Lágrimas De Sangue
6 Capítulo 5 (Um novo amigo)
Notas iniciais
Asriel ainda berrava de desespero encolhido em um canto, seu pai ainda tentava inutilmente acalmá-lo, mas ele aparentava estar visivelmente perturbado e alheio a tudo ao seu redor. Àquele ponto eu já havia me acalmado, as lágrimas agora estavam secas em meu rosto, mas meu coração continuava partido, minha alma ainda estava ferida, isso tudo seria as consequências de seus atos genocidas? Algo ou alguém estava me punindo?
Por algum motivo Sans não havia dito uma palavra até exato momento, permanecendo calado como quem estivesse escondendo algo, e eu estava curiosa para saber.
—Sans, por que ele está assim? – Perguntei com a voz fraquejada.
—Tudo no seu devido tempo, Kid – Respondeu simplesmente, estampando um sorriso enigmático em sua face. Odiava quando alguém negava minhas perguntas.
—Posso chegar perto dele? – Interroguei ainda esperançosa, não havíamos tido o trabalho de ir até o castelo sem que eu tenha pelo menos a possibilidade de falar com Asriel.
—A cabrinha tá assustada Kid, melhor irmos embora, Papyrus deve estar nos esperando – Afirmou com o seu melhor tom sarcástico, por um momento senti meu sangue ferver e meus instintos assassinos percorrerem todo o meu corpo.
—O QUE? EU NÃO ESPEREI MILÊNIOS PARA FALAR DE NOVO COM ELE PRA CHEGAR AQUI E NEM PODER CHEGAR PERTO – Eu estava completamente alterada, minha cabeça doía e meus nervos estavam ao ponto de estourar um por um.
Com o meu grito, Asgore decidiu chegar perto de nós para quem sabe resolver aquela situação constrangedora. Mesmo com o distanciamento do pai, Asriel continuou sussurrando palavras de desprezo e ódio, como se eu fosse algum demônio que poderia fazer mal a ele.
—Criança, meu filho não aparenta estar disposto a te ver, por favor, volte outra hora – Asgore pedia com seu melhor tom de mansidão, não queria irritar a fera que estava prestes a explodir.
Dando-me por vencida, aceitei me conformando de que não havia nada a ser feito ali, se eu chegasse perto do príncipe, de certeza ele iria me atacar ou quem sabe fugir para uma caverna escura e se isolar dentro, e não era isso que eu queria.
—Vamos Kid, eu te explico tudo no caminho – Disse enquanto segurava meu pulso e me tirava dali, embora eu estivesse zangada, mais lágrimas escorriam de meus olhos, fazendo com que meu rosto ficasse completamente melado com o líquido.
—Kid... Você já percebeu que suas lágrimas são feitas de sangue? – Interrogou enquanto olhava para o meu rosto levemente fascinado.
—Sério? – Perguntei surpresa. Pus minhas mãos no rosto e pude comprovar quando um liquido vermelho me manchou, confirmando o que Sans havia dito – Você sabe porque isso acontece? – Questionei levemente curiosa.
—Não, mas isso deve ter ajudado para que a cabrinha tivesse medo de você – Brincou. Aquele sorriso sarcástico sempre estampado em seu rosto. Ele não tinha ideia do quanto aquele sorriso me irritava.
—Pode ser – Eu já estava começando a ignorar o apelido de mau gosto que Sans havia dado ao meu Asriel – Hey, não tem um jeito mais rápido para chegar a Snowdin? – Perguntei levemente entediada e sentindo muita dor em meus pés.
—Claro. Quando disse que não precisava daquela árvore idiota eu estava falando sério, mas lá não se chama Snowdin, apesar de ser quase uma cópia idêntica – Riu sem humor — Segura no meu pulso – Pediu. Segurei no braço de Sans e esperei para que ele fizesse alguma coisa surpreendente, fechei meus olhos por instinto e em poucos segundos senti tudo ao meu redor girar – Abra os olhos – Ordenou.
Obedecendo-o abri os olhos e tudo ao meu redor havia mudado, eu sentia uma leve tontura e pelo que parecia havíamos parado perto daquela floresta em que fui seguida por Sans, por um momento me senti apreensiva pensando que ele estava tentando me encurralar novamente, mas me acalmei com o que o saco de ossos havia dito a seguir.
—Tive que nos trazer aqui porque é muito perigoso fazer esses pequenos truques perto dos outros humanos – Justificou.
—Então não quer mais me matar? – Perguntei com um tom sarcástico.
—Por enquanto não, quem sabe amanhã, ou depois... – Dizia enquanto fazia algumas caretas engraçadas, não consegui crer na severidade de suas palavras, seria melhor que ele não me matasse afinal.
—Se aproximar de Asriel vai ser uma tarefa difícil – Disse depois de pouco tempo em que caminhávamos para “Snowdin”. Algo que me impressionou foi que Sans havia dito seu nome ao invés de apenas chamá-lo de cabrinha, menos mal.
—Eu percebi – Desabafei. Depois de anos esperando para encontrá-lo novamente, eu havia falhado, mesmo colocando todas as minhas forças naquilo, talvez minha alma houvesse enlouquecido assim como Asriel, isso justificaria meus feitos genocidas nas outras linhas do tempo.
—Aquilo foi por ele? – Perguntou. Provavelmente estava se referindo aos meus assassinatos.
—Não sei, mesmo que fosse por ele eu acabei matando aquela versão flor dele – Contei. Tentar justificar o passado para ele talvez fizesse com que parasse de tentar me caçar como se eu fosse um pedaço de carne.
—Talvez porque não era ele realmente. Aquela flor era quase como você, resetou milhares de vezes, fez amizade com todos para depois matá-los. Mas apesar de tudo, eu entendo a cabrinha, era apenas uma flor sem alma que carregava apenas alguns sentimentos vagos – Raciocinou. A maturidade de Sans naquele mundo estava me impressionando, talvez ele estivesse deixando a infantilidade de lado visto que deveria ter milhares de anos nas costas.
—Gosto desse seu lado, sem aquelas piadas ridículas – Desabafei.
—Eu ainda sou aquele Sans, não se engane – Piscou com uma feição traiçoeira, pronto para mandar alguma piada sem graça – Já pensou se chovesse relógios? Seria dahora – Soltou enquanto olhava para o céu com uma cara de abobado.
Graças aos cosmos, fomos interrompidos logo na sessão de humor.
—SANS, ONDE ESTAVA? DORMINDO COMO UM PREGUIÇOSO NOVAMENTE? – Era Papyrus, com sua mania de falar praticamente berrando, apesar disso, seu tom era abobalhado e levemente engraçado. Ele estava vindo em nossa direção, sua aparência era quase idêntica a de seu irmão, diferenciando apenas sua altura gigantesca e seus olhos de uma heterocromia diferenciada, com um olho preto e outro castanho claro.
—Ah mano, dormir naquela floresta não dá né? – Confessou. Referindo-se ao local de onde havíamos saído.
—PREGUIÇOSO, DEVERIA ESTAR TREINANDO COMIGO – Gritava com um tom decepcionado. Apenas quando chegou a centímetros do irmão que havia notado minha presença – QUEM É ESSA HUMANA? OLÁ HUMANA!
—Mano, você é humano também – Disse com um tom brincalhão, preferi achar que aquela rima idiota não havia sido uma piada, não podia ser, beirava o ridículo.
Papyrus deu um pequeno risinho, mas logo ignorou o irmão, direcionando-se para mim.
—NÃO IMPORTA, VAMOS HUMANA, JÁ PROVOU DO MEU DELICIOSO ESPAGUETE? – Perguntou para mim com o olhar brilhando. Senti vontade de recusar gentilmente, mas não quis ferir seus sentimentos, já bastava eu tê-lo ignorado quando eu ainda estava viva.
—Eu adoraria provar – Disse a contragosto, mas eu deveria fazer de tudo para que tivessem uma boa impressão de mim.
—FICO FELIZ. O GRANDE PAPYRUS IRÁ FAZER UM DELICIOSO ESPAGUETE PARA A HUMANA – Berrava. Até que senti uma de suas mãos agarrando meu pulso e me puxando para longe. Isso deveria ser mania de família, já estava cansada de ser repuxada para lá e pra cá.
Sans apenas sumiu do local onde estava, provavelmente teletransportou para dentro de casa para evitar a fadiga. Enquanto isso tive que suportar alguns olhares estranhos por estar sendo carregada como um saco de batatas no ombro de Papyrus, que havia cansado de me arrastar por ai.
—QUAL O SEU NOME HUMANA? – Perguntou ainda gritando.
—Clara – Falei com dificuldades, estava sentindo tonturas por ser carregada daquela forma, tonturas piores do que aquelas que senti por teletransporte.
—BELO NOME, MAS NÃO SE COMPARA COM A BELEZA DO GRANDE PAPYRUS – Presunçoso como sempre, mas eu não deixava de achar graça de seu egocentrismo banhado de inocência.
Para meu alívio, havíamos chegado novamente na casa dos irmãos e fomos atendidos por Sans que já havia até trocado de roupa, bem que aquele saco de ossos podia ter me ajudado para que eu não tivesse que ser carregada como saco de batatas.
—Demoraram demais, heim? Até anoiteceu – Percebi assim que já estava escuro, o tempo parecia passar um pouco mais depressa naquele novo mundo.
—AS ESTRELAS SENTIRAM SAUDADE DO GRANDE PAPYRUS, ELAS NÃO PODEM BRILHAR SEM MIM – Gabou-se. Jogou-me no chão novamente como um saco velho inútil, mas eu consideraria aquilo como uma forma diferente de ser delicado.
Entramos ambos tremendo de frio, de dia aquele lugar era suportável, mas a noite era um clima quase idêntico a Snowdin, praticamente caia neve dos céus.
—E ESSA CARA AMASSADA SANS? NÃO ME DIGA QUE ANDOU DORMINDO DE NOVO, PREGUIÇOSO – Indagava com a voz levemente falha por conta do frio.
—Pois é, mas logo a vida passa e ninguém vê – Demorei um pouco para entender a piada, e quando compreendi fiz uma leve careta de desgosto.
Sans estendeu uma jaqueta de frio para seu irmão, esperei para que ele me desse alguma coisa, visto que eu também estava tremendo, mas apenas ficamos olhando um para o outro enquanto ele me dava um leve sorriso sarcástico.
—O que? Já te dei uma cama para dormir e tá esperando roupa quente? – Perguntou com um tom de deboche.
—NÃO SE PREOCUPE HUMANA, O GRANDE PAPYRUS TEM CLASSE E VAI TE DAR ALGO PARA SE AQUECER – Dito isso, o grande rapaz estendeu para mim a jaqueta que antes Sans havia dado a ele, embora o irmão repreendesse, Papyrus tinha um coração muito bom para ver a desgraça alheia e não fazer nada.
—Obrigada – Era a primeira vez que Papyrus havia escutado minha voz, ou pelo menos prestado atenção no que eu disse, e aparentava estar encantado, ou talvez estivesse se lembrando de alguém? Não tinha como saber.
Assim que coloquei a jaqueta, dei um suspiro de alívio visto que estava quentinha e assim meu corpo não se tornaria um cubo de gelo.
Papyrus logo se dirigiu para a cozinha, provavelmente iria provar seus dotes culinários fazendo seu precioso espaguete, que eu teria que comer com muito gosto se não quisesse chateá-lo, embora o próprio irmão dissesse que era algo tóxico e pouco próximo de comestível.
—Hey Kid, meu irmão é o máximo, mas não vá se acostumando e achando que terá gentilezas de minha parte, ainda tenho certo rancor de sua pessoa, apenas te ajudei no castelo porque não suporto ver alguém chorar – Desabafou. Logo em seguida foi para o seu quarto em passos pesados e se trancou, provavelmente não iria querer diálogo naquela noite.
Sem outras opções, sentei-me no sofá e prestei atenção no programa que estava passando na TV. O programa era todo espalhafatoso e o apresentador era um rapaz alto e que parecia muito um travesti com aqueles cabelos longos e roupas apertadas, sua voz também era afinada e a única coisa que me fazia comprovar que era um homem era seu nome que aparecia no canto da tela, Mettaton. Eu aparentemente não conhecia aquela criatura, e se ele foi algum monstro no subsolo eu realmente não reconhecia.
Junto daquela criatura espalhafatosa estava sua assistente, esta eu consegui reconhecer como sendo Alphys, a cientista real que tinha alguns projetos malucos, um deles era um robô que não me recordava o nome, mas pensando bem, talvez ele fosse o próprio Mettaton, não tinha certeza, visto que apenas vi aquele ser algumas vezes e sempre o matava com apenas um golpe. Alphys aparentava ser muito tímida e gaguejava frequentemente quando a criatura espalhafatosa ordenava que ela falasse algo, sua altura era mínima e tinha os cabelos loiros e o corpo gordinho, vestia-se discretamente e aquilo parecia estressar Mettaton, que sempre buscava ressaltar seu corpo com roupas insinuantes.
Apesar de ser um programa um pouco atrapalhado, parecia fazer sucesso justamente por isso, os humanos buscavam alguma diversão naquela confusão e Mettaton conseguia fazer com que fosse engraçado, até mesmo eu ria das palhaçadas e de sua tentativa falha de ser “glamoroso” e “divo”, algo que me lembrava muito a personalidade egocêntrica de Papyrus.
—HUMANA O ESPAGUETE TÁ PRONTO. CADE AQUELE PREGUIÇOSO DO SANS? JÁ FOI DORMIR DE NOVO? – Papyrus parecia irritado, pelo que dizia seu irmão aparentava sempre fugir de se socializar com ele para poder dormir por aí.
—Ele entrou no quarto – Respondi enquanto recebia um grande prato de espaguete de Papyrus.
O cheiro não estava ruim, pensei que o gosto estivesse bom até colocar a primeira colherada na boca, percebendo o porquê de Sans fazer tantas piadas quanto ao espaguete do irmão. Para não faltar com educação comi todo o conteúdo do prato como se fosse um manjar dos deuses, além de até lamber os beiços como quem quisesse mais, mas no fundo implorava para que ele não entendesse dessa maneira.
Papyrus sentou-se ao meu lado e parecia estar vidrado no programa que passava na TV, mais especificamente estava fitando aquele rapaz espalhafatoso com o nome de Mettaton.
—Ele é lindo não é? – Perguntou. Quase cuspi o espaguete que ainda estava mastigando com aquela pergunta. Assustei não só com o assunto, mas também com o seu tom calmo que não era costumeiro de sua pessoa.
—É... – Respondi meio desconfiada. Talvez Papyrus estivesse apaixonado por ele? Não... Sans disse que seu irmão gostava de uma humana, então por que aquela pergunta repentina? Talvez fosse apenas um elogio simples, aquele ar andrógeno muito bem disfarçado de Mettaton tornava-o provocante até mesmo para um homem.
—O QUE FOI HUMANA? – Perguntou assim que notou meu olhar desconfiado, voltando ao seu tom de voz natural.
—Eu estava me perguntando se você namora – Respondi, tentando ao máximo desvendar minhas dúvidas e ao mesmo tempo não chateá-lo.
—SANS NÃO ME DEIXA NAMORAR, ELE DIZ QUE O GRANDE PAPYRUS NÃO MERECE UMA PESSOA QUALQUER – Apesar daquele desabafo, ele aparentava estar triste, ainda com o olhar perdido naquele rapaz do programa.
—Ele me disse que você estava apaixonado por uma garota – Tentei revelar com todo o cuidado, não queria que ele contasse para Sans que falei demais.
—AQUELE PREGUIÇOSO SEMPRE ME EMPURRA PARA GAROTAS, MAS NÃO ME DEIXA NAMORAR QUEM EU QUERO – Desabafou, desviando finalmente o olhar daquele rapaz, como quem não quisesse que seus segredos fossem revelados tão facilmente, mas eu já havia matado a charada.
—Entendo – Eu estava triste por ele, mas também estava torcendo para que Sans não ouvisse nossa conversa. Apesar de querer ouvir de sua boca que estava gostando de Mettaton, resolvi deixar aquele assunto para depois visto que percebi pequenas lágrimas escorrendo de seus olhos – Não chora – Tentei consolá-lo.
—OBRIGADA HUMANA, SANS NUNCA ME OUVE, MAS VOCÊ É UMA HUMANA BOAZINHA QUE GOSTA DE PAPYRUS – Declarou. Aquilo me deixou emocionada por certo tempo, mas segurei qualquer lágrima que poderia assustá-lo – É COM MUITA HONRA QUE ANUNCIO QUE VOCÊ TERÁ O PRAZER DE SER AMIGA DO GRANDE PAPYRUS – Dei uma risadinha como resposta. Preferi encarar aquilo como inocência e não como presunção.
—Obrigada, grande Papyrus – Respondi. Queria fazê-lo feliz de alguma maneira, seu jeito infantil estava me conquistando, queria poder ser como uma irmã para ele. Apesar de não suportá-lo nas outras linhas do tempo, eu sabia que agora podíamos ser amigos, e eu teria toda a paciência do mundo para com ele, entendendo que sua personalidade não é má, apenas infantil.
—ESTÁ TARDE HUMANA, SANS PODE FALAR AQUELES PALAVRÕES FEIOS CASO VER QUE NÃO FUI DORMIR AINDA – Falou. Entendi o recado e entreguei o prato para ele, não deixando de elogiar seu espaguete apesar de ser mentira.
—Boa noite, grande papyrus – Despedi-me com um sorriso, enquanto subia as escadas para ir ao meu quarto isolado.
—BOA NOITE HUMANA – Despediu-se com os olhos brilhando.
Apenas notei que Frisk não estava em casa quando me deparei com a porta do meu quarto, talvez ela estivesse dormindo na casa de Toriel. Senti uma pitada de inveja, onde ela estaria dormindo? Na minha antiga cama? Ou na antiga cama de Asriel? Um ciúme me consumiu, mas me controlei. Abri a porta do quarto e fui até a cama simples que me aguardava, nem me preocupei em mudar de roupa, apenas me joguei naquele colchão macio e adormeci, estava cansada daquele dia caótico e me preocuparia em tomar banho ou sequer mudar de roupa assim que descansasse. Apesar da alma ferida, meu coração conseguiu estancar um pouco daquele sofrimento todo ao conseguir consolar Papyrus e ganhar um novo amigo. Saber que eu ainda podia ser feliz naquele mundo estava me enchendo de DETERMINAÇÃO.
Fale com o autor