LEGADO DE SANGUE | marauders era
4 — CAPÍTULO II —
Notas iniciais
O Beco Diagonal
É claro que contei para Connor e Becky tudo o que havia acontecido na sala do superintendente. Mostrei o exemplar de Hogwarts, uma história e a carta que McGonagall havia deixado.
— É uma ótima história de ficção — Connor murmurou. Ele deixou claro que não acreditava em uma palavra da bruxa, mesmo com minha insistência.
— Eu vi ela criar uma taça de água, Connor — argumentei, segurando o livro sobre a escola contra o peito —, do nada!
— Truque de mágica! Ilusionismo! — ele rebatia.
Becky, por outro lado, havia tomado uma postura bem mais receptiva: — Há muito mais entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia.
Depois que Connor terminou a leitura do livro de Bagshot, foi a vez de Becky lê-lo. Poucos dias depois, começaram a discutir entre si.
— Não acho que alguém teria o trabalho de criar um livro tão denso e bem produzido para enganar uma criança — Becky pensou alto, enquanto praticava seu bordado em um bastidor de madeira que havia recebido há algumas semanas. Como era uma suicida, rapidamente substituíram sua agulha por uma versão de plástico com ponta arredondada, o que dificultava seu trabalho, mas a moça continuava criando flores e frases bonitas nos tecidos. — Essas coisas custam dinheiro, sabe?
— Você não sabe como as pessoas podem ser cruéis — Connor retrucou de forma sombria.
— Mas por que alguém faria isso com Mary Ann?
Ele não respondeu.
Apesar de entender a posição de Connor, sua descrença fazia meu peito doer e minha garganta se fechar. Não podia deixar que me convencesse de que McGonagall havia inventado tudo. Becky tinha razão: por que alguém faria isso comigo? Uma mulher escocesa não poderia ter saído do Reino Unido com a única intenção de zombar de uma órfã irlandesa, poderia?
Mas a voz de Connor sempre ressoava em minha mente: — Você não sabe como as pessoas podem ser cruéis.
Passei a madrugada de julho para agosto acordada, esperando por McGonagall, como se ela pudesse simplesmente aparecer. Durante a primeira semana do mês, Becky ficou repetindo: “Ela vai aparecer, Mary Ann” e “O relógio não vai girar mais rápido se você ficar encarando”. Na segunda semana, Connor me pediu para parar de agitar as pernas sob a mesa da biblioteca, pois isso o incomodava, mas acabou se apiedando de mim na terceira semana.
Em um momento a sós, passou a mão calejada sem jeito em minhas costas e disse: — Daqui alguns anos, isso não vai passar de uma memória distante.
Mas eu não queria que aquilo fosse uma lembrança, então fazia questão de reler a carta e a lista de materiais diariamente, voltava ao primeiro capítulo de Hogwarts, uma história assim que virava a última página. Quando agosto se aproximava de seu fim, eu já havia aceitado que tudo não passava de uma brincadeira cruel, mas, no momento em que vi Murphy entrando novamente na biblioteca, eu sabia que ela vinha me levar até a professora McGonagall.
Nem mesmo deixei que a enfermeira me falasse para segui-la, me levantei com um salto e me despedi brevemente de meus amigos com um “depois falo com vocês”. Refizemos o caminho até o escritório de Fennessy, mas não admirei as paredes ou as janelas dessa vez, só conseguia encarar meus pés e estalar as juntas dos dedos.
Quando chegamos no átrio, McGonagall me aguardava ao lado de Fennessy, que parecia completamente contrariado. A professora abriu um sorriso suave ao me ver.
— Srta. Smith.
— Professora — suspirei, aliviando toda a tensão que eu trazia em meu peito havia semanas — A senhora veio.
— Claro que vim — respondeu, docemente. Então, virou-se para encarar Fennessy. Apesar de ser uma mulher alta, McGonagall era muito mais baixa que o superintendente, mas seus olhares se chocaram de forma furiosa quando a professora disse: — Precisamos ir agora, Dr. Fennessy. Agradeço a hospitalidade. Mary Ann deve voltar até o final da tarde.
O superintendente comprimiu os lábios, mas respondeu simplesmente: — De acordo.
— Ótimo. Vamos, Srta. Smith.
A professora marchou em direção à saída do sanatório e eu me apressei atrás. Cruzamos o portão de metal fundido sob o olhar cínico de um dos vigias da instituição e descemos colina abaixo, em direção à Tuam. Após um desconfortável minuto silencioso, tomei coragem para perguntar: — O superintendente me deixou sair? Fácil assim?
— Oh, sim — respondeu McGonagall com indiferença —, o professor Dumbledore já cuidou de tudo, não se preocupe. Já providenciamos todos os detalhes para as suas saídas ao longo do período estudantil.
— E como vamos sair de Tuam?
— Vamos pegar um ônibus trouxa até Galway, o Ministério Irlandês não deu permissão para que usássemos uma chave de portal, porém existe uma senhora britânica de família bruxa que mora pelos arredores, seus contatos no Ministério são bons, então poderemos usar sua lareira, já que está conectada ao Caldeirão Furado...
— Por que precisamos de uma lareira?
— É um meio de transporte bruxo — explicou calmamente, enquanto nos aproximávamos do ponto de ônibus —, existe uma espécie de pó mágico que conecta as lareiras no Reino Unido, mas existe uma ou outra em outros países próximos também, como a da Sra. Ruoy. Jogamos pó de flu no fogo, entramos na lareira e falamos o endereço de onde queremos ir.
— E simplesmente aparecemos lá? — exclamei com os olhos arregalados.
— Existem algumas… Condições, por assim dizer — falou em um suspiro longo, sentando-se no banco de pedra para esperar o ônibus —, mas por agora basta saber que sim, simplesmente aparecemos lá.
Assenti, interessada, enquanto me sentava ao lado da professora. Eu estava tão ansiosa, que era impossível não sorrir minimamente a cada segundo. Comecei a balançar as pernas, agitada, e continuei com minhas perguntas: — Não existe um lugar para comprar os materiais aqui na Irlanda?
Minerva deixou escapar outro suspiro antes de responder: — Existe, é claro, comércios bruxos existem em todos os lugares, mas não estou muito familiarizada com Galway… E o valor em Londres é bem melhor.
— Temos pouco dinheiro?
— O suficiente para o essencial — a professora disse, receosa, encolhendo os ombros quase imperceptivelmente —, a escola precisa arcar com o custo de vários alunos, então não seria possível comprar material e vestes novas para todos, entende… Ah, finalmente!
O ônibus se aproximava tão lentamente que parecia rastejar sobre a estrada. O intermunicipal Tuam-Galway estava completamente sujo de barro. O condutor era um senhor já de certa idade, que não se preocupou em responder o cumprimento de McGonagall. Não havia uma alma no ônibus, além de nós e do motorista trouxa, que parecia fazer questão de arrastar-se pela estrada.
Apoiei a testa contra o vidro oleoso da janela e admirei a paisagem enquanto me afastava do Sanatório St. Jude.
— Empolgada?
— Muito — confessei, abrindo um sorriso que deixou a mostra todos os meus dentes —, nunca estive tão feliz em minha vida!
A professora sorriu de volta, levemente, e fixou seus olhos em um pequeno mapa trouxa que havia tirado de sua manga. Notei um círculo vermelho na região onde ficava o orfanato e um outro círculo mais próximo de Galway. Havia também algumas setas e riscos, que pareciam delinear o trajeto do ônibus, com uma indicação numérica a cada curva que o transporte faria. Ao todo, somavam sessenta e dois minutos de viagem.
— Não tem costume de viajar de ônibus? — perguntei com os olhos ainda fixos no mapa.
— Não mais.
Franzi o cenho e questionei: — Como assim? Bruxos não têm ônibus?
— Temos, mas não é um meio de transporte comumente usado. É mais rápido e prático utilizar Flu. Ou vassouras.
— Vassouras?
— Sim. Voamos em vassouras.
— Como nos livros de Enid Blyton! — quase gritei de empolgação.
A professora franziu o cenho. Talvez os livros de Blyton não fossem comuns no mundo bruxo, pois McGonagall estava visivelmente confusa. Após um segundo, murmurou: — Suponho que sim.
A viagem se tornou ainda mais interessante quando entramos em Galway. Eu nunca havia visto a cidade, mas era muito maior e mais viva do que podia imaginar. As casas eram todas parecidas, com tijolinhos vermelhos, portas altas de madeira escura e um jardim bem cuidado na frente. Inúmeros pontos de comércio, aqui e ali, faziam meus olhos pularem para fora das órbitas.
— Uma loja que só vende doces, veja, professora! Jesus, olhe aquela mulher passeando com o cachorro, que animal feio!
— Precisamos descer no próximo ponto — Minerva anunciou, assim que chegamos à uma pequena ponte de pedras cinzentas. Assenti animada, mas não descolei o rosto da janela, interessada no riachinho fétido pelo qual passávamos.
— Meu Deus — eu ri alto —, você viu aquele gato roubando o pescador? Ugh! Aquele homem tirou meleca do nariz!
— Vamos, Srta. Smith.
McGonagall se colocou de pé e caminhou tranquilamente até o motorista, pedindo-lhe que parasse no próximo ponto. Eu apenas me levantei quando o ônibus já havia parado, corri até a professora, que me olhava com uma cara feia já na calçada.
— Precisamos nos apressar — a professora resmungou enquanto olhava para ambos os lados antes de atravessar a rua. Alguns olhares se voltaram para nós, duas figuras destoantes do resto dos moradores de Galway: uma menina, muito baixa e magrela, com cabelos maltratados e despenteados, acompanhada de uma senhora elegante, cujas vestes pareciam ter saído de um conto de fadas.
— Estamos atrasadas?
— Um tanto.
McGonagall andava rápido, vez ou outra olhava para trás, apenas para se assegurar de que eu a acompanhava. A caminhada foi curta, mas exaustiva, perdi a conta de quantas vezes precisei levantar minhas calças para evitar que escorregassem pelas pernas. Em alguns minutos, estávamos em frente a uma casa que, apesar dos tijolinhos vermelhos e da porta alta de madeira escura, possuía um jardim muito diferente das outras casas. Uma trepadeira muito espalhafatosa havia crescido contra o muro baixo, atingindo pelo menos um metro e meio de altura, lançando flores vermelhas e vibrantes para todas as direções.
O portão era de ferro, com pequenas lanças triangulares nas pontas. Ao lado, havia uma pequena caixa de correio, com margaridas pintadas no latão e, abaixo das flores, havia as palavras “Teach agus gairdín Mrs. Ruoy”, o que significava “casa e jardim da Sra. Ruoy” em gaélico irlandês.
Além do portão, havia um canteiro com as mais diversas plantas: ervas medicinais, pequenas árvores frutíferas, sinos irlandeses e algo que pareciam tomates recém-plantados. Do outro lado do quintal, vários vasos grandes, repletos das mais diversas flores.
Minerva olhou para os lados, checando se havia algum trouxa na rua, antes de puxar a varinha de dentro da manga e dar um toque leve contra o portão, que se abriu lentamente. McGonagall entrou e fez um gesto apressado para que eu a seguisse, fechando o portão em seguida.
— Bruxos podem entrar na casa de qualquer pessoa?
Minerva arqueou as sobrancelhas antes de responder: — Tecnicamente, sim. Mas não devemos, é claro. A Sra. Ruoy me deu permissão prévia para abrir seu portão assim que chegássemos, mas um bruxo que invade a casa de outras pessoas, usando da sua magia, será julgado por seus atos, obviamente.
— E o que acontece então? — perguntei, distraída, admirando as pétalas longas e vibrantes de um lírio.
— A condenação — respondeu com indiferença —, pode ser enviado para a prisão ou apenas pagar uma multa, coisas desse tipo, não se difere muito das leis trou…. Não toque nas flores!
Arregalei os olhos, afastando-me de imediato do vaso.
— Por quê?
— A Sra. Ruoy é muito supersticiosa, as flores devem ser tocadas apenas por membros da mesma família para que não murchem antes do final do verão.
Antes que chegássemos até a grande porta de madeira escura, a Sra. Ruoy surgiu. Um sorriso imenso iluminava seu rosto, os olhos estreitos brilhavam como chocolate derretido. Ela possuía cachos pequenos e apertados, pretos, quase partindo para o cinza devido à idade. Era um tanto mais baixa que Minerva e também não parecia ter mais que dez anos de diferença. Em seu pescoço balançava uma grosseira pedra, de um tom preto profundo como a noite, presa por um cordão de aparência gasta e envelhecida.
— Finalmente vocês chegaram — ela brincou, de modo que suas linhas de expressão ficaram ainda mais evidentes, seu rosto arredondado exalava simpatia —, já estava ficando preocupada. Espero que goste de chocolate quente, Mary, posso te chamar assim?
— Ah — hesitei por um instante, enquanto meus olhos vagavam pela casa pequena, colorida e muito confortável —, eu prefiro Mary Ann mesmo…
— É claro — a mulher respondeu sem desmanchar o sorriso.
A casa da Sra. Ruoy era repleta de coisas: a sala principal era composta por dois sofás largos, esverdeados, e uma poltrona que parecia muito confortável, laranja vibrante com um xale azul celeste jogado sobre o encosto. Deitado em um sono profundo, um grande gato de pelagem marrom-escura ressonava levemente. No grande tapete branco, bordado com flores cor-de-rosa nas bordas, havia um outro gato, esse era um pouco menor que o primeiro, pintado com tons de laranja, cinza e branco. Do teto, pendiam cordões decorados por pequenas contas esverdeadas, terminados em pedras grosseiras, semelhante ao colar da anfitriã, porém de cores variadas: brancas, azuis, rosadas e, principalmente, cristais levemente translúcidos.
— Ah, meus gatos — a Sra. Ruoy apontou para os animais dorminhocos, felicíssima por poder apresentá-los para mim —, esse é o Donn e essa é a Codladh — ela contou, indicando primeiro o gato marrom e, depois, o pintado —, os outros estão espalhados pela casa.
— Só precisamos da lareira, Sra. Ruoy — Minerva resmungou, olhando feio para os gatos.
— Ora, Minerva, quantas vezes já lhe disse para me chamar de Elfrieda? E também não me digam que não terão nem mesmo cinco minutos para um chocolate quente!
— Sinto muito, senhora… Elfrieda — a professora se corrigiu com um suspiro cansado —, não posso me atrasar, preciso acompanhar ainda uma família trouxa de Cokeworth mais tarde...
— Sim, sim, entendo — a Sra. Ruoy murmurou, visivelmente chateada —, bom, venham por aqui então.
A lareira da Sra. Ruoy ficava em um corredor pequeno entre a sala principal e a cozinha. Reparei que a lareira era realmente maior que o normal, a ponto de caber uma pessoa alta de pé, sem que ela precisasse curvar a cabeça para entrar. Sobre a lareira, havia um terceiro gato, esse era muito feio, tinha a cara achatada e longos pelos brancos. Fixou seus grandes olhos azuis em McGonagall, soltando um rosnado agressivo.
— Calado, Cadás! — a Sra. Ruoy guinchou.
Minerva bufou baixinho, incomodada, mas nem mesmo se dignou a olhar o gato. Virou-se para mim e disse, usando seu tom sério e professoral: — Eu vou primeiro, preste muita atenção em como vou dizer, em alto e bom som, as palavras. Precisa fazer exatamente do mesmo modo, não pode se mover e apenas saia da lareira quando me ver do outro lado.
Balancei a cabeça, levemente ansiosa. Observei a professora pegar um punhado do pó reluzente e prateado que jazia em um pequeno vaso de plantas inutilizado ao lado da lareira. Ela atirou o pó sobre as chamas. Com um rugido alto, o fogo vermelho se transformou em verde e então Minerva entrou na lareira. As labaredas esmeraldas lambiam o rosto elegante da bruxa, que lançou-me um olhar severo, como se quisesse conferir se eu realmente prestava atenção em seus atos.
Eu sequer havia piscado, com medo de perder alguma parte de um ritual tão importante.
— Ela não vai se queimar, querida, não se preocupe — a Sra. Ruoy sorriu.
Eu não estava preocupada. Conhecia muito pouco sobre McGonagall, mas isso já era o suficiente para saber que a professora jamais se enfiaria no meio do fogo se não tivesse a certeza de que estava segura.
— Agora, preste atenção — Minerva disse, muito séria. Ela se ajeitou dentro da espaçosa lareira, checando se a barra de sua túnica estava para dentro, fechou os cotovelos contra as costelas e, por fim, anunciou em alto e bom som: — Caldeirão Furado!
Arregalei os olhos ainda mais quando vi a bruxa ser sugada para dentro da lareira, desaparecendo em seguida.
— Fique com os olhos fechadinhos nos primeiros segundos, por causa da fuligem, entende… Ah, mantenha os cotovelos bem juntos do corpo e evite respirar as cinzas… Acho que é isso, bom, pode ir, querida, lembre-se de dizer bem claramente: cal-dei-rão-fu-ra-do — a Sra. Ruoy incentivou, tocando levemente o meu braço ossudo. Não consegui conter uma careta. A mulher recolheu a mão rapidamente. — Desculpe.
Me senti um tanto culpada. Eu não tinha nada contra a Sra. Ruoy, mas era difícil não me incomodar quando alguém tocava minha pele sem avisar antes. A sensação era como se gelo escorresse para dentro de meus músculos, havia um enjoo repentino e algo parecia brilhar no fundo de minha cabeça. No exato instante em que Elfrieda afastou sua mão de mim, todas as sensações ruins se foram, deixando por fim apenas um estranho formigamento no local do toque.
— Tudo bem — falei, forçando um sorriso, enquanto pegava um punhadinho do pó e entrava nas chamas esmeralda — Obrigada pela ajuda, Sra. Ruoy.
A Sra. Ruoy dispensou os agradecimentos com um aceno animado e, sorrindo enormemente, disse: — Passe aqui qualquer dia desses, eu sei fazer um bolo de morangos que você vai adorar!
— Certo... Até mais, então… Caldeirão Furado!
Foi como estar sendo sugada por um enorme ralo. Tudo parecia estar girando muito rápido, o rugido em meus ouvidos era ensurdecedor. Contei exatamente três segundos e então abri os olhos, o que fez o enjoo aumentar imediatamente. Apertando as pálpebras contra a ventania, consegui ver uma sucessão de lareiras indistintas e relances de cômodos além, pensei ter visto até mesmo uma família brincando no tapete da sala de estar. O café da manhã se revirou em meu estômago e desejei fechar novamente os olhos, porém a imagem da professora McGonagall, carrancuda e com ambas as mãos na cintura, me chamou a atenção.
Sem ter certeza do que fazer, saltei para fora do pequeno vórtice esmeralda e senti meus joelhos baterem contra o piso de madeira.
— Ai...
McGonagall deixou escapar uma risada anasalada enquanto dizia: — Como as crianças todas sempre conseguem cair?
Foi inevitável não soltar um muxoxo de frustração enquanto eu firmava as mãos no chão e me erguia, ainda muito tonta, abanando o pó do vestido escuro que usava.
— Isso foi horrível — resmunguei.
Em resposta, Minerva soltou uma outra risadinha e, sem me dar grande atenção, disse: — Bem-vinda ao Caldeirão Furado.
Erguei os olhos e torci o nariz. O pub era escuro, bastante sujo e excessivamente aquecido. Apesar de ainda não ser nem meio-dia, o lugar estava cheio e o odor de cerveja barata era palpável. Eu esperava qualquer coisa de um bar bruxo, mas definitivamente não estava preparada para ver tamanha imundície.
Notei que alguns olhares se fixaram em mim e, por instinto, me aproximei da McGonagall, em busca de alguma proteção. Eu podia jurar ter visto uma bruxa, muito feia, velha e verruguenta, lamber os lábios enquanto encarava meu franzino corpo infantil. A professora, porém, se notou, pareceu não se importar.
— Apenas de passagem, Tom — McGonagall fez um gesto com a mão, dispensando um copo de xerez que o estalajadeiro lhe oferecia.
— Ah, claro — o homem assentiu, deslizando o copo sobre a bancada até um bruxo já cambaleante —, você já sabe o caminho.
McGonagall despediu-se de Tom com um aceno de cabeça e se aproximou mais de mim. Não chegou a me tocar, sua mão constantemente pairando sobre meu ombro ossudo, mas sem nunca de fato encostar em minha pele, o que me deixou aliviada.
A professora Minerva me conduziu para o fundo do pub, até um pátio murado, com tijolos proeminentes em todas as paredes. Naquele pequeno espaço, não havia nada além de uma lata de lixo e um pouco de mato nascendo contra uma das paredes.
A professora sacou a varinha de dentro da manga sob o meu olhar atento.
— Preste atenção, passará os próximos anos usando essa passagem — com um floreio discreto, tocou um dos tijolos centrais com a ponta da varinha — Três para cima, dois para o lado…
Ela mal havia tocado o último tijolo quando este estremeceu silenciosamente. Arregalei os olhos ao ver um buraquinho surgir e, aos poucos, se alargar, retorcendo os tijolos até que um arco se formasse, dando vista para uma rua, estreita, torta e muito movimentada.
— Este é o Beco Diagonal.
Sem esperar pela professora, cruzei o portal, virando a cabeça em todas as direções. Desejei ter mil olhos para registrar todas aquelas pessoas, lojas e cores. Um senhor corcunda passou ao meu lado resmungando sobre o preço do fígado de dragão, enquanto um casal de adolescentes caminhavam de mãos dadas tomando seus sorvetes estranhos: um roxo e o outro azul brilhante. Uma bruxa arrastava seu filho pela rua, enquanto o menino chorava e pedia uma nova vassoura de presente.
— Não se afaste assim — McGonagall censurou com autoridade —, é perigoso.
Me perguntei o que poderia haver de perigoso em um lugar tão alegre e colorido, porém apenas encolhi os ombros e murmurei: — Desculpe.
— Já saquei o dinheiro antes de te buscar, assim economizamos um bom tempo…
Aquilo me irritou, tudo o que eu mais queria era passar horas inteiras naquele lugar, porém apenas balancei a cabeça em concordância.
— Por onde começamos? — disparei.
— Vou te deixar na Vestes de Segunda Mão — McGonagall respondeu, desviando o olhar para seu relógio —, espero que entenda que o colégio não pode bancar as vestes novas de todos os alunos que precisam de apoio financeiro...
— A senhora já disse isso. Não é um problema para mim — falei com sinceridade —, sempre usei roupas velhas, qualquer coisa que eu comprar vai ser ótimo!
A professora forçou um sorriso que não chegou até seus olhos, após alguns segundos, completou: — Enquanto isso eu vou até à Livraria de Segunda Mão, é preciso garimpar para encontrar livros em bom estado, entende? Por isso é bom alguém mais experiente... Você vai me esperar na loja de roupas, provavelmente vou demorar só uns vinte minutos, mas, caso eu me atrase, me espere na loja de roupas.
— Pode deixar — concordei, contendo uma careta irritada.
— Não quero uma criança perdida pelo Beco Diagonal.
— Não se preocupe — reforcei enquanto olhava as vitrines das lojas pelas quais passávamos. Por fim, vi uma loja de aspecto envelhecido, uma pequena porta de madeira descascada com uma placa de papel pendurada. Em garranchos tortos estava escrito “Vestes de Segunda Mão”.
— É aqui — Minerva indicou.
— Certo — resmunguei, tentando esconder uma pontada repentina de insegurança — Eu vou entrar então.
— Logo nos encontraremos de novo — havia um sorriso em seu rosto, cujo único objetivo parecia ser me tranquilizar.
McGonagall me acompanhou com os olhos, até ter a certeza de que eu entraria na loja em segurança. Fechei a porta atrás de mim, abafando o forte ruído da rua.
A loja era apertada e iluminada fracamente com velas e castiçais de ferro, muito bem limpa e possuía um leve cheiro de desinfetante trouxa. Parecia completamente vazia, mas logo ouvi os cliques suaves de saltos em minha direção.
— Olá, querida! — saudou uma vozinha fina e confiante.
— Oi… — respondi, vacilante, olhando ao redor em busca de alguém.
— Aqui em baixo, querida!
Desci então os olhos até alguns centímetros além do balcão. De pé, com a coluna bem ereta, e trajando um vestido roxo vibrante, repleto de lantejoulas, havia uma criatura. Era baixa, devia ter pouco mais que um metro, a pele era acinzentada e macilenta. Havia uma grande presilha roxa que afastava os cabelos aloirados do rosto. Tinha enormes olhos castanhos, gentis e expressivos, além de um nariz longo e reto. Sob a barra excessivamente longa de seu vestido, calçava um par de tamancos dourados. Meia dúzia de jóias grandes pendiam de seu pescoço fino. Sob os cabelos claros, era possível ver um par de orelhas pontudas e ornamentadas por três pares de brincos.
— Ah, oi! — cumprimentei novamente.
— Do que precisa, querida? — ela sorriu gentilmente, revelando dentes quadrados e espaçados, muito limpos.
— Ah, bom — vacilei, reagrupando os pensamentos —, Hogwarts...
— Primeiro ano? Claro, acredito que um extra-pequeno vai servir, espere aqui só um pouquinho e eu logo volto... — e sumiu atrás do balcão com seus passinhos suaves e sua vozinha esganiçada desaparecendo aos poucos.
Segundos depois, surgiu carregando uma montanha de panos escuros nos bracinhos finos.
— Quantos conjuntos de vestes estão cobrando esse ano, hã?
— Três — respondi de imediato, afinal, já havia decorado a lista de materiais obrigatórios há muitas semanas. A mulherzinha assentiu, enquanto atirava três pacotes amontoados em meus braços.
— Uma capa de inverno, creio — ponderou.
— E também um chapéu e um par de luvas de couro… De dragão — respondi após hesitar brevemente. Me senti tola ao falar sobre algo que, até poucas semanas atrás, existia apenas em contos de fadas.
— Não tenho luvas aqui, são difíceis de se reaproveitar, sempre têm furos enormes — explicou, distraidamente —, vai precisar comprar em outro lugar. Que número você calça? Precisa de meias também?
— Ah — franzi o cenho, pensativa. Lembrei-me dos meus três pares de meias, muito rasgadas e velhas —, sim, preciso de meias.
— Muito bem, querida — ela sorriu novamente, expondo os dentes estranhos —, pode ir se trocar naquele quartinho, veja se precisa escolher outros tamanhos, enquanto isso eu vou procurar por um par de sapatos que lhe sirva.
Concordei silenciosamente enquanto ia até a porta que ela havia indicado. O cômodo era pequeno, não devia ter mais que quatro pés entre uma parede e outra, o teto era muito alto e a iluminação vinha toda de um único archote bruxuleante. A mobília era formada por apenas um grande espelho sujo e uma cadeira bamba. Torci o nariz para a menina que me encarava do espelho, muito baixa, muito magra, muito sardenta e muito ruiva.
— Olá, querida — minha boca no reflexo se mexeu. A voz saiu estranha, similar à minha, mas parecia bastante artificial e mais gentil do que eu soava —, está precisando engordar uns quilinhos, uh?
Dei um pulo para trás, assombrada, e o reflexo me imitou, porém, abriu a boca novamente e falou: — Não se espante, sou apenas um espelho mágico fazendo seu trabalho.
— E qual é o trabalho da senhora? — perguntei bobamente para o espelho, vendo minha boca mexer conforme cada sílaba era pronunciada.
Quando fechei a boca, o espelho tornou a abrir a sua, fazendo o timbre doce reverberar pelo quartinho: — Fui encantado para dizer o que irá tornar a pessoa mais bonita e, devo lhe dizer, querida, precisa pentear esse cabelo.
Revirei os olhos e me virei de costas para o espelho, constrangida (“isso não é necessário, querida, acredite, já vi coisa muito pior”) e retirei a calça e a camiseta. Passei as vestes bruxas pela cabeça, alisando o tecido antes de me voltar novamente para o reflexo.
Sorri quando a sensação de estar no caminho certo preencheu meu peito.
A bruxinha que o espelho refletia usava uma longa túnica negra, com a barra envelhecida, o brasão de Hogwarts meio desfiado orgulhosamente estampado sobre o peito. Só naquele momento me dei conta de que era de fato uma bruxa.
— Adorei essa roupa! — o espelho se intrometeu.
Mordisquei o lábio e suspirei antes de admitir: — Eu também.
Motivado, o espelho continuou: — O bom é que são roupas bem largas, assim você consegue disfarçar seus ossos! E esconder as cicatrizes feias que tem nas costas.
Eu sabia que tinha algumas marcas nas costas e ombros, apesar de raramente vê-las. Não eram bonitas, mas também não eram tão chocantes. Eram apenas algumas marcas de açoite antigas, uma lembrança das vezes que Fennessy perdeu o controle.
A mulherzinha bateu com delicadeza na porta, interrompendo meus pensamentos. Suavemente, ela disse: — Querida, experimente os sapatos que eu lhe trouxe.
Abri a porta e peguei o par de calçados. Eram sapatos feitos de couro preto, com uma única fivela grossa, com um fecho levemente enferrujado.
— Essa roupa ficou boa em você — a pequena mulher elogiou —, apesar de ter ficado um pouco comprida, mas você ainda vai crescer, eu espero.
— Também espero — retruquei, forçando um sorriso, antes de fechar a porta e calçar os sapatos, que ficaram levemente folgados, mas pensei que assim seria melhor, poderia usá-los por mais tempo assim...
Por último, cobri o topo da cabeça com o chapéu cônico sem abas, alto, escuro e completamente diferente de tudo o que já havia visto no mundo trouxa. Fitei-me uma última vez no espelho, sorrindo verdadeiramente dessa vez. Sentia-me uma verdadeira bruxa agora.
— Você fica até que bonitinha sorrindo! — o espelho falou, mas tratei de ignorá-lo.
— Acho que vou levar tudo — anunciei para a madeira da porta, esperando que a mulherzinha feia me escutasse, enquanto começava a me despir.
— Ótimo, te espero no balcão! — ela respondeu, a voz soando abafada.
Contra a minha vontade, enfiei-me novamente nas roupas antigas, dessa vez sem encarar o reflexo (“Você definitivamente não combina com essa cor!”). Saí do quartinho com o uniforme de Hogwarts bem dobrado em minhas mãos.
Minerva já estava de volta, carregava uma mochila velha sobre o ombro esquerdo, visivelmente cheia. A professora estava encostada contra o balcão e parecia segurar a risada para algo que a mulherzinha havia dito.
— Ah, ela voltou! — a vendedora exclamou, muito contente, em pé sobre um caixote posicionado atrás do balcão. Ainda assim, não chegava próxima à altura da elegante professora.
McGonagall, ainda com o ar de riso lhe aliviando as rugas de preocupação, se virou para mim, parecendo muito aliviada ao notar que eu não havia me metido em nenhuma encrenca.
— Tudo lhe serviu? Ótimo — a professora puxou algumas moedas prateadas de seu bolso e entregou para a mulherzinha feia —, precisamos ir agora, Caiella, tenho muito trabalho para fazer ainda.
— Claro, querida! Volte qualquer dia para um chá! — a mulherzinha sugeriu, exibindo novamente os dentinhos feios.
— Claro, claro.
Antes de sair da loja, Minerva pegou as roupas que eu mantinha nos braços e enfiou-as com agilidade dentro da mochila, acenou em direção à rua, indicando eu deveria sair primeiro.
— Obrigada, senhora — me despedi, hesitante, da mulherzinha feia, que me ofereceu um sorriso de dentes espaçados. — Vocês são amigas?
— Algo assim — respondeu Minerva, me conduzindo entre os bruxos apressados —, estudamos juntas em Hogwarts, nunca fomos próximas, mas depois que me tornei professora e passei a frequentar mais o Beco Diagonal, é impossível não encontrá-la.
Franzi o cenho e deixei escapar: — Ela esteve em Hogwarts?
— É claro — Minerva respondeu, distraída com o intenso movimento da rua —, todo jovem bruxo deve ir à escola.
Foi inevitável o pensamento de que Hogwarts aceitava todo tipo de gente, precisei morder o lábio com força para conter as palavras maldosas que roçaram contra minha garganta. Eu não conseguia entender como aquela coisa, que não parecia ser mágica e muito menos parecia ser humana, tinha tanto direito à magia quanto eu.
Incomodada com aquelas ideias, resolvi mudar o foco para outra questão: — Onde vamos agora?
— Já comprei seu caldeirão, a balança e os livros, precisamos do telescópio e também de alguns itens básicos para as suas poções e, por último, a varinha, é claro.
Uma varinha, sim, isso era o que eu realmente queria!
— Não tinha luvas na loja de roupas de segunda mão.
— Certo, vamos passar na madame Malkin também… Aqui primeiro.
Entramos em uma lojinha sufocante, com paredes atulhadas de prateleiras com potes de diferentes tamanhos, preenchidos com conteúdos multicoloridos. Chamava-se A Loja de Bugigangas.
Havia apenas um outro cliente ali: um homem alto, de cabelos negros, salpicados por fios cinzentos, muitíssimo bagunçados, que quase fez com que eu me sentisse bem penteada. Apesar de seu jeito desleixado, usava vestes que ficavam em um meio termo entre o mundo trouxa e o bruxo, novas e limpas.
Minerva o cumprimentou com alegria, trocaram um aperto de mão desajeitado antes que ele a puxasse para um abraço. Ele fez alguma piada sobre nunca se acostumar com o fato de que agora ela era a professora McGonagall e não mais a Minnie-Tufão. Em resposta, Minerva comentou algo sobre desejar que o filho de seu amigo não fosse tão bagunceiro quanto o pai era em sua adolescência. Eles riram alto depois que o bruxo disse “você não perde por esperar”. Me afastei da professora, entediada com aquela conversa de adultos nostálgicos e me distraí observando os estranhos objetos que eram vendidos ali.
Óculos com lentes douradas e foscas, um frasco grande de vidro com uma etiqueta que dizia conter zonzóbulos presos ali (apesar do pote parecer definitivamente vazio para mim), um mini piano que tocava apenas o hino da União Soviética, um único sapato minúsculo, verde e pontudo, com um guizo dourado na ponta, bússolas que não indicavam o norte, mas sim a localização do bar mais próximo, bolas de cristal com um suspeito botão na parte inferior, lupas que diminuíam a imagem em vez de aumentá-la, cartas lunares com o nome de cada uma das crateras da lua escritas de trás para frente e um enorme mapa múndi que gritava a cada momento em que um bebê nascia.
Deixamos a loja o mais rápido possível, com muita dor de cabeça, mas com o telescópio desmontável de latão sob o braço.
— Não tenho certeza se ele é de fato desmontável ou se está apenas quebrado — McGonagall comentou assim que deixaram a loja —, de qualquer forma, tenho certeza que conseguirá consertá-lo se for necessário.
— Certo — murmurei, enquanto tentava manter as peças do telescópio unidas em minhas mãos — Ei, professora, que história é essa de Minnie-Tufão?
Eu podia jurar que as bochechas de McGonagall coraram e seus lábios se contorceram com força, como se estivesse segurando uma risada. Ela, porém, me lançou um olhar severo e demorado, como quem diz “cuide de sua própria vida”.
Depois disso, fomos até à Botica, que era bem fascinante, apesar do seu cheiro horrível, uma mistura de ovo estragado e repolho podre. Havia no chão barris de coisas viscosas, frascos com ervas, raízes secas e pós coloridos cobrindo as paredes. Do teto, pendiam feixes de penas, fileiras de dentes e garras retorcidas. Enquanto McGonagall pedia à senhora atrás do balcão um conjunto de ingredientes básicos para preparar poções, eu examinava atentamente chifres de prata de unicórnios, a vinte e um galeões cada, e minúsculos olhos faiscantes de besouros, cinco nuques uma concha.
— O que são nuques e galeões? — apressei-me atrás da professora, que enfiava as compras dentro da mochila velha.
— É dinheiro bruxo — falou distraidamente, analisando novamente a lista de compras e fazendo uma marcação ao lado do que já havíamos conseguido —, um galeão equivale a dezessete sicles, um sicle equivale a vinte e nove nuques, ou seja, um galeão vale quatrocentos e noventa e três nuques.
— Jesus Cristo — eu ri discretamente —, deve ser muito difícil decorar tudo isso de novo quando os valores mudam.
— Os valores não mudam há quase meio milênio, desde quando o Gringotes foi criado — indicou, com o queixo, um grande prédio branco mais a frente.
Arregalei levemente os olhos, finalmente me atentando à construção que podia ser vista de qualquer ponto do Beco Diagonal: um imponente edifício de mármore, pálido como a neve, com adornos em ouro reluzente.
Demorei alguns segundos para perceber que McGonagall não havia parado para me esperar admirar a paisagem. Precisei correr entre as pessoas para alcançá-la. Após alguns minutos, finalmente paramos em uma lojinha, e eu pude suspirar aliviada por sair do meio daquele formigueiro bruxo.
Respirei fundo ao finalmente ler o que as letras de ouro descascadas sobre a porta diziam: “Olivaras: artesãos de varinhas de qualidade desde 382 a.C”. Senti a ansiedade me subir pelos dedos, causando um formigamento incômodo. Apertei os punhos na tentativa de afastar aquela sensação.
— Vou te deixar aqui — disse McGonagall, olhando ao redor com certa preocupação — e vou procurar pelas luvas. Me espere dentro da loja.
Assenti, ansiosa, sem prestar real atenção nas palavras da professora, apenas empurrei a porta e entrei. Um sininho tocou em algum lugar ao longe. Era uma lojinha minúscula, vazia, exceto por uma única cadeira alta e estreita, que tratei de ignorar, minhas pernas ansiosas seriam incapazes de descansar no banco.
Tive uma sensação esquisita, como se entrasse em uma biblioteca muito exclusiva e antiga, como se minha presença pudesse profanar um lugar tão essencialmente mágico. Engoli um monte de perguntas novas que tinham acabado de me ocorrer, afinal, não havia a quem indagar, e fiquei espiando as milhares de caixas estreitas arrumadas com cuidado até o teto.
Senti um arrepio na nuca e meus pelos se arrepiaram. A própria poeira e o silêncio ali pareciam emanar poder. Algo muito maior e mais antigo do que eu poderia compreender com meia dúzia de perguntas.
— Boa tarde — uma voz suave disse.
Confesso que me assustei, porém mantive uma expressão neutra ao me virar para o vendedor, tentando ocultar a minha ansiedade. Ele tinha olhos grandes e muito claros, que brilhavam contra a penumbra da loja, os cabelos mal cuidados eram aloirados, com algumas mechas brancas. O rosto rosado possuía um sorriso bondoso estampado.
— Uma ótima tarde, senhor.
O homem riu com delicadeza antes de dizer: — Não há necessidade para tanta formalidade, criança.
Forcei uma risadinha, levemente constrangida. Ele me encarou por longos segundos, em completo silêncio, com suas orbes prateadas e curiosas, excessivamente brilhantes. Piscou uma vez, por um tempo anormalmente longo, como se tentasse se lembrar de algo.
— Qual é o seu nome, minha criança?
— Mary — respondi, rouca, em seguida limpei a garganta ruidosamente para responder de forma mais apropriada: — Mary Ann Smith, senhor.
— Sou Olivaras, o dono dessa loja, é claro. De onde veio, Mary Ann Smith? — ele questionou enquanto tirava uma longa fita métrica com números prateados do bolso.
— De Tuam, senhor, ao norte de Galway.
— Tuam, hã? Um belo lugar. Mil cento e catorze habitantes… O braço da varinha, por favor.
— Desculpe?
— O braço que usa para escrever é o mesmo que segurará a varinha.
— Ah — estendi meu braço esquerdo.
Olivaras me mediu do ombro ao dedo, depois do pulso ao cotovelo, do ombro ao chão, do joelho à axila e ao redor da cabeça, o que me fez precisar conter um espasmo causado por lembranças ruins dos psiquiatras.
— Desculpe, senhor, mas quando escolherei minha varinha? — questionei, escondendo minha impaciência o melhor que pude.
Com uma outra risadinha suave, Olivaras respondeu, descendo os olhos até o meu rosto novamente: — É a varinha que deve escolhê-la, Srta. Smith.
— Do que está falando? — deixei escapar em um tom de voz que faria a mão de Fennessy estalar contra minha bochecha. Olivaras, porém, não pareceu se incomodar com minha rispidez.
— Não se sabe ao certo o porquê. Toda varinha Olivaras tem o miolo feito de uma poderosa substância mágica. Usamos pelos de unicórnio, penas de cauda de fênix e cordas de coração de dragão. Não há duas varinhas Olivaras iguais, como não há unicórnios, dragões nem fênix iguais. E é claro, a senhorita jamais conseguirá resultados tão bons com a varinha de outro bruxo.
O Sr. Olivaras então se afastou, deixando a fita métrica medir o espaço entre minhas pupilas. Ele ainda discursava sobre varinhas enquanto procurava uma em específico entre as várias empilhadas nas estantes.
— Cada varinha é feita com uma madeira diferente e com um tratamento diferente, o que lhe garante flexibilidade e beleza únicas...
— Flexibilidade? — perguntei, já muito incomodada, enquanto tentava afastar a fita, que lutava para medir a largura da minha língua.
— Sim, sim — falou, pegando duas caixas compridas e ornamentadas —, geralmente isso se relaciona à adaptabilidade do bruxo, mas existem excessões, é claro, e, se me permite dizer, essas são as mais curiosas. Tente essa, cedro, vinte e um centímetros, rígida.
Peguei o graveto, levemente insegura, porém assim que rocei meus dedos na madeira, a ponta farfalhou com faíscas pálidas e perigosas. Olivaras rapidamente puxou a varinha de volta para si, havia uma expressão estranha em seu rosto.
— Não foi muito com a cara dela, uh? — sussurrou para a varinha, devolvendo-a à sua caixa e pegando uma outra — Álamo-branco, dezesseis centímetros, pelo de unicórnio… Varinhas de álamo-branco se adaptam mais rapidamente ao estilo de magia de seu dono e se tornam personalizadas tão logo que outras pessoas acharão extremamente difícil conjurar até mesmo os mais simples feitiços com ela… Mas vejo que é melhor não — comentou, arregalando levemente os olhos, ao observar a madeira escurecendo a partir do ponto em que meus dedos tocaram.
Olivaras puxou um pano púrpura do bolso e esfregou delicadamente na parte escurecida da varinha, que logo retomou a cor original. Colocou-a com cuidado excessivo de volta na caixa e hesitou por alguns instantes antes de pegar uma nova varinha.
— Essa. Azevinho, vinte e oito centímetros, pena de fênix, maleável.
Pegar aquela varinha foi o mesmo que tocar em um cubo de gelo, o que me fez soltar um suspiro alto de frustração. Olivaras deu uma risadinha, muito calmo.
— Quem sabe em uma próxima oportunidade — ele falou baixinho, como se consolasse a varinha —, tente essa, tília, fibra de coração de dragão, trinta e… Não, essa também não. Essa, talvez…
Ao todo, foram vinte e nove varinhas. O Sr. Olivaras parecia cada vez mais empolgado, enquanto eu sentia um bolo subir pela garganta. Nenhuma varinha me escolheria, eu tinha certeza.
Cerca de quarenta minutos depois, a professora McGonagall voltou, arregalou os olhos levemente para a pilha de quase dois metros que se formava sobre o balcão, mas nada disse. Contentou-se em sentar no banquinho alto e estreito que ficava próximo à porta.
— Ah, professora McGonagall… Abeto, fibra de coração de dragão, não?
— Isso mesmo, Sr. Olivaras — a professora respondeu com um sorriso genuíno.
— Você me trouxe uma cliente difícil, hã — ele comentou, com uma risadinha, enquanto pegava uma outra varinha — Amieiro, vinte e dois centímetros, dobrável...
Toquei a varinha e, como se debochasse de mim, o graveto se curvou em noventas graus, até ficar com a ponta voltada para o chão. Olivaras deu mais uma risadinha, tirou a varinha de minha mão e logo colocou outra entre meus dedos.
— Sicômoro, pelo de uni… Oh, não, não, não. Esta, quem sabe, está aqui há tantos anos… Salgueiro, razoavelmente flexível, fibra de coração de dragão, trinta e seis centímetros e meio.
Apanhei a varinha, completamente desesperançosa, mas o calor que senti nos dedos me disse que era aquela. Ergui a varinha acima de minha cabeça e a abaixei com velocidade, cortando o ar empoeirado com um zunido. Uma torrente de faíscas brilhantes saiu da ponta, como pequenos fogos de artifício. McGonagall soltou um suspiro satisfeito e discreto, enquanto o Sr. Olivaras, muito animado, batia palmas.
— Bravo! Muito bom, muito bom mesmo! Ora, ora, ora… Eu devia ter pensado nisso antes… Uma varinha muito espalhafatosa, arrisco dizer… Possui uma certa facilidade com feitiços de cura, mas também às artes das trevas, claro que jamais se curvará para esse caminho sozinha. A madeira de salgueiro é muito exigente, sempre busca por donos com grandes ambições, existe um ditado na família Olivaras há alguns séculos… Aquele que tem grandes ambições, poderá alcançá-las mais rapidamente se tiver em mãos uma varinha de salgueiro. Tem uma grande facilidade para feitiços não-verbais também… É um tanto temperamental e dramática... Sobre a fibra do coração de dragão, um belíssimo Verde Galês, se não me falha a memória e, cá entre nós, raramente falha — completou com uma risadinha —, é propensa a aprender com maior rapidez, não são muito leais, devo lhe alertar, então deve mantê-la sempre bem presa ao coldre. É longa… Quase excessivamente longa...
— Ela é bonita — comentei, girando a varinha entre os dedos, observando a madeira muito escura com discretos detalhes ao longo de toda a peça, que se pareciam com finos ramos espinhosos, com uma leve coloração prateada.
— Claro que é — comentou o vendedor com um certo orgulho na voz —, os salgueiros sempre exigem esse tipo de tratamento, devem ser varinhas belas para que os feitiços funcionem corretamente. Recomendo polir a varinha com certa frequência, pelo menos a cada mês, assim conservará feitiços mais brilhantes. Foi produzida logo quando o sol entrou em escorpião, se não me engano, devo-lhe avisar de que possui uma varinha bastante temperamental… Mas se escolheu a senhorita, tenho certeza de que terá força suficiente para lidar com suas peculiaridades.
Sorri por um breve momento, mas não sabia se devia me sentir feliz pelo elogio ou preocupada com as particularidades da varinha.
— Precisamos ir agora, já estamos atrasadas — McGonagall disse, enfiando sete moedas de ouro na mão do Sr. Olivaras.
— É claro. Me envie uma carta se tiver qualquer dúvida, Mary Ann Smith.
Agitei a cabeça enquanto acenava, permitindo que Minerva me puxasse para fora da loja. Tudo o que se sucedeu depois foi muito rápido, estávamos de volta ao Caldeirão Furado e então estávamos na casa da Sra. Ruoy, que enfiou vários bombons e pirulitos em meus bolsos. Logo estávamos no ônibus que seguia para Tuam e então, estávamos novamente no sanatório.
Soltei um suspiro longo e cansado ao olhar a construção.
— Logo passará um ano inteiro longe — McGonagall disse, puxando a mochila e apertando tudo dentro dela —, eu recomendaria aproveitar os dias que lhe restam aqui, vai sentir falta.
— Com certeza não — resmunguei de volta, recebendo um olhar cheio de censura da professora — Por que não enfeitiça a mochila como fez com suas mangas?
— Não é assim tão simples — a bruxa falou —, manter feitiços tão complexos perto de trouxas é arriscado, além disso, você é muito nova para lidar com feitiços de extensão indetectável.
Assenti com desgosto, mordendo a língua para não discordar da professora. Lancei a mochila sobre meus ombros e me despedi, com a promessa de que nos veríamos novamente no dia primeiro de setembro.
Quando cheguei em meu quarto, logo coloquei a cadeira contra a porta sem tranca, para dificultar a entrada das enfermeiras, e espalhei com cuidado os materiais sobre a cama, disposta a engolir o máximo de informação que pudesse tirar dali. Me mantive sempre atenta aos ruídos no corredor, com medo de que alguém entrasse de supetão.
Meus materiais se resumiam em oito livros usados, mas em bom estado, com alguns rabiscos e anotações aqui e ali, um caldeirão com restinhos de uma coisa gordurosa no fundo, um conjunto de frascos novos e alguns ingredientes básicos para as poções, um telescópio definitivamente quebrado, uma balança de latão, vestes usadas e um par de luvas intacto, de couro marrom, muito resistentes e com minhas iniciais bordadas cuidadosamente na parte interna.
Havia ainda uma pena elegante, mas com um rachado na ponta, um grande tinteiro redondo, nove cadernos de capa amarronzada e alguns rolos grandes de pergaminho. Ao enfiar tudo de volta na mochila, não consegui evitar um sorriso ao perceber que o interior era levemente maior do que o exterior.
— Obrigada, professora — falei baixinho.
Passei o resto do dia escondida em meu quarto, para o desespero de Connor e Becky, que não conseguiram descobrir com as enfermeiras que eu já havia voltado. No dia seguinte, levei uma grande bronca de meu amigo, que havia passado a noite em claro de tanta preocupação. Depois que lhes contei sobre minha aventura e mostrei meus livros novos, fiquei satisfeita com a expressão de Connor: não havia mais como negar que tudo era real.
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