Lúcifer
1 Eu me chamo Lúcifer
Em uma quinta-feira qualquer:
— Chuva
— Chocolate
— Livros
Tenho costume de escrever três coisas que quero, todos os dias de manhã, em uma pequena lousa pregada na parede de meu quarto. Quando não escrevo, as coisas parecem não ter muito sentido. Não sei, na minha cabeça pelo menos, isso não parece confuso.
Levantei cedo para ir ao cemitério onde meus avós paternos estão enterrados. Tomei um café, comprei flores e segui rumo ao túmulo para rezar ou conversar com o nada.
Quando cheguei ao local, sentei e fiquei ouvindo o som das arvores mexendo suas folhagens, acho os cemitério calmos e tranquilos. Mas não fiquei mais que quatro minutos ali, não tinha muito o que fazer, depois de um tempo tudo parece meio "nada". E quando estava voltando, vi um garoto deitado na grama entre as plaquinhas de nomes de diversas pessoas já mortas. Não sabia se estava dormindo ou desmaiado, na duvida, fui tentar acordar o menino.
— Oi — falei num tom de voz alto ao chegar perto, antes de tocar o garoto para ver se ele reagia.
— Oi — respondeu sem nem abrir os olhos ou se mover.
Sua voz era rouca. Tinha o cabelo loiro escuro, sardas claras na maçã do rosto e pele branca. Parecia ter uns 18 ou 19 anos, vestia roupas escuras.
— tudo bem? — perguntei.
Vi também que tinha olhos cor caramelo, quando os abriu e me viu ao seu lado. Não respondeu minha pergunta, se sentou e colocou as mãos no rosto abaixado, parecia estar passando mal. Silêncio por mais de um minuto. Até que levantou sua cabeça e finalmente disse:
— Que horas são?
— Dez horas.
— Quem é você? — questionou enquanto ficava de pé.
— Eu me chamo Alice. E você?
— Eu não me chamo Alice.
— Ah.
Não consegui dizer outra coisa. Ele parecia bem e eu já podia ir, mas não queria. Fiquei com vontade de conversar com ele, mas não tinha ideia do que dizer e o mesmo aparentava estar exausto. Seus olhos eram rodeados por um tom avermelhado, como se não dormisse há um tempo. Ficamos nos encarando. Mais silêncio.
— Então... Tchau — Sorri envergonhada e virei de costas para ir embora. Dei alguns passos, logo ouvi:
— Alice.
Olhei para ele.
— Eu me chamo Lúcifer.
* * *
O céu estava nublado e o vento era fraco, porém frio. Eu e lúcifer estávamos andando por uma praça um pouco grande, mas com pouca gente. Ele fumava seu cigarro, eu deixava meu cigarro queimar sozinho, ambos observavam o chão sem motivo algum.
Quando me contou qual era seu nome, eu não acreditei. Afinal, não é todo dia que se conhece alguém cujo o nome tem o significado de "anjo da luz", mais conhecido como o nome do Diabo. Lúcifer precisou me mostrar seu RG para que eu acreditasse.
— Não é a primeira a duvidar disso — contava com ânimo —, as pessoas sempre querem que eu prove. Meus pais eram ateus, não acreditavam em nada disso, gostavam do nome e exigiram que registrassem assim. Algumas pessoas chegam a ter medo de mim. Quando era menor, isso me incomodava, mas hoje não me importo mais. Até acho divertido as reações das pessoas.
Nós ficamos conversando por um tempo sobre o assunto. Ele me contava as coisas que já teve que passar por causa de seu nome, situações engraçadas e constrangedoras. Como por exemplo, quando um pastor surtou dizendo que ele era fruto do mal, sinal do apocalipse, um demônio e coisas do tipo. Depois de algum tempo, eu mudei o assunto:
— Onde você estuda? — se é que ainda estudava.
— Em casa.
— Legal — dei mais uma tragada no cigarro que ele havia me dado e soltei o que sobrou no chão.
— Na verdade não. É chato e cansativo. Você olha para a casa e pensa que poderia estar fazendo coisa melhor, algo legal de verdade, então começa a ficar com sono. É muito chato mesmo.
— Então por que não estuda em uma escola?
Lúcifer ficou em silêncio, chutou algumas pedras enquanto caminhávamos entre as arvores e acendeu outro cigarro. Ele era calmo, falava devagar e parecia pensar bastante. Eu queria enchê-lo de perguntas, mas não fiz isso por medo de parecer intrometida e curiosa, talvez eu realmente fosse. Mas tinha algo nele que me despertava um grande interesse de conhece-lo mais. Não aguentei, ele demorou muito para responder, insisti:
— Lúcifer?
— O que? — ele me olhou confuso, como se não tivesse escutado o que eu dissera antes.
— Perguntei porquê não vai à uma escola.
— Não posso ir.
— Por que?
— Podemos mudar de assunto, Alice? — disse soltando alguns risos.
— Ok. Por que estava no cemitério?
Lúcifer olhou para o celular que tirou do bolso e depois disso, diminuiu a velocidade de seus passos. Olhou para trás como se procurasse algo e após isso, entrou na minha frente e se virou para olhar em meus olhos.
— Preciso ir embora.
— Ah, ok — é, fiz perguntas demais.
Ele me encarou por um tempo e eu já estava quase indo embora, quando ele disse:
— A gente pode se ver outro dia. Não pode?
— Claro.
— Então até outro dia — sorriu e começou a se afastar — tchau — virou de costas e começou a ir embora.
— Mas como vamos nos ver? — questionei. Ele continuou andando, depois disse sem olhar para mim:
— Eu encontro você.
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