Lápide [Poemas]

16 Ninguém entende o Coveiro


O coveiro enterrou um corpo em seu quintal hoje de manhã.
Suspirou, lamentou e foi trabalhar.

Homem estranho: ninguém o entrevistou, não vestiu nenhum terno, simplesmente foi trabalhar.

Cidadãos comuns da cidade o viam como parte dela, não deles. Era tão cidadão quanto as árvores, tão esquisito quanto os insetos delas.

Caminhava pesado pelos grãos macios. Aproveitou as terras remexidas e jogou algumas sementes de flores. Ninguém sabia, mas ele gostava de colorir o chão cor-de-cemitério. Lugar onde repousam os restos.

Debaixo de uma semente alguém levantou, decidiu por conta própria seguir o homem pesado. Tudo bem pra ele, ninguém sabia, mas ele gostava desse tipo de companhia.

O sol cansou, o sino tocou, a hora de ir chegou. Alguém pulou em suas costas, teve de levá-la junto.

O homem que andava torto carregava, também, sua pá pesada, mas ousasse tirar o peso em suas costas, que este grunhia e pulava de volta, cravando-lhe as garras.

Cansado, chegou em casa, queria descansar. Descansaria mal, dormiria tão pouco, se não arrancasse o corpo dependente. Teve que erguer a pá que fedia a ferro, teve que descê-la logo em seguida.

...

O coveiro enterrou um corpo em seu quintal hoje de manhã. Suspirou, lamentou e foi trabalhar.