LEGADO DO XOGUM

10 CAPÍTULO 9 - A ÚLTIMA NOITE


A DAMA SOLAR

O aroma amadeirado de hinoki exalava de Amateri, denunciando o banho quente recém-tomado. Seus passos leves faziam o vestido de seda azul, bordado com detalhes dourados, ondular pelos corredores do palácio.

Então ela atravessou os batentes de um salão amplo.

Por um instante, parou o caminhar.

Correu os olhos pelo lugar onde, em outro tempo, aprendera os caminhos da letalidade. As luminárias de pendentes amarelados lançavam uma luz morna sobre os três alvos redondos e gastos ao fundo, sulcos antigos marcavam o assoalho de pedra.

Havia armas expostas em bancadas e prateleiras ao longo de uma das paredes. Do outro lado, um lance de janelas deixava entrar a noite silenciosa, tingindo de prata o espaço onde tantas vezes sua lança havia cortado o ar e, em outras, carne.

Nada parecia exatamente abandonado, mas também não parecia em uso. Ainda assim, tudo ali parecia tê-la esperado.

Amateri inspirou fundo e prendeu a respiração.

Então rodopiou para a frente duas vezes seguidas, em um gesto quase solene. A a lança desenhou arcos sinuosos na direção do avanço. Parou de súbito, deu um passo para o lado e se abaixou, deixando a base aberta.

A seda do vestido escorreu, revelando sua perna morena.

Um ar quente e chiado escapou de seus lábios.

Amateri ergueu-se em novo giro. Dessa vez, a ponta da lança raspou no chão de arenito amarelo, mas, em vez de simples faíscas, fogo nasceu do risco e manchou o piso de preto em um círculo.

A chama subiu pequena e obediente, enroscando-se na haste da arma.

Seu olhar se fixou no alvo central distante.

Ela saltou.

Por um instante, o vestido azul abriu-se no ar, e a lança flamejante acompanhou o movimento de seu corpo com uma precisão mortífera. Antes de tocar o chão, Amateri lançou a arma contra o alvo.

O sopro ardente rompeu o salão.

A lança não se fincou. Partiu o círculo ao meio, seguiu adiante e cravou-se na parede atrás dele. Uma explosão curta de chamas iluminou o rosto imóvel da Dama Solar.

O silêncio voltou devagar.

Amateri permaneceu parada, os olhos dourados presos ao alvo destruído. A chama em torno da lança diminuiu até restar apenas fumaça, e o cheiro de madeira queimada.

Dansu no Hi — sussurrou.

O timbre de sua voz carregava suas lembranças.

Ela caminhou até a parede, arrancou a lança da pedra e voltou ao centro do salão.

Retomou o movimento.

Cada passo era golpe. Cada golpe, passo. A haste girava em torno dela como um eixo solar, ferindo inimigos invisíveis, abrindo caminhos no vazio. Amateri avançava, recuava, baixava o corpo e erguia-se em chamas.

O fogo escapava entre seus dentes, corria pela lâmina, morria no chão e nascia outra vez.

Quando a noite envelheceu, ela ainda dançava.

Seu sono só veio tarde da noite.

Mal sabia ela que aquela seria sua última noite em Kyūsekai.

ESPADA DA MORTE

Quando abriu os olhos, observou a noite entrar por uma vasta janela semiaberta. Nagato estava deitado de barriga para baixo numa cama confortável. Os servos que o levaram ao quarto não ousaram tocá-lo mais que o necessário — por isso, ainda estava com a armadura leve, a capa e a espada profana nas costas.

A memória voltou aos poucos. A conversa com o Xogum, o feitiço, as visões — tudo retornou enquanto ele se sentava na cama com a mão na testa. A cabeça latejava.

Olhou para a porta fechada. Um fio de luz passava pela fenda de baixo, ladeado por duas sombras imóveis.

Dois guardas do lado de fora — deduziu.

Tornou a olhar para a janela. A cortina de seda branca dançava com o vento que entrava. Depois olhou para uma mesa num dos cantos do luxuoso quarto — havia comida posta sobre ela. O olfato não era dos melhores, mas sentiu o cheiro do shoyu.

Seu estômago roncou. Levantou-se.

Removeu a alça da espada e a encostou na cama, tirou a ombreira e a capa e as pendurou numa das cadeiras.

Enquanto fazia isso, os pensamentos voltaram ao encontro com o Xogum. Seria possível que Kuáng-Qíng o tivesse traído daquela forma?

Era bem possível — refletiu. Seu mestre era inescrupuloso.

Aquela verdade o absolveria de tudo que fez?

Jamais — era uma certeza.

Sentou-se à mesa e levou os dedos à máscara negra.

Por um instante, hesitou.

Havia um espelho grande em um dos cantos do quarto, por um momento teve a impressão de que alguém o observava de algum lugar da penumbra.

Olhou em volta.

Não havia nada. Seu senso de tsukai sombrio bastou para conter o sobressalto.

Todo esse tempo preso me deixou louco? — suspirou.

Afrouxou a parte inferior da máscara, o suficiente para comer sem revelar por inteiro aquilo que ela escondia.

Seus pensamentos retornaram.

O Xogum poderia estar manipulando-o?

Talvez… mas por quê?

No quê eu poderia ser útil?

Por que me manteve vivo todo esse tempo?

Selou Kuáng-Qíng, um dos Dragões Primordiais — poderia selar qualquer um. Inclusive a mim.

Serviu-se de um enroladinho de arroz. Molhou no shoyu e mastigou devagar.

Meu estômago ainda está ruim. Tenho que comer devagar.

Sentiu alguém passar pelo corredor do lado de fora.

Endireitou-se, esperando o pior — mas os passos foram se afastando.

Deve ser uma patrulha de rotina — deduziu.

Contorceu-se com a azia que subiu do estômago — a fome havia sido sua companheira por tempo demais.

Agora não tem jeito… não há o que fazer a não ser jogar o jogo do Xogum.

Vamos ver quais cartas ele ainda tem para jogar…

Levantou-se e foi até a janela. Espiou a imensa e brilhante Cidade Âmbar.

A luz quente das lamparinas lhe lembrou das chamas que consumiram sua casa.

Fechou a janela.

A noite foi longa e cheia de incertezas.

O IRMÃOZÃO

— Aqui está, senhor. Esse é o seu aposento. — Seu tom de voz era agradável.

O servo entrou no cômodo, estendendo o braço para dentro em convite.

— Obrigado. — O sorriso do monge era largo enquanto passava para dentro.

O quarto era vasto e iluminado por um lustre pomposo preso ao teto. Uma cama forrada com lençóis amarelos e azuis ficava ao centro, quase convidativa.

Jun observou a mobília extravagante com a sobrancelha arqueada.

— Está do seu agrado, senhor?

O Irmãozão respondeu com um murmúrio de confirmação.

— O senhor deseja algo para jantar?

— Bem… uma salada de outono e um chá cairiam muito bem! Se não for incomodar.

— Não incomoda de jeito nenhum. Alguma preferência para o chá?

Um de cogumelos cairia bem.

— Não. Qualquer um que ajude a relaxar minhas pernas. — Deu um tapa forte nas coxas e sentou-se na cama.

Matchá, então — falou o servo, com o dedo em riste.

Logo depois, virou-se, encostou a porta e saiu do aposento. O robe dourado que usava lambeu o assoalho de mármore escuro enquanto o seguia.

Jun sentiu uma corrente de ar entrar por uma das janelas. Levantou-se e foi até ela. No caminho, percebeu uma porta escondida atrás de cortinas espessas.

Uma varanda!

Abriu a porta e deu de cara com as luzes dos jardins e, mais ao fundo, as da Cidade Âmbar. A música do festival chegava baixa e misturada às vozes das pessoas.

Suspirou em contentamento.

Aqui será perfeito.

Com um salto curto, equilibrou-se sobre o parapeito de pedra maciça da varanda. Logo depois, sentou-se com as pernas cruzadas. A altura era vertiginosa, mas não o abalou.

Passaram-se alguns instantes até que entoasse:

Nam-myoho-sosen-no-chi.

O mantra saiu baixo e reverberante, repetido muitas vezes, até se misturar ao silêncio da noite.

Não demorou para que o servo elegante voltasse. Sorriu quando viu Jun sobre o parapeito, colocou a refeição sobre a mesa em silêncio e se retirou, fechando a porta.

Jun-Hyung se agarrou ao mantra e tentou limpar a mente. Não foi fácil afastar tudo o que havia vivido nos últimos dias.

Sōzō Sekai…

O elo dos mundos. O presente do Único.

“Tua jornada será maior do que pensa, pequeno Jun.”

Lembrou-se das últimas palavras que trocara com seu mestre no plano espiritual.

Por que os velhos sempre falam em enigmas?

“O legado de Kyūsekai pertence à tua geração. Será teu desafio derradeiro.”

Na meditação, a pelagem leonina de Joto-Sennin surgiu diante dele com a nitidez de uma lembrança antiga.

Se Sōzō Sekai é um desafio, como poderei superá-lo?

“A fruta colhida cedo amarga até a boca do faminto.”

Ainda era criança quando ouvira o ditado pela primeira vez.

Não adianta pensar demais. Se Yuiitsu quer me desafiar, aceito o desafio em respeito. Se vencer for meu destino, nada preciso temer. Se falhar for minha sina, aceitarei sua vontade de bom grado.

Queria que fosse fácil assim...

Jun-Hyung tentou conter o coração na meditação, mas não conseguiu por completo. A sensação de que tudo estava para mudar inundava seus pensamentos.

E, embora não conseguisse esquecer sua parte mundana, esqueceu-se completamente da refeição.

Sua meditação não foi plena.

Passou toda a noite refletindo sobre Sōzō Sekai e as palavras de seu mestre.

O SERENO

Takedo-Khan cavalgava pelas curvas sinuosas da estrada montanhosa de Uul-Galyn. Conhecia bem aquele caminho. Embora não tivesse nascido ali, já podia ser considerado um homem daquela terra.

Os pinheiros da encosta erguiam-se altos, cobertos por uma fina camada de neve nas copas. O granizo caía manso, quase sereno, e lhe trouxe à memória o véu de Okasan no dia em que se casaram.

Havia prazer em retornar. Ele vinha com a postura mais leve, os olhos atentos às formas conhecidas do vale, como se cada pedra e cada árvore lhe dessem as boas-vindas do retorno.

Passou pelo torii da entrada em trote tranquilo. Ao cortar as plantações de shissô, percebeu que já era tempo de colheita, mas não avistou nenhum servo.

Inadmissível…

Ao longe, viu sua morada.

A porta estava aberta.

Takedo apertou as rédeas e acelerou.

Quando irrompeu no pátio do jardim principal, avistou um corpo caído de bruços sobre um dos arbustos floridos. Saltou do cavalo com habilidade e correu até ele.

Virou o corpo para cima.

Era Jir-Han, seu jardineiro.

Morto.

O pescoço aberto de lado a lado, as vestes encharcadas de sangue.

O coração de Takedo disparou.

Escorou o corpo de Jir-Han com cuidado contra o arbusto.

Depois, levantou-se com a mão no punho da espada.

Deu uma palmada firme na anca do cavalo, fazendo-o disparar para o campo, e esgueirou-se depressa até a entrada.

Seu semblante endureceu.

O espanto ficou soterrado atrás de uma frieza assassina. O instinto de combate lhe arrancou qualquer pensamento inútil. Uma objetividade treinada tomou-lhe o corpo em um transe assassino.

Logo na entrada, um rastro de sangue manchava o assoalho de madeira. Parecia que alguém havia arrastado um corpo para as entranhas da casa.

A penumbra havia se adensado lá dentro.

Nem parecia que era dia.

Takedo caminhou devagar pelo corredor central, passo a passo, até ouvir sons guturais vindos do fundo da casa.

Do seu quarto.

A canhota seguia firme no punho de Kitakaze, sua espada.

Então viu um pé pequeno caído para fora do cômodo.

Seu coração apertou-se em uma angústia terrível. Por um instante, acreditou ser de um de seus filhos.

Parou pouco antes da porta, olhando para aquele pé pequenino.

Respirou fundo.

Entrou de uma só vez.

A mente levou um instante para aceitar o que os olhos viam. Pois Takedo viu a si mesmo.

Viu sua sombra. Sua forma. Seus contornos. Ele mesmo, mas com olhos vermelhos e a boca cheia de sangue, um monstro abominável agarrado à sua mulher, devorando suas vísceras.

Sob suas mãos, Kitakaze jamais hesitara.

Takedo rugiu como uma fera e investiu. Sacou a espada em um golpe violento contra sua sombra.

Acordou em um solavanco, suando frio.

Seu rosto ainda estava tomado pelo horror do pesadelo.

Então respirou.

Estava no palácio do Xogum. O sol da manhã entrava tímido pelas frestas das cortinas.

Levou a mão à barriga.

Maldito amazake batizado.

Sua última noite foi de pesadelo.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.