La Belle Anglaise

34 33. Mudanças: Perigosas Surpresas.


Notas iniciais
* Esse é oficialmente o mais longo capítulo de La Belle Anglaise, e digo com total certeza que nenhum outro ultrapassará a barreira das 4 mil palavras. Para o bem dos leitores? Não, eu fico muito cansado fazendo revisões grandes. * La Belle Anglaise no Pinterest: https://pin.it/5qGfzZf

06|12|1789 Palácio de Versailles, Versailles

O sol nascia ao horizonte, iluminando pouco a pouco o imenso Versailles e a multidão que o sitiava. Havia uma certa aparência de calma e contenção na multidão, em comparação com o dia anterior eles estavam mais calmos, de fato, mas tudo não passava de uma ilusão. Os protestos já estavam recomeçando e a mágica do esplendor real tinha acabado... principalmente dentro do palácio...

Revenez! Retournez à l'intérieur!— Pelos corredores do palácio, os guardas reais gritavam, acordando seus companheiros.— Ils sont entrés dans le château! Retournez à l'intérieur!

Imediatamente despertando, a maioria dos guardas adentrava mais ainda nos corredores, enquanto o restante tentava trancar as portas... uma turba de revolucionários havia invadido o palácio.

Fermez les portes! Formez des barricades! Sécurisez la cour de marbre!— Ajudando a mover móveis e objetos na frente do corredor, fazendo uma barricada, um guarda gritou ao restante que continuou.— Prévenez la reine!

Mas não importava quantos corredores os guardas barricassem, ou quantas portas fechassem, os gritos e tiros raivosos da turba apenas aumentavam. E essa não era uma multidão comum, eles queriam a rainha, matar a rainha. Os guardas continuaram a trancar e barricar corredores, até que simplesmente desistiram e prepararam suas armas para atirar, seria uma carnificina, mas o dever deles era proteger a família real de tudo e todos.

Un couloir, la chambre de l'Autrichien est par là!— Liderados por um jovem, um grupo de revoltosos armados entrou no corredor e logo viram os guardas apontando suas baionetas.— Tuez la patte autrichienne!

Ne laissez passer personne! Protégez la reine!— Não houve hesitação, todos os guardas reais apertaram o gatilho.

... Tiros foram ouvidos por Marie Antoinette e suas damas de companhia, seguidos por gritos cada vez mais próximos, porém elas não estavam mais no aposentos da rainha, mas sim tentando buscar refúgio nos apontando do rei, o que parecia em vão.

La reine! Recherche et reine!— Os gritos da turba estavam mais próximos, como se soubessem onde Marie Antoinette estava. Seria um desastre, a rainha e suas damas não haviam sido escutadas pelo rei.— Tuez l'Autrichienne et jetez son cœur!

Ouvrez la porte! S'il vous plaît, ouvrez ! La reine est en danger!— As damas batiam fortemente na porta do rei, enquanto Marie Antoinette tinha seus olho focados no corredor secreto que ligava os dois aposentos.— Laissez entrer la reine ! La reine!

Nada acontecia, ou melhor, um estrondo foi escutado... dos aposentos da rainha...

Ils sont proches.— A turba havia invadido o quarto dela. Marie Antoinette continuou estática, encarando o corredor, ouvindo as ameaças do seu povo.— Ils vont me tuer... ils vont me tuer!

Deixando a prisão que eram seus pensamentos, a rainha juntou-se as damas em gritar por ajuda. Elas clamaram e baterem por minutos, os minutos mais intermináveis e perigosos da vida de Marie Antoinette.

Où est l'Autrichienne!? Trouvez-la et tuez-la!

Arrachons les tripes de la reine et donnons son sang à boire aux cochons!

Ouvrez! Ouvrez, je vous en supplie! Ils veulent ma tête!— As batidas e súplicas de Marie Antoinette tornaram-se lágrimas, a sensação da morte chegando era terrível! Parecia não haver salvação.— Sauvez-moi! S'il vous plaît, je ne veux pas mourir maintenant! S'il vous plaît...

As forças da rainha acabaram, restou apenas desespero e lágrimas, parecia o fim da linha... mas, fazendo a rainha chorar mais ainda, a porta do rei foi aberta e elas puderam entrar para a salvação. A hora de morrer não havia chegado a Marie Antoinette... ainda não. Entretanto, as horas que seguiram a invasão de Versailles de forma alguma foram melhores. Embora La Fayette tenha feito a turba sair do palácio, ela ainda estava no cour de marbre, gritando pelo rei e exibindo em lanças as cabeças dos guardas reais mortos.

Vive le Roi! Vive le Roi!— Em dado momento, La Fayette convenceu Louis XVI a se dirigir à multidão. Ambos foram aplaudidos.

Dentro da sala, agarrando protetoramente o Delfim e a Madame Royale, a rainha não escutava palavra alguma que era dita na sacada. Ela estava presa em seus próprios pensamentos e medos, ainda agradecendo a Deus por estar viva. Ao escutar o rei transmitindo sua disposição de retornar a Paris, Marie Antoinette suspirou em alívio, talvez fosse o suficiente para fazer esse povo ir embora.

A multidão recebeu essa declaração com alegria, mas não era apenas isso que eles queriam.

Madame? Ils exigent votre présence sur le balcon.— O povo queria a rainha na sacada. La Fayette estendeu sua mão a rainha, mas ela recusou e pegou as mãos dos filhos.— Je vous accompagne.

Pour mourir avec moi? Très bien, monsieur, cela me sauvera peut-être la vie.— Talvez nem os Filhos da França o povo respeitasse mais. La Fayette assentiu e saiu na frente.

Assim que Marie Antoinette saiu para à sacada, a multidão gritou para as crianças serem levadas para dentro... A rainha foi deixada sozinha, com a multidão, agora em silêncio, apontando seus mosquetes para ela, era a imagem de um regicídio prestes a acontecer. A vida dela estava nas mãos de Deus e, principalmente, do povo.

Contendo seu medo, Marie Antoinette encarou de cabeça erguida seus assassinos. Ela era filha da imperatriz Maria Theresa da Áustria, a Primeira Dama da Europa, Marie Antoinette era uma rainha, a rainha da França! Se fosse para morrer... então que fosse com dignidade!

****

"Vive la Reine!", abaixando as armas e aplaudindo, a multidão começou a gritar. Certamente devem ter ficado com pena dela.— Soltando sua respiração em alívio, a marquesa fechou os olhos e sinalizou para Berland voltar a falar. O conde tranquilamente encarou ela e depois Wilhelm.— Agora eles estão presos em Paris, na cela que é o Palácio das Tuileries. Assim como Charles I, Louis XVI tornou-se prisioneiro em um palácio.

Oh, Céus! Era um desastre, não havia outra palavra para descrever... isso. E Lord Berland ainda teve a ousadia de comparar Louis XVI com Charles I, o pior pesadelo de todo príncipe europeu era tornar-se igual ao mais malfadado monarca britânico. Suspirando, Katherine fitou fixamente o conde, em dúvida se deveria ou não se perguntar.

— O que exatamente essa volta a Paris significa, milorde?— Lord Berland surpreendeu-se com essa pergunta, porém, pouco deixou transparecer.

— Significa que o Ancien Régime foi derrotado na França, ela nunca mais será a mesma.— Uma França diferente da atual... Katherine tentou, mas não conseguiu imaginar algo bom. Mesmo hesitando um momento, Berland continuou:— O rei não mais governa, ele perdeu todo o poder, influência e, ironicamente, a liberdade.

Ironicamente? Voltando-se para Wilhelm, a princesa riu desdenhosa e negou, apesar do silêncio dele. Era tão previsível uma coisa dessas, alguém tinha que perder quando outros estavam ganhando. O príncipe, porém, permaneceu de cabeça erguida, embora não estivesse sorrindo.

— Então por que ainda chamar a França de reino?— Chocando Berland, e Wilhelm, Katherine comentou cheia de repulsa e negação. — Não existe mais rei, consequentemente também não existe mais monarquia, nem lei ou ordem, apenas uma anarquia revolucionária.

— Não é exatamente assim, Katherine, existe sim ordem e lei, a única diferença é que agora o povo e seus deputados que governam.— Claro que ele iria contestá-la. Deixando de encarar o príncipe, Katherine negou severamente.— Eles tomaram o pode ilimitado de um tirano, nesse sentido, eu não vejo problema algum.

— Pois eu vejo, vejo todos para ser mais exata.— Mesmo tentando, a princesa não aguentou e voltou a encarar Wilhelm, cuja expressão era incrédula, mas ao mesmo tempo... incerta? Ela não deu muita importância.— Está muito claro que os franceses não desejam simplesmente mais liberdade, eles querem mudanças profundas, radicalismo! Logo nem rei terão...

— Quantas vezes eu terei que repetir, Katherine!?— Perdendo a paciência, Wilhelm praticamente gritou, interrompendo ela e assustando Berland.— Os franceses nunca farão mal algum a família real! Entenda isso!

Não. Orgulhosamente, a princesa levantou do sofá e afastou-se de Wilhelm, e Berland também. Ela deu as costas para eles, havia humilhação maior que essa para um homem?

— Charles I caiu nesse mesmo erro, e todos aqui sabemos qual foi o resultado desse erro.— O rei foi julgado pelo parlamento e acabou perdendo a cabeça... Os olhos de Katherine arregalaram com um novo pensamento.— E se... acontecer novamente? Oh Deus, seria um desastre!

Sentindo um frio na espinha, a princesa dispersou essas suposições desagradáveis da cabeça. Ela não queria imaginar o rei e a rainha da França mortos, e muito menos uma guerra, porque a Europa não perdoaria um segundo regicídio à inglesa. Olhando de lado os cavalheiros, Katherine percebeu, porém, que Wilhelm parecia muito cético com esse medo.

— Você está sendo muito precipitada. Os franceses não são tolos para declarar guerra ao continente.— Não!? A marquesa riu cética, ela não esperava muito daquelas pessoas.— Enquanto houver rei na França, haverá apoio da minha parte.

— Então prepare-se para mudar de lado e vir rastejando a mim, como um cachorrinho arrependimento.— Logo o arrependimento veio a Katherine por falar isso, mas não havia como retroceder.

Wilhelm, claramente não gostando do que Katherine disse, levantou do sofá e, agarrando o braço da marquesa, a fez encará-lo. Não havia raiva nos olhos dele, mas sim outra coisa, era...

— Eu não gosto de ser comparado, principalmente a uma coisa tão débil quanto essa!— Frieza... os olhos e a voz de Wilhelm nunca foram tão frios. Suavizando o rosto, porém, ele soltou o braço dela e afastou-se cansado.— Todo esse caos revolucionário não está nos fazendo bem. As vezes eu queria morar numa caverna!

As vezes até mesmo ela queria. Katherine e Wilhelm ficaram em silêncio, e consequentemente o conde de Berland também, havia muita tensão e pensamentos conflitantes para alguma coisa ser dita. A questão era que todos tinham algum tipo de medo em relação a revolução, medo de estar muito certo... ou muito errado. A marquesa e o príncipe permaneceram em silêncio e apartados por alguns longos minutos, até que o conde mudou isso:

— Pelo menos podemos dormir tranquilos sabendo que algo assim não acontecerá na Grã-Bretanha, talvez na Irlanda, mas não aqui.— Katherine e Wilhelm encararam um ao outro e depois voltaram seus olhares ao nobre, ambos estavam céticos.— Devemos lembrar que não existe reino mais livre que o nosso, é quase impossível uma revolução estourar, os britânicos já têm Liberté, Égalité e Fraternité.

Negando incrédula, Katherine novamente deu as costas ao conde e afastou-se mais ainda, ouvir essas coisas não estava fazendo bem.

— É verdade que não existia nação mais livre que a Grã-Bretanha,— Existia? Katherine balançou a cabeça, tentando não dar atenção.— mas é a pobreza? O preconceito social? Muitos aqui vivem em condições terríveis, os bairros...

— Diga-me uma nação da terra em que não exista pobreza, meu príncipe.— Wilhelm não respondeu, fazendo Berland rir satisfeito.— Exatamente, em todo lugar existe miséria e fome, nem mesmo a "Joia do Inn" está salva desse problema.

Dessa vez as palavras de Berland atingiram verdadeiramente a marquesa. O que exatamente esse homem estava querendo dizer!? Que uma revolução poderia... acontecer em Niedersieg!? Não! Katherine levou suas mãos aos ouvidos e negou veemente. Uma coisa dessas não poderia acontecer em Niedersieg! Não poderia! Niedersieg nunca iria se rebelar contra seus soberanos! Nunca!

Mas... parando de negar, Katherine arregalou os olhos ao perceber o inevitável: não havia nada que motivasse os niedersiegers a permanecerem inerentemente leais ao príncipe.

— Katherine? Você está sentindo alguma coisa?— Além de medo? Com o toque de Wilhelm em seu ombro, a princesa suspirou calmamente e negou. O príncipe, profundamente preocupado, não aceitou essa simples resposta e caminhou para frente dele.— O médico disse que você não deveria ficar estressada, embora eu tenha certa culpa... Vamos descansar, por favor.

— Ainda tenho muito que resolver, não poderei agora, Wilhelm.— O olhar preocupado dele era persistente, Wilhelm ainda segurava os ombros dela, mas Katherine soltou-se e virou para Berland.— O milorde está dispensado, peço apenas que, antes de sair, mande chamarem o conde von Heingein, existem mudanças que ele deve levar a Niedersieg.

Os dois homens ficaram surpresos com esse pedido... até mesmo Katherine estava. Lord Berland, entretanto, assentiu e saiu da sala. Agora estava na hora de fazer o mais difícil. Porém ainda havia Wilhelm, respirando e suspirando com força, a princesa encarou o marido, ele queria uma explicação, mas era exatamente isso que ela menos queria fazer no momento. Katherine estava cedendo ao medo revolucionário e era difícil aceitar isso, então ela simplesmente saiu da sala.

Mas Wilhelm não estava disposto a aceitar o silêncio, o príncipe seguiu a marquesa por todo o percurso dela. Mesmo que Katherine tentasse evitar, fugir como estava fazendo agora, ele estaria atrás dela, pronto para ajudá-la e defendê-la. Até que eles chegaram ao escritório, onde ela finalmente parou.

— Não vai me dizer quais são essas mudanças para Niedersieg, Katherine? Eu estou curioso.— Ambos encaravam um ao outro com seriedade, como uma guerra de interesses.

— No tempo apropriado você saberá, mas não se preocupe, esse tempo não tardará.— O príncipe levantou uma sobrancelha. Ele estava desconfiado. Katherine, porém, apenas deu as costas e foi até a mesa, onde abriu uma gaveta.— Nenhuma monarquia está segura com essa revolução na França, nem mesmo Niedersieg. E estou disposta a usar de todos os meios possíveis para impedir que o mesmo aconteça lá.

— E esses meios seriam fazer "mudanças"?— Pegando papel, Katherine fitou o marido confusa. Como assim "mudanças"? Elas seriam verdadeiras, não falsas.— Estou curioso para saber até que ponto você está disposta a mudar.

— O suficiente para fazer o povo sentir que tem alguma liberdade, o básico como vocês dizem.— Embora não nada muito radical ou que fosse ofender excessivamente a elite. Mas nada que ela disse tirou a desconfiança dos olhos dele. Que assim fosse então.— Você vai me ajudar ou não, Wilhelm?

Não respondendo em palavras, o príncipe veio para perto da marquesa e a encarou analisador.

— Nunca passou pela minha cabeça o contrário.— Os dois continuaram encarando um ao outro por algum tempo, até que Katherine desviou o olhar e apontou para o papel.

Sentando a frente da mesa, Wilhelm recarregou de tinta a pena e preparou-se para escrever. Essa estava sendo uma das mais difíceis decisões que Katherine estava tomando na vida. Caso desse certo, ela seria festejada como libertadora, mas o contrário... poderia ser uma carnificina... Tomando coragem, a marquesa sentou a frente do marido e começou a recitar sua ordem:

— Sua Alteza Bem-Nascida, o barão von Frieden, os horrores da Revolução Francesa alarmam todo o continente, e, principalmente depois do 5 e 6 de outubro, percebe-se a necessidade de agir frente a esses acontecimentos. A revolução é um aviso, um que deve ser considerado com urgência, por isso mesmo estou escrevendo...

Primeiro de tudo, abaixe o preço do pão e os impostos de comércio e importação[...]

2°. [...] Toda criança niedersieger, independentemente do sexo, deve frequentar gratuitamente a escola básica entre os 06 e 12 anos,[...], as escolas secundárias permanecem sem mudanças.[...]. O Conselho Estadual tem a obrigação de promover a educação secular em Niedersieg, não mais favorecendo escolas eclesiásticas, [...].

3°. [...]. Todas as escolas seculares em Niedersieg, primárias e secundárias, irão seguir um mesmo Sistema Educacional Geral, que focará principalmente no uso da razão, ética e responsabilidade social, e não simplesmente no aprendizado mecânico.[...].

4°.[...] abolindo as restrições de classe. Nenhuma pessoa,[...], pode ser impedida de usufruir quaisquer dos órgãos distritais e estaduais.[...], o mesmo aplica-se a ambientes comerciais,[...].

5°. Qualquer pessoa que resida, oficialmente, em território niedersieger a pelo menos 10 anos, pode buscar o Staaterkennung,[...], assim como receber os benefícios desse reconhecimento.

6°. Por fim, e talvez o mais importante, estou abolindo permanentemente tanto a pena de morte, quanto os castigos físicos para crimes horrendos,[...], entretanto, em casos de traição contra o príncipe...

*****

Von Heingein, o enviado de Niedersieg em Londres, lia com atenção a carta da marquesa para o barão von Frieden. O conde fazia isso a um bom tempo e, mesmo com uma expressão calma, era possível não ver a surpresa dele.

— Tem certeza disso, minha princesa?— Acabando de ler, von Heingein colocou a carta no casaco e perguntou, confirmando que estava surpreso.— O povo... von Frieden, não sei como ele irá reagir.

— A opinião do barão é irrelevante. O povo aceitará as minhas leis, por bem ou mal.— A frente do diplomata, sentada na poltrona do marquês, Katherine respondeu severamente.— Caso eles mostrem alguma recusa, lembre-os que a minha voz é absoluta, e se ainda assim recusarem, diga que haverão consequências.

Estava longe de ser um elogio, mas Katherine estava uma perfeita tirana fazendo essas ameaças. Ao lado da esposa, Wilhelm também direcionou a von Heingein um olhar duro. Ele de forma alguma sabia quais eram essas "consequências", mas era possível imaginar. O príncipe estava dividido entre a demissão de von Frieden e Niedersieg mudar de religião oficial.

— Que tudo seja conforme a vontade da senhora.— Mesmo levemente assustado, von Heingein assentiu a ordem da princesa. Após mais alguns pedidos, o conde levantou de seu assento e fez uma mesura de despedida.— Minha princesa, agradeço humildemente por ter me aceitado como seu diplomata, esses anos jamais serão esquecidos.

— Assim como seu leal serviço a mim e a meu pai também não será.— Sinalizando para ele levantar, Katherine estendeu sua mão ao conde.— Que sua nova missão em Viena traga muitos benefícios a Niedersieg.

Após beijar a mão da princesa e fazer mais uma mesura, agora ao príncipe, von Heingein deixou o escritório.

Eles estavam sozinhos agora, prontos para mais uma discussão... suspirando casando, Wilhelm sentou na cadeira onde anteriormente estava o conde e fitou Katherine. Ela parecia mais calma, embora ainda preocupada, mas também não era a única. Os acontecimentos em Versailles também preocuparam bastante o príncipe. O que o mundo iria pensar agora? Que buscar liberdade e igualdade significava ameaçar de morte rainhas e destruir séculos de tradição?

Não, Wilhelm nunca aplaudiria uma coisa daquelas. Talvez fosse hipocrisia, mas tanto Louis XVI, quanto Wilhelm, eram tetranetos de Frederik III da Dinamarca, existia uma certa ligação sanguínea. De qualquer forma, ainda havia as reformas.

— Suas reformas fora muito boas, Katherine, eu devo dizer, — Já prevendo o que viria a seguir, a marquesa enclinou a cabeça com seriedade.— mas você acha que serão o suficiente? Parecem até medidas desesperadas.

— Como eu já disse antes, o povo terá de aceitá-las mesmo que não sejam.— A paciência de Katherine não durou quase nada, a severidade voltou ao rosto dela.— Eu não vou tocar na estrutura governamental do principado, a sociedade é o suficiente.

— Mexer no governo é perigoso, eu sei, mas e quanto a censura e a tortura? Não faz sentido abolir a pena de morte e os castigos corporais, sem abolir estes primeiro!— Chegava até mesmo a ser irônico. O príncipe tentou conter-se ao perceber a irritação da esposa, mas foi impossível:— E quanto a falta de igualdade e representação? Você acabou com muitas restrições, mas...

— E o que você queria, um parlamento? Deixe que eu mesma cuide disso, por favor!.— Era perceptível que ela estava contendo a raiva. Suspirando, o príncipe levantou as mãos em sinal de rendição e fechou a boca.— Muito bem. Agora existe alguma igualdade em Niedersieg, o resto virá com o tempo. Como uma árvore frutífera.

Mesmo sendo um sacrifício, Wilhelm permaneceu calado, embora com um amplo sorriso desafiador. Katherine estava certa, isso ele tinha de concordar, Niedersieg realmente tinha alguma igualdade, mas não o suficiente. Tudo naquele principado parecia girar em torno da nobreza, enquanto a burguesia e o povo haviam sido praticamente esquecidos pela lei. Todas as nações da terra funcionavam assim, de fato, mas... era tão simples mudar!

Havia tanta coisa que Wilhelm queria falar com Katherine, mas nem tudo seria benéfico ao relacionamento deles.

— Você já sabe qual a minha opinião, não é necessário eu falar novamente.— Deixando a rebeldia de lado, o príncipe respondeu sério. Katherine sorriu irônica.

— Alegra-me profundamente saber disso, acredite.— Nem a pessoa mais tola poderia acreditar com tanto desdém. O silêncio, entretanto, acabou prevalecendo sobre eles, até que o sorriso de Katherine desapareceu.— Estou tão preocupada com eles, Wilhelm. A essa altura eu já teria deixado a França.

Verdadeiramente, ele pensava o mesmo, estava sendo difícil fechar os olhos as novas notícias, mas Wilhelm nunca iria falar isso em voz alta, o que Katherine iria pensar?

— Espero que os franceses saibam o que estão fazendo.— O pensamento dele acabou saindo alto, mas Wilhelm não deu importância, ele apenas fitou a princesa.— Eu não quero estar errado.

— Talvez eles não saibam... nunca souberam.— Havia essa possibilidade... o príncipe fechou os olhos e apoiou a cabeça no encosto da cadeira. As vezes Wilhelm simplesmente queria sumir!— O que os outros soberanos europeus pensam da revolução? Acho que voltarei a trocar cartas com o imperador, saberei em mais detalhes o que está acontecendo.

No momento, nada estava acontecendo, o que apenas tornava tudo pior. Wilhelm desejava profundamente que a França não tomasse nenhuma ação radical contra a monarquia, um regicídio, ou pior ainda, uma República, nunca seriam aceitos pela Europa... nunca seriam aceitos por Wilhelm...

*****

21|01|1790 Palácio de Hampton Court, Londres

Após a prisão da família real francesa em Paris, no Palácio das Tuileries, e a subsequente "aprovação" de Louis XVI para que uma monarquia constitucional fosse declarada, nada mais de importante aconteceu na França ou continente, os meses restantes do ano transcorreram numa suspeita calma. O único acontecimento significativo, apenas para Katherine e uma minoria niedersieger, foi no início de novembro, quando as Katharinengesetze começaram a vigorar em Niedersieg.

Foram meses muito calmos... até aquela fatídica noite de janeiro acontecer. Diferentemente das vezes anteriores, Wilhelm não estava com Katherine quando aconteceu, ele, junto com a casa inteira, foi acordado durante a madrugada pelos gritos histéricos da marquesa. O príncipe correu ao aposentos dela, e logo descobriu o motivo dos gritos: Katherine havia entrado em trabalho da parto... mas já!?

O Dr. FitzGerald e as parteiras foram imediatamente convocados a Hampton Court, assim como o Conselho de Bristol. Foram quatro terríveis horas, onde, preso na sala de jogos, Wilhelm escutou Katherine gritar, chorar e agonizar em dor... até que nasceu. Era uma menininha, uma que nasceu morta.

A dor que Wilhelm sentiu naquele momento foi indescritível, mas a dela foi ainda pior. Descobrir que novamente havia perdido uma criança, ocasionou em Katherine uma crise depressiva, que foi mais agravada com uma febre e fraqueza persistente.

— Isso seria grave?— Logo após o médico acabar de examinar Katherine e sair para a antecâmara do quarto, Wilhelm perguntou.

— Não necessariamente, meu príncipe, pelo menos contanto que a marquesa não tenha convulsões, vômitos ou sangramentos.— Caso ela tivesse, aconteceria? O médico, porém, percebeu essa dúvida.— O melhor agora é mantermos a calma, talvez sejam os efeitos da tristeza.

— Talvez? Você realmente sabe o que está fazendo, FitzGerald?— Rindo secamente, Wilhelm perguntou secamente e negou. A ciência não deveria ser exata?— Se alguma desgraça acontecer a marquesa... será a sua vida pela dela!

FitzGerald quase derrubou sua bolsa assustado. Wilhelm não gostava dessas tolas ameaças, mas ainda assim ele direcionou ao médico um olhar intimidador, o príncipe era mais alto e forte, e usaria isso a seu favor.

— A medicina não conhece todos os segredos da vida, lembre-se disso, meu príncipe.— Recuando devagar, FitzGerald tentou defender-se, mas novamente Wilhelm negou. Então estava na hora de tentar desvendar esses segredos.— Mas a sangria sempre é uma opção, caso o senhor deseje...

— Seu esforço cabal em cuidar de minha filha é louvável, Dr. FitzGerald, mas vamos esperar pelo tempo.— Antes que o médico pudesse acabar, ou Wilhelm matá-lo, a marquesa viúva entrou na antecâmara, sorrindo calmamente.— Iremos chamá-lo novamente, caso seja necessário.

Ainda receoso, o médico assentiu e depois foi embora. Bom para ele, para todos eles! Tentando voltar a calma, Wilhelm fitou a marquesa viúva e apontou para o quarto, ela deu um sorrisinho, mais afetado que antes, e entrou apressadamente. O príncipe logo fez o mesmo, não sem antes respirar fundo e tentar parecer mais tranquilo, apenas o melhor para Katherine.

— Assine aqui, minha marquesa, não precisa ser exatamente na linha, mas...— Rodeada pelas damas de companhia e Lord Cambridge, estava Katherine deitada na cama. A princesa era a imagem da fraqueza, até mesmo manter os olhos abertos parecia um sacrifício, mas ainda assim ela assinou o documento com o visconde.— Muito bem, o príncipe Wilhelm é oficialmente o regente interino de Niedersieg...

— Com mamãe... com a marquesa viúva supervisionando... tudo que acontece... acontece em Ehreschöne...— Mesmo com a voz entrecortada, Katherine acrescentou. Ela agarrou fortemente a mão da mãe e gemeu dolorosamente.— Oh, mamãe! Por que dói tanto!?

Não havia lágrimas nos olhos da marquesa, embora eles estivessem vermelhos, mas isso dificilmente significava menos dor. Era tão doloroso e difícil para Wilhelm ver Katherine assim, causava uma profunda angústia... uma vontade de chorar, mas ele não faria isso.

— Logo essa dor vai passar, Katherine, e depois tudo voltará ao normal.— Ao falar, Wilhelm finalmente fez-se ser notado pela princesa, que o encarou fixamente... esses olhos azuis... tão angélicais, tão... desesperados.— Eu serei bom, cuidarei de tudo como se fosse meu.

— Fique tranquila, minha rosa, e descanse bastante, caso queira...

Sinalizando para a viúva calar-se, Katherine estendeu sua trêmula mão a Wilhelm, que agarrou fortemente e beijou com ternura, mas não era isso que ela buscava. O olhar da marquesa sobre o príncipe era, apesar de doloroso, muito sério.

— Cuide... da herança do nosso filho, Wilhelm, proteja... Niedersieg e Ehreschöne, faça... faça o que for necessário.— O príncipe assentiu veemente, disposto a qualquer coisa por Katherine.

Era quase uma promessa, embora na realidade fosse um missão... Wilhelm cumpriria com muito cuidado, embora... não da forma imaginada.

Notas finais
* A primeira parte desse capítulo, em Versailles, eu me inspirei levemente no filme Maria Antonieta, de 2006, e A Revolução, da década de 1980. São cenas icônicas, de uma turba invadindo Versailles buscando matar a rainha e horas depois a mesma aparecendo sozinha na sacada. Eu espero ter feito um trabalho decente com essa cena. * Indo para Niedersieg. É muito interessante notar que o Sacro Império Romano-Germânico, do qual Niedersieg faz parte, era um estado composto por aproximadamente mais 1.800 pequenos, alguns minúsculos, outros estados. Não havia uma lei uniforme, por isso mesmo eu não Staaterkennung para se referir a naturalização, nem todos os estados alemães faziam isso. * Em relação as reformas, algumas realmente parecem poucas coisas, mas existiam sim muitos estados alemães onde o povo... era praticamente analfabeto e vivia no feudalismo, o Santo Império era um símbolo do feudalismo. Mas as Katharinengesetze, Leia de Katharina, foram muito inspiradas nas reformas educacionais da imperatriz Maria Theresa, décadas antes. * Então, se Wilhelm não fosse um personagem fictício, ele realmente seria "parente" de Louis XVI, eu ainda fico impressionado que, se você investigar, toda a realeza europeia compartilha algum ancestral. Wilhelm e Katherine mesmo são primos... eu fracamente não sabia, estou falando a verdade. Ambos têm o mesmo pentavô, Georg, duque de Brunswick, mas enquanto Katherine vem do terceiro filho do duque, Johann Friedrich, Wilhelm descende de Sophie Amalie, a quarta e única filha... e ainda tem George III, que descende do duque Georg tanto pelo segundo filho, Georg Wilhelm, quando pelo caçula, Ernest August, que mais tarde seria Eleitor de Hanover. Um dia eu ainda quero fazer uma árvore genealógica dos meus Tudor-Habsburg... até de algum papa eles devem ser parentes.