LEGADO DO XOGUM

5 CAPÍTULO 4 - TAKEDO-KHAN, O SERENO


Pelas janelas largas do dojo, podia-se ver estátuas de samurais que pareciam vigiar a floresta de árvores altas em volta. O chão, forrado de folhas vermelhas, apresentava o tom avermelhado do outono vindouro.

— Neg!

O grito de contagem era severo e seguido pelo brado dos pequenos guerreiros do dojo.

— Kor! — A voz era áspera.

Outra vez, seguida por gritos de guerra em uníssono.

— Gurav!

A cada novo comando, novos brados, novas formas de golpear com suas bokkens, espadas de madeira.

— Esperem — disse o mestre do dojo, levantando a mão.

Caminhou lentamente até um de seus alunos.

— Qual é a dificuldade, Kiir-Hynni? Reparei que você sempre titubeia no gurav.

O jovem torceu o nariz.

— Eu não gosto de estocadas, elas abrem muito os flancos. — Kiir-Hynni falava sempre a verdade, já sabia que não adiantava mentir para seu pai.

Ele não está errado, mas também não está certo.

— Compreensível… façam uma roda — ordenou o mestre.

Os alunos obedeceram abrindo um círculo, mantendo Kiir-Hynni no centro.

— Kiir-Hygal — falou o mestre, convocando seu filho mais velho para o centro do círculo.

O adolescente obedeceu, posturando-se em frente ao irmão.

— Mostre ao seu irmão o poder do gurav, Kiir-Hygal — o mestre deu uma piscadela rápida para o filho.

Kiir-Hygal conteve o sorriso e apenas confirmou com a cabeça.

Depois se virou ao outro:

— Mostre para mim como o gurav expõe o flanco, Kiir-Hynni.

Kiir-Hynni sorriu de canto.

— Kamae! — gritou o mestre para que se preparassem.

Eles se encararam com seriedade. Eram amigos, rivais e irmãos. Não mais que um ano separava a idade de um do outro.

— Comecem!

Kiir-Hygal retesou o corpo, um passo atrás. Ao perceber o avanço do irmão, estocou em movimento fluído.

Kiir-Hynni girou para aparar — mas o flanco ficou aberto no meio do giro. Logo após o choque, a bokken de Kiir-Hygal brandiu rápido para tocar o ombro do irmão com precisão silenciosa.

O Mestre observou a face descontente do pupilo.

— O que você tem a dizer, Kiir-Hynni?

Houve uma pausa curta.

— Errei o movimento. Me dê mais uma chance.

“O bambu que não se curva, parte.”

— Compreensível… mais uma chance então. — O Mestre deixou as palavras assentarem antes de ordenar: — Kamae!

Eles se prepararam mais uma vez.

O vento das montanhas Uul-Galyn soprou redemoinhos uivantes entre as folhas que caíam antes do mestre ordenar:

— Comecem!

Kiir-Hygal fez a mesma manobra, um passo para trás. Dessa vez, Kiir-Hynni ficou parado. O Mestre conteve o sorriso.

O mais velho investiu em uma finta para o lado, depois a mesma estocada do embate anterior. O mais novo não girou — desferiu um golpe forte contra a bokken do irmão, desequilibrou-o, e com outro movimento rápido acertou-lhe o pescoço.

O estalo foi alto. Kiir-Hygal caminhou para trás com a mão sobre a marca.

O Mestre encarou um, depois o outro.

— O que você tem a dizer, Kiir-Hygal?

O jovem se recompôs.

— Ele foi mais rápido, previu o que eu faria. O mérito é dele.

“Respeito dado é honra recebida.”

— Você quer mais uma chance?

— Por favor, mestre.

— Concedida — o mestre fez uma pausa — kamae!

Mais uma vez, os filhos de Takedo-Khan se encararam.

Ele refletiu sobre como os tinha nomeado; com o nome dos elementos — Hygal como o fogo, Hynni como o vento.

Vieses trocados, que ironia do destino.

— Comecem!

Kiir-Hygal deu um passo atrás para testar o irmão. Não houve reação.

Fintou para a direita, depois para a esquerda — e aplicou o gurav, mas com a mão menos firme, esperando o contato.

Kiir-Hynni surpreendeu e fez como da primeira vez: aparou a bokken do irmão de leve e girou o corpo, abrindo o flanco de Kiir-Hygal.

Desesperado, o mais velho desferiu um golpe bruto em leque horizontal — mas Kiir-Hynni se abaixou, e com o vento do golpe ainda erguendo seus cabelos negros, avançou e tocou a coxa do irmão, fazendo-o cair.

"Talento sem disciplina é vento forte sem direção."

Takedo-Khan bateu palmas. Os alunos o acompanharam.

Entre o som das palmas, ele ouviu cascos de cavalo se aproximando.

Três cavaleiros. Visitas?

Kiir-Hynni fez uma reverência ao irmão e o ajudou a se levantar — sem conseguir esconder o sorriso.

— Parabéns… por enquanto — murmurou o derrotado no ouvido do vencedor.

De pé, Kiir-Hygal o reverenciou em silêncio.

— Formação!

Os garotos se apressaram para enfileirar-se diante do mestre, os mais velhos à frente. Takedo-Khan respirou fundo — e então o viu.

Na entrada do dojo, com um roupão nas cores amarela e vermelha e o coque da nobreza bem assentado, estava o rosto que ele conhecia melhor do que o próprio. Seu irmão parou na beira do tatame e cruzou os braços, observando.

Os garotos sorriram ao reconhecê-lo. Alguns até perderam a postura.

Takedo não sorriu — mas os olhos entregaram.

— Não existe golpe ruim na arte da espada. O golpe que menos se aplica é também o que o adversário menos espera. — Fez uma pausa. — O desfecho deste combate se deu por vários motivos, não apenas pelo talento de Hynni. Hygal tinha a desvantagem de usar o gurav, e o adversário sabia disso. Usou isso para vencer. — Encarou Hynni por um momento. — Aprendemos pouco do que vimos hoje. Mas o pouco que aprendemos construirá o muito que podemos ser. Quero vê-los pingando suor até o final da tarde!

— Oss! — responderam os garotos em uníssono.

— Gunyan treinará contra Jun-Yihio. Tzo contra Myasuke. Hygal, você acompanhará o treino de Hygazzar contra Hyugz. Kiir-Hynni — apontou para os pequenos e caminhou em direção à saída — venha comigo.

Antes de chegar à beira do tatame, Kiir-Hynni falou:

— Mas… pai… eu venci. — dividindo o olhar entre o pai e o tio.

Takedo se virou. As sobrancelhas grossas e os olhos semicerrados foram suficientes. O jovem desistiu da súplica e se pôs a segui-lo.

— Traga sua bokken.

Takedo já calçava os chinelos quando passou pelo irmão — fez uma careta, enchendo as bochechas. O irmão gêmeo sorriu.

— Oi, Hynni, não conhece mais seu tio? — O Daimyo das montanhas Uul-Galyn estendeu a palma para o sobrinho tocar. A voz era idêntica à de Takedo.

— Oi, tio Dai… — a voz do garoto já pressentia a bronca.

Tatsudo-Khan apenas sorriu para o jovem.

Eles desceram o pequeno lance de escadas que dava acesso ao dojo.

Dois samurais armados vigiavam os cavalos nos jardins de baixo. Eles reverenciaram Takedo-Khan quando ele passou. O Daimyo veio logo atrás e sentou em um dos bancos do jardim, observando o irmão.

Takedo se dirigiu à beira da mata e parou sob um momiji de folhas rosadas.

Cabisbaixo, Hynni se aproximou.

— Por que você venceu? — questionou Takedo.

— Fui mais rápido… ou mais esperto.

— Não ouviu o que eu disse?

— Ouvi…

— Parece que não. Você venceu porque sabia que seu irmão usaria o gurav.

— Talvez… — murmurou o jovem.

Oque eu faço para dobrar esse jovem?

Takedo se ajoelhou e pousou as mãos nos ombros do filho.

— Você tem talento, Hynni. Talvez o mais talentoso do clã. — Fez uma pausa. — Mas talento sem direção é vento forte. E o vento não se dobrará à tua vontade. Você precisa aprender a segui-lo.

— Mas o senhor sempre diz para seguirmos o instinto.

Sou refém das minhas próprias palavras.

— Existe uma diferença entre seguir o instinto e se dobrar para aprender. Você é jovem, Hynni — agora é a hora de absorver. Quando crescer, terá tempo de sobra para desenvolver o seu estilo.

O jovem ficou sem resposta. Remexia as folhas no chão com a ponta da bokken, sem encarar o pai.

Por fim, confirmou com a cabeça.

— Olhe para mim.

Ele olhou.

— Posso contar contigo para aprender o que tenho a ensinar?

— Pode.

— Fará tudo que o pai pedir, sem questionar?

— Sim.

— Promete? — sorriu largamente.

— Prometo.

— Perfeito. — Levantou-se e caminhou até o tronco do momiji. — Então usará o gurav para estocar vinte folhas que caírem da árvore antes que toquem o chão.

Deu um soco no tronco. Dezenas de folhas começaram a cair.

— Ma—

— Nada de "mas". O que você acabou de prometer?

— Tá bom… — suspirou o jovem.

Takedo observou o filho tentar estocar as folhas com a bokken. Sem ponta, a espada de madeira tornava a tarefa quase impossível — se ele conseguisse uma sequer, já seria uma proeza.

Nem acredito que consegui. Dobrei o vento. Isso vai ser interessante.

Depois de alguns movimentos do jovem, caminhou até o irmão. Tatsudo se levantou para recebê-lo.

— Sr. Daimyo? Os impostos só são cobrados no final do ano.

Riram juntos e trocaram um afago.

— Que saudades do seu senso de humor. O que se passa com o pequeno?

— Nada demais. Arrogância do talento.

Tatsudo arqueou a sobrancelha.

— Herdada do pai?

Takedo imitou o gesto.

— Acho que do avô.

— Então tá explicado. — Riram novamente. — E Okasan? Como está?

— Bem… e imensa… o quinto vem aí.

— O quinto?! — Tatsudo abriu os braços. — Você sabe mesmo fazer menino! Minha nossa.

Takedo coçou a cabeça.

— Sabe como é… depois da guerra fiquei sem o que fazer. — O sorriso estampava as faces dos dois.

— Vou ter que comer muito wasabi para te alcançar, aniki. Cinco… puxa vida. — A surpresa do Daimyo era justificada — nas Terras Rubi, poucos filhos era o costume.

Aniki, nem com todo o wasabi do mundo. Sua vida de Daimyo não te permite esse luxo. — Takedo sacudiu a cabeça. — Só imagino a ladainha que você aguenta. Seus cabelos estão até branqueando.

— Nem me fale. — Tatsudo mudou o tom, imitando vozes distintas: — "Alguém roubou minhas vacas." "Alguém invadiu minhas terras." "Alguém está sonegando os impostos." — Voltou ao normal. — Estou por um fio.

Mais risadas.

— Reparei que no dojo não estão só os seus. Onde arranjou mais alunos?

— Decidi ensinar aos filhos dos criados. Tem sido muito bom — e os garotos gostaram, agora têm em quem bater… ou de quem apanhar.

— Boa decisão. Então foi por isso que percebi a felicidade no pessoal pelo caminho.

— Compreensível… — Takedo deixou o sorriso murchar um pouco. — Mas me diga, aniki, você não atravessou as montanhas só para saber como eu estava. Nosso encontro de final de ano já está chegando.

— Não… não mesmo. — Tatsudo pausou. — Tenho uma mensagem para você. Do Xogum.

Lástima. Enfim acabou meu sossego.

Takedo passou a mão pela barba pontuda.

— Um chá para molhar a palavra?

— Claro.

Eles se levantaram e começaram a caminhar. Desceram uma escadaria estreita, comprida e curva que levava até a casa grande da propriedade.

Um pequeno córrego brotava da mata de cima, irrigava os jardins do dojo e descia em corredeira ao lado das escadas até a clareira abaixo.

De cima, viram vários criados espalhados pela vasta área — diversas construções de telhados bem alinhados, como uma pequena vila.

— Sua casa está muito bem cuidada, aniki. Mamãe teria orgulho.

— Bondade sua, aniki. Okasan-tsuma sempre foi cuidadosa — diga isso a ela, a fará feliz.

— Falarei na oportunidade.

O vento trouxe um redemoinho de folhas na direção deles. Tatsudo segurou uma com um movimento rápido e a admirou por um momento.

— Sempre me esqueço o quanto Uul-Galyn fica bonita nessa época.

— Você precisa passear mais, irmão. Passear deixa tudo mais bonito.

Takedo fez um gesto discreto para uma das criadas.

Pararam de caminhar em outro jardim, mais próximos do riacho. Carpas nadavam num espelho d'água cristalino.

— Obrigações, aniki… muitas obrigações. — Tatsudo olhou para o reflexo na água. — Você está certo. Meus cabelos pretos não duram mais um ano. Finalmente vão parar de nos confundir.

— Já não pararam? Olha para essa cara enrugada.

As gargalhadas romperam o silêncio da clareira. Quando cessaram, continuaram:

— Estou curioso — desde quando é função de um Daimyo entregar mensagens?

— Desde nunca, aniki… tive um presentimento de que deveria trazê-la pessoalmente.

Takedo arqueou a sobrancelha.

— Boa coisa não é, tenho certeza.

— Talvez. — Tatsudo estendeu o papiro selado. Takedo o pegou, mas não o abriu.

A criada se aproximou e serviu o chá em duas xícaras sobre a mesa do jardim. Um cheiro amadeirado e tostado pairou no ar. Tatsudo farejou fundo.

— Aki Bancha. — Inclinou a cabeça para a criada. — Um dos meus favoritos. Obrigado.

Serviu-se da xícara.

Um pouco afastado do irmão, Takedo abriu o papiro e começou a ler. O silêncio tornou a reinar.

Compreensível… lamentável, lamentável… lamen… Sōzō Sekai?

Por fim, fechou o papiro.

— Então? É ruim mesmo?

— Bastante. — Entregou o papiro ao irmão e serviu-se do chá.

Tatsudo leu em silêncio.

— O que é Sōzō Sekai? Essa palavra não me parece estranha.

— Estranho é ele querer que eu me despeça da minha família. — Takedo olhou para o jardim. — Lamentável foi a hora em que o pai me ensinou a arte da espada.

— Acalme-se, aniki. Não parece nada demais.

— Com esses dragões, nunca é pouca coisa. — Ele sacudiu a cabeça. — Eu sabia que algo viria tirar meu sossego. O destino jamais me deixaria em paz — considerando o tanto de viúvas que deixei pela caminhada.

— Não se martirize, irmão. Não sofra antes da hora.

Takedo respirou fundo e deu um gole de chá.

— Sabe o que me faria bem agora?

— O que?

— Uma partida de Go com meu aniki.

Tatsudo sorriu largamente.

— Como é mesmo que você costuma dizer? — balançou a cabeça, rindo. — Compreensível…