Lúcifer

2 Inocência


Em uma sexta meio inútil:

— dormir

— dormir

— DORMIR!

Fui obrigada por minha mãe a levantar as nove horas da matina e pagar uma conta na lotérica. Eu estava com tanto sono que quase fui atropelada por andar com os olhos entreabertos, quase me arrastando pelas ruas. Então comecei a me distrair com o xadrez da calçada, pisava em um quadrado preto, outro branco, preto, branco, preto, branco... E quase atolei meu rosto em um poste, "mas que merda Alice, acorde!" pensava comigo mesma.

A lotérica estava sem filas, então o processo foi rápido e logo eu estava voltando para casa. Um piso preto, outro branco e, preto, depois branco, preto, branco, preto, branco, branco... "Ops, errei".

A vizinhança era muito silenciosa, nada de som alto, vozes de pessoas discutindo ou cachorros latindo, no bairro só havia calmaria. O importante é que amanhã é aniversário de uma amiga, a Carol, que fará 18 anos. Eu veria os colegas da escola de novo, e não os via desde que entramos de ferias há duas semanas.

Passando pela avenida para o caminho de casa, avistei a unica estrada de chão cercada por arvores, do outro lado da rua. Era uma paisagem bonita — de um lado tinha o bairro onde eu morava e, do outro lado da pista de carros, só se via pinheiros enormes, todos juntos, impossibilitando a visão de até onde iria aquilo.

E só havia uma estrada entre as arvores, a qual parecia ser infinita, pois eu não via o fim. Não era fechado, qualquer um poderia ir até lá, mas nunca vi ninguém entrando ou saindo dali. Minha mãe disse que era um lugar onde se alugava chácaras. Meu irmão achava que era só uma propriedade do governo. E os dois pareciam na verdade não saber de nada.

Chegando em casa, vi que o portão estava trancado, e me lembro de ter deixado minha chave dentro de casa. Droga. Liguei para minha mãe e ela disse que fora para casa de uma amiga, que morava longe, mas ia tentar voltar logo. E como conheço muito bem o "logo" dela, sabia que seria melhor ir para outro lugar, mas onde?

Sentei encostada no portão e fiquei tentando pensar em qualquer coisa que me mantivesse acordada, pois ainda estava muito sonolenta.

Pelo menos alguém apareceu para me fazer companhia: o gato da vizinha. Ele era grande, tinha pelagem cor laranja, gostava de rasgar o jornal de casa e as vezes pulava na janela do meu quarto. Aliás, o gato passava mais tempo em minha residência do que na casa de sua dona. Nunca soube o nome dele, as vezes até o chamava de "coisinha" e, o mesmo agora estava do meu lado lambendo a própria pata.

Observando o gato, vi um par de pés surgirem ao seu lado, a pessoa usava um All Star de couro, calça preta, e quando ergui a cabeça vi que era... Lúcifer? Não, não podia ser! Como tinha me encontrado? E era ele mesmo, estava com as mãos dentro dos bolsos de um moletom cinza que usava e mantinha um leve sorriso no rosto.

Acho que esperava que eu dissesse "oi", mas fiquei lhe observando com minha expressão de surpresa ou sei lá o que.

— Olá — sua voz era tão calma quanto na primeira vez que eu o vira.

— Tá fazendo o que aqui? — foi automático, soltei a pergunta parecendo grosseira sem querer.

— Tô incomodando?

— Não — forcei um pequeno sorriso —, só quero saber... Como me achou?

— Eu procurei.

— Como assim procurou? Pesquisou no Google e simplesmente achou? — já estava ficando irritada com meu próprio tom de voz.

— Quer que eu vá embora?

— Não. Senta aí... — finalmente consegui falar normal. Indiquei para que ele se sentasse ao meu lado e peguei o gato alaranjado no colo.

— Vai me contar como me encontrou?

— Vai me contar porque ficou para o lado de fora? — disse me observando com a mesma expressão que eu fazia.

— Você é estranho — afirmei soltando alguns risos.

— E você é inocente — ele riu também.

— Inocente? Por que inocente? — indaguei confusa.

— Por que estranho? — parecia estar me imitando.

— Desisto.

Ficamos ali rindo e conversando sobre tudo e ao mesmo tempo nada, pois nunca se aprofundava nos assuntos sobre ele. Falamos sobre musica e descobrimos que gostávamos dos mesmos gêneros. Ele me indicou algumas séries e eu alguns filmes. E conversando sobre diversos assuntos, ele confessou algo a respeito dele, depois que eu me perguntei:

— Por que minha mãe não consegue simplesmente dizer "tchau" e ir embora pra me dar as chaves de casa? — olhei no relógio e já tinham se passado trinta minutos.

— Minha mãe também era enrolada — comentou Lucifer rindo.

— Era?

— Sim.

— Ela não é mais? — As vezes eu precisava fazer mais perguntas para as repostas curtas dele.

— Ela morreu.

* * *

A noite, tio Frank estava em casa. Ele era baixo, careca e usava óculos. Em meados de Janeiro do ano retrasado, havia se candidatado a vereador, mas não ganhou a eleição. Desde então, quando ele aparece em casa para jantar com a família, passa a noite toda falando sobre politica e só meu pai dá atenção ao que ele diz. Enquanto isso, Sara — minha mãe — e eu assistíamos a um programa que passava na televisão. Na verdade, só ela assistiu, porque eu não conseguia parar de pensar em Lúcifer.

Quando me contou sobre o falecimento da sua mãe, fiquei sem palavras, não sabia o que dizer. Mas não foi preciso falar mais que um "sinto muito", porque uma de suas habilidades era mudar de assunto rapidamente, e foi o que fez.

Logo minha mãe chegou e eu o chamei para entrar, mas ele preferiu ir embora. O mais curioso foi que eu o vi atravessando a pista e entrando no tal caminho que ficava rodeado por arvores, e me perguntei, o que ele fora fazer lá?

— Quem era o garoto que estava com você na frente do portão quando cheguei? — perguntou Sara.

— Também não sei — respondi distraída.

— Não sabe? Como assim Alice? — ela alterou a voz e eu a olhei.

— Não mãe... Quero dizer, conheço. Conheço sim, é um colega meu — respondi.

— Hum... — ela ainda me fitava com aquela expressão de desconfiança — Cuidado Alice, não seja inocente.

"Você é estranho", "E você é inocente". Por que inocente, o que quis dizer com isso?

— Não sou inocente!

— Calma Alice, só estou pedindo para que se cuide, porque parecia que você não o conhecia. Não precisa se estressar.

— Desculpa. Vou dormir — me levantei, fui até as escadas para o primeiro andar, e me virei para dizer —, boa noite gente.

E antes de dormir, refiz a pergunta de Sara a mim mesma: quem era Lúcifer?

Notas finais
O que estão achando? Não se esqueçam de comentar ♥