A área das docas de Gotham não está entre uma das mais belas — ou limpas — da cidade. Nos primeiros anos da cidade, ela desempenhou uma papel de vital importância para o crescimento da economia local, mas com o passar do tempo — e com o advento da indústria — sua posição de prestígio foi decaindo até a quase irrelevância. Ao menos para a maioria dos seus cidadãos.

Para outros, aquele cenário decante e esquecido se tornou um local perfeito para negócios escuso e assim, com o passar do tempo, a antiga zona portuária se tornou um recôndito para grandes nomes da máfia de Gotham como os Falcone, os Maroni e, mais recentemente, os Montecchio.

Uma das mais recentes e insípidas famílias do crime organizado, os Montecchio iniciara seus negócios ainda nos anos da crise, atuando por um bom tempo como reles subordinados dos Falcone. Sua ascensão ocorrera em meados dos anos 70 — com a benção do seu antigo patrono -, quando o comércio de drogas teve o seu primeiro grande salto na cidade. Eles se mantiveram como senhores absolutos do negócio por muito tempo, até a chegada dos russos e dos japoneses, quando perderam muito de seu prestígio e poder devido à concorrência.

Parte deste poder lhes voltou a alguns anos, devido a queda dos Falcones. Eles souberam aproveitar bem o vácuo de poder gerado pela prisão de Carmine e se mantiveram relativamente incólumes.

Isso até aquela matéria ser publicada.

A matéria de Ann Sheppard conseguira expôr muito — se não todos — de seus negócios obscuros e, para alguém que trabalha nas trevas, isso era inaceitável. Apesar de forte, a matéria não foi suficiente para garantir ao DPGC um mandato de busca — os trâmites legais já são bastante demorados, ainda mais quando se tem um juiz ou dois no bolso. — e isso fora tudo o que os Montecchio precisaram para iniciar uma desesperada cruzada no sentido de se livrar de todas as evidências incriminadoras.

A última delas — um carregamento de heroína e Veneno -se encontravam guardada em um velho armazém no porto de Gotham, e fora ela o motivo da viagem de Giovanni Montecchio. Como novo chefe da família, ele precisava ter certeza de que o carregamento seria completamente destruído, e nada melhor para isso do que fiscalizar o serviço ele mesmo.

Montecchio não estava sozinho. Ele trouxera 8 homens de sua mais completa confiança para realizar a tarefa junto com ele. Assim que chegaram, ele distribui as tarefas para cada um. Um deles ficaria no carro, que ficaria com o motor ligado para o caso de qualquer eventualidade. Os outro sete viriam com ele, e destes, quatro ficariam do lado de fora do armazém, fazendo uma varredura do terreno enquanto ele e os três restantes ficariam e queimariam a carga.

A carga já estava encharcada com gasolina e Montecchio retira o seu isqueiro do bolso, quando tiros foram ouvidos.

- Mas que porra? — Montecchio guarda o isqueiro e saca sua arma. Os outros seguem seu exemplo e pegam suas metralhadoras.

Mais tiros, um grito de pavor, o som de algo caindo na água. O nome de alguém começou a ser chamado repetidas vezes, mas sem resposta. Montecchio está para ir até porta quando ela se abre e um dos seus guardas entra, apavorado.

- O que cacete tá acontecendo lá fora?

-É ele! É ele! Primeiro ele pegou o Paullie. Depois foi a vez do Dick. O Eric tá lá fora, não vai durar muito.Puta Merda, Puta Merda! O Morcego tá aqui!

Outro grito ecoa lá fora, enquanto pode-se ouvir nitidamente o som de algo se partindo. Dentro do armazém, os homens começam a entrar em pânico.

- Ei! Ei! — Montecchio levanta a arma e atira duas vezes para chamar a atenção dos capangas em pâncio. — Me escutem, porra! Olha só pra vocês, se cagando de medo por quase de um maluco vestido de morcego!

- Ele não é um homem, ele é um demônio saído do inferno!

- Homem, deus, ou demônio, não tem como ele entrar nesta bagaça sem a gente....

É nesse instante que todas as luzes do armazém se apagam, impedindo Montecchio de terminar sua frase.

- Merda, Merda, Merda!

- Ei, fiquem calmos. Fiquem calmos! Se ficarmos juntos não tem como....

-AAAAARRGHHHHHHHHHHH!

- Joe? Joe? Cadê você cara?!?

Tiros ecoam pelo armazém, o que faz com que Montecchio se jogue no chão.

- EU MANDEI TEREM CALMA, CACETE!

Mas sua voz, mesmo alterada pela raiva — e por um certo terror — é superada pelo barulho caótico dos disparos e dos gritos.

Até que, segundos depois, reina o silêncio.

-Ei, pessoal? Vocês estão bem?

"Puta merda" Montecchio pensa enquanto se levanta "esses imbecis devem ter se matado atirando às cegas de um lado para o outro. Se eu ao menos pudesse---ei, é isso o isqueiro!"

Montecchio leva a mão ao bolso do seu paletó branco e retira o pequeno isqueiro azul de dentro do bolso interno. Sua mãos tremem, embora ele não queira admitir isso, o que faz com que ele demore mais do que o normal para acendê-lo. Quando por fim acende, a ínfima luz do gás mal lhe deixa ver um palmo a frente do seu nariz.

- Ei, o que aconteceu? Você ainda estão vivos, seus imbecis?

Como não obtém resposta, Montecchio começa a andar cuidadosamente pelo armazém até que, com a luz fraca do isqueiro, ele consegue ver o corpo desacordado de um de seus ajudantes.

- Ah, merda!

Ele recua, mas ao recuar esbarra suas costas em algo sólido como uma parede de tijolos. Ele se vira, sua arma treme em sua mão devido ao medo do que irá encontrar, e é então que ele o vê pela primeira vez. O isqueiro caí no chão e o armazém volta a mergulhar na mais completa escuridão.