O príncipe Wilhelm da Dinamarca, era o terceiro dos quatro filhos do príncipe Carl da Dinamarca e da princesa Louise da Dinamarca. Isso o fazia, por parte de pai, bisneto do rei Christian V da Dinamarca, por meio do seu filho Carl, que era avó do príncipe; e por mãe, neto do rei Christian VI. Havia também sua avó, a Margravina Marie Anne de Baden — Durlach, que era tia do falecido rei Adolf Fredrik da Suécia, e também da princesa Joanna de Holstein-Gottorp...

— Ah que interessante, ele tem o mesmo sangue que a imperatriz da Rússia. Será que os dois tem o mesmo gênio?— Katherine riu com suas próprias palavras, sendo seguida por suas amigas; Maria, Elizabeth, Grace e Josephine.— Se for, por Cristo, estarei perdida.

— Em qual sentido, Katherine? Você fala de traição ou devassidão?— Elas riram mais ainda com a pergunta irônica de Maria Denbaste, a condessa de Courteney.– Eu não duvido muito da segunda opção.

— Devo concordar com Maria, Katherine.— Josephine Caroli, a irmã mais nova do barão Monmouth, comentou observando a miniatura com o retrato do príncipe Wilhelm.— Ele é lindo, lindo de morrer. Não duvido que ele já tenha dormido com metade das damas da corte dinamarquesa.

Agora elas não riram, todas ficaram observando o que Katherine diria. A princesa pegou então a miniatura que estava com Josephine. Realmente, o príncipe era lindo, talvez o homem mais bonito que Katherine já havia visto, mas mesmo assim...

— Eu não sei, todos podem parecer "lindos de morrer" em uma pintura.— Pelo menos era isso que ela esperava. Katherine colocou a pintura novamente na mesa com desdém.— Eu ainda prefiro Frederik Adolf.

— Claro que você vai preferir ele.— Fechando seus olhos e suspirando com frustração, Katherine tentou não se estressar com a provocação de Charlotte.— Mas seu Frederik Adolf também é primo da imperatriz russa, a devassa.

Charlotte não precisava a lembrar disso. Mas agora sim, as palavras da princesa mais jovem causaram uma grande risada entre as amigas de Katherine. Quase que grunhido de raiva, a princesa mais velha revidou:

— Pelo menos não vou precisar virar católica, e vou me casar com alguém bonito.— Charlotte em resposta deu de ombros, uma irritante era ela. Para aplacar sua irritação, Katherine voltou a folhear o livro de árvores genealógicas.— Mas que bela compensação é essa que me deram.

Katherine fez o seu melhor para falar isso o mais baixo possível, mas não foi assim. Não saiu como um grito, mas tanto suas irmãs quanto suas amigas, puderam ouvir bem o que foi dito. E a princesa muito se repreendeu por isso. Embora Katherine sempre estivesse desdenhando dos outros em particular, nunca era do seu agrado deixar alguém triste, e muito menos ser desagradável com outros.

Mas logo esse ressentimento passou. Lady Elizabeth Baster, a herdeira do conde Baster, que até então estava sentada perto da porta, se levantou e gritou com pressa as amigas:

— Todas em seus lugares! A marquesa está vindo!— Com a aviso, todas as damas rapidamente voltaram aos livros, bordados e chás, como damas respeitáveis.

— Não entendo as coisas que você faz, Katherine.— Assim que a princesa sentou em seu lugar, Elizabeth, a segunda princesa, comentou, embora estivesse muito concentrada na sua pintura.— Todos os dias você chama suas amigas para fazerem algo "útil", que alimente a alma, mas ao invés disso fofocam, conversam futilidades e não fazem nada. Por quê?

— Porque é agradável, Elizabeth. Simplesmente isso.— Elizabeth permaneceu calada, não dando uma resposta a irmã mais velha.

Katherine pegou um livro e o abriu para ler, enquanto Charlotte voltou a tocar no cravo. Elas eram a imagem da pura calma e feminilidade. Quem entrasse agora na sala azul, nem iria imaginar o que estava acontecendo até alguns minutos atrás, a menos que perguntasse a Elizabeth, claro.

Assim como foi como dito por Lady Elizabeth, a marquesa entrou na sala, com Lady Kent, Lady Barnander e Lady Eugenie logo atrás. E por um momento ao ver a mãe, o rosto de Katherine e fechou, mesmo a princesa não desejando isso. Ainda exista nela um ressentimento por seus pais terem aceitado a proposta do rei. E mesmo Katherine sabendo que a culpa da sua "eterna felicidade" pertencia inteiramente ao rei, era impossível não se ressentir com eles.

— Como estão comportadas vocês.— Com o comentário da marquesa, as damas sorriram torto. O rosto dela passou então das jovens sentadas, a segunda princesa.— Elizabeth, minha rosa, como estava antes de eu entrar?

— Elas estavam fofocando, e falando sobre casamento.— Katherine olhou ríspida para a irmã.— Ah, elas também falavam do príncipe Wilhelm, imaginando se ele é igual a imperatriz da Rússia.

A expressão irritada de Katherine apenas aumentou, isso não iria ficar assim de forma alguma. Mas de qualquer forma, a princesa voltou a olhar para a mãe. Como sempre, a marquesa não mostrou reação nenhuma, Elizabeth apenas sorria, mas quando ela não estava sorrindo?

— Entendo, não é necessário acrescentar nada mais.— Mas não havia um mais para acrescentar. Os olhos da marquesa voltaram-se a filha mais velha.— O querido James está aqui, Katherine. Ele deseja vê-la.

— James? Em Londres?— Katherine muito se surpreendeu com isso. Era para seu amigo estar em Gloucestershire, de luto pela morte do pai. Por que ele veio a Londres?— Onde ele está, mamãe? A senhora deveria tê-lo deixado entrar.

Deixando o livro de lado a princesa levantou apressadamente do sofá, pronta para receber o melhor amigo.

— James está nos jardins, Katherine.—Olhando confusa para a mãe, a princesa sinalizou para ela explicar.— Ele deseja que vocês conversem lá mesmo. Isso seria apropriado?

— Oh mamãe, James Berkeley é meu melhor amigo.— Com uma leve risada, a princesa respondeu desdenhosa a pergunta da mãe.— Vou me casar realmente, mas um passeio pelo jardim não me fará mal. E creio que Lady Elizabeth e Grace podem me acompanhar.

Se a marquesa de alguma forma ficou irritada por isso, ela não mostrou. Sua mãe simplesmente sorriu e assentiu. Com essa permissão, Katherine foi para os jardins junto de Lady Elizabeth e Grace Neville, a irmã mais nova do barão Monmouth.

James Berkeley, o 3° duque de Bravandale, não era o que Katherine classificava como um homem terrivelmente belo, ele era sim bonito, mas era uma beleza normal. James era loiro, de olhos castanhos e rosto fino, ambos tinham quase a mesma alturaa, ele não se destacava muito. Na verdade, a única coisa que Katherine achava impressionante em James, era sua constituição física. O novo duque de Bravandale era forte, muito forte, e sempre estava com uma postura ereta e digna, parecia até um soldado, um marinheiro.

Mas apesar dessa aparência, James era muito meigo e doce, pelo menos com ela.

— Katherine, que alívio vê-la.‐ Assim que eles se encontraram, James veio quase correndo na direção da princesa, como se desejasse abraçá-la, mas Katherine simplesmente lhe estendeu a mão. Por um momento ele ficou decepcionado, mas logo passou.— Ah, perdão por isso. Esqueci da educação.

Balançando a cabeça, Katherine riu docemente da reação do amigo. James realmente poderia ter crescido e se tornado um homem feito, mas no final ele sempre seria o mesmo menininho que brincava com ela e suas irmãs.

— James, James, você cresceu e se tornou duque, mas sempre será impaciente.— Ele corou de vergonha, fazendo Katherine novamente rir.— Mas diga-me, qual o motivo de toda essa ansiedade?

— Você realmente vai casar? Por que não me disse que ia se casar? Como isso aconteceu, Katherine?— Por isso ela não esperava. Katherine ficou sem saber o que responder a James, agora ele estava muito mais... raivoso?— Diga-me, Katherine!

Dando um passo para trás, a princesa tentou pensar no que dizer.

Já houve um tempo, não muito distante, em que Katherine pensava na possibilidade de James estar apaixonado por ela. Sempre que ela dançava com outros homens, ou recebia muita atenção masculina, ele ficava com ciúmes. Parecia até... paixão. Mas logo Katherine tirou isso da sua cabeça, ela não queria estragar a amizade que tinha com James.

— Sim James, eu vou casar, e com um príncipe dinamarquês. Há algum problema nisso?— Katherine mesma via muitos.

— Claro que tem! E vários!— Novamente ele afirmou raivoso, fazendo Katherine dar dois passos para trás.— Você quer um motivo? Pois eu lhe dou.... Você irá se casar com um estranho!

— Tenho muito conhecimento disso James. Tudo que sei do príncipe é o fato dele ser muito bem relacionado, além de ser extremamente bonito.— James encarou Katherine firmemente quando ela acabou. Havia... raiva de verdade nos olhos dele. O duque aproximou-se furiosamente da princesa.— Para com isso, James! Eu vou me casar, e não posso fazer nada contra!

— Ele é extremamente bonito!? Por que todos são bonitos?— Agora isso a assustou de uma forma diferente, foi um pensamento em voz alta?— Mas é claro que você pode fazer algo! Se você simplesmente recusar, e fazer isso com muita firmeza...

— Não é tão simples assim, James!— Katherine empurrou levemente o duque para trás e começou a andar na frente.— Nosso casamento não é um simples acordo familiar que facilmente pode ser rompido. Foi o rei que arranjou esse casamento, é para o benefício da Grã-Bretanha e da Dinamarca que estou me casando. Tal como Caroline Matilde um dia fez.

Com a menção do rei, as coisas mudaram na cabeça do duque, assim como anteriormente mudaram na dela. James ficou para trás enquanto a princesa caminhava, com suas amigas atrás, embora com muita dificuldade elas não se envolvessem na discussão. Essa conversa não estava fazendo bem a Katherine, todas as suas mágoas estavam voltando.

Não demorou muito e James voltou a andar mais rápido, logo voltando a ficar do lado de Katherine.

— Mas você bem sabe, e ele também, o que os dinamarqueses fizeram com Caroline Matilde, você vai ser horrivelmente triste.— Katherine tinha muito conhecimento dessa possibilidade.— Você deve fazer algo!

— Eu sei disso, James, e vou fazer.— Ela se virou olhando firmemente para o duque.— Cumprindo o meu dever para com a Grã-Bretanha, eu irei me casar, tal como uma princesa deve fazer. Mas não serei trágica, não tentarei agradá-lo, não vou mostrar amor, eu não irei sofrer.

Katherine não estava disposta a se curvar completamente. Ela seria a marquesa, e não era seu desejo casar com ele. Não havia ninguém que fosse convencê-la do contrário. Atrás de Katherine e James, Elizabeth e Grace olhavam para a amiga com preocupação. O mesmo não poderia ser dito do duque.

Havia um imenso sorriso no rosto de James, como se ele estivesse sentindo um grande prazer ouvindo as afirmações de Katherine. Esse sorriso era tão grande, que ela o retribuiu.

— Não tenho nada contra seu desejo.— Depois de afirmar isso, James pegou delicadamente as mãos de Katherine, e a olhou ternamente nos olhos.— Saiba que vou sempre estar aqui, lhe apoiando.

Apertando as mãos de James com carinho, Katherine assentiu e logo em seguida deu um rápido beijo na bochecha de James, fazendo ele corar violentamente e virar o rosto.

Mas havia uma coisa que não deixava Katherine...

— Você só soube disso agora, James?— E Grace tinha a mesma dúvida de Katherine, Gloucestershire não era assim tão longe para a notícia do casamento chegar apenas agora.

— Sabemos que vocês estão de luto, mas a esse ponto?— Elizabeth também perguntou divertida.

E com as perguntas de Grace e Elizabeth, a conversa pôde se tornar mais agradável.

*****

Enquanto os jovens conversavam nos jardins de Hampton Court, a marquesa de Bristol os observava discretamente por uma das janelas na sala dourada. Atrás dela, o marquês estava calmamente sentado em seu lugar habitual, observando a esposa.

Elizabeth estava muito preocupada, na verdade, ambos estavam muito preocupados. A única diferença era que enquanto as maiores preocupações da marquesa eram com sua filha mais velha, e o futuro casamento desta; as de Alfred era com a guerra, embora ele também estivesse preocupado com a filha.

Suspirando, Elizabeth se virou na direção do marido. Apesar da apreensão com a filha, uma guerra ainda estava acontecendo.

— Como foi em St. James com o rei?— Alfred havia acabado de chegar de uma reunião com rei, o primeiro-ministro, o conselho privado e alguns secretários. O marquês deu de ombros.— Perdemos outra batalha?

— Foi como sempre é.— Alfred respondeu sem emoção.— Falaram das perdas, dos ganhos, e de como a oposição é grande. Lord North detalhou muito bem seus medos, mas o assunto principal foi o tratado da França com os americanos.

— Ainda não consigo entender o que Louis XVI deseja com esse tratado. Os americanos desejam "liberdade" da "tirania", e claramente a França vive em uma tirania.

— Eles desejam nos irritar, enfraquecer, e isolar.— Que situação frustrante. Elizabeth voltou para a janela.— Mas eu concordo. Foi uma jogada muito perigosa, me pergunto se eles têm finanças o suficiente?

Quanto a isso, apenas o rei da França e seus ministros sabiam.

— Espero que isso passe logo.— Com desanimo a marquesa comentou. Elizabeth perguntava-se o que sua filha tanto falava com Bravandale.— Tudo isso está cansando a nós dois.

Essa atenção da esposa na janela, não passava despercebida por Alfred. Ele estava curioso, e então perguntou:

— Algo lhe incomoda nos jardins, Elizabeth?— Pega de surpresa com a pergunta, a marquesa primeiro pensou em desconversar, mas ao olhar para Alfred, e perceber como ele também estava preocupado, ela desistiu.— É sobre Katherine, não é?

— É sim.— Como ele mesmo sugeriu, Elizabeth concordou apreensiva.— Não posso deixar de ficar preocupada com ela. Nossa filha está tão irritada com esse assunto de casamento, e ainda existe nela certo ressentimento por nós.

Elizabeth nunca iria se esquecer de como sua rosa reagiu quando eles falaram que ela não mais iria se casar com o príncipe Frederik Adolf da Suécia, mas sim com um príncipe dinamarquês. Katherine se recusou, recusou novamente, depois gritou, chorou e por fim, quando eles explicaram a situação, ela simplesmente parou, ficou estática, os mandou embora, e não saiu do quarto pelo resto do dia.

Foi terrível. Elizabeth ainda sentia-se um monstro quando lembrava, eles privaram a filha da alegria.

— Eu também fico preocupado, até mesmo triste, mas é uma reação normal.— Alfred estava sendo racional, mas Elizabeth não conseguia fazer o mesmo.— Katherine sabe que não foi uma decisão nossa, e que nada depende de nós, então logo o ressentimento dela irá passar.

— Ainda assim, será que agimos certo? Você bem sabe que não falamos tudo para ela.— Com essa última frase, a racionalidade do marquês se foi e sua expressão também ficou preocupada.

O que eles fizeram não foi certo, ambos sabiam disso. Elizabeth desviou seus olhos do marido e voltou a janela. Eles poderiam ter dito para Katherine tudo, mas não foi assim. Percebendo a preocupação da esposa, Alfred se levantou da cadeira, e indo para seu lado, ele a abraçou carinhosamente.

A marquesa fechou os olhos ao sentir o marido, sentindo sua força e carinho.

— Não posso dizer que agimos corretamente. Quando ela souber da verdade, nossa rosa realmente irá sofrer muito. Estamos apenas adiando a dor dela.— Todas essas palavras de Alfred, Elizabeth sentia tudo isso. O marquês suspirou aflito.— Mas não temos coragem, é simples assim, somos dois covardes que não conseguem falar toda a verdade.

Eles já passaram e sobreviveram a tantas coisas. Duas guerras no continente, uma rebelião na Escócia, e agora uma guerra com as colônias, mas eles simplesmente não tinham coragem para isso, embora tiveram no passado para falar a Elizabeth e Charlotte, quando ambas ainda eram crianças, que elas já estavam noivas.

— Me pergunto se, quando chegar o dia, iremos ter a coragem necessária?— Elizabeth perguntou desanimada. A única coisa que Alfred pôde fazer foi beijar o pescoço da marquesa, a fazendo sorrir levemente.

Antes que o marquês pudesse responder ou falar algo, o barão Norton entrou na sala dourada avisando que todos os lords do conselho já haviam chegado e logo iriam entrar.

— De um jeito ou de outro, teremos coragem, Elizabeth. Essa é a nossa confiança.— Sorrindo, a marquesa assentiu para essas palavras.— Mas agora você está pronta para nossa reunião?

— Se nesses anos todos eu aprendi algo, foi a estar pronta sempre.— Depois dessa afirmação eles se separaram, indo cada um para seu lugar.

Quase que imediatamente após eles sentarem em seus lugares, os lords do conselho entraram na sala. A reunião poderia iniciar.

Notas finais
Acesse esse link para ver a pasta de La Belle Anglaise no Pinterest, eu coloquei a árvore genealógica do príncipe Wilhelm: https://pin.it/5wYEOXP