La Guerre
3 Capítulo 3
— Michelle?
— Presente- Respondeu a chamada, secamente. A tutora acenou-lhe, continuando a citar a gigantesca lista com os nomes das crianças que estavam sobre seus cuidados.
Era boa a tutora. Não era muito gentil e nem muito severa. Conseguia manter a situação dentro do orfanato sobre controle- alimentava e limpava todas as crianças, uma por uma, tomando cuidado para que nenhuma delas acaba-se vendo-a como uma mãe. Tomava muito cuidado, também, para que não os visse como filhos.
Michelle suspirou, um daqueles suspiros que só se solta quando se está cansado. Recebera a quantia de vinte euros, nem um centavo a mais e nem um centavo a menos. Apertou o dinheiro com alívio, aquele dinheiro que poderia lhe trazer alguns momentos de alívio, alguns momentos de paz.
Uma vez ao mês, todas as crianças tinham o direito de passear pela cidade. Podiam comprar e fazer o que quisessem, contanto que voltassem antes do por do sol. Essa era, provavelmente, a única regra seguida pelas crianças, uma vez que elas não desejavam perder esse pequeno direito que tinham.
Fora do orfanato, podiam fingir ser o que não eram. Podiam fingir que tinham um pai, uma mãe, um sobrenome. Podiam fingir que tinham uma casa com dois andares, um quintal grande e um aquário com dois peixes. Podiam fingir que tinham um pai arquiteto e uma mãe que lecionava há 10 anos em uma universidade. Podiam, até mesmo, fingir que tinham irmãos.
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— Mas, mamãe, ainda nem anoiteceu!- A garotinha reclamou, lágrimas de crocodilo formando-se em seus olhinhos infantis. A mulher suspirou, um suspirou cansado, passou as mãos pelos cabelos louros e olhou para a garota, um olhar frustrado em seu rosto. Nunca vira aquele olhar no rosto da mamãe.
— Michelle, quando eu digo não, significa não! Sem “mas”! Você sabe que eu estou cansada, eu trabalhei o dia inteiro. Não é porque você passa o dia inteiro brincando que eu faço o mesmo. Você tem que entender que as pessoas mais velhas não tem tempo para esse tipo de coisa! Agora, nós vamos para casa!- Agarrou a mão da menina, guiando-a para a casa.
Michelle passara o resto do dia encarando a mãe pelo canto do olho. Não tinha coragem e nem vontade de olha-la cara a cara. Ressentia-se, estava magoada. Nunca, em todos aqueles seis meses de convivência vira seu papai ou sua mamãe levantarem a voz contra ela. Até aquela tarde.
No outro dia, o papai já notara que alguma coisa estava errada, porém, não dissera nada- nem para defender a mamãe nem para defendê-la. Passou a chamar a mamãe de mãe, e a mulher notou essa mudança. Sabia que a mamãe também estava chateada, porém, não queria declarar trégua naquela que fora a sua primeira de muitas brigas com a mulher.
Um dia, brigaram. E, nesse mesmo dia, escutara uma frase sair dos lábios de sua mãe. Não sabia o significado daquela frase, não sabia quem era o garoto que ela citara. A única coisa que entendera fora: que não era nem metade do que um dia Alfred fora.
Segundos depois que dissera aquela frase, a mulher arregalou os olhos, levando as mãos aos lábios, um olhar incrédulo em seu rosto. Abraçou a menina com força, muita força, soluçando e pedindo desculpas. Porque desculpas? Não havia feito nada de errado. Abraçou a mamãe, decidindo, finalmente, declarar uma trégua, e passeou os dedos pelos longos e louros cabelos da mulher, que continuava a soluçar loucamente. Ao fundo, escondido atrás de uma porta, o papai observava tudo, um olhar de decepção e desgosto em sua face. Porque ele fazia aquela expressão?
Anos depois, fora entender que aquele garoto que sua mamãe citara, Alfred, era, na verdade, o verdadeiro filho do casal, o gêmeo mais velho. O filho morto do casal.
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