Lágrimas de verão
6 Capítulo 6
Notas iniciais
“Não acredite em algo simplesmente porque ouviu. Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito. Não acredite em algo simplesmente porque está escrito em seus livros religiosos. Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade. Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração. Mas depois de muita análise e observação, se você vê que algo concorda com a razão, e que conduz ao bem e beneficio de todos, aceite-o e viva-o.”
Buda
...
O paraíso estava do lado de fora, ao lado de Emma, e o inferno estava dentro da minha própria casa. E ele começou a partir do momento que retornei a minha casa, no começo da noite.
– Você sabe o quão irresponsável foi Regina? Sair sem nos telefonar. Sem ao menos nos telefonar! – esbravejou Cora pela milésima vez.
– Está bem, já entendi.
– Não você nunca entende. Você não sabe o quanto é difícil ter que suportar suas crises, suas saídas. Nem minha filha você é!
Ela me atingiu em cheio desta vez. Meu pai antes de se casar com Cora era casado e minha mãe biológica morreu em meu próprio parto, logo depois eles se conheceram e se casaram. Não demorou para que Cora engravidasse de Henry. Por todos estes anos, ela suportou o fato de que eu existia, um dos motivos de ser o que era, era pelo que ela fazia a mim todos os dias.
Meu pai era um homem extremamente bom, o que era uma incógnita para mim, porque ele se casara com alguém como ela?
– Henry, devíamos arrumar outro lugar para está garota morar – berrou Cora — Não aguento mais está menina!
Definitivamente, eu sabia que era um tremendo estorvo para a família Mills. Nunca me encaixei em nada, sempre fui fora dos “padrões”.
Ainda me lembro de minha primeira desilusão amorosa, que desencadeou os problemas psicológicos que tenho hoje. Ele era um rapaz alto e moreno do colégio, um tremendo conquistador. Tentou me seduzir por diversas vezes, no entanto, não cedi. Quando enfim decidi aceitar um de seus convites para sair. Me excedi e me envolvi demais, apostei demais, fui traída demais e literalmente quebrada sem misericórdia.
Posso segurar meu fôlego
Posso morder minha língua
Posso ficar acordada por dias
Se isso é o que você quer
Ser a sua número um
Posso fingir um sorriso
Posso forçar uma risada
Posso dançar e interpretar o papel
Se é isso que você me pede
Te dar tudo que sou
Posso fazer isso
Posso fazer isso
Posso fazer isso
...
Depois de inúmeros insultos de minha mãe e longas broncas me tranquei em meu quarto. Um dia tão bonito havia sido esmagado por lembranças ruins e palavras sangrentas.
Eu sabia, sabia que estava chegando. A dor, ela havia voltado. Os demônios reaparecerão, mais fortes, mais dolorosos. O medo voltou, a indecisão e a certeza de que estava sozinha e de que todos me deixariam. Voltou.
E a minha luta começaria novamente.
Eu sabia que havia alguém que poderia me retirar da escuridão por breves instantes, e este alguém se chamava Emma.
Mas sou apenas humana
E eu sangro quando caio
Sou apenas humana
E eu me arrebento e me desmonto
Suas palavras na minha cabeças, facas em meu coração
Você me bota lá em cima e depois eu caio aos pedaços
Pois sou apenas humana
Posso ligar
Ser uma máquina boa
Posso segurar o peso de mundos
Se é isso que você precisa
Ser seu tudo
Posso fazer isso
Posso fazer isso
Eu superarei
Em meu quarto escuro, chorava em silencio. Doíam as palavras de Cora. Doíam as lembranças de uma infância difícil. Doíam as memórias de pessoas que diziam não ir, e no dia seguinte, elas simplesmente iam.
Batidas frenéticas começaram a soar na porta, mais eu não abriria. Não abriria.
– Regina, anjo. Pelo amor de Deus não faça isso novamente- implorava Henry do outro lado da porta – Por favor minha filha! – implorou.
– Não,não. Vá embora! Todos , vão vão!
As batidas cessaram, para logo em seguida a porta ser aberta por uma Cora furiosa e um Henry atordoado.
– Levante deste chão Regina, limpe estas lágrimas e desça para o jantar- disse Cora.
Mas sou apenas humana
E eu sangro quando caio
Sou apenas humana
E eu me arrebento e me desmonto
Suas palavras na minha cabeça, facas em meu coração
Você me bota lá em cima e depois eu caio aos pedaços
Pois sou apenas humana
Sou apenas humana
Sou apenas humana
Apena uma pequena humana
Eu só posso aguentar um tanto
Até ficar de saco cheio
Os fatos que aconteceram em seguida foram tão rápidas quanto uma bala. Copo, gritos, choro, homens de branco, maca e escuridão.
Pois sou apenas humana
E eu sangro quando caio
Sou apenas humana
E eu me arrebento e me desmonto
Suas palavras na minha cabeça, facas em meu coração
Você me bota lá em cima e depois eu caio aos pedaços
Pois sou apenas humana
Abri os olhos devagar, com pesar. A claridade do quarto completamente branco. Branco, branco, branco. E então as memórias ruins chegarão como um tsunami.
Lembro-me de meus pais adentrando meu quarto, gritos de Cora, meus gritos, choro e um copo atirado por mim no rosto de Cora. Não se passou muito tempo para que homens de branco me levassem ao lugar mais aterrorizante possível, até que ponto eu havia chegado? Aquele fora meu pior surto, o pior. E agora eu estava onde menos gostaria de estar, aonde ninguém jamais gostaria de estar. Em um manicômio.
...
O Caminho da Vida
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos.
A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e morticínios.
Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria.
Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.
Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
Charles Chaplin
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