La Belle Anglaise

37 36. Traumas Pela Morte.


19 e 20 de dezembro de 1758 foram os dois piores dias da vida de Wilhelm, ele não tinha lembrança alguma deles, era verdade, mas dificilmente havia cena pior que ver a sua própria mãe morta. Wilhelm não lembrava de nada, a não ser o que os outros falaram, porém os efeitos daquela cena ainda existiam nele, mesmo após 32 anos. Sempre que a morte parecia presente, o príncipe tinha duas reações possíveis: raiva ou impotência total, e dessa vez não parecia diferente.

Quando Lady York notificou o estado da marquesa viúva, todos os pensamentos dele voltaram para aqueles dias terríveis, novamente o sentimento do desastre chegando tomou conta do príncipe, mas agora parecia muito mais real. Katherine correu para a entrada da casa, e Wilhelm foi atrás dela com a mesma preocupação... até que a viúva foi vista e as forças para uma ação esvairam.

O que fazer nesses momentos? Como agir quando os traumas do passado eram tão atormentadores!?... Wilhelm estava preso com seus próprios fantasmas, entretanto, quando o príncipe sentiu Katherine o abraçando e apoiando dolorosamente a cabeça em seu peito, ele lembrou que deveria ser forte.

— Miladys, por favor, deixem que eu levo a marquesa viúva.— Soltando-se calmamente da esposa, Wilhelm foi para perto das damas e pegou a viúva nos braços.— O que ela tem exatamente? Que doença é?

— Não sabemos ao certo, meu príncipe. Parece muito um resfriado, mas que resfriado tem esses efeitos?— Já entrando no hall, Lady York respondeu. Havia muita febre realmente, mas a respiração da viúva parecia muito rápida e inconstante.— Como devemos agir, minha marquesa? O que fazer?

Imediatamente todos os olhares voltaram-se a marquesa, mas ela de forma alguma aparentava disposição para liderar. Katherine estava parada no meio do hall, olhando assustada para a mãe nos braço de Wilhelm... ela estava paralisada! Até que o príncipe encarou a esposa, que o encarou de volta... era necessário agir.

— Lady Kensington, vá a Chester buscar o Dr. Pope.— Tomando coragem, Katherine ordenou com alta voz. As damas inicialmente ficaram em seus lugares, fazendo ela perder a paciência.— Vá agora! E as outras também, não vamos demorar com mamãe.

As ordens foram imediatamente compridas e, enquanto a viscondessa Kensington voltou a carruagem, o grupo com as duas marquesas subiu aos aposentos da marquesa viúva. Chegando no quarto, a viúva foi colocada na cama e Wilhelm deixado na antecâmara, apenas para depois voltar e perceber ela com roupas de dormir. As damas de companhia estavam todas envolta dela, o que a estava irritando.

— Lady York já mandou esquentarem o quarto, minha senhora, não fique preocupada.— Lady Eugenie respondeu docemente, até os olhos dela encherem de lágrimas.— Não fique preocupada, o médico logo chegará.

— Eu sei disso, Beatrice, e não tenho preocupação alguma.— A voz da marquesa viúva saiu tão fraca e... dura.— O frio que sinto é apenas febre, não vou morrer como a marquesa Anne.

— Não fale assim, mamãe, assim você me deixa angustiada.— Katherine era quase chorosa, ela abraçava o próprio corpo, mas Wilhelm aproximou-se dela e a abraçou.— O que aconteceu em Bath, mamãe? Foi algum banho?

— Uma friagem que peguei, Katherine, não... não estou acostumada com tudo isso.— Tudo isso? A respiração de Elizabeth voltou a superficialidade, tornando mais difícil ainda para ela falar. Wilhelm sentiu o abraço de Katherine apertar.— Eu visitei um hospital cheio de doentes, mas não... não toquei em ninguém... haviam tantos doentes... estou tão cansada.

Tornou-se cada vez mais difícil para Elizabeth manter seus olhos abertos, a respiração dela estava tão pesada que lhe cansava. Ao perceber que a marquesa viúva estava quase dormindo, o pânico tomou Katherine, certamente ela estava com medo da viúva dormir e não mais acordar.

— Mamãe? Mamãe, não durma, por favor! Logo o Dr. Pope chegará é...— Toda tentativa foi em vão, a marquesa viúva dormiu.

Percebendo que Katherine estava prestes a chorar, Wilhelm a apertou com mais ternura e a levou para a antecâmara. Ela deveria deixar essa visão triste de lado, pelo menos por um momento. A marquesa não mostrou oposição alguma, ela mesma sabia que seria bom. Chegando na pequena sala que antecedia o quarto, o príncipe soltou a esposa, que sentou em um sofá, cobrindo a cabeça com a mão.

— Será bom para ela descansar, Katherine, talvez isso seja apenas cansaço.— Nem mesmo ele acreditava em suas próprias palavras, mas tudo era necessário para acalmar ela... o que não funcionou, a marquesa negou.— Seja lá o que for, iremos superar, sua mãe irá superar. Basta mantermos a calma e...

— Como, Wilhelm? Como manter a calma? Minha mãe está morrendo!— Oh, Deus. Katherine levantou do sofá e respondeu emocionada, não haviam lágrimas, mas ainda assim...— Estou com tanto medo, eu já não tenho pai, o que será de mim sem mamãe!? Eu não conheço uma vida sem pelo menos um dos dois!

Essa era uma preocupação que o príncipe não conhecia, ele até mesmo já desejou a morte do pai, mas Wilhelm não era cego ao sofrimento de Katherine. Aproximou-se da marquesa, o príncipe novamente a abraçou e beijou a bochecha dela ternamente, Wilhelm queria dar para ela alguma força, mostrar que eles deveriam ter confiança.

— Mesmo que algo aconteça, mesmo que você não tenha mais pai ou mãe, eu estarei com você, nossos filhos estão com você.— Aproximando-se do ouvido da marquesa, Wilhelm sussurrou convicto.— Nem mesmo na morte eu te deixarei sozinha, Katherine.

Os dois se fitaram fixamente e sorriram, um sorriso que logo tornou-se um beijo. Eles estariam juntos, iriam cuidar da marquesa viúva juntos, isso que importava... mas seria melhor com Elizabeth saudável.

*****

— O que está acontecendo, Lady Pembroke?— Esse era Richard e, a julgar pela voz, estava muito preocupado.

— Por que não podemos ver a vovó?— Mary, a mais infantil e doce dos quatro.

— Ela está muito mal?— Foi uma pergunta bem direta, então era Anne.

Ainda sentada na antecâmara, Katherine ouvia as vozes abafadas de seus filhos logo atrás da porta, então não era apenas ela a preocupada, as crianças também. Suspirando, a marquesa encarou tristemente Wilhelm, que estava sentado ao lado dela.

— Crianças, seríamos avisados se algo estivesse acontecendo.— Tentando acalmar os "filhos de Bristol", Lady Pembroke respondeu docemente.— Façam como Robert, ele não fez pergunta alguma.

— Mas eu também quero saber.— Robert foi a gota d'água, essas perguntas, mesmo que não direcionadas para ela, cansavam muito.

Levantando do sofá, Katherine afastou-se da porta e voltou para onde a marquesa viúva ainda dormia. Que desastre era a vida de um Tudor-Habsburg, parecia nunca haver felicidade! Teria sido algum tipo de praga? Não bastavam os problemas com a Revolução e a nova propriedade em Bristol?

— Vamos tentar manter a calma, Katherine, será melhor.— Quantas vezes ele já havia dito isso? A marquesa fechou dolorosamente os olhos, porém, ao sentir a mão de Wilhelm em seu ombro, ela sorriu.— Eu irei falar com as crianças, vou dizer que sua mãe está doente, mas não é nada muito ruim.

— Eu agradeceria muito.— Porque ela mesma não teria tal coragem. Ainda de costas, Katherine sentiu o príncipe se afastar, até que ela lembrou de algo:— Wilhelm, diga apenas que mamãe está indisposta, não quero causar mais pânico ainda.

Ele não falou nada, apenas assentiu e depois saiu, deixando então Katherine sozinha com a marquesa viúva. Fechando seus olhos com força, a princesa suspirou e sentou ao lado da mãe na cama, ela estava dormindo, mas nem assim parecia ter paz. As vezes Katherine pensava que sua mãe nasceu para sofrer. Ela sofreu com a pressão de ser uma princesa Tudor-Habsburg, uma digna consorte alemã. Houveram tantas críticas, se quem nascia na realeza já tinha que suportá-las, imagine quem virou realeza?

E ainda... aconteceu a viuvez, esse com certeza foi o pior dos sofrimentos. Enquanto Katherine perdeu um conselheiro, líder... um pai; sua mãe perdeu o melhor amigo que tinha. Agora ela estava assim: doente com Deus sabe o que. Por que Lady Kensington estava demorando tanto com o Dr. Pope? Chester nem era tão distante assim! A marquesa não conseguia mais chorar, porém ela queria tanto... era como se a mãe estivesse fugindo das suas mãos.

Um barulho na porta, porém, tirou a marquesa de seus pensamentos, ela levantou da cama e fitou a entrada. Lady Kensington, seguida por Lady York e Lady Eugenie, e logo atrás Wilhelm, entrou no quarto, mas...

— Onde está o Dr. Pope, milady?— Deixando a viscondessa ainda mais aflita, Katherine perguntou ansiosa.— Não me diga que...

— Fiz tudo que estava ao meu alcance, minha marquesa, mas foi impossível.— Impossível!? A princesa negou e buscou algum apoio nos outros, mas até mesmo Wilhelm abaixou a cabeça.— O Dr. Pope está preso em Neston, por conta da neve, e o Dr. Notyrem viajou para Manchester.

— Preso em Neston? Viajou para Manchester!? Não sei o que é pior!?— Dando as costas para todos, Katherine tentou voltar a calma. Não haviam apenas essas opções.— Então chame Carlyroy.

— Liverpool.— Os olhos dela arregalaram ao ouvir Wilhelm. Katherine negou, não! Uma coisa dessas não poderia ser verdade!—O Dr. Carlyroy está em Liverpool.

Por Cristo! A marquesa levou as mãos a rosto e gemeu dolorosamente, como esse tipo de coisa acontecia!? Andando ansiosamente pelo quarto, Katherine tentou conter seus sentimentos, até que ela parou e encarou furiosamente a todos.

— Foi premeditado tudo isso!? Não é possível! Chamar o Dr. FitzGerald está fora de questão, Londres é muito longe.— Então o que fazer? Ainda havia uma última opção, mas...— Não me digam que Markson está em Bristol?

— Já tomamos as ações necessárias, minha marquesa, um mensagem foi buscar o Dr. Carlyroy em Liverpool, não se preocupe.— Sorrindo calmamente, ou pelo menos tentando, Lady Kensington avisou. Então por que não chamar o Dr. Pope? Neston estava mais perto.— Creio que logo ele chegará, as estradas estão melhores que as de Neston, pelo menos.

Estava explicado então. Negando incrédula, Katherine voltou a sentar ao lado da mãe. Talvez fosse melhor já mandar prepararem o funeral da marquesa viúva, limpar um mausoléu não era nada fácil. Agora, realmente, a princesa queria chorar.

— Vamos esperar Carlyroy, Katherine, e nos acalmar também.— Aproximando-se dela, Wilhelm tentou dar apoio, mas... acalmar? Ele só sabia falar isso!?— E o Dr. Markson está em Edimburgo, não em Bristol.

Deveria ter sido uma piada? Algo para deixá-la mais alegre? Katherine nunca gostou das piadas de Wilhelm! Fazendo o máximo de esforço possível para não gritar, ela encarou fixamente o príncipe.

— Como ficar calma em meio a todos esses problemas? Diga-me, Wilhelm, como?— Assim como esperado, ele não respondeu. Katherine não sabia, mas ela iria ultrapassar até onde a paciência de Wilhelm alcançava.— Minha mãe tem uma doença desconhecida, e médico só Deus sabe quando chega. Talvez só ano que vem, considerando que já é 28. Realmente, tenho tantos...

— Você ficar estressada não vai salvar sua mãe da morte, sabia?— As damas da marquesa viúva arfaram em horror. Não, Wilhelm não pôde ter dito isso.

Fitando duramente o marido, Katherine levantou e caminhou até ele. Essa foi uma das piores insensibilidades que Wilhelm já havia dito! A vontade da princesa era dar um tapa nele, um forte e ardente, mas ela simplesmente levantou a mão e apontou para fora.

— Saia daqui, Wilhelm, saia antes que eu lhe expulse aos gritos.— Era uma ameaça, uma que Katherine não teria receio algum de cumprir. O príncipe sorriu irônico.— Eu vou gritar.

Ele cruzou os braço sobre o peito e a encarou desafiador. Seria necessário mais uma ameaças? Muito provavelmente. Katherine levantou sua mão, sinalizando que iria dar um tapa nele, aparentemente não deu resultado, Wilhelm permaneceu parado, mas em poucos segundos ele deu as costas e saiu em silêncio do quarto. Por que as coisas tinham que ser tão complicadas as vezes? Suspirando, a princesa voltou a sentar ao lado da mãe e calou-se.

As damas da marquesa viúva observaram toda essa cena com pavor e preocupação, as coisas não eram assim nos tempos de Alfred e Elizabeth, mas não demorou muito e as damas da marquesa foram chamadas ao quarto.

O Dr. Carlyroy foi esperado não por um dia, nem dois, mas sim por três dias, ele chegou em Amelian House apenas em 31 de dezembro, quase às 8 horas da noite.

— As estradas estavam terríveis, Sua Alteza Sereníssima.— Quando chegou na casa, essa foi a desculpa do médico. Então como o mensageiro chegou antes dele?— De qualquer forma, disseram-me que a marquesa viúva estava com febre, muita febre.

— Realmente, ela ESTAVA com febre, mas agora também está vomitando, tossindo e com dor no peito.— Preferindo nem olhar para o médico, Katherine respondeu friamente.— Oh, ela também está delirando, por causa da febre.

Carlyroy não respondeu, apenas engoliu em seco e foi analisar a viúva. O ar nesse quarto estava tão hostil, haviam várias damas em sua volta, um príncipe dinamarquês impassível sentado o encarando, muitos criados impacientes e uma legião de guardas do lado de fora. Uma imenso tristeza.

— Creio que a marquesa viúva esteja com pleurisia, minha princesa.— Acabando sua análise, o médico enfim disse, para a confusão e consternação dos presentes.— Envolve o ar e os pulmões, não é nada muito grave, dependendo claro...

— Onde você se formou, Carlyroy? Em alguma universidade ainda na Idade das Trevas? Porquê se isso não for grave, não sei mais o que é.— Novamente, o médico ficou em silêncio. Wilhelm disse o que Katherine mais queria dizer... foi magnífico.— O que o senhor fará?

Em resumo, nada que fizesse alguma diferença real. Foi receitada uma mistura e que todo o ambiente fosse fechado, para assim impedir a proliferação do ar prejudicial. Não era nada bom desconfiar da medicina, mas como confiar quando ela parecia tão suspeita?

1 de janeiro de 1791 começou da pior maneira possível para os Tudor-Habsburg, eles nunca realmente deram valor para essa data, mas iniciar o ano com fogos de artifício, lançados durante a festa de Sir Lawrence Widvil, dono da propriedade vizinha a Amelian, enquanto sua mãe estava morrendo, não era a melhor das experiências. Parecia um sinal de como essa última década do século XVIII seria terrível.

Durante a noite do primeiro de janeiro, enquanto toda a casa dormia e Katherine estava ao lado da mãe, velando o sono dela, a marquesa viúva acordou subitamente e muito agitada.

—... Katherine... Katherine, minha filha!— A princesa ficou sem ação, ela não sabia o que fazer. Elizabeth parecia tão fraca e débil.— Eu preciso... oh, minha rosa, eu... preciso lhe falar...

— Não, mamãe! Não, por favor, guarde o resto de fôlego que ainda lhe resta!— Mas ela negou, para o horror da filha, e parecia disposta a continuar.— O Dr. Notyrem chegará amanhã de Manchester e, se tivermos sorte, o Dr. Pope já deve ter saído de Neston.

— Estou morrendo, minha rosa... morrendo... Um segredo!... o maior segredo... meu e de seu pai...

— Mamãe, eu estou muito preocupada!— Pegando a mão dela, Katherine respondeu emocionada.— A senhora não pode...

— Eu e seu pai, nós...— Por um momento, um único, Elizabeth apertou a mão de Katherine, mas logo o apertou acabou, as pupilas dela dilataram e a marquesa viúva caiu desmaiada nos travesseiros.

O horror atingiu Katherine, que gritou altamente, acordando toda a casa. A marquesa sabia que sua mãe ainda estava viva, ainda era possível sentir sua respiração, mas não parecia ser por muito tempo.

— Mamãe! Mamãe, acorde, por favor!— Elizabeth não acordava, e Katherine sentia que dessa vez seria diferente. Nesse mesmo momento, Wilhelm acordou na antecâmara e foi ver o que acontecia.— Oh, mamãe, acorde e me abrace, por favor!

Essa visão, essa cena, paralisou o príncipe... parecia tanto com... os olhos de Katherine e Wilhelm se encontram, havia uma única lágrima descendo nela... tomando coragem, ele correu para a porta e gritou:

— Uma ajuda! Alguém chame um médico! A marquesa viúva está morrendo!— Ruídos começam a ser ouvidos, então Wilhelm voltou a Katherine e abraçou.— Eu sei, mas não lembro, como é essa dor.

O quarto da marquesa viúva encheu de pessoas, todos ficando horrorizados ao chegar e ver aquela visão...

"Londres, 02 de janeiro de 1791, às 3 horas e 40 minutos dessa manhã, morreu pacificamente em Amelian House, Cheshire, Sua Alteza Sereníssima, a princesa e marquesa Elizabeth, após uma repentina [...], acaba uma era para os Tudor-Habsburg [...]"

*****

20 de dezembro de 1758, Palácio de Hirschholm

Uma terrível atmosfera soturna e fúnebre havia tomado conta de Hirschholm, as risadas alegres da tarde anterior haviam dado lugar a sussurros de pesar e lágrimas de tristeza. A casa do príncipe Carl estava de luto. Eram apenas cinco da madrugada e todos no palácio estavam acordados, acordados e vestindo suas roupas mais escuras, isso desde o mais insignificante criado, até as crianças.

Em frente aos aposentos da princesa Louise, a condessa Frederikke Rantzau, governanta das crianças de Hirschholm, tentava ao máximo acalmar Christian, Louise e Wilhelm, mas sem qualquer sucesso. Eles estavam desesperados para saber o que estava acontecendo, queriam saber como a mãe deles estava, queriam vê-la, abraçá-la e... por que o pai deles havia gritado tantas vezes durante a noite?

— Por que você não diz logo o que está acontecendo, condessa Frederikke?— Ouvindo a pergunta de Wilhelm, a condessa apenas virou o rosto e começou a andar ansiosamente pelo corredor. Não havia como falar isso!— Eu quero ver a minha Mutti! Por que não podemos vê-la? Eu quero...

O principezinho mais novo estava prestes a fazer birra, mas a porta foi subitamente aberta, fazendo todas as crianças recuarem assustadas para os braços da condessa. Era o príncipe Carl... mas esse não parecia o príncipe Carl, apesar dos olhos vermelhos e inchados pelas lágrimas, ele tinha uma furiosa expressão no rosto. A condessa envolveu protetoramente seus braços envolta das crianças.

— Cala a boca, fedelho, sua voz apenas me dá vontade de...— Apertando fortemente os punhos, o príncipe não conseguiu acabar a ameaça, mas essa incapacidade dificilmente era arrependimento.— Diga a ele, condessa. Não tenha medo, não esconda nada. DIGA TUDO!

— Mas, meu príncipe! Ele é apenas uma criança, todos...— Dando alguns passos para trás, ela tentou salvar as crianças, mas foi impossível.

— NÃO ME IMPORTA! DIGA LOGO!— As crianças, desacostumadas com gritos, começam a chorar, fazendo assim a condessa negar. Ela não permitiria.— Faça o que digo, ou serão duas mortas para enterrar!

Uma ameaça! Até mesmo a condessa Frederikke estava prestes a chorar, havia medo na governanta, mas ela não iria deixar ele tocar nas crianças de sua senhora! O príncipe Carl, já perdendo qualquer paciência que tinha, avançou em direção a condessa e agarrou o braço dela, tentando ao máximo pegar as crianças.

— Onde está nossa Mutti!? Nós queremos ela, Vater!— Entre os puxões e até mesmo arranhões, a pequena Louise gritou. O príncipe Carl instantaneamente soltou a condessa e afastou-se.— Vater?

Por um momento, que mais pareceu uma eternidade, o príncipe Carl ficou calado, estático em suas ações e sentimentos. A pergunta da princesinha o levou de volta a realidade... fazendo ele sentir mais raiva ainda! O príncipe voltou a encarar os filhos com fúria, ou melhor, a encarar Wilhelm com fúria.

— Ela está MORTA, Louise! Sua mãe MORREU!— As crianças gritaram em horror e começaram a chorar ainda mais, o príncipe, porém, apontou para Wilhelm e acrescentou:— Ela está morta, e a culpa é sua! Unicamente sua... filho da puta!

Horrorizada com essas palavras, a condessa apertou fortemente o principezinho contra si, tentando impedi-lo de ouvir essas... coisas. Mas foi em vão, Wilhelm escutou cada acusação e ofensa. Em meio às lágrimas, ele negou e escondeu o rosto na saia da governanta.

— Não seja assim, meu príncipe!

— Calada! Lembre-se qual o seu lugar nessa casa, condessa! WILHELM MATOU LOUISE!— O príncipe novamente tentou agarrar o jovem Wilhelm, mas a condessa, sem saber o que mais fazer, empurrou ele para longe.— Vagabunda!

Sem nenhum receio, o príncipe Carl levantou a mão e deu uma forte bofetada na condessa Frederikke. A condessa quase caiu com o impacto e o susto, soltando assim as crianças. Aproveitando esse momento, o príncipe agarrou fortemente o braço de Wilhelm e o trouxe em sua direção, fazendo a criança chorar desesperadamente com a dor:

— Não! Você está mentindo, ela não morreu, está viva!— Mesmo com as lágrimas, Wilhelm tentou fazer seu pai o largar.— Eu quero um abraço, Mutti!

— Não acredita? Então eu vou lhe mostrar, vamos ver o cadáver da sua mãe!— Apenas essa ideia fez o principezinho gritar e chorar desesperadamente, até na entrada no palácio era possível escutar.

Apesar dos protestos e gritos, o príncipe agarrou brutalmente o braço da criança, que chorou com a dor, e o empurrou para dentro do quarto. Ele não dava a mínima importância aos gritos, ao choro e os protestos, o príncipe Carl apenas queria fazer Wilhelm sentir o pior dos sofrimentos. Chegando ao lado da cama, ele empurrou o menino para perto.

— Aí está, filho da puta, sua mãe, e o que você fez com ela.— Mas o principezinho havia fechado os olhos, até mesmo os tampou com as mãos. Vendo isso, o príncipe agarrou o filho e o estendeu sobre a princesa.— ABRA SEUS MALDITOS OLHOS E VEJA! VEJA O QUE VOCÊ FEZ!

— Não! Não, Vater, por Favor!— Wilhelm tentou ao máximo manter ter seus olhos fechados, não ver essa visão, porém, de alguma forma o príncipe Carl conseguiu fazê-lo ver.— NÃO! MUTTI! EU SOU HORRÍVEL! DESCULPA, MUTTI!

Essa foi talvez a pior visão que Wilhelm já teve, ele viu a própria mãe morta. A pele da princesa Louise tinha um aspecto frio, estava muito branca, praticamente deixando o branco e ficando roxa. Os gritos do principezinho morreram em sua garganta, Wilhelm apenas conseguia chorar e soluçar... ela estava morta... e foi ele que a matou!

— Sim, veja a sua mãe, a que você ASSASSI...— O príncipe estava prestes a fazer a pior acusação que se poderia fazer, mas ele foi interrompido.

— Que monstruosidade é essa que você está fazendo, Carl!?— Era a rainha Juliane Marie, que encarava a cena com o mais assustado dos olharem.— Coloque já esse menino no chão! Assim você irá traumatizá-lo!

— Não se meta onde não foi chamada, alemã! Esse é meu filho e eu faço o que desejar com ele!— Ofendida, talvez até irada, a rainha consorte aproximou-se rapidamente do príncipe, que a encarou fixamente.— Ele matou Louise e deve pagar por isso! Eu deveria matá-lo agora mesmo...

Calando o príncipe, a consorte deu um forte tapa no rosto dele. Os dois ficaram em silêncio, Juliane Marie encarava friamente Carl, que encarava o chão, mas logo esse silêncio acabou. O príncipe, soltando o filho, levantou a mão e preparou-se para revidar a bofetada, mas foi a rainha que acabou dando outro tapa nele.

— Como ousa levantar a mão contra sua própria rainha!? Você não é ninguém, Carl!— Ele ficou em silêncio e voltou-se ao cadáver da esposa. Juliane Marie pegou Wilhelm no colo e caminhou para fora do quarto.— Não irei dizer ao rei o que aconteceu aqui, mas saiba que isso dificilmente sairá barato.

Novamente o silêncio. As três crianças foram devolvidas a condessa Frederikke Rantzau, que recebeu a ordem de levá-las ao berçário por tempo indeterminado. Nas horas seguintes o funeral da princesa Louise foi preparado e o príncipe discutiu com a rainha. Dois dias depois, a princesa foi sepultada na Catedral de Roskilde e o príncipe logo em seguida viajou para a Rússia.

Notas finais
* Aqui foi um capítulo cheio de mortes... talvez eu tenha pesado um pouco a mão nesse romance, mas quanto melodrama melhor, não? * Estamos nos despedindo de Elizabeth, ela morreu por complicações da pleurisia. Devo confessar que eu decidi quase em cima da hora a causa da morte de Elizabeth, eu havia decidido algo antes, mas cancelei. Digo logo que não gosto de matar meus personagens de doenças... falando bem grosseiramente, afetam a aparência, por isso você sempre verá eles morrendo de algo envolvendo a respiração ou o sistema imunológico... embora alguns tenham de morrer tragicamente. * Com a postagem desse capítulo, faltam mais três para o fim de La Belle Anglaise. Na próxima semana já chegamos ao "o fim é apenas o começo". * La Belle Anglaise no Pinterest: https://pin.it/3TdCBkr