Kyodai - The Awakening Of Chaos (Interativa)
41 Capítulo 35 - Hyperbole
Notas iniciais
Dois garotos caminham por um corredor. São eles Yuko Kurama, com um pacote de biscoitos recheados em mãos, e Eric White.
– Não entendo como você pode comer tanto e não engordar... – afirma Eric, enquanto anda ao lado direito do menor.
– Fica quieto! Ainda estou bravo com o que você fez.
– O que foi que eu fiz? – pergunta, arqueando a sobrancelha direita.
– Por sua causa, quase apanhei de uma garota. Você é um péssimo amigo. – alega, enquanto mastiga um dos seus biscoitos, balançando a cabeça positivamente, fitando-o por meros instantes.
– Ah, para com esses “não-me-toques”. Está parecendo uma garota de TPM. – opina, franzindo a testa e cruzando os braços.
– Não estou não! – grita.
– Está sim!
– Nãos estou não!
– Tá sim!
– Calem suas bocas, seus idiotas! – grita Akemi, ao surgir bem diante deles, fazendo com que ambos cessem seus passos.
– Akemi-san? – pergunta Yuko, surpreso, ao parar, assim como o amigo ao seu lado.
– Já aprendeu meu nome? – ela, um pouco surpresa. – Interessante.
– Nós não somos idiotas. – argumenta Eric.
– Pois parecem.
– Akemi, vai ficar dando trela para esses dois imbecis? – pergunta Sherry, ao abrir a porta, bem ao lado esquerdo da citada, de um quarto.
No caso, é o quarto em que Sherry está dividindo Nagashi e Tsubaki, mesmo que ambas as companheiras estejam fora das dependências do colégio. Inicialmente, ela deveria ser colocada junto de Lucy Rouvier e Sayuri Kishimoto, mas como a Gênese interferiram nos planos iniciais de Raiabaru, diretor de Konton, as coisas mudaram.
– Eles estavam passando por aqui e gritando como loucos, loira falsa! Eu só quero paz! – argumenta Akemi, virando-se para ela.
Sherry, que até agora permanecera apenas com o rosto para fora do quarto, abre por completo a porta e se coloca para além do vão da porta. Cruzando os braços, encara séria a amiga, enquanto articula:
– Eu não sou loira falsa. Você sabe disso!
– Sei que não é. Mas é divertido te irritar! – esclarece, com um leve sorriso.
Os dois garotos, por outro lado, continuam observando as duas. Trocam olhares entre si e, em seguida, falam em coro:
– Vocês são doidas.
Akemi e Sherry, irritadas, guiam suas faces para a dupla. Yuko e Eric sentem o peso da ameaça e, mais que depressa, dão meia volta e saem correndo do local. Com um leve suspiro, a amiga da loira fala, observando-os cada vez mais distantes:
– Tem gente por aqui que está merecendo apanhar...
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Já não há mais ninguém neste corredor, se não Jayden Valentine e Sugaku Megumi. As outras pessoas que aqui, há pouco estavam, já se retiraram. O assunto que agora é tratado entre eles é sério, talvez mais sério do que qualquer outro tema que, um dia, possa vir a tomar posse de seus lábios.
– Você, minha mãe? Por acaso enlouqueceu? – questiona o desenhista, incrédulo.
– Sim, sou eu a sua verdadeira mãe. E não, eu não enlouqueci.
– Como pode dizer algo assim? Sou filho de Alice Valentine, não de você.
– Errado. – afirma a mulher, cruzando os braços, com uma evidente calma para argumentar. – Fui eu que gerei você, portanto mãe biológica, essa sou.
Pouco a pouco, Sugaku vai contando a verdade para o garoto. Ele, por sua vez, fica calado. Atônito, sente dificuldade para aceitar essa realidade...
Há cerca de 16 anos, Sugaku Megumi era cafetina de um antro de prostituição. Dentre as várias garotas que vendiam seus corpos, estava Alice. Sendo, na época, uma das mais experientes do local, a atual estilista já conhecia Sugaku desde os tempos do Ensino Médio e, por necessidade, aceitara o convite dela para se tornar garota de programa. Tempos depois, o local que funcionou por seis anos foi interditado pela polícia e fechado.
Entretanto, com suas habilidades, Sugaku apagara a memória de praticamente todas as suas “ferramentas de trabalho”, termo que utilizava para se referir às garotas. Alice foi a única poupada, já que nutriam uma certa amizade uma pela outra. Como moveu os seus pauzinhos, a telepata escapou de tudo livre e vendeu para Raiabaru, também conhecido dos seus tempos de Ensino Médio, a propriedade utilizada para o prostíbulo. E foi assim que o terreno se tornou a atual Kyodai e Sugaku, meses depois, passou a fazer parte do corpo docente do instituto. Apenas os três sabem do passado da escola e, agora, Jayden também.
Por outro lado, Alice passou a não ter mais como ganhar dinheiro nem mesmo para sobreviver. Se viu sem alternativa até descobrir sua capacidade para desenhar. Em pouco tempo, a mulher se transformou em uma bem-sucedida estilista. Entretanto, outra descoberta caiu como uma bomba em suas mãos: a esterilidade.
Incapaz de gerar um filho e realizar seu grande sonho de ser mãe, Alice se viu perdida e sem rumo. Anos mais tarde, acabou se casando com Syrius Valentine, ex-colega do Ensino Médio. Ela não tardou para contar todas as suas verdades para ele, mas, ainda assim, Syrius não desistiu de amá-la. Juntos, enfrentaram todos os obstáculos e se casaram. Entretanto, a estilista continuou incapaz de gerar um filho. Nesse momento que Jayden entrou na história...
Sugaku, meses antes, havia dado a luz a um garoto, fruto de um relacionamento conturbado com um “ex-amor”. Ciente de que o sonho da amiga era ser mãe, a professora entregou o próprio filho para ela, que passou a cuidar dele como se o garoto fosse seu. Alice e Syrius, juntos, o nomearam como Jayden, e até aqui, tudo permanecera dessa maneira.
– Por que se livrou de mim desse jeito? – indaga o garoto, após ouvir toda a história, com algumas lágrimas escorrendo dos seus olhos. – Eu era indesejado?
– Para mim, você era a lembrança de alguém que me fez muito mal. Para Alice, era o melhor presente que ela poderia receber. No fim, todos ficaram felizes. – alega, tentando ser convincente.
– Você é um monstro, sabia? – questiona ele, permitindo que sua face seja tomada por suas lágrimas.
– Sim, eu sei. Nunca disse que minha escolha foi a certa ou que nunca tenha me arrependido das coisas que já fiz. – afirma, fitando-o firmemente. – Por outro lado, não estou pedindo que me ame, nem que me perdoe. Estou apenas lhe dizendo a verdade.
– Por quê? Por que está me falando tudo isso agora?
– Alice havia pedido para Kenny, assistente direto de Yuki-sama, que me vigiasse e me impedisse de te contar. Agora que ele não está aqui, encontrei a oportunidade perfeita para fazer o que já venho querendo fazer há meses. – explica.
– Minha mãe não queria que eu soubesse? – Jayden, ainda mais surpreso.
– Ela apenas não queria que você sofresse sabendo que tanto a mãe biológica quanto a que o criou eram vadias no passado. – opina, acertando seus óculos com o indicador direito.
O desenhista já não sabe mais o que dizer. Não encontra palavras para descrever o que sente no momento, nem para confrontar as palavras de quem está perante seus olhos. No fundo, sente como se toda a sua vida tivesse sido uma grande mentira. Ou, quem sabe, seria esse apenas um sentimento exagerado e temporário...
– Diante disso tudo, creio que deveria lhe contar outra coisa importante. – alega Sugaku, que continua prendendo a atenção do jovem.
– O que mais pode ser importante depois do que me falou?
– Você deve saber que pode prever acontecimentos próximos com os seus desenhos. Além dessa habilidade, ainda deve estar latente a sua capacidade de tornar pedra aqueles que olham diretamente para os seus olhos.
A expressão facial de Jayden fica ainda mais atônita. É surpresa atrás de surpresa, “novidades” que parecem não ter limites.
– A primeira, teoricamente herdade de Alice. A segunda, de Syrius.
– Mas como assim? Disse que eu não sou filho biológico deles...
– Exato. Isso foi possível graças ao fato de que seus dons são sintéticos. – declara, deixando-o desentendido.
– Sintéticos?
– Significa que você não nasceu com eles. Sua genética foi manipulada em laboratório para que, no futuro, as despertasse.
– Isso é possível? – indaga, perplexo.
– No passado, sim. Syrius Valentine e Lamiel Rouvier, o pai de Lucy, lideraram um projeto de desenvolvimento de habilidades sintéticas para que os que já nascessem com essas alterações não sofressem com o preconceito dos, entre aspas, “normais”. A intenção do projeto era disponibilizar dons para toda a comunidade que se interessasse, mas acabou não dando muito certo e ele foi finalizado. Você, após ter sido entregue por mim para Syrius e Alice, foi uma das cobaias utilizadas nas experiências.
– Além de tudo, eu fui usado como cobaia?
– Acredite: não é exagero algum, é a verdade. Mas enfim... Depois de tudo o que disse, minha consciência já está mais leve.
A mulher dá as costas para o garoto e reinicia seus passos. Os lábios de Jayden se movimentam, mas antes que ele diga algo, ela capta seus pensamentos e articula, enquanto se afasta:
– Desista. Eu não nasci para ser uma heroína...
A professora dobra a esquina do corredor, deixando Jayden ali, sozinho. Assim que escapa do campo de visão dele, sente suas pernas fraquejarem e, por consequência, cai com seu ombro direito apoiado à parede. Dos seus olhos, brotam verdadeiras lágrimas, que trazem consigo toda a dor que carregara até hoje no seu coração. É dessa forma que, da sua boca, escapam as seguintes palavras:
– Prometi jamais tomá-lo de você, Alice. Portanto, mesmo que meu coração se torne migalhas, estou disposta a pelo menos cumprir com essa promessa...
/--/--/
– Tudo isso é verdade, Sayuri-kun? – pergunta Daisuke, boquiaberto, ao lado direito da flautista, após ouvir todas as palavras dela sobre a verdade no passado de Jayden Valentine e de sua verdadeira mãe.
– Sim, é sim. – afirma a artista, séria, enquanto ambos andam, juntos.
– Nunca pensei que Sugaku-sensei seria, na realidade, mãe do Jayden-kun...
Os dois amigos andam pelas dependências do colégio. Apesar da grande maioria dos alunos estarem presentes em Kyodai, sem grande parte dos seus amigos, inclusive com dois mortos, a dupla sente como se tudo estivesse mais vazio do que nunca. Seria exagero pensar dessa forma? Ou, de fato, Samasha, Gingamaru e os outros fazem uma extrema falta?
– Mas como você sabia disso?
– Além de ver o futuro, eu também posso ver o passado. Não controlo esse dom, nem posso manipular a visão que a flauta me oferece. Tudo o que faço é ver e interpretar. – explica. – Há alguns dias, pude ver toda essa história e, de alguma forma, senti que ele deveria saber de tudo. Só não imaginei que a própria mãe biológica dele se comprometeria com essa tarefa.
– Bem, talvez ela não seja tão má e tão fria quanto pensamos.
– Ela não é, Daisuke-kun. Talvez fosse certo dizer que Sugaku-sensei é uma pessoa em busca de redenção. – afirma Sayuri, com uma certeza quase que imponente em seu tom de voz. – E todos nós temos direito de nos redimir dos erros do passado.
– Me deixa em paz! – grita um garoto, de costas para os dois, na outra ponta do corredor, falando ao celular.
– Quem é aquele ali gritando no telefone?
– É Daniel Strauss, um dos transferidos. – responde Sayuri, já ciente da identidade do dito cujo.
– Com quem será que ele está falando?
– Com o pai dele.
– E como sabe disso também? – questiona Daisuke, cessando seus passos. – Vai dizer que também teve uma visão sobre isso?
– Sim. – responde, com um meigo e alegre sorriso.
– Eu tô pouco me lixando para o que você me fala. Essa escola é uma droga de lugar do qual não quero fazer parte! – argumenta Daniel, ainda no telefone.
– Já lhe disse que você não tem alternativas, filho. Te obrigo a estudar pelo seu bem.
– Assim como me obriga a dormir com você, papaizinho? – debocha, ao diminuir seu tom de voz.
– Não fale assim, sabe que me importo com seu futuro, com seu bem estar.
– Chega disso! Esse teatrinho não cola comigo! Você só me tirou das ruas por ter uma mente distorcida e repleta de perversões! Não quero mais ser a sua marionete, senador! – volta a elevar seu timbre, ríspido.
– Pense no quanto te ajudei. Você vendia seu corpo e estava, a todo tempo, próximo de ameaças como as drogas, como bandidos da pior espécie.
– As drogas são sim algo que pode destruir com a vida de qualquer um. Porém, nem mesmo elas fariam o estrago que você faz me mantendo como seu filho para a sociedade e como seu amante na cama.
Daisuke, ouvindo tudo isso, fica pasmo. Sayuri, por outro lado, não. A garota já estava ciente de cada palavra que, agora, Daniel pronuncia.
– Ao mínimo, não contrario a sua natureza de ser ativo, correto? – Edward Strauss, pai adotivo do garoto, diz, com certo tom de sarcasmo. – Afinal, sei que deve ter sido dominado por muitos homens sujos nos seus tempos de garoto de programa.
– Se tem algo de que me arrependo em toda a minha vida é de ter aceitado a sua entrada na minha vida. – afirma o jovem, mais calmo, após um longo suspiro.
– Pare com esse comportamento. No fundo, faço apenas o bem para você.
– Eu sou hétero, seu sujo! Acha mesmo que tenho prazer em ter que me relacionar com um velho imundo como você?
– No fundo, sei sim que você tem. E não me venha com desculpas: você não é hétero, Daniel. No máximo, bissexual.
– Mesmo que fosse, eu jamais teria prazer transando com um desgraçado do seu gênero! – exclama, dando ênfase para a palavra “jamais”. – Agora, se me der licença, tenho mais o que fazer.
– Passe bem, querido.
– E você, passe muito mal! – grita, enfurecido.
Daniel se vira de imediato e lança o aparelho para a frente. O mesmo voa contra Daisuke que, devido à velocidade com que o celular chega perto e a curta distância que os separa, percebe que será impossível desviar. Porém, quando o celular está a centímetros do seu rosto, ele é atingido por uma espécie de esfera incandescente, contrária, que o intercepta e o queima com todo o fervor.
– Daniel, você deveria tomar mais cuidado. Alguém pode acabar se machucando em um desses seus acessos de fúria. – argumenta Yuki Arima, atrás de Daisuke e Sayuri, surpreendendo ambos.
– Vice-diretor? – indaga Sayuri, ao olhar para trás e confirmar o que já esperava.
– Acho que cheguei bem na hora, não é? – indaga o filho de Raiabaru, com um sorriso sincero em seu rosto.
Um pouco surpreso, não só com a presença do vice-diretor como também com a presença dos dois veteranos de Kyodai, – Daniel sequer imaginara que alguém estaria escutando sua conversa com o senador, mas no fundo nem se importa com isso – o jovem transferido dá as costas para o trio e, sem mais delongas, se afasta dali.
– Você também é um humano avançado geneticamente? – indaga Daisuke, tão surpreso quanto sua amiga.
– Sim. Controlo o fogo, habilidade herdada do meu pai... – afirma, enquanto chamas ardentes surgem em sua mão direita, que é suspensa a frente de seu próprio corpo. – E a água, herdada da minha falecida mãe. – alega, fazendo o mesmo com a outra mão, mas nesta surge uma esfera de água.
De imediato, Sayuri sente um forte aperto no peito. Não sabe dizer por qual razão , mas a lembrança de Gingamaru toma sua mente. E, por consequência, se lembra de uma das visões que teve dias atrás. Ultimamente, o dom da flautista está tomando maiores proporções e se manifestando cada vez mais. É como se estivesse saindo do controle, se é que em algum dia de sua vida, já teve controle de sua própria habilidade.
– Yuki-sama... – inicia ela, com o rosto baixo.
Daisuke continua impressionado com a visão dos poderes do vice-diretor se manifestando. Para ele, a água e o fogo são fatores tão controversos, tão distintos, tal como a Lua e o Sol, ou a luz e as trevas. Dominar duas coisas tão contrárias, aliás, ver alguém dominando-as... É uma experiência que proporciona uma sensação indescritivelmente interessante. Por outro lado, sem dar muita importância para o fascínio do estudante, Yuki cessa e abaixa ambos os braços. Ficando mais sério, dirige a palavra à Sayuri:
– O que é? Precisa me dizer algo de importante?
– Creio que sim, que é muito importante. – confirma, levantando sua face e passando a olhar diretamente para os olhos do filho de Raiabaru. – Algo que pode mudar o rumo de tudo.
– Como assim mudar o rumo de tudo? Por acaso está sabendo de algo que não sei?
– Seu pai está manipulando você. – afirma, sendo direta.
A expressão de Yuki é de extrema surpresa. Porém, ele não a interrompe. Prosseguindo, a flautista diz:
– Na realidade, ele está manipulando também a sua mãe.
– Minha mãe morreu. – conta, em discordância.
– É o que ele queria fazer você pensar. Por que acha que sempre esteve distante dos demais membros da Carmesim, mesmo sendo um deles?
O homem se cala. Não sabe o que falar. Sabe que, de fato, essa distância forçada por seu pai para com os outros Soldados da Carmesim nunca teve uma desculpa convincente. Agora...
– Yukino Arima é uma das poucas pessoas que podem parar as ambições de Fênix e as atrocidades cometidas pelos Soldados da Gênese. – revela, séria.
Sayuri se vira de imediato, dando as costas para o filho da citada. Com um suspiro, encerra:
– E ela ainda vive, como prisioneira perpétua, dentro desse instituto fajuto chamado Kyodai...
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