Era uma tarde fria de um inverno longo, as árvores secas davam um aspecto sombrio à floresta, o cheiro da casa em chamas ainda ardia em minhas narinas, eu tinha que corre, o esconderijo estava a menos de dez metros. Os passos atrás de mim estavam ficando cada vez mais próximos mais três passos e estaria a salvo, segura. Como se isso fosse possível.

A escuridão era quase total, andei com dificuldade para não cair. Consegui achar uma vela as cegas, a acendi. Tudo estava como me lembrava, tirando uma espessa camada de poeira. As cadeiras que pertenciam ao meu irmão, os livros, as páginas em branco, tudo em seu lugar. Sentei na cadeira, estava tremendo, os olhos cheios de lágrimas, mas eu não podia chorar. A imagem da casa em chamas me atormentava, aquele sorriso demoníaco estampado no rosto de David. Espero que ele tenha sido consumido pelas chamas, e que apodreça no inferno. O sono e o cansaço finalmente me venceram, adormeci.

O sonho não fugia tanto a minha realidade, só que a floresta era outra, e a casa ainda estava intacta, ou quase, se não fosse o sangue nas paredes (gotas frescas ainda caiam como se fossem lágrimas) ela seria a mesma. Parecia que a casa chorava, anunciando que algo estava para acontecer. Cheguei mais perto da casa, o cheiro estava me dando náuseas, tudo parecia tão intocado...

_ Acho melhor você sair daí, pode se machucar – me virei alarmada, não havia ouvido ninguém se aproximar.

Deparei-me com uma figura desconhecida, porém atraente, tinha os olhos tão negros como a escuridão consumidora da noite, a pele pálida dava a aparência de que ele não dormia a muito, o cabelo castanho quase preto bem aparado dava a imprenção de ser certinho, mas o visual em si se contrapunham.

_ E porque eu sairia? – perguntei, usando meu melhor tom de desgosto

_ Por que se não você fica em perigo, e se você ficar em perigo vou ter que ajudar e hoje não estou a fim de brigas – explicou ele como se tivesse falando a uma criança a coisa mais óbvia do mundo.

_ Então não me siga – disse já subindo as escadas que levavam ate a porta, quando ia girar a maçaneta a mão dele já avia feito a tarefa.

_ Como sempre ela não ouve nada do que eu digo – ele entrou na casa na minha frente, eu o segui.

Por dentro a casa estava vazia, como se tivesse sido abandonada e esquecida. Parei no hall da porta, fiquei olhando aquele menino misterioso andar. Depois de alguns passos ele percebeu que não estava mais o acompanhando e virou para me encarar.

_ O que foi dessa vez? – ele me perguntou

_ Quem é você e o que esta fazendo aqui? – perguntei

_ Quem eu sou não te interessa, e se você não estiver com amnésia não terei de repeti o que estou fazendo aqui – respondeu ele com tom arrogante, cara esse garoto ta me conquistando.

_ Então ta, não me interessa? –disse revirando os olhos, ta bom, eu sou mimada- Está aqui pra me proteger, mas me proteger de que? De uma casa vazia? Aff’s.

Já estava saindo da casa e bati de frente com ele. Olhei para traz e estava todo vazio, acho que estou ficando louca.

_ Você não estava lá? – perguntei apontando pra dentro da casa.

_ Você me fez perguntas e terá suas respostas, mas não agora – disse ele, mais sério do que nunca, como se estivesse fazendo uma promessa.

Acordei. Ainda estava cheirando a queimado, tudo foi um sonho, menos a casa em chama, essa lembrança é real. As palavras de David ecoaram em minha cabeça. Em fim vou cumprir minha parte da promessa, você vai queimar com as chamas do inferno sua traidora. Lavei o rosto com água fria, olhei em volta, um pedaço de papel me chamou atenção peguei ele do chão, li.

Não se esqueça as perguntas ainda serão respondidas

É só você dar tempo ao tempo minha protegida.

SEU ANJO.

Tenho que sair daqui o mais rápido possível, pensei, tudo aqui não faz sentido.

_Como se alguma vez tivesse feito.

Reconheci a voz, mas não podia acreditar que ele estava ali. Ele morreu, não podia estar aqui, não podia saber onde eu estava. Sequei o suor de minhas mãos, e me virei.

_ A que devo a honra de sua visita Edigar? — o nojo a raiva transbordaram em minhas palavras

_ Não posso vir ver minha afilhada? – respondeu ele, como se fosse a pessoa mais inocente do mundo- Como você esta criança?

_ Se bem ou mal não lhe interessa – respondi

_ Ela ta ficando venenosa –disse ele rindo- a cobrinha ta crescendo. Como vai a propriedade da família coisa linda?

Virei-me, tentando escapar do olhar dele, antes que ele conseguiu se o que queria que eu voltasse a ser sua cadelinha fiel.

_ Esta lá, como você a deixou apodrecendo cada vez mais.

_ Você a abandou em meio às chamas — ele se aproximou de mim, mexeu em meu cabelo. O perfume dele estava forte, aquele corpo sedutor estava me deixando louca, me afastei.

_ Era apenas uma casa, não vale a minha vida — disse as lágrimas lutando para sair dos meus olhos, ele me abraçou.

Não consegui me segurar, fiz o que menos desejava. Chorei todas as lágrimas que havia segurado. Senti a mão dele segurar meu queixo, levantou de leve o meu rosto para que ficasse ao mesmo nível que o dele, ele me beijou. A boca dele era suave sobre a minha, eu estava sozinha, precisando de carinho, e ele se aproveitou disso. Entreguei-me a ele, mas não totalmente, as mãos dele passaram por cada canto do meu corpo, senti arrepios, desejo e nojo. Afastei-me.

_ Saia daqui. – abri a porta do esconderijo- Agora.

_ Tudo o que você quiser meu anjinho – ele saiu, rindo de si mesmo e deixando comigo um sentimento de nojo e desprezo por mim mesma.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.