Kyght
4 Quase lá
Hiroshi Honda (Gravidade) — Quarto de hotel, localizado no 4º andar.
Naquela bela sexta-feira, o ar quente daquele ensolarado dia vagava pelo ar. A sensação térmica dividia opiniões, estando muito agradável para alguns, e muito desagradável para outros.
A rua estava mais movimentada do que nunca, e as pessoas não paravam de falar em um dos assuntos principais da semana: o novo herói da Kyght, que será revelado daqui algumas horas.
Hiroshi Honda se encontra em seu quarto de hotel, penteando seus cabelos e ajeitando seu uniforme de herói. Ele está mais ansioso do que nunca, pois, havia se preparado até demais para esse dia, e apesar de ter dormido muito pouco a semana toda e ter ficado com algumas olheiras, Hiroshi está bem apresentável para o grande evento.
Um funcionário da Kyght havia lhe ligado há alguns minutos avisando que logo um carro da empresa estaria em seu hotel para buscá-lo, o que acabou deixando Hiroshi um tanto quanto eufórico.
Tudo tinha que sair perfeito. Ele sentia que precisava causar uma boa impressão para todos, e principalmente, para seus novos colegas de equipe.
— Só mais um pouquinho...Será que eu deveria passar um gel? – Hiroshi perguntava para si mesmo enquanto se olhava para o espelho, penteando os próprios cabelos com uma escova de madeira – Acho que meu cabelo ficará melhor se eu pentear para o outro lado...não sei...que tal eu... – Antes de poder completar, Hiroshi se assustou com um som repentino – AH! – Exclamou, derrubando o pente de cabelo no chão.
Naquele exato momento, o carro da Kyght havia acabado de chegar e estava buzinando em frente ao hotel.
Várias pedestres pararam suas atividades para ficar ao redor do carro — que na verdade, era uma grande limusine branca — gerando uma falação incessante. Quando dois seguranças de terno preto saíram do veículo, as pessoas foram à loucura, a ponto de começarem a gritar em coro o nome da empresa e tirar várias fotos. Enquanto os seguranças, sem esboçar nenhuma reação, apenas abriram caminho no meio daquela multidão para que Hiroshi entrasse.
Hiroshi começou a ficar ofegante e a se desesperar, mesmo que ele já estivesse praticamente pronto.
— Já estou indo! – Hiroshi gritou pela janela.
O garoto tentou pegar suas malas o mais rápido que pode, mas estavam tão pesadas a ponto do mesmo não conseguir carregar, portanto, precisou usar sua telecinese para fazer com que suas bagagens flutuassem em direção ao carro de luxo.
Quase correndo pelos corredores e escadas do hotel, ele chegou até a porta principal rapidamente.
Assim que Hiroshi botou os pés para fora do hotel, inúmeros paparazzis começaram a tirar fotos dele, pois, tinham certeza de que aquele era o novo herói da Kyght. Como ele não sabia reagir a toda aquela muvuca que tinha se formado, Hiroshi sentiu-se nervoso, mas também, empolgado.
Olhando ao redor, o garoto andou lentamente e estranhamente até a porta da limusine, dado que, além do nervosismo, seu uniforme de herói estava pinicando um pouco.
O uniforme de Hiroshi se parece muito com um macacão de nylon, exceto pelo fato que é sem mangas e é bem "colado" ao corpo de Hiroshi. Tendo uma cor azul bebê bem clarinho e detalhes em branco nas bordas. O uniforme conta também com um cinto grosso e branco, e um tênis sem cadarço também em azul bebê e com detalhes em branco.
Quando estava quase entrando no veículo, Hiroshi olhou para o chão e botou as mãos na cintura, dando um longo suspiro. Por um segundo, a vida do pobre telecinético passou pela sua mente, deixando-o levemente desnorteado. Felizmente, poucos segundos depois essa sensação passou, e finalmente, Hiroshi entrou no carro junto de suas malas, dando um simpático "tchauzinho" com as mãos antes de fechar a porta.
Por sorte, a viagem não foi tão longa. Dentro do carro o clima parecia estar pesado por conta do silêncio que permaneceu o percurso todo, fazendo com que Hiroshi se preocupasse sobre se deveria puxar conversa ou não. Chegava até ser meio irritante a ansiedade de Hiroshi, mas, infelizmente é desse jeito que ele fica com pessoas desconhecidas. Talvez, o que favoreceu para a sensação de peso no clima foi o forte calor que ali estava fazendo. De certa forma, poucas pessoas gostam de despender tempo conversando enquanto estão em um espaço apertado e quente com um total desconhecido.
Assim que chegaram no local de onde Hiroshi devia descer, o motorista parou o carro de forma em que a porta de trás ficasse perfeitamente na direção de um longo tapete vermelho.
O local do evento era em um grande estúdio da Kyght – que servia muito bem também como centro cultural, centro de palestras/apresentações, entre outros -, onde Hiroshi ia se apresentar para centenas de pessoas, tanto ali presentes, quanto algumas que vão ver na transmissão ao vivo que passará em diversos canais de televisão.
Na entrada – que era ao ar livre -, além do tapete vermelho, estavam também grandes estátuas dos heróis e pequenas estruturas decorativas.
Os dois seguranças abriram a porta e saíram primeiro, aguardando Hiroshi sair do carro. Um estava segurando a porta para que o jovem passasse, enquanto o outro estava com a mão estendida para o garoto, para que assim, ele pudesse o acompanhar até a porta de entrada em segurança.
Estremecendo-se, Hiroshi botou o pé esquerdo para fora do carro, que fez com que a multidão — que se encontrava atrás de uma barra de segurança nos lados do tapete vermelho – gritasse insanamente.
Os gritos ficaram ainda mais fortes quando Hiroshi finalmente saiu do luxuoso carro por completo, revelando o próprio corpo para o público, porém, sem as malas. O segurança pegou na mão do jovem e andou com ele em direção ao destino. No caminho, vários fotógrafos tiraram fotos, e diversos jornalistas junto de seus técnicos de filmagem começaram a gravar o momento, enfiando microfones para perto de Hiroshi na esperança de que ele pudesse dar uma palavrinha.
Antes mesmo de chegarem até a porta, Hiroshi e seu segurança foram impedidos de continuar andando por conta de Marilyn, que chegou correndo para cumprimentar o jovem e assumir o guiamento dele até o local.
— Gravidade! É bom te ver de novo! – Disse Marilyn extremamente entusiasmada, enquanto estendia sua mão direita para cumprimentar Hiroshi, e segurava algumas papeladas com a outra mão.
— Ééé...Já nos vimos antes? – Perguntou Hiroshi, também apertando a mão de Marilyn.
— Ah, eu sou a Marilyn, a funcionária que realizou sua entrevista.
Naquele momento, os olhos de Marilyn pareciam estar cintilando em serenidade, fazendo com que Hiroshi se lembrasse dela e do seu olhar ameaçador.
— Aaah sim, Marilyn, eu me lembro de você – Disse com medo – é bom te ver de novo.
— Vamos nos encontrar bastante vezes agora, espero que seu futuro na Kyght seja brilhante! – Marilyn alegrou-se.
— Bastante vezes?! – Hiroshi se assustou – ah sim...que bom, hehe – Sorrindo com os olhos, Hiroshi deu uma risadinha falsa.
— Enfim, vamos?
— Para onde?
— Eu te acompanharei até os estúdios do palco onde você irá se apresentar, inclusive, pode voltar para o carro, segurança – Ordenou — Ah, Hiroshi... – Marilyn desabafou — eu tenho certeza de que muitas pessoas estão super ansiosas para te ver.
— É uma honra saber que veio todo um pessoal me ver, nem sinto que é necessariamente por minha causa...
— E para o que mais eles teriam vindo? – Indagou Marilyn enquanto sorria.
Hiroshi sorriu de volta, mas dessa vez, foi um sorriso verdadeiro, que se assemelhava com o de uma criança que acabou de ganhar o que tanto queria.
Daqui poucas horas, ele estaria junto da equipe principal da Kyght, a Kyght de Manhattan, o que era um sonho realizado.
Kyght é o nome da empresa e da equipe, sendo que: a Kyght possui diversas equipes de herói e diversas sedes espalhadas pelos Estados Unidos (e unicamente nesse país, embora existam heróis ao redor do mundo inteiro). A Kyght principal é a Kyght de Manhattan, que foi a primeira sede construída e primeira equipe formada.
A Kyght de Manhattan é a maior e mais luxuosa Kyght. Com um prédio de cem andares, essa é a equipe mais difícil de se entrar, pois, sempre que uma nova vaga surge, muitos heróis viajam até os Estados Unidos para caçar a localização da empresa e se inscrever nela, diferente das outras Kyghts, que costumam receber poucas inscrições.
Senhorita Anne — Centro de palestras (Dentro do estúdio).
Anne já estava no palco, realizando pequenos discursos motivacionais e inspiradores sobre os heróis da Kyght por meio de um microfone enquanto diversas pessoas a olhavam falar.
A multidão prestava atenção nas palavras de Anne em silêncio. Naquele local pouco iluminado, todos estavam sentados e confortáveis, mas, quase derretendo de tanto calor, apesar de que nem a pior das situações podia os impedir de presenciarem a estreia do mais novo herói.
Na frente de Anne, dois pequenos visores mostravam-na o que falar, enquanto quatro câmeras de televisão junto de operadores de câmera a gravavam. Atrás dela, nas paredes, existe uma escultura de mármore enorme apresentando os heróis que já passaram pela empresa, além de ter também alguns pilares gigantes decorativos na diagonal, tanto na frente dela, quanto atrás de Anne.
Tudo no local era exageradamente grande, desde os bancos até o palco, que é fortemente decorado com vidros, esculturas, panos, e outros itens de luxo.
— Senhora e senhores, é um prazer dizer que em poucos minutos, anunciaremos o novo herói que fará parte da Kyght de Manhattan! – Anne gritou, fazendo o público gritar alegremente junto – Como sabemos, todos os dias a criminalidade na América vem aumentando. Dezenas de pessoas estão morrendo ou perdendo seus familiares por conta de outras pessoas ruins, e isso é inaceitável.
Os departamentos de polícia já não conseguem dar conta de tantos casos, então, a Kyght veio aqui para ajudar vocês! Nossos heróis são os ideais para proteger a nossa nação e a família americana.
Não é novidade que as empresas Kyght, e principalmente, a Kyght de Manhattan, bate os recordes de proteção e valorização as leis todos os anos, ficando acima de todos os departamentos de polícia que existem no nosso país.
Vocês podem contar conosco sempre para salvarmos as crianças do amanhã e as famílias da América! Tanto da criminalidade, quanto de qualquer outra maldade do mundo.
Comandando suas equipes, Liberdade, e outros líderes de outras equipes Kyght ao redor do país garantem que os seus super-poderes vão levar o nosso país as alturas, assim como já está levando.
A economia da América nunca funcionou tão bem desde que a primeira equipe Kyght se formou, no caso, a nossa equipe: a Kyght de Manhattan.
No momento atual, é uma ideia brilhante investirmos em nossos super-heróis, que sempre arriscam as próprias vidas para caminharmos em direção a uma nação sem crime, com justiça, com muito amor, e cheia de esperança!
Que Deus salve a américa! Que a Kyght salve a américa!
Só essas palavras já foram suficientes para fazer o público gritar como nunca haviam gritado antes. Estavam ansiosos para a revelação, que embora o público de fora já havia visto quem era, o pessoal de dentro ainda não sabia.
A trend principal do Twitter era #KyghtNewHero, onde internautas debatiam sobre o novo herói que logo seria mostrado ao mundo, criando teorias, falando probabilidades, levantando a hashtag, entre outros.
Os canais de televisão já estavam transmitindo ao vivo para todo o mundo o que estava ocorrendo lá dentro. Dentro de suas casas, pessoas ao redor do globo ajeitavam-se em suas salas.
Hiroshi Honda (Gravidade) — Corredores do estúdio.
— Por aqui, Hiroshi, precisamos te maquiar ainda – Apressou-se Marilyn, enquanto praticamente empurrava Hiroshi para o seu camarim.
Os dois estavam dentro do local, onde várias pessoas saiam e entravam de porta em porta, e alguns chegavam até a correr pelos corredores cheios de papeladas e outras coisas importantes.
Os pertences de Hiroshi foram deixados dentro do carro, para que assim, os seguranças pudessem os levar para o quarto do menino dentro do prédio da empresa.
Aquele estúdio da Kyght tem a finalidade principal de apresentar discursos ao público, então, era frequentemente usado pela empresa, embora não fosse o principal estúdio deles, pois, veja bem: o estúdio principal ficava no prédio da Kyght.
O lugar tinha o branco como cor principal. Tendo uma infraestrutura ótima, contando com diversas coisas relacionadas aos heróis, o estúdio era de se causar inveja a qualquer outra empresa.
A primeira coisa que japonês avistou quando entrou no lugar foram os diversos camarins de pessoas realmente importantes da empresa, incluindo, os de alguns heróis. Aliás, Marilyn estava levando Hiroshi justamente para seu camarim, que no caso, é o antigo camarim de seu irmão. No momento em que eles chegaram, dois funcionários estavam retirando o nome do falecido herói da Kyght da porta e botando o de Gravidade, o que deixou o garoto um pouco desconfortável.
— Este é seu novo camarim nesse estúdio da Kyght, Hiroshi – Disse Marilyn.
— Aaah sim...muito legal – Hiroshi respondeu um pouco desanimado.
— Que desanimo, aconteceu alguma coisa? – Indagou Marilyn, olhando friamente bem em direção aos olhos de Hiroshi
— Não, não aconteceu nada. – Hiroshi mudou a sua expressão facial para uma mais alegre, disfarçando sobre não ter acontecido nada — Enfim, o que devo fazer agora? – Ele perguntou.
— Bem, agora alguns dos nossos maquiadores vão te maquiar para que você possa aparecer para todo o público.
— Entendo.
— E depois disso, talvez um funcionário nosso vai querer recolher algumas informações sua. Inclusive, você trouxe o resultado do exame de sangue e seus documentos, assim como havíamos pedido no e-mail, certo?
— Sim, eu trouxe sim.
— Eles estão dentro das suas malas?
— Sim, isso mesmo.
— Sem problemas então -Marilyn deu um sorriso simpático, deu um tapinha no ombro esquerdo de Hiroshi, e foi-se embora, o deixando sozinho na frente daquela porta branca de seu camarim.
Hiroshi botou uma das mãos na maçaneta para abri-la e entrar dentro do camarim, mas, assim que ele girou a maçaneta, abrindo a porta, Marilyn parou de andar, e de costas para o menino, disse:
— E Hiroshi, é melhor não ir se apresentar com um rosto triste, ou senão, teremos que tomar algumas pequenas providências.
Aquilo foi o suficiente para que Hiroshi se estremecesse. O que Marilyn quis dizer com "providências"? Ela estava querendo controlar a forma em que Hiroshi devia se sentir diante a público? De qualquer forma, essa fala dela não soou nada bem, fazendo com que o menino ficasse com medo do que estava por vir.
Mesmo sabendo que ela não estava o vendo por estar de costas, Hiroshi acenou com a cabeça e entrou rapidamente dentro do camarim.
O camarim de Hiroshi – e antigo camarim do seu irmão – era pequeno e principalmente branco. Contém alguns itens decorativos (como quadros, objetos, prateleiras, entre outros), um belo chão de madeira, poltronas nos cantos das paredes, plantas ao lado das poltronas, uma exagerada iluminação (lâmpadas luxuosas tanto no teto, quanto na parede a até mesmo no chão), e o principal: um grande espelho que cobria a metade horizontal de uma parede, junto de uma bancada pregada na parede, abaixo do espelho, e também, obviamente tinha uma cadeira para Hiroshi se sentar.
Assim que Hiroshi entrou completamente no camarim, um alguém — até agora desconhecido -chamou por ele, usufruindo de uma voz angelical e ao mesmo tempo, "descolada".
— Gravidade! Estava te esperando. – Disse a pessoa, enquanto estava sentada de pernas abertas em cima da bancada do camarim e com o um celular na mão direita.
— Ma-maquiadora? – Hiroshi perguntou surpreso – quanto tempo eu não te vejo! Meu deus, co-como você "tá"? O que você está fazendo aqui?!
A pessoa que estava dentro do camarim de Hiroshi é uma amiga de longa data do garoto. Maquiadora é seu nome de super heroína, ela faz parte da Kyght da Califórnia, mas, as vezes cumpre alguns bicos em outras sedes da empresa.
— Eu "tô" ótima! – Maquiadora desceu de onde estava e se aproximou de Hiroshi, dando um forte abraço nele – a Kyght de Manhattan me chamou para fazer uma maquiagem especial para ti! Você realmente tem que aparecer com uma boa cara. – Completou ela, soltando-se de Hiroshi.
— Ai, minhas costas – O jovem botou a mão próximo a coluna e esticou as costas, que estavam doendo após o abraço de sua velha amiga – Eu imagino, Marilyn estava falando comigo sobre aparecer com uma boa aparência.
— Aquela velha patricinha? Nem a conheço, mas já sei que ela é uma chata! – Maquiadora riu escandalosamente, enquanto dava tapinhas no ombro de Hiroshi e tentava cobrir as gargalhadas com a outra mão – Mas então, que bom que você conseguiu uma vaga justo nessa Kyght! – Disse ela, controlando as próprias risadas – seu irmão estaria orgulhoso.
— Eu acho que sim, tudo isso é por ele também.
— É... Eu imagino – A garota olhou para baixo por alguns segundos, botando as próprias mãos na cintura, e então, pouco tempo depois, voltou a fixar seus olhos em direção ao rosto de Hiroshi – Enfim, vamos lá fazer sua maquiagem?
— Você quem vai fazer? Que demais! Vamos lá! Só não tente usar seus poderes em mim, hehe.
— Naaah, que isso – Maquiadora olhou de lado e abanou as mãos – Prometo não usar meus poderes, você sabe o que aconteceu daquela última vez, haha – Riu a garota um pouco envergonhada — E bem, uma equipe de maquiadores vão te ajudar hoje, então eu vou poder me controlar!
— Uma equipe?
— Isso mesmo! – Respondeu ela, dando pequenas palminhas com as mãos, o que fez que muita gente entrasse dentro do camarim de repente – Senta aí, Hiroshi! Você vai sair daqui lindo! – Disse a super-heroína, empurrando Hiroshi e o sentando na cadeira.
— O que? O que "tá" acontecendo? – Perguntou ele, olhando confuso para os lados e tentando se levantar da cadeira, mas, sem sucesso.
— Essa é minha equipe de maquiadores, eles vão me ajudar a te deixar mais lindo do que já é!
— Olha...por favor, só não estrague meu cabelo, e tome cuidado com essas maquiagens!
— Não estou te ouvindo! – Maquiadora tirou um pincel de rosto do bolso de sua calça – é hora do show!
— Ei, você disse que não ia usar seus pode...
— Xiiu! Caladinho aí! – Disse a menina enquanto esfregava freneticamente o pincel no rosto do jovem, o interrompendo.
Passando o pincel de um lado do outro, Maquiadora fez uma análise perfeita sobre o rosto de Hiroshi, conseguindo perceber os pontos ruins do garoto, os maus hábitos de cuidado de pele que ele está tomando, a péssima saúde que ele tem, e entre outros diagnósticos que ela conseguiu arrancar dele apenas com o pincel.
— Temos uns probleminhas aqui, preciso da ajuda de vocês, pessoal! – Maquiadora olhou para a sua equipe, indicando que precisava da ajuda deles.
De pouco a pouco, os seis ajudantes que lá se encontravam praticamente viraram Hiroshi do avesso, tirando as roupas do menino contra a vontade dele e passando produtos de maquiagem em partes que ninguém poderia reparar. Ele tinha que sair daquele camarim parecendo um deus grego.
Embora não estivesse gostando da situação, Hiroshi não resistiu, pois, confiava que sua amiga e a equipe de maquiagem dela estava fazendo um trabalho para o bem dele.
Os procurados (Naomi, Norman, Yumi e Hayato) — Quarto da Naomi.
Os amigos de Hiroshi mais uma vez se encontraram no quarto de Naomi, para que assim, pudessem ver juntos a apresentação dele na Kyght. Embora que Nana não tivesse uma televisão em seu quarto, ela podia assistir qualquer canal televisivo por meio de seu computador.
Naomi e Norman estavam felizes e ainda surpresos com tudo o que aconteceu, Hayato estava furioso por Hiroshi ter se submetido a fazer parte dessa empresa, e Yumi não esboçava reação alguma.
Todos os quatro estavam bem pertos do computador de Naomi, sendo que: a dona do quarto estava sentada na cadeira de seu setup, e os outros estavam sentados na cama enquanto olhavam em direção ao monitor.
— Quando é que ele vai entrar? Que demora... – Yumi disse bocejando.
— Fica tranquila, Yumi – Norman respondeu – Logo logo ele aparece.
— Aposto que a lavagem cerebral dele já está começando...- Hayato disse, emitindo uma onda de ódio pelo quarto – esses merdinhas da Kyght são horríveis!
— Lavagem cerebral? – Indagou Naomi, com um olhar curioso para o menino.
— É! Sei lá...E se fizerem algo de ruim com ele? E se alguém estuprar ele? Sabia que meninos também são estuprados?
— Que?
— Você acha mesmo que o Hiroshi, um super-herói, deixaria alguém o estuprar? – Perguntou Yumi, debochando da situação
— Sim! É assim que a lavagem cerebral começa! Tiram as roupas dele e o abusam para realizarem experimentos! – Hayato afirmou, furioso.
— Cara, você precisa passar menos tempo olhando essas teorias da conspiração da internet – Naomi disse, chocando-se ao ter ouvido tanta merda saindo da boca de seu amigo – É claro que a Kyght é ruim, todos nós concordamos com isso...mas não fariam nada relacionado a isso. Se for para realizar uma lavagem cerebral nele, vai ser com palavras e manipulações.
— Então você concorda que tem uma lavagem cerebral acontecendo?!
— Olha, só não acredita em tudo que vê na internet. De onde você tirou essa paranoia?
— De um site bastante confiável.
— Qual o site?
— euodeioakyght.co.jp
— Meu deus.
Hayato sempre agiu de forma muito culta, sendo extremamente calado, sério, e responsável; mas, quando via um amigo em uma situação que poderia ser de risco dentro dos conceitos dele, ele se preocupava intensamente, ficando infantil, inquieto, ofegante, e até mesmo, descontrolado dependendo do grau de perigo em que as circunstâncias estavam.
— Eu fico me perguntando: o que será que Hiroshi está fazendo agora? – Norman murmurou, botando a mão em seu queixo e olhando para o mesmo boneco Funko Pop no qual estava observando anteriormente.
Hiroshi Honda (Gravidade) — Camarim do Hiroshi.
— É, acabamos por hoje, bonitão! – Maquiadora disse, dando um tapa forte na parte de trás dos ombros de Hiroshi enquanto a equipe dela se retirava.
— Você me embonecou todo! Meu corpo todo está doendo! – Reclamou Hiroshi – você me prometeu que não ia usar seus poderes!
— Para de ser chato, vovô. Só usei uma parte deles.
— Me sinto violado.
— Aaaah, pelo amor! – Maquiadora ofegou enquanto revirava os olhos – é para o seu próprio bem, acredite em mim.
— Fazer o que, né? – Hiroshi levantou-se de sua cadeira, ficando de pé para Maquiadora – de qualquer forma, muito obrigado pelo serviço – Hiroshi curvou-se, indicando que estava agradecido pelo trabalho.
— Não fiz mais do que minha obrigação – Maquiadora cruzou os próprios braços – mas, fico feliz que tenha gostado.
— Você sabe o que vai acontecer agora? – Disse o jovem, descurvando-se e olhando para a menina.
— É agora que a melhor parte da sua vida começa, amigo! Vai ser tudo incrível, eu te prometo.
— Assim eu espero! Estou tão empolgado! – Hiroshi quase saltou de alegria, mudando rapidamente o seu comportamento para um mais alegre.
— Mas assim, Hiro, se precisar de qualquer coisa, sabe que pode contar comigo, né? Não deixarei que ninguém machuque você.
— Pode deixar! Sabe que sou forte, sou um super-herói agora!
— Fofinho...- Maquiadora disse, acariciando o cabelo de Hiroshi e sorrindo para ele – De qualquer forma, se precisar de ajuda, pegue isso – A garota tirou um pequeno espelho de maquiagem do bolso, e o entregou nas mãos do jovem japonês.
— Um espelho?
— Sim, se você precisar da minha ajuda para algo realmente importante, apenas abra ele e eu irei poder ver o que está acontecendo e onde você está, como uma câmera! Dessa forma, eu vou dar um jeito de ir até a sua localização e te ajudar.
— E desde quando você sabe fazer coisas assim? – Hiroshi disse, botando o espelho dentro do apertado bolso de seu uniforme.
— É só um item de suporte, hehe. Mas enfim, você tem que ir agora Hiroshi, boa sorte!
— Certo, muito obrigado! – Hiroshi curvou-se e descurvou-se mais uma vez – e diga para o Psíquico que eu mandei um oi! – Disse ele enquanto saia da sala.
Os poderes da Maquiadora são relacionados a produtos de maquiagem. Antigamente, ela acreditava que seus poderes podiam apenas realizar análises do corpo das pessoas com a ajuda de um pincel de rosto, mas, com o passar do tempo, descobriu que pode fazer muito mais, como: realizar transformações em pessoas e objetos, manipular o pó da maquiagem, tornando-o tóxico, ficar invisível, seduzir qualquer um com a ajuda de um batom, entre outros.
Caminhando alegremente até o local, Hiroshi deu um sorriso de orelha a orelha, simbolizando sua felicidade imensa no momento. Reencontrar sua amiga de longa data, Maquiadora, fez com que o garoto ficasse menos tenso, e muito ansioso.
Por outro lado, pensar na tamanha responsabilidade que ele vai ter que carregar, a boa primeira impressão que terá de dar, e das pessoas que o intimidam, como a Marilyn, o deixava um pouco negativo. Por sorte, isso não é forte o suficiente para o impedir de seguir seu caminho.
Mais alguns metros e Hiroshi finalmente chegaria no local. Seu rosto não transbordava um pingo de suor, mesmo que o local estivesse praticamente "pegando fogo", tudo graças a maquiagem que sua amiga, junto de sua equipe de maquiadores, fez nele. Toda aquela "transformação" deixou o garoto parecendo um anjo enviado por Deus.
A Kyght preza por uma boa aparência. Tristeza, feiura, má postura, ou qualquer coisa relacionada é algo que o povo de fora da empresa não pode presenciar. Parece até que os funcionários são robôs, o que é um pouco triste.
Virando os corredores e entrando em diversos portões daquele estúdio, Hiroshi tentava achar o local correto, e embora fosse difícil de encontrar, toda a caminhada confusa não estressava o menino. Quando de repente, uma voz firme e grossa o chamou de dentro de uma sala nada chamativa.
— Ei, Gravidade! Pode vir aqui, por favor? – Dizia um majestoso homem, na sala do corredor onde Hiroshi estava passando.
Olhando para os dois lados, se perguntando se aquela pessoa chamava realmente por ele, o menino entrou na sala confuso.
Aquela lugar parecia muito com um consultório médico, embora não fosse. O ar era gelado, e quase tudo era da cor branca, incluindo algumas samambaias que lá estavam.
Sentado numa cadeira de escritório branca que estava atrás de um balcão também branco, o homem continuou:
— Muito prazer, eu sou o doutor Beltort – Ele estendeu sua mão.
Beltort é um homem muito pálido e um tanto quanto velho, tendo em torno de 51 anos, mas, ainda assim é bem bonito e conservado. Ele usa um jaleco branco o tempo todo, junto de um glamuroso óculos também branco, e, conta também com sua principal característica, que não é nada mais e nada menos do que seu cabelo acinzentado "lambido". Embora ele seja garanhão, o cabelo de sua cabeça é motivo de gozação para os funcionários da Kyght, pois, não combina nada com ele, e é ridículo.
— Ah...Prazer, eu sou o... — Hiroshi aproximou-se dele para o cumprimentar, e quando estava quase completando sua fala, Beltort o interrompeu.
— Eu sei quem você é, Gravidade, não se preocupe – Dando um sorriso, Beltort soltou a mão de Hiroshi, e botou a própria sobre a mesa – Você deve estar se perguntando o por que eu te chamei aqui, certo?
— Na verdade, sim. – Hiroshi respondeu, sentando-se numa cadeira que estava em frente a balcão da sala.
— É claro que sim, eu sei disso porque eu li a sua mente. – Beltort riu, desviando o olhar de Hiroshi – e agora está pensando se eu tenho algum poder, não é? Clássico...
— ... – Hiroshi calou-se, analisando o homem com os olhos cerrados.
Por um momento, Beltort se calou. Também cerrando os olhos, ele se aproximou de Hiroshi e com a cabeça um pouco curvada, questionou:
— Por que está pensando em invadir a Alemanha e acasalar com três golfinhos?
— O que? – Hiroshi perguntou assustado.
— Haha, "tô" só brincando – Riu novamente, voltando a posição original – De qualquer forma, Gravidade, não vim aqui para bajular meus equipamentos...E sim, se você está pensando sobre eu usar algum equipamento para ler a sua mente, — e realmente ele está — eu estou sim. Acontece que: eu era o chefe do departamento de itens de suporte da Kyght de Manhattan. Eu trabalhava desenvolvendo itens para os super-heróis.
Infelizmente, agora eu sou só mais um executivo que resolve algumas papeladas e esses assuntos chatos.
— Itens de suporte? – Hiroshi indagou, lembrando do que Maquiadora disse pouco tempo atrás sobre o espelho.
— Isso mesmo! Sabe aquelas pequenas caixas de som que o Som na Caixa usava antigamente?
— Sei sim, elas eram incríveis!
— Eu que fabriquei!
— Sério?! – Hiroshi se empolgou quando ouviu aquilo – Que demais!
Antigamente, alguns heróis da Kyght de Manhattan usavam alguns equipamentos de suporte que os ajudavam na batalha, e embora fizessem muito sucesso, ninguém sabia quem havia fabricado aquilo.
— Fico feliz que pelo menos você ainda se empolgue com aquelas tralhas, todavia, como mais um executivo mané, hoje eu estou aqui para falar contigo sobre sua admissão na Kyght. Ainda tem tempo de desistir, sabe, Hiroshi? Você tem certeza de que quer ingressar na nossa equipe?
— Absoluta certeza!
— Entendo...Seu irmão era igualzinho a você – Beltort ajeitou os óculos – Antes de você entrar naquele palco e se apresentar, precisamos conversar sobre o contrato e condutas da empresa, espero que você esteja realmente disposto.
— Sem problemas, eu estou.
— Ok, então! Me parece confiante, Gravidade, eu gosto disso! – Beltort levantou-se de sua cadeira, e então, caminhou lentamente até a porta de seu escritório, até que, a fechou – Isso pode ser longo...
"Não seja tão ingênuo, Hiroshi."
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