dentes, irritada. — O que aconteceu? Fleur Delacour é hetero?

– Se fosse somente isso, eu já teria caído fora, Harry. — Hermione resmungou ainda escondida pelas cobertas, o seu coração apertou dentro do seu peito, mais um indicativo de que ela estava perdendo o controle, por mais que tentasse mantê-lo intacto. Escutou Harry bufar antes de puxar as cobertas bruscamente para poder encará-la. Hermione olhou para ele com o olhar desolado que, imediatamente, foi capaz de desaparecer com a expressão irritada do amigo. O moreno suspirou e perguntou agoniado:

– Então, o que foi, Mione?

– Eu não quero lhe preocupar com isso, é bobeira. Você tem que resolver sua situação com Gina e, de qualquer forma, “isso” nem começou e nem vai começar... — Hermione respondeu de forma evasiva, tentando esconder a mágoa que tornava seus olhos castanhos brilhantes. Antes que Harry pudesse dar uma segunda olhada para ela, Hermione levantou-se e foi até o banheiro.

A sua cabeça doía e o seu reflexo trazia as conseqüências de seu descontrole. Havia olheiras arroxeadas embaixo de seus olhos, estava pálida e seus lábios estavam rachados. E Hermione sabia que tudo aquilo não era reflexo da bebida e somente dela, sua ressaca emocional estava ainda pior. O suposto arrependimento que sentia lutava contra o nó em seu estômago que significava toda a mágoa que seu passado colocava em seus ombros.

Lavou o rosto tentando melhorar sua expressão e escovou os dentes apenas para perceber que todas aquelas sensações não a abandonariam tão cedo.

Hermione sentia-se pesada, inapta a fazer qualquer coisa semelhante àquilo que acontecera na noite anterior. E ela nem sequer colocara sua ética profissional dentro da equação. Os pontos contra eram em maior quantidade do que os ao favor.

A morena voltou ao quarto e encontrou Harry ainda sentado em sua cabeça, os olhos verdes rapidamente voltaram-se intensos e indagadores para ela. Porém, Hermione preferiu não retribuir o olhar e abaixou a cabeça. Harry suspirou profundamente e arrepiou ainda mais os cabelos escuros e desviou o olhar para a parede, comentando gentil:

– Você deveria parar de viver do seu passado. Nesse último ano, eu vi você fugindo do que realmente é... E por mais que eu tenha me divertido, eu sei que essa não é você. Você faz relacionamentos, a sua hora de quebrar alguns corações para reconstruir o seu já passou... Deixe acontecer e volte a agir como Hermione Granger.

– Não vai dar certo! Não é para dar certo! Eu sou advogada dela, ela é casada e essa é uma cidade que, pela atitude de Bill, não parece ser tão mente aberta quanto Londres. Eu não preciso colocá-la em maiores problemas, ela já tem um dos grandes nas mãos... — Hermione tentou parecer firme, mas a sua voz falhou em diversos pontos de sua frase.

Quando ela, finalmente, olhou para Harry, estava desolada. Harry sorriu pequeno para ela e levantou-se da cama, abraçando-a apertado. Hermione se aconchegou no peito dele e o deixou afagar seus cabelos revoltos, os dois se afastaram e Hermione já não escondia algumas lágrimas que manchavam seu rosto. Harry as limpou e segurou o rosto dela entre as suas mãos, o sorriso ainda em seu rosto. O moreno beijou a testa da amiga e aconselhou:

– Fleur Delacour não faz o tipo que foge dos problemas. Aliás, eu acho que ela até gosta de alguns, principalmente, depois da discussão com Gina. Eu não sei o que aconteceu entre vocês, mas vou deixar você pensar. Apesar de que eu ainda acho que você deveria apenas sentir...

Com essas palavras, Harry deu um último abraço em Hermione e saiu do quarto. Hermione o observou fechar a porta e voltou ao banheiro, tomou um longo banho frio e vestiu-se. Desceu as escadas e ignorou o café e o comprimido que Harry havia lhe deixado em cima da mesa.

Quando ela saiu pela porta da frente, ele não a questionou e sim, a acompanhou. Os dois caminharam juntos até a praça da cidade, Hermione foi para o lado oposto ao dinner e Harry rumou para a casa dos Weasley. E, durante todo o trajeto, bastou um olhar para que ambos compreendessem que eles estariam juntos ao final do dia.

Aliás, se tudo desse errado, Hermione sabia que Harry tinha a sua retaguarda. Assim como o moreno sabia que a sua melhor amiga não ia abandoná-lo.

# # # # #

Fleur abriu os olhos azuis e a luz do sol, bem-vinda depois dos cortantes ventos que assolaram a noite anterior, fez sua cabeça doer. Entretanto, a loira não se incomodou tanto assim com a dor, estava acostumada com as ressacas que vinham após garrafas de vinho que se habituara a consumir.

A loira colocou-se em pé e espreguiçou-se. Diferentemente dos outros dias em que acordava com ressaca, não existia qualquer traço de mau humor em sua expressão, pelo contrário, um sorriso doce e até um pouco ingênuo brincava em seus lábios. As imagens da noite anterior tomaram sua mente, os lábios de Hermione tão próximos aos seus, arrancaram-lhe um suspiro.

– Opa! Eu não me lembro de ter visto esse tipo de sorriso nos últimos tempos! — A voz de Bill chegou aos ouvidos de Fleur e ela girou em torno do próprio eixo, encontrando-o parado no portal de seu quarto. A francesa fez um sinal para que ele entrasse e sua expressão falsamente indignada ainda tinha o sorriso, tornando-se impossível ser levada a sério. Bill aproximou-se sorridente e a abraçou apertado, Fleur retribuiu da mesma forma. — Bom dia, querida.

– Bom dia, chérie! — Fleur murmurou animada, separando-se de Bill e olhando para ele fixamente. Os olhos azuis, que tanto revelavam sobre Fleur, estavam dizendo a Bill o que ele precisava saber. O ruivo observou sua futura ex-esposa praticamente deslizar pelo chão até o banheiro e escutou o chuveiro ser ligado. Bill riu da animação e de toda a paixão que a envolvia e falou mais alto:

– Eu já ia lhe acordar. Você realmente precisa nos contar o que aconteceu, Cedric passou a noite aqui e eu o convidei para almoçar.

– E lógico que eu vou ter que fazer o almoço para vocês. Folgados! — Fleur respondeu de volta, entre risos. Bill preocupou-se em arrumar a cama dela, o sorriso em seu rosto refletia que a felicidade de Fleur era um elixir rejuvenescedor. Ele estava cansado de ver aquela bela mulher destruindo-se nos últimos anos... Era bom ter a Fleur, pela qual se apaixonara, de volta. Na verdade, era especial. — Pelo que eu sei, o dinner não abre hoje e eu não preciso ser chefe de ninguém!

Bill riu alto, deixando que a sua alegria anterior se propagasse para o exterior em forma de uma gargalhada rouca e sincera. Escutou a própria Fleur rir enquanto terminava de arrumar a cama dela. Depois, o ruivo foi até o banheiro e a esperou se enxugar de costas, pelo reflexo no espelho, viu que ela se enrolara na toalha e tinha os cabelos molhados. Bill, então, virou-se para ela e, caçoando, disse:

– E, pelo seu humor, acho que não se importará de fazer algo especial para nós três!

– Effronté! — Fleur o acusou dramaticamente, procurando algo para vestir. Bill riu dela e beijou-lhe a têmpora, depois, a deixou se trocar e desceu as escadas sem que, jamais, o sorriso lhe abandonasse os lábios.

Quando Fleur desceu quinze minutos depois, completamente vestida, encontrou Bill e Cedric sentados lado a lado na pequena mesa que possuíam na cozinha. Os dois estavam com as testas coladas e sorriam um para o outro. A francesa se permitiu invadir pelo amor que transbordava entre os dois e sorriu, antes de bater palmas, assustando-os. Quando Bill e Cedric olharam para ela, ela murmurou irônica:

– Quanto desrespeito pela minha cozinha!

– Uma sentença dessas permite que eu tire uma da sua cara de apaixonada! — Cedric respondeu atrevido. A sobrancelha escura perfeitamente arqueada e o olhar malvado em seus olhos até amedrontariam Fleur se não viessem acompanhados de um sorriso leve nos lábios finos.

Fleur apanhou o final da frase de Cedric e o efeito dela a atingiu em cheio. Entretanto, a francesa não demonstrou e aproximou de Cedric, beijando-lhe a testa e o cumprimentando. O rapaz tinha um sorriso da mesma natureza de Bill, os dois estavam felizes por ela e ela também estava feliz, mesmo sem saber se aquilo que tinha vivenciado era mesmo uma paixão ou algo mais.

Confusa e deixando que a sua felicidade nas nuvens fosse atingida por um pouco de realidade, Fleur deu às costas aos dois e foi até a geladeira ver o que podia ser feito. O frango e a manteiga encontrados lhe deram uma ideia e ela logo os puxou para fora da geladeira. A chefe lavou as mãos e, enquanto as secava, perguntou incisiva:

– Quando vocês descobriram que gostavam um do outro?

Bill ficou vermelho, quase da mesma cor de seus cabelos e Cedric sorriu desconcertado. O ruivo parecia incapaz de responder, então, Fleur virou-se para Cedric que pigarreou e perguntou de volta:

– Por que quer saber? Está insegura quanto ao que sente?

– Não é isso... Só estou perdida. Eu nunca me senti atraída por uma mulher. — Fleur respondeu sincera, colocando a mão sobre os seios e sentindo seu coração quase arrebentar a sua caixa torácica. Ela nunca o sentira tão acelerado, nem mesmo quando conheceu Bill. A chefe mordeu os lábios, nervosa. Cedric respirou fundo e exalou, olhou para ela com um sorriso ameno e disse gentil:

– Eu não acredito que você esteja no meio de uma crise dessas. Você sabe sobre eu e Bill e jamais foi contra nós dois... Está acontecendo com você agora, mas não é diferente de quando você soube da gente.

Fleur deixou que as palavras de Cedric flutuassem em sua mente e realmente concordou com os pontos estabelecidos por ele. Realmente, ela não conhecia esse lado dela, mas desde o primeiro encontro entre ela e Hermione, a atração pairou e pesou entre elas. As duas estavam sempre atraindo uma à outra, mesmo quando as brigas pareciam repeli-las. Fleur viu tudo aquilo acontecer e. em nenhum momento, questionou o que estava acontecendo. Aquele não era o problema. Então, o que a incomodou na sentença de Cedric?

– Você não sabe o que está sentindo, aposto que é isso que lhe incomoda. — Bill arriscou com um sorriso compreensivo, Fleur olhou impressionada para ele porque o ruivo a conhecia melhor que ninguém. Bill olhou para Cedric e os dois trocaram um high-five, a francesa sorriu para os eles e o rubor tomou conta de suas bochechas. — Você pode estar encantada, curiosa ou, até mesmo, surpresa... Mas, independente do que sente, eu acho que deveria acreditar e tentar.

– Eu sou francesa, Bill. — Fleur respondeu com a expressão leve, o sorriso voltando aos seus lábios. Cedric olhou confuso para ela e Bill riu. A francesa assumiu uma expressão mais sedutora e sorriu lasciva para o casal a sua frente. — Eu não me encanto, não fico curiosa e muito menos surpresa. Achei que tivesse deixado claro que sou uma francesa de corpo e alma, portanto, amour et la passion falam por mim.

– Primeira coisa: seu charme não funciona aqui, somos gays, Miss Delacour. — Bill bronqueou de forma brincalhona e Fleur gargalhou junto com Cedric, depois, o ruivo assumiu uma expressão séria e olhou profundamente para a francesa que lhe retribuiu o olhar. — Para quem parecia confusa, você está bem decidida.

Fleur deu de ombros e assumiu um olhar entregue e culpado. Ela não estava preocupada em nomear aquilo que estava sentindo por Hermione Granger e sim, estava disposta a vivenciá-lo e, com o tempo, descobrir do que se tratava. Não estava ansiosa por um amor, como esteve com Bill. Estava ansiosa por voltar a viver algo intenso, capaz de preencher o vazio que ela carregava dentro de si há um bom tempo...

A chefe deu às costas aos dois e voltou a se concentrar em sua culinária. Atrás de si, Cedric trocou um olhar com Bill que já abaixou a cabeça, esperando a pérola que o moreno ia dizer. Repleto de sarcasmo, disse:

– A propósito, francesa... Nós dois podemos ser britânicos, mais ainda temos Elton John e George Michael.

Fleur não conteve a risada que a preencheu, a francesa riu a ponto de chorar e Cedric não estava muito melhor do que ela, sua risada forte deixando-o sem ar. O moreno se levantou, segurando a barriga doída pelas risadas e aproximou-se de Fleur, abraçou-a pela cintura, sustentando o corpo risonho dela em seus braços fortes. Bill olhou para os dois, rindo também. As duas pessoas que ele mais amava no mundo pareciam cheios de uma alegria que o embriagava e o fazia sentir-se o homem mais feliz do mundo.

Bill aproximou-se dos dois e os enlaçou em um abraço apertado. Fleur o amaldiçoou em francês e Cedric aconchegou-se a ele. O ruivo beijou os cabelos dos dois e disse satisfeito:

– Que bela família de disfuncionais nós formamos! Não bastava eu ser gay, Fleur decidiu experimentar os encantos de uma mulher.

Mais risadas. Fleur mal conseguia manter-se em pé, ela não lembrava de sentir-se daquela forma há muito tempo. A francesa podia sentir que era tudo genuíno porque era real e, principalmente, porque tudo se tratava de algo que ela voltava a sentir: esperança. Esperança de que tudo ia dar certo e de que Hermione sentia-se da mesma forma que ela. Diferentemente das outras vezes em que esperou, Fleur esperava colocando tudo de si em jogo, porque era essa mesma esperança que a fazia acreditar que, no fim, tudo daria certo. Seja com Hermione ou com o processo contra a Família Weasley. Ela tinha no que acreditar e no que depositar a sua fé agora.

Cedric esmurrou o braço de Bill e, falsamente indignado, disse:

– Deixe que ela cozinhe em paz, amor. Ou nós dois não almoçamos e ela não liga para a Granger.

– E quem disse que eu vou ligar para ela? — Fleur perguntou para os dois, com o rubor tornando-se mais evidente em suas bochechas. Cedric apertou sua bochecha direita e Fleur fechou a expressão para ele enquanto o estapeava, Cedric mostrou a língua para ela e riu. Bill olhou de um para o outro e, incisivo, ordenou a Fleur:

– Nós dissemos.

Fleur amaldiçoou os dois mais uma vez antes de mandá-los apanhar uma garrafa de vinho e servi-la. Ela ainda podia escutar a risada dos dois enquanto eles iam à adega, no porão, apanhar uma garrafa. Podia sentir seu rosto quente e estava até um pouco trêmula, mas a dor de cabeça havia passado.

Ela virou-se para o hall e seus olhos encontravam o cachecol marrom da morena pendurado junto aos pertences de Bill. Fleur sorriu e decidiu que, definitivamente, ia ligar para Hermione Granger.

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Harry Potter não almoçou. Primeiro, porque o “La Petite Mort” estava fechado e, segundo, porque Hermione não ligou ou sequer apareceu. E, a terceira justificativa era de que ele ficou bastante tempo andando em círculos, percorrendo as lojas da cidade à procura de algo que ele não sabia o que era.

Na realidade, ele sabia o que era, mas sabia que não teria aquilo, ou melhor, “aquele alguém” de volta para a sua vida. Pelo menos, não naquele momento.

Desde o começo, Gina Weasley deixara bem claro que possuía um gênio forte e indomável. Ela era uma mulher forte, independente, ciumenta e, até mesmo, encrenqueira... Mas eram, justamente, esses supostos defeitos que deixaram Harry ainda mais apaixonado por ela. Ela não queria um príncipe encantado e ele não era o tipo de homem destinado a ser um.

Harry tinha problemas com a família e a única pessoa com a qual ele realmente se importava era Hermione. Ele afundava-se em trabalho porque gostava do que fazia. Gina entendia todos os nuances de sua personalidade e ele permitiu que ela entrasse o mais fundo que alguém alcançou dentro de sua personalidade. Harry era apaixonado por ela e sabia que ela sentia o mesmo.

Porém, toda aquela situação entre a família de Gina e a atual cliente de Hermione estava distorcendo a situação entre eles, tornando tudo muito ínfimo diante da magnitude do problema. Harry não abandonava seus amigos, principalmente, Hermione. E, quando atendeu aquela ligação e sentiu o silencioso pedido de socorro da amiga, ele não pensou duas vezes em vir para Ottery St. Catchpole. E se tivesse que fazer de novo, assim o faria.

Gina precisava entender que, antes da relação dos dois, existia a amizade que ele tinha com Hermione. E ele não seria capaz de deixá-la na mão depois de tudo que ela fizera por ele na época da universidade, ele não teria continuado no curso senão fosse por ela.

Mesmo com suas decisões tomadas e a certeza delas, Harry sentia um gosto amargo na boca. Ele amava Gina, nunca dissera a ela, mas ele a amava. Demonstrara o que sentia em todas as atitudes. Até mesmo na discussão que tiveram na noite anterior, em que dissera que ela estava sendo irracional ao acusá-lo de traição.

Harry também sabia que, no amor, ele tinha que ceder. Mas também sabia que deveria confrontar, o equilíbrio deveria prevalecer em um relacionamento. Hermione cedera demais em sua relação anterior e tornou-se a mais frágil, quando tudo acabou, ele que teve que a ajudar a catar os poucos próprios pedaços que ainda restavam. E Harry não cederia daquela vez, Gina tinha que compreendê-lo e, até mesmo, sentir a falta dele naquele momento.

Mas aquela distância entre eles estava lhe dando a sensação de que eles jamais seriam os mesmos e, talvez, jamais voltariam a ser um do outro.

Harry esmurrou a parede de um dos prédios, apenas para ter que lidar com a dor em seu punho. O moreno resmungou para si e rangeu os dentes, estava próximo a ter mais um ataque de raiva quando uma voz estranhamente familiar comentou risonha:

– Noite ruim?

Harry ergueu os olhos e encontrou a figura de um ruivo, provavelmente, um dos vários irmãos de Gina. Ele era alto e desengonçado, tinha um nariz comprido e olhos azuis. O moreno bufou para ele e, indignado, perguntou:

– Veio tirar uma com a minha cara, Weasley?

– A propósito, todos me chamam de Rony. — O ruivo respondeu com ironia e um sorriso amigável, Harry sentiu o rubor tomar conta de seu rosto, mas abaixou a cabeça, ainda furioso. Rony suspirou e escorou-se na parede ao lado dele. — Minha irmã é bem maluca, temo que ela puxou isso da mamãe. Portanto, já se prepare para conquistar a sogra, caso entre para a família.

– Você sabe quem eu sou? — Harry perguntou surpreso, olhando de esguelha para Rony e apanhando a risada dele, ele estava se divertindo. Rony continuou a olhar para frente e respondeu:

– O famoso Harry Potter, claro que sei. Nós nos esbarramos antes quando você me contou sobre Hermione e Gina o definiu com poucas e cruéis palavras ontem à noite.

– Tinha me esquecido que nos encontramos antes, me desculpe. — Harry comentou envergonhado e colocou as mãos nos bolsos. Rony o empurrou de leve e disse amigável:

– Sem problema. Não deu em nada com a sua amiga e todos nós já fomos babacas com alguma mulher.

– Eu não fui babaca com a sua irmã, ela que está sendo irracional. — Harry resmungou cansado, olhando para longe e evitando o contato visual com Rony que o estudava, atentamente. O ruivo ficou mais sério e respondeu:

– Gina é teimosa, assim como todos os Weasley. E a sua amiga é defensora da maior inimiga dela e da minha mãe. Você só deu azar.

– Um azar que pode me custar a sua irmã. — Harry disse melancólico fazendo Rony revirar os olhos e sugerir entediado:

– Cara, eu estou indo ver um jogo de futebol com alguns amigos em um bar aqui perto. Arsenal versus Chelsea. Topa?

Harry olhou desconfiado para ele e, estudando-o atentamente em busca de algum resquício de brincadeira ou até mesmo, de maldade. Mas Rony parecia bastante ingênuo e, na verdade, ele parecia querer apenas uma companhia. O moreno suspirou e, meio contra a sua vontade, disse:

– Acho que sim, minha melhor amiga desapareceu e eu estou realmente precisando de companhia masculina para beber e ver futebol.

– Mas a sua melhor amiga é lésbica... — Rony comentou confuso e puxando Harry para caminhar ao seu lado. O moreno revirou os olhos para ele. — Achei que ela gostasse de beber e de futebol.

Harry continuou a olhar para Rony, tentando entender a lógica do pensamento dele... Mas acabou rindo e o empurrando para longe. Rony ficou sem compreender, mas acabou rindo também e os dois caminharam pelas ruas da pequena cidade.

Harry olhou pelos ombros, havia um pouco de arrependimento em seus olhos verdes, mas ele estava sentindo-se melhor. Talvez, quando parasse de pensar em Gina, entenderia se realmente estava disposto a lutar por ela.

# # # # #

Fleur havia perdido a contagem de vezes em que ligou para Hermione naquele dia, tudo que recebeu de volta foi o silêncio. Um silêncio incômodo e opressivo que dizia, claramente, o que Fleur não queria escutar... A noite anterior parecia não ter importado para Hermione o que significou para ela. As esperanças de Fleur se esvaíam conforme o dia terminava e a noite começava a cair sobre Ottery St. Catchpole.

Porém, Fleur não podia voltar para casa de mãos vazias. Quando deixara Bill e Cedric em casa, prometera a eles que ao menos tentaria... E era esse pensamento e a esperança que a fazia atravessar as ruas frias da cidade com destino à orla e, enfim, ao Shell Cottage. Ela estava disposta a passar a noite nos degraus de pedra que levavam ao chalé.

Fleur voltaria para casa com uma resposta, independente de qual fosse a natureza dela.

Ao atravessar a orla da praia e, enfim, chegar ao chalé, Fleur encontrou justamente o que esperava: portas trancadas, luzes apagadas e a ausência de qualquer sinal que indicasse que Harry ou Hermione estavam ali. De mãos atadas, a francesa apertou a jaqueta que usava em torno do corpo e respirou fundo, sentando-se nos frios degraus de pedra.

Não tinha noção de quanto tempo esperara, mas acreditara que fosse o bastante, pois o vento litorâneo e outonal estava ainda mais frio do que quando ela chegara. Suas mãos estavam extremamente pálidas e ela tentava esquentá-las entre suas pernas, suas bochechas coradas também indicavam que os ventos estavam castigando-a. Os olhos azuis marejavam com as rajadas de vento e Fleur os fechou quando, entre os barulhos das ondas quebrando nos rochedos e do silvo do vento, ela escutou passos.

Ao abrir os olhos, encontrou Hermione Granger caminhando pela orla. O olhar castanho firme e fixo em Fleur. A morena caminhou em silêncio e, quanto mais ela se aproximava, mais o coração de Fleur se apertava. Hermione tinha, em todas as suas feições e trejeitos, o que parecia ser uma decisão tomada. A francesa colocou-se em pé assim que Hermione aproximou-se a cerca de dois passos dela, Fleur abrira um sorriso e Hermione, com a expressão melancólica, disse:

– Vamos entrar, está muito frio.

Fleur levou aquilo como um bom sinal, mesmo diante da distância que parecia presente entre elas. As duas entraram no chalé e Fleur aproximou-se de Hermione que continuava de costas para ela, ocupando-se em trancar a porta. A chefe estendeu o braço, pronta para tocar a cintura da outra quando Hermione virou-se bruscamente e fria, disse:

– Eu sei que quer conversar sobre a noite de ontem e, a respeito dela, eu acredito que...

– Por favor, não diga que foi um erro ou que a culpa é do álcool. — Fleur interrompeu combativa, o seu tom de voz contrastava com o sorriso doce em seus lábios. Hermione tentou desviar os olhos dela, mas a francesa deu mais um passo corajoso e segurou-lhe o queixo, trazendo os olhos castanhos para si, de novo. — Nós duas sabemos que não foi isso.

– O que ocorreu ontem não foi um erro, muito menos, foi culpa da bebida. O problema é outro, Fleur. — Hermione respondeu enérgica, os olhos castanhos brilhavam e a francesa afagou-lhe o queixo com o polegar, existia esperança em seus toques. Entretanto, a morena retirou a mão que segurava seu rosto com um toque delicado em sua mão. A fragilidade estava em cada um dos gestos que ela realizava, completamente diferente da força que foi impulsionada para Fleur na noite anterior. — Tem muita coisa entre nós duas e, principalmente, em mim. Eu tenho um passado recente em minhas costas e ele ainda está muito pesado para que eu possa dividi-lo com alguém.

– E daí se você tem bagagem emocional, Hermione?! Eu sou casada, com um homem gay, mas ainda assim, sou casada. — Fleur argumentou com a voz intensa, os olhos azuis não estavam selvagens dessa vez e sim, amenos. Hermione percebeu que Fleur tentava lhe passar uma calma que praticamente não existia dentro dela mesma. Hermione ficou tocada por perceber que ela estava almejando ser um porto seguro dentro do caos emocional em sua vida. — Eu não estou lhe pedindo em casamento. Eu estou pedindo para tentarmos, mon coeur...

Hermione respirou fundo, o que não adiantou muito, visto que foi invadida pela essência de lavanda, tão característica de Fleur. A morena tentou abaixar a cabeça, mas Fleur não permitiu e segurou o seu rosto com as duas mãos ainda frias... Hermione arrepiou-se e fechou os olhos, segurando os pulsos de Fleur, sentindo o fluxo sanguíneo acelerado colidir com as pontas de seus dedos. A advogada suspirou e, olhando-a nos olhos, justificou mais uma vez:

– Eu ainda sou a sua advogada, não é ético que eu me envolva com você.

– Eu tenho certeza que monsieur Potter ou algum conhecido de vocês possa assumir meu caso. — Fleur resmungou desgostosa, mas sem deixar o sorriso desaparecer de seus lábios. Hermione abriu os olhos e olhava fixamente para ela, mas nada se passava nos olhos castanhos enquanto muito se passava dentro da morena. — Se Il vous plaît, pare de tentar arrumar desculpas para não fazer.

– Não são desculpas, eu estou apenas... — Mais uma vez, Hermione não conseguiu terminar a sua sentença.

A última coisa que ela viu antes de fechar os olhos, foi a sobrancelha direita de Fleur arqueada e o sorriso de lado. Depois, sentiu os lábios de Fleur sobre os seus, em uma carícia inocente até a língua de Fleur, completamente agressiva e sedutora, como tudo nela, pedir passagem em sua boca. Hermione, abandonando as amarras racionais que a seguravam, permitiu-se ser beijada. As mãos frias de Fleur deslizaram do seu rosto para a sua cintura, deixando um rastro de arrepios por onde passavam, e a morena sentiu o seu corpo ser delicadamente prensado de encontro à parede do hall de entrada.

Fleur a beijava como se ela fosse a única, Hermione sentia o corpo dela inteiramente encostado ao seu e também sentia a boca e a língua dela a estudarem com afinco, para, depois, atacarem-na com desejo. O ar faltava a ambas e elas afastaram-se, Fleur encostou a testa na têmpora de Hermione e apertou-lhe a cintura. Em seguida, trilhou um caminho de delicados beijos até a orelha da morena e murmurou rouca:

– Você precisa melhorar seus argumentos, doutora Granger. Ou nós duas nunca vamos conseguir dobrar Molly Weasley.

– Meus argumentos são ótimos, porém, os seus parecem ser melhores, Miss Delacour. — Hermione respondeu com um sorriso no rosto e um brilho diferente no olhar, lentamente, a morena sentia as correntes de seu passado a libertarem. Mas o peso estava ali, porém, não parecia sufocá-la mais. Hermione puxou o rosto de Fleur e colocou uma mecha dos longos cabelos loiros atrás da orelha, sua expressão estava séria e o silêncio entre elas não estava mais tão incômodo pois a cumplicidade também se fazia presente. Hermione suspirou e aplicou mais um selinho nos lábios de Fleur, manteve-se próxima, sentindo a respiração da francesa misturada com a sua. — Merci.

Fleur olhou confusa para ela e beijou a palma da mão que afagava seu rosto. A morena a abraçou e comentou risonha:

– Por ser mais paciente que eu e não desistir na primeira justificativa.

A francesa riu diante das palavras de Hermione, lembrando-se nostálgica de uma das primeiras conversas agressivas que tiveram. Fleur apertou Hermione em seus braços e a morena permitiu-se ser abraçada, encolhendo-se de encontro ao tórax de Fleur, toda a tensão no corpo da advogada esvaiu-se quando ela sentiu que Fleur dedilhava a sua coluna vertebral com a ponta dos dedos.

Imersa no calor que encontrara em Fleur Delacour, Hermione sentiu, pela primeira vez em sua vida, que a irracionalidade parecia extremamente certa e... Perfeita.

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Notas finais
Eu mereço reviews ou mereço socos? Hahahahahaha Espero que tenham gostado! Comentem, divulguem para seu amigo / vizinho / cachorro / coleguinha e etc... Hahahahaha Quero feedback, galera! Muito obrigada por lerem. Espero vocês na próxima. Beijos, FerRedfield