Lótus Negra

32 Capítulo XXXI – Lótus


— Não ouse encostar nele! –avisou Serenhiel, vindo em sua direção.

O samurai estacou, soltando o cabo de sua Mugen e fulminando o golem com os olhos.

— Tsk, você que sabe. Não reclame se for atacada novamente – falou Kanda com a voz neutra, seguindo-a com os olhos. Ela voltava para o próprio quarto.

— Argh, esqueci que você tinha destruído a porta – reclamou ela olhando para os últimos vestígios de madeira, enquanto abria uma gaveta.

Ele encostou no batente, com cara de paisagem.

— Quer se trocar no meu quarto? – sugeriu, vendo-a com o uniforme e as botas nas mãos, olhando pensativa para os lados.

— E tenho outra opção? – resmungou a morena, andando até ele. – Não sou maluca de andar assim pelos corredores até o banheiro, capaz de ser atacada novamente – reclamou, enquanto acenava para o próprio corpo, que ele não consegui evitar de olhar.

Serenhiel estava com os cabelos soltos, corselet e calças pretas coladas que eram parte de baixo do uniforme feminino, e com os pés descalços.

— Anda logo, antes que eu mude de ideia – apressou ele, abrindo a porta de seu quarto para ela entrar, entrou também observando à procura de algo suspeito espreitando pelos cantos, e ia sair quando ela disse.

— Espera! – pediu, com a voz agoniada. Kanda estacou, olhando-a de canto. Ela pigarreou, e tentou se explicar. – Como você vai conseguir me proteger de um outro ataque se estiver lá fora?

— Quer que eu fique? – perguntou Yuu fechando a porta, e levantando uma sobrancelha.

— Sim, mas... fecha os olhos, e vira de costas – mandou Seren, lançando um olhar de Se espiar eu te mato.

— Tsk, avisa quando terminar – resmungou, de braços cruzados virado para a porta, os olhos cerrados.

— Pronto – disse Serenhiel, depois de uma pequena eternidade. – Ei, Kanda.

— Hum? – perguntou, virando–se para ela.

Já estava vestida com o uniforme, e esmagava o corselet com uma mão. Estava impregnado com o cheiro de álcool daquele cara.

— O que é aquela ampulheta? – perguntou ela finalmente, apontando com a mão esquerda para o objeto em uma mesa no canto.

— Faz parte do meu passado – disse o samurai, sombrio. Mesmo com o olhar gélido que emanava, ela chegou perto da ampulheta, a tocando.

— Tem uma coisa estranha aqui dentro – falou Serenhiel, olhando para a substância preta no fundo do objeto. Que a fez sentir-se mal. – Isso se parece muito com aquilo nos meus sonhos...– sussurrou enquanto lembrava de seus sonhos. Mas ao ver a expressão neutra de Kanda, balançou a cabeça indo para a porta. – Esquece, você nem está ouvindo mesmo.

— Sonho? – repetiu, sombrio, segurava o pulso esquerdo dela com força, agira por impulso quando ela passara ventando.

— Me solta – rosnou a elfa. – Por que está interessado? Você nem se importa comigo– e ia abrir a boca para xingá–lo, mas percebeu a mágoa naqueles profundos olhos azuis, geralmente tão frios. – Você é muito estranho, mesmo – resmungou, e lançou um olhar para a ampulheta.

— É lama – respondeu Kanda, sério. – Antigamente tinha uma flor de lótus ali, mas ela deve ter apodrecido depois que eu...

— Entendo – disse, pegando o sentido da frase que ele deixara no ar. Kanda ainda segurava seu pulso, parecia que ia desabar se não o fizesse. Serenhiel deixou o corselet cair no chão, e estendeu a mão para o rosto dele, quase o tocando. E pediu, em um tom sereno. – Me fale sobre a sua morte.

— Eu não...! – começou o samurai. Mas suspirou, fechando os olhos e sentindo o quase toque das mãos geladas dela. Que sempre lhe irritara, com quem sempre tinha brigas idiotas por motivos infantis. De que adiantava brigar por isso? No fundo, sua mente lhe dizia que ele precisava contar sobre aquilo para ela. – Foi em uma cidade no deserto... – falou, finalmente. Procurava as palavras, enquanto relembrava memórias tão angustiantes. – ... eu estava lutando com um conhecido da minha infância, era para ele estar morto, eu havia o matado, mas estavam mantendo ele em estado vegetativo para fazer experiências, criando meio-akumas para o exército da Igreja – rosnou, trincando os dentes. – eu estava em uma missão, um noah me nocauteou e levou para o centro aonde ele estava, usou seus poderes para entrar na minha mente e acordar o Alma – continuou, colocando uma mão na testa.

Aquele nome fez ela estremecer.

— Nós ficamos insanos, ele estava se transformando em Akuma, forcei meu corpo no limite das ilusões da Mugen. Mas então o Allen apareceu, separou o Akuma do Alma, e eu pedi para ele nos enviar para a cidade final, Martel. Estávamos nos desintegrando, nossos selos de cura não funcionavam mais. Eu cumpri minha promessa, assisti ele morrendo, até o final. E então as flores apareceram, junto com a lama, e eu percebi que era minha hora – terminou ele, com um sorriso amargo.

Ela não conseguiu continuar o olhando, estava de cabeça baixa fitando o chão.

— Você sabe... – sussurrou Seren, a voz agoniada. – A culpa não é sua – e pressionou as mãos nas têmporas, sua cabeça estava a matando desde que acordara. Piorara depois de ouvir aquilo.

— Está tudo bem? – perguntou Kanda, preocupado, saindo de seus conflitos internos.

— Eu só preciso comer – respondeu ela, dando-lhe as costas e indo até a porta, se segurou na parede quando suas pernas falharam. – Não é nada! – fez um sinal de pare para ele, que já estava a seu lado.

— Tsk, isso não é hora para ser orgulhosa – avisou o samurai, os braços cruzados.

— Olha quem fala – Serenhiel esboçou um pequeno sorriso de deboche, e fulminou as próprias pernas com raiva, enquanto estava apoiada de costas na parede, com uma mão na cabeça. – Minha cabeça está explodindo.

— Talvez seja fome, mesmo. O pirralho sempre fica fraco quando não come por muito tempo – comentou ele, tentando animá-la. Quem diria que ele era capaz disso?

— Só pode, doente eu não fico mesmo – afirmou ela o olhando.

— Vamos lá, antes que o refeitório fique lotado.