LEGADO DO XOGUM
2 CAPÍTULO 1 - JUN-HYUNG, O IRMÃOZÃO

Aonde foi que esse monge se meteu?
Um passárino-mensageiro, metade homem e metade garça, sobrevoava as cachoeiras de Sen-Taki-Shikke com a urgência impregnada nas asas.
Isso lá é lugar de monge morar? Como é que alguém consegue meditar nessa zoada toda?
Seus olhos esbugalhados percorriam as muitas quedas d’água e seus ouvidos buscavam captar qualquer ruído que divergisse do barulho ensurdecedor das cachoeiras.
Ainda mais meditar por trinta anos. Impossível.
Lá embaixo os recortes de mata verde tropical se misturavam com as costuras sinuosas de poças d’água, corredeiras e centenas de lagos ladeados por cachoeiras.
É melhor eu descer mais, daqui essa névoa lazarenta não deixa eu ver nada.
O passárino girou no ar com elegância, segurou seu chapéu de palha e desbicou para baixo em uma mergulhada sinuosa.
Ele atravessou as névoas de umidade que subiam e abriu as asas em uma só lufada, pairando no ar. Depois, ele endireitou-se e observou a região enquanto descia devagar.
“Ele estará no Poço dos Gigantes”. Foi o que o mestre disse… e eu lá sei onde fica isso? Deve ser por aqui. Se eu piscar eu não acho o tal Irmãozão… o que é aquilo ali?
O mensageiro fitou por alguns segundos uma silhueta morena no centro de um grandioso lago nas partes mais baixas daquele labirinto d’água.
Será que achei o tal irmãozão?
Ele sorriu e se pôs naquele rumo com a urgência novamente em suas asas.
Conforme se aproximava e rompia a névoa, distinguiu tudo melhor; o lago se abria no fundo de uma cratera perfeitamente redonda, ladeado por dezenas de grandes estátuas de monges voltadas para o centro. A água vinda de fora corria até os pés daquelas figuras e desaguava nas bordas do lago. O verde da mata acompanhava o movimento das quedas d’água, dobrando-se e descendo em direção ao lago.
Sob a superfície clara, carpas douradas circulavam lentamente a rocha central, como atraídas pela quietude daquele homem.
No centro, sob uma laje de pedra, estava ele — o enorme Irmãozão.
Ufa! Por um instante achei que não ia encontrá-lo.
O passárino-garça fez uma manobra no ar e pousou sobre uma rocha saliente, o mais próximo que pôde do alvo. O pouso desajeitado assustou os pássaros que ciscavam nos ombros do gigante.
Ele chacoalhou o corpo todo, fazendo a água presa nas penas espirrar para todos os lados. O homem permaneceu sentado, de costas. Pareceu nem perceber sua presença.
É melhor eu ser mais formal, esses monges são cheios de minúcias.
O mensageiro pigarreou.
Nada, o homem manteve sua meditação, exibindo suas costas musculosas cor de bronze.
Arqueou uma das sobrancelhas e falou:
— Com licença, senhor Jun-Hyung.
Nada, o monge não esboçou reação.
Deve ser por conta dessa zoada das cachoeiras.
Dessa vez pigarreou mais alto, agora sim limpando a garganta.
— Com licença, senhor Jun-Hyung! — o grito soou como um violino desafinado.
O monge se endireitou, saindo da postura levemente curvada. Estalos irromperam de sua musculatura.
Ele ergueu a cabeça e olhou para os lados.
— Aqui… aqui, senhor. Atrás do senhor — falou o mensageiro percebendo a dificuldade do monge em encontrá-lo.
O monge o olhou de soslaio e começou a se erguer vagarosamente.
Para o passárino era como observar o nascimento de uma montanha, como se um colosso de pedra marrom fosse evocado diante de seus olhos.
Pelos céus! O homem é um monstro.
Então o monge finalmente virou de frente para ele com a face sonolenta.
O passárino ficou paralisado por alguns instantes com o bico entreaberto.
— O que quer, senhor passárino? — a voz era um violoncelo.
O homem-garça balançou a cabeça um pouco, voltando para a realidade.
— Eu me chamo Hayaku Denrei e sou mensageiro do Xogunato Âmbar. O senhor é Jun-Hyung? O Irmãozão? — curvando-se em uma leve reverência.
O monge o encarou com seriedade e curvou-se em sua direção.
— Você tem noção que interrompeu meu treinamento, senhor Dendei? Tem noção que interrompeu uma meditação de trinta anos, mensageiro Dendei? Tem noção que cortou o elo entre eu e meus ancestrais… Habyakú Dendei? — falou apontando para as estátuas em volta do lago.
É Denrei… Habyakú? Mas que coisa…
— E-eu… me p-perdoe senhor. A ord—
— É melhor que seja algo muito importante, senhor Dendei, ou eu não o perdoarei.
Denrei engoliu seco desviando o olhar da face riscada de cicatrizes do monge.
— É-é sim, s-senhor, uma mensagem do próprio Xogum.
A risada de Jun subiu alta reverberando nas grutas que margeavam a parte de dentro do buraco do lago.
— “É-é sim, sinhô.” — Jun imitou a voz do homem-garça e continuou a rir.
Céus! Era só o que me faltava, lidar com um louco.
— Você quase se cagou todo, homem-garça! — apontou o dedo para Denrei, rindo compulsivamente.
Denrei revirou os olhos e pigarreou.
— Senhor… — a risada era tão alta que ele não conseguiu continuar.
— “Uma minsagim do pórprio Xogum!” — Jun-Hyung o imitou novamente, ele ria tanto que lacrimejava. — Como se o Xogum pudesse salvar suas penas!
A risada se intensificou.
Filho de uma mãe! Que tipo de monge é esse?
— Senhor! — berrou Denrei.
Jun foi arrefecendo aos poucos, retomando a postura e limpando as lágrimas do rosto.
— Tá bom, vai, eu parei. Pode falar, Dendei.
Quem ele pensa que é?
— Meu nome é Denrei! — berrou a garça.
— Ó sim, certo! Perdão, senhor Habyakú Denrei. Não fo—
— Hayaku! Hayaku! Não“Habyakú.” — Denrei imitou a pronúncia “Habyakú” de Jun-Hyung.
— É… tudo bem, senhor passárino, eu não quis ofendê-lo, eu só estava brincando. — falou balançando as palmas das mãos.
— Mas ofendeu! Fique sabendo que sou o mensageiro número um de todo o Xogunato Âmbar, respeitado em toda Kyūsekai!
Um sorriso largo se abriu no meio da barba branca de Jun-Hyung.
— Sim, vejo que é um exímio mensageiro. Novamente, me perdoe, senhor Hayaku Denrei. O que eu posso fazer para compensar a ofensa?
Denrei virou a cabeça um pouco de lado para ver melhor o gigante e respirou fundo, se recompondo antes de falar.
— Ouvir a minha mensagem será o suficiente.
— Pois então, fale. Sou todo ouvidos — cruzou os braços.
O homem-passárino removeu o chapéu, balançou as penas mais uma vez, pegou um papiro de seus pertences e o abriu, por fim, limpou a garganta e começou a ler:
— Jun-Hyung, conhecido como “o irmãozão”. O Xogum Âmbar, Umarekawa Hitto, lhe condecora como mestre homenageado do ano para o Festival da Terra de Koharamiyako. As homenagens ocorrerão durante o festival, no próximo equinócio de outono. O senhor é convidado de honra do Xogunato e poderá se hospedar no Palácio do Xogum durante as festividades.
Jun bateu o indicador no braço algumas vezes antes de responder.
— Você me interrompeu só por isso?
Só por isso?!
— Meu senhor, essa é a maior honra que um mestre tsukai pode receber, e você nem é natural do Xogunato Âmbar!
Jun soltou um grunhido arrastado.
— Isso nem é lá essas coisas, eu já recusei essa honra muitas vezes. Não preciso dela. Tem certeza que não tem mais nada? Umarekawinho não ia te mandar aqui só para isso.
Agora tenho certeza. Esse monge é louco. Q-que intimidade é essa?
— Umarekawinho? — murmurou baixo Denrei, incrédulo.
— Sim, o Xogum. Ele não falou nada que não esteja nesse papel?
O mensageiro olhou para o papiro já úmido em sua mão.
— N-não. S-sim! Falou sim.
Céus! O que foi que ele falou mesmo? Detesto essas mensagens faladas.
— E o que foi que ele falou? — Jun se curvou sobre o passárino arqueando a sobrancelha.
— É-é… q-que precisava falar com você sobre outro assunto. É isso! Outro assunto, ele tinha outro assunto do seu interesse para tratar pessoalmente.
Jun ronronou alto.
— Que outro assunto? Ele falou? — falou adotando um tom duvidoso.
Agora lascou de vez, deu branco.
— E-ele não f-falou. D-deve ser algo a-apenas para os seus ouvidos, senhor.
O ronronar veio outra vez.
— Sei… você está nervoso, Dendei? Foi algo que eu fiz?
Dendei de novo?
— Não senhor! É-é essa umidade toda, está molhando minhas coisas.
— Tudo certo então. Obrigado, pode ir embora. — balançou as mãos, como se espantasse o homem-passárino.
Esse miserável tá achando que eu sou um pombo?
— Não, eu não posso ir embora sem uma resposta sua.
— Ué? Eu já não respondi? Acabei de falar que “tá tudo certo”.
Ele quer me tirar do sério de novo. Não vou lhe dar esse gosto.
Denrei pigarreou e respondeu:
— Para ser mais preciso, senhor, preciso saber se o senhor vai comparecer ou não.
— Ah tá! — Jun fez uma pausa e encarou o mensageiro — acho que não vou. Não tem nada que me interesse em Koharamiyako.
— Mas senhor, é um chamado do próprio Xogum! É um convite irrecusável.
— Geralmente é, mas você esqueceu o recado. Posso usar essa desculpa — seus olhos azuis lançaram malícia sobre Denrei — que tipo de mensageiro esquece a mensagem? Acho que você exagerou quando disse ser o número um.
C-como ele descobriu? Impossível. E-ele é só um tsukai da terra. Que poder é esse?
Fez-se um silêncio breve entre os dois.
— Você não vai falar nada Dendei? — o sorriso largo estampava a face do irmãozão.
— E-eu…
O que eu falo? Eu me esqueci mesmo a mensagem.
— Seu coração vai pular para fora, Dendei. Acalma teu espírito, homem. É só um branco — ele piscou para Denrei — se você pensar mais um pouco vai se lembrar.
Que monstro é esse? Nós nem estamos tão perto para ele me sentir desse jeito.
Denrei o fitou de cima para baixo e no fim viu os pés enormes do gigante descalços sobre a rocha.
Impossível? Ele me sentiu através da rocha? Mas as bases nem estão conectadas… talvez conectadas pelo fundo do lago? Impossível, impossível. Que poder descomunal…
— Tremer desse jeito não vai fazer bem para você, homem-passárino.
E-eu, n-não me esque… — em um lampejo, a memória voltou torta — Somo Selai! Somo Selai! Os Portões de Somo Selai! Foi o que ele falou. Você precisa encontrá-lo para conversar sobre a abertura dos Portões de Somo Selai.
Jun-Hyung riu alto.
— É Sōzō Sekai, seu passárino miolo de galinha.
Eu mereço.
— Isso! Sōzō Sekai. Perdoe minha falha, senhor — Denrei suava frio.
Jun-Hyung suspirou fundo e se sentou com as pernas dobradas.
— Perdoado. Agora vá e diga para Umarekawinho esquentar a minha sopa, porque eu o encontrarei em breve.
Nem a pau que eu vou dizer isso.
— Como o senhor desejar. — Denrei fez uma reverência comprida e logo depois alçou voo.
O ar enevoado foi revirado pelas asas do homem-garça e quando o arfar se findou, o silêncio voltou a reinar no Poço dos Gigantes.
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