Lúcifer
11 Coroa de flores
Notas iniciais
Em uma quinta-feira:
— Lúcifer
— Lúcifer
— Lúcifer
Observei o nome repetido no quadro depois de escrever, parecia um tipo de invocação satânica. Achei tristemente engraçado, então preferi deixar assim mesmo.
Andei evitando as televisões, internet, jornais e qualquer coisa que também fosse usada para dar notícias. Eram horríveis as coisas que diziam, a policia descobriu que Bryan estava envolvido em mais assassinatos.
Meus pais estão muito deprimidos. Principalmente Daniel, nunca tinha visto ele chorar antes, e no velório de Bryan, chorou até passar mal. Sara está tentando estabilizar ele, mas sei que ela também ficou sem chão. Estamos mais próximos do que nunca desde o enterro, que foi no sábado. Precisávamos um do outro pra superar isso.
Naquele dia que Bryan morreu, depois de Lúcifer atirar contra a própria cabeça, eu não aguentei mais. Caí no chão e fiquei um bom tempo lá sem forças, chorando e gritando. Confesso que tive vontade de pegar a arma e fazer o mesmo, mas não podia, pelos meus pais. Não iriam aguentar perder os dois filhos. Quando consegui ficar de pé outra vez, fui até a pequena casa de madeira e entrei. Tirei a fotografia dos pais de Lúcifer do pequeno quadro e guardei no bolso do moletom, junto com uma caixinha de cigarros que achei em cima da escrivaninha. Depois liguei para a policia e esperei eles chegarem ali, deixei as autoridades avisarem meus pais, eu não queria dar a noticia.
Eu odeio mudanças, sempre odiei. Agora sou filha única, meus pais estão tristes e se sentem culpados pela morte do meu irmão. Daniel dizia chorando que era um péssimo pai, por nunca ter conversado de verdade com ele, perguntando o que ele fazia e tudo mais. Sei que meus pais não tem culpa, Bryan era maior de idade e parecia ser tão bom, porque acharíamos que ele era um assassino? Não sei o que o fez tomar esse rumo, mas ainda amo ele. E se estivesse vivo e eu soubesse dos crimes, amaria ainda mais e tentaria muda-lo com meus pais.
É sempre assim, depois que algo ruim acontece ficamos pensando no que poderíamos ter mudado pra que o destino fosse outro. Essa é a realidade, não dá pra mudar. Eu era muito inocente, se voltasse no passado, faria tudo de novo da mesma forma.
Não foi justo o que Lúcifer fez. Eu queria odiar ele, queria colocar toda a culpa nele, queria atirar também e causar a mesma dor que deve ter causado no meu irmão. Mas ele se matou e não sobrou nada. Não consigo sentir nada.
Ontem a noite, depois que meus pais dormiram, fui ao cemitério e fiquei observando a lápide de Lúcifer. Me sentei ao lado dela e comecei a chorar, não por saudade ou por raiva. Chorei por ele, talvez fosse louco, disseram que ele ainda tomava remédios. Chorei pelo seu nome, pela morte de seus pais, pelo que ele deve ter sentido e pelo seu fim. Chorei por tudo que podia ter acontecido mas não aconteceu.
Talvez se nada disso tivesse acontecido poderíamos ter uma amizade verdadeira, talvez algo a mais. Talvez eu não me culparia tanto e não me sentiria tão sozinha como agora.
Eu estava usando uma cora de flores na cabeça, então resolvi tirar e colocar em cima de sua lápide. Depois dormi ali mesmo. Porque sentiria medo do cemitério se o meu amigo tinha o nome do Diabo?
Quem me acordou de manhã foi o coveiro, e meu nome era muito comum, então não fomos parar em uma praça fumando e conversando.
Lúcifer: significa "estrela da manhã", "filho da alva" ou "o que brilha", "o que traz luz".
"Como caíste do céu, ó Lúcifer, tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante?" (Isaías 14:12)
Ele morreu. Podíamos estar nos encontrando agora, então ele me magoaria e depois faria com que eu me sentisse bem. Me deixando irritada e ao mesmo tempo calma, me fazendo mal e ao mesmo tempo bem. Mas ele morreu. E eu não queria me sentir triste com isso, eu devia odiá-lo eternamente. Mas realmente não consigo.
"Eu sinto muito muito, Lúcifer. Sinto muito..."
Então mesmo que talvez não seja verdade, mesmo que eu me arrependa de dizer isso apesar dele estar morto, eu agora respondo:
— Eu também te amo, Lúcifer...
Fale com o autor