LUARIM - um romance à meia-luz
1 Jasmim e saudade
Já nem lembrava da última vez que estive aqui. Depois de tanto tempo na cidade grande, tinha esquecido como era ser envolvida pelo cheiro do ipê e do jasmim, que anunciavam o inverno no Ceará
A cidade era uma jóia em meio ao sertão, árvores frondosas, construções antigas bem cuidadas, um clima ameno. Quase um sonho, era a Cidade de Luarim
Tudo isso me fazia voltar à infância, quando visitava meus avós, andava pelas ruas de pedra, sentava no banco da praça com meu caderno de desenho e criava um mundo só meu.
Respirei fundo, inalando todo aquele frescor.
Meus dedos deslizavam pelo portão de dona Marieta enquanto desviava dos paralelepípedos desnivelados, ora pegando uma flor caída do chão. Atravessei a ponte de pedra e lá estava a praça.
Sentei-me no banco e comecei a desenhar o ordinário que ninguém via:
as andorinhas fazendo ninho nos beirais da catedral, uma senhora tomando sorvete com o neto, as folhas e flores que apanhei no caminho.
Ao entardecer, o azul se mesclava com o roxo.
Era como se o tempo parasse por um segundo. Peguei minha câmera para capturar aquele momento: a torre antiga da igreja emoldurada por aqueles tons suaves.
Fui adentrando.
A cada degrau, o cheiro da madeira antiga se tornava mais presente.
Passei os dedos pelos bancos, admirando os vitrais. O perfume da vela queimada me envolvia naquele ambiente sacro, como se estivesse em outro mundo.
Avistei um leve movimento: algumas senhoras rezavam baixinho, e o padre organizava calmamente os objetos da paróquia.
Andava admirando a via-sacra. As pinceladas eram tão delicadas... Não pareciam encomendadas, alguém tinha feito com paixão.
Parei, encantada com os traços, até que voltei o olhar para o interior da igreja... e fui surpreendida por um sorriso terno que me contemplava enquanto eu admirava a obra.
— Acredita que foi um coroinha que nos presenteou com os quadros? — disse o padre em voz baixa, se aproximando.
— Dá pra sentir o cuidado e o carinho no quadro — respondi, com um sorriso tímido, ainda olhando para a pintura.
— Você é a sobrinha da Sandra, não é? — perguntou, com um tom gentil.
— Sou, sim. Clara — respondi, me ajeitando, ainda de olhos na pintura. — Vim passar um tempo por aqui, ajudando minha tia.
— Cidade pequena... a notícia sempre corre rápido — comentou, com um sorriso leve, quase acanhado. — Espero que se adapte bem. E, se precisar passar para pedir uma oração... fique à vontade.
Seu sorriso era gentil. Os olhos formavam pés de galinha; os cabelos castanhos, salpicados de branco. A barba recém-feita ainda carregava um aroma discreto de incenso.
— Padre Miguel — disse, estendendo a mão com gentileza.
— Prazer — retribuí, apertando de leve a mão dele.
A lua pálida acompanhava meu caminho de volta para casa. Passava os dedos suavemente pelos arbustos enquanto o som dos grilos me lembrava o quão tarde estava. Durante o percurso, recordava a gentileza do padre Miguel e quase me esqueci de como era gostoso ouvir aquele sotaque acolhedor... Tão fácil me sentir em casa nessa cidade.
Ao abrir o portão, meus pensamentos já corriam para os afazeres que me aguardavam e para as caixas que ainda ocupavam o quarto onde estava hospedada. Queria tanto aproveitar a atmosfera do lugar que acabei deixando para depois minhas obrigações.
Suspirei ao fechar a porta. A Livraria Aconchego, da nossa família, ficava à direita da entrada. Subi as escadas e comecei a preparar o jantar. O cheiro do coentro fresco tomava conta da cozinha, misturado ao calor ameno que vinha do fogão. Pouco depois, tia Sandra surgiu, movendo-se com certa dificuldade.
— Minha filha, como foi rever a cidade? — perguntou com um sorriso doce, sentando-se com cuidado e ajeitando o xale sobre os ombros.
—— Fiquei um tempo na praça... depois entrei na igreja — disse, com um leve suspiro, lembrando do padre.— Conheci o Miguel, o padre novo daqui... pelo menos acho. Me lembro que antes era um senhor quem celebrava a missa.
— Novo, não — ela riu baixinho. — O padre Miguel já tem uns quinze anos de batina. O padre Severino faleceu faz tempo... Você era pequena, talvez não se lembre.
Coloquei os pratos na mesa e me juntei a ela. Enquanto comíamos, falamos sobre o passado da cidade. Tia Sandra compartilhava histórias como quem entrega pequenos tesouros — alguns doces, outros guardados por entre cochichos e olhares cruzados. Lá fora, o vento balançava as árvores suavemente. Cidade pequena é assim... nenhum segredo permanece escondido por muito tempo.
— E o Lucas? — perguntou titia, cortando o silêncio.
— L-Lucas?! — exclamei, surpresa. — Ai... deu uns b.o. lá em Brasília. Não nos falamos mais.
— Poxa, uma pena, minha filha — disse, pausando para beber água. — Tão novinha e já sofrendo por amor. Ai... meus vinte e três aninhos — suspirou com um ar sonhador.
Em meu quarto, não conseguia pegar no sono. A lembrança de Lucas me pegou de surpresa — não pelo sentimento, mas pela forma como o passado ainda sabia bater à porta quando menos se espera. Virei de lado. Fiquei pensando no que me esperava no dia seguinte... mas cedi ao cansaço. Apenas.
A manhã reinava em Luarim. A luz filtrava-se pelas frestas da cortina, invadindo o quarto com delicadeza. Levantei e fui direto pra cozinha. Comecei o dia coando o café, o aroma se espalhando como um abraço quente por todo o ambiente.
Tia Sandra apareceu logo depois, ajeitando o xale sobre os ombros, com aquele andar calmo que já era quase silêncio.
— Dormiu bem? — perguntou, pegando uma xícara no armário.
— Nem tanto... cabeça cheia — respondi, dando de ombros.
Ela assentiu, como quem entende sem precisar de muitos detalhes. Sentou-se devagar à mesa e, após um gole de café, falou:
— Clara... você sabe que a livraria tem sido meu sustento desde que seu tio se foi. Mas as coisas andam difíceis. Quase não entra ninguém, e eu não tenho mais forças pra bancar tudo sozinha.
Fiquei em silêncio por um instante, engolindo a notícia como se fosse um café forte demais.
— O que a gente pode fazer? — perguntei num fio de voz.
Ela não respondeu de imediato. Apenas olhou pela janela, como se procurasse por uma resposta do lado de fora.
— Estou pensando em vender. Mas sei lá... às vezes acho que só preciso de um empurrão. Ou de um sinal.
Meu peito apertou. A casa antiga, os móveis, a livraria — principalmente a livraria —, as memórias do meu avô e do meu pai...
— Mas essa casa é tudo que sobrou do vovô. E da minha infância com o papai... — murmurei, sem conseguir encarar a tia Sandra.
— Eu sei, minha filha. Sei o quanto aquilo significava pra vocês dois. Seu pai cresceu entre aquelas estantes. Aquela livraria é feita de lembrança... mas as contas não se pagam com saudade, infelizmente.
— Só... me deixa tentar. Eu posso fazer alguma coisa. Divulgar, mexer nas redes sociais, montar uma feirinha, qualquer coisa. Só... me deixa tentar?
Ela suspirou, como quem segurava um peso há muito tempo.
— Era isso que eu ia te pedir, na verdade. Tem um quadro de avisos na paróquia. O pessoal ainda lê aquilo. Se você quiser levar esse panfleto e colar lá, vai me ajudar bastante. — E se o padre Miguel estiver por lá... vê se dá uma palavrinha com ele. Quem sabe ele não deixa a gente deixar uns marcadores de página na sacristia, ou nos bancos?
Ela sorriu, e havia algo no olhar dela... um certo brilho de esperança.
— Pode deixar comigo, tia. A gente ainda vai dar um jeito nisso.
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