Kurt, Interrompido

10 Meu diagnóstico.


Notas iniciais
Estou tao feliz pelos comentarios *-* obrigada gente.

Sou acordado sendo chacoalhado por Wes. A luz da manha fere minhas retinas. Cubro o rosto com o lençol.

“Princesa Hummel. Hora de tomar café.” Wes cantarola pra mim.

“Vai à merda.” Enterro a cara no travesseiro.

“Voce é quem sabe. Blaine ia fazer um discurso e planejar a nossa revisão de prontuários esta noite. Mas se quiser ficar ai...”

Me sento na cama. Meu corpo embalado com o cobertor. Só então que me lembro de Blaine dormindo na mesma cama que a minha. Um sentimento de solidão abate meu espirito.

“Revisão de prontuários?” Apenas meus olhos são visíveis através do buraco do cobertor que me cobre inteiro. Como uma burca.

“A Dra. Sylvester guarda os diagnósticos na sala dela. Vamos invadir esta noite.” Ele sorri orgulhoso.

“O que mais vocês fazem além de matar canários e invadir salas?” Wes não parece entender a minha ironia, talvez mentirosos compulsivos não consigam enxergar esses tipos de linguagem. Ou talvez o Wes seja um lesado simplesmente.

“Como assim?” Ele diz, juntando as sobrancelhas.

“Nada. Esquece. Estarei lá em um minuto.” Wes acena a cabeça e sai.

De fato, foram 20 minutos me preparando para ir ver Blaine. Escolhi um agasalho diferente hoje. Já que o outro estava servindo de cova temporária para Pavarotti. Sem contar que o cheiro pútrido começaria a infestar todo o tecido, depois todo o dormitório, todo o hospital.

Finjo estar cansado de tanto correr quando chego ao refeitório. Todos menos Blaine e Jeff parecem chateados pelo meu atraso. Isso porque Blaine se recusou a começar o discurso sem minha presença. Ele empurra um prato de cereais e torrada com geleia para mim. Começo a come enquanto ele fala.

O plano não parece muito convincente ao principio. Mas se tinha alguém neste hospício que sabia como bolar estratégias. Esse alguém era Blaine.

Essa frase soaria muito mais estranha se eu falasse em voz alta. Algo que não vou fazer mesmo.

O plano consiste em basicamente irmos pelo porão do Hospital. Nunca estive lá mas pelo que escutei, é por lá que Blaine costuma fugir. Todos topamos a ideia, animados.

“Visita para Kurt Hummel.” A voz entediante da enfermeira corta nossas risadinhas e gritos de comemoração.

Meu coração parece cair por alguns segundos. David me empurra em direção ao corredor e Blaine me da um sorriso tímido. Wes grita:

“Vai nessa, Hummel! Sabia que tinha alguém que gostava de você o suficiente para vir neste pedaço de inferno.”

Sorrio um pouco. Porque o que ele diz é verdade, em algum ponto. Tem alguém que se deu ao trabalho de vir aqui me ver, mesmo depois de tudo o que eu fiz e disse, ainda gostam de mim.

Meu pai esta mais pançudo desde a ultima vez que o vi, algumas rugas a mais. Não fazia pouco mais de um mês que estava aqui e ele já estava tão mudado. Carole estava ao seu lado, radiante e sorridente como sempre que estava ao lado de meu pai.

Ele me abraça forte. Sinto o cheiro de hambúrguer e graxa de carro.

“Olha so pra você, Kurtie. Cresceu bastante.”

Tento ignorar esse comentário inteiro, principalmente pelo fato de ele não me chamar Kurtie desde que a minha mãe morreu. Carole me abraça também.

“Por que vocês estão aqui?” Minha voz é fria e imperdoável. Não consigo conter o rancor nas veias.

“Você é o meu filho, Kurt. É obvio por estamos aqui.”

“Para cuspir na minha cara? Porque você já fez isso antes, na verdade, você fiz isso quando me mandou aquele palhaço de dermatologista e eu confiei em você! Confiei em você e você me mandou para este lugar. Como se eu não funcionasse direito aqui!” Aperto a minha têmpora com o indicador, os nervos a flor da pele.

“Você quase morreu. Kurt! Quase perdi a outra pessoa com quem mais me importava no mundo. Você realmente achou que seria negligente o bastante para não buscar ajuda profissional?”

“Eu realmente achei que podia confiar em você! Que você acreditaria em mim quando digo que estou bem!” Grito com forca nas ultimas três palavras. Saliva voando da minha boca e atingindo meu pai. Desejo que ele pegue a minha doença mental pelo contagio de saliva, quero mesmo.

“Por favor querido, se acalme!” Carole pega a minha mão na sua, esquentando meus dedos gelados. Uma das enfermeiras presta atenção no movimento entre nos três, como se detectasse ameaça da minha parte.

“Estou preso aqui por 3 anos, Carol! Calma nada.” Meu pai me repreende pelo tom usado com Carole, mas não me intimido.

“Dependendo de seu diagnostico e da opinião do psiquiatra. Você pode sair em um ano! Apenas um!” Ele agarra meus ombros e me chacoalha, como Wes me chacoalhou no inicio da manha.

“Vou perder um ano inteiro da minha vida, isso não é algo bom!”

“Você podia ter perdido a sua vida inteira! Kurt, você precisa mesmo disto!”

“Acho melhor vocês irem embora.” Digo, com todo o ar que me resta. Permaneço firme diante da reação deles. Se eles perderam uma hora dirigindo ate aqui e outra hora pra voltar, problema deles!

Não acontece muito depois disso. Volto ao meu dormitório, minha pele podia derreter com o calor da raiva borbulhando dentro de mim. Poderia me desintegrar bem nesta cama na qual Blaine dormira comigo. Podia ser só um liquido de pele e vísceras agora.

Blaine e Wes entram no dormitório e me vem na cama, calado.

“Sua visita já foi embora, Kurt?” Blaine se senta do meu lado e Wes a minha frente. O olhar preocupado deles me corta inteiro, a raiva tomada pela vergonha.

“Era meu pai e minha madrasta. Expulsei eles daqui.”

“Que legal. Faço o mesmo com minha família também.” Diz Wes, Blaine continua calado, apenas olhando, a sua reprovação me aborrece.

“Fui grosso demais. Não sei por que isso sempre acontece comigo. Quando me dou conta, já estou machucando todo mundo que gosta de mim.”

O pior de tudo é saber que se eles nunca voltarem aqui, a culpa vai ser de ninguém além de minha, como eles podem gostar de mim sendo tão cretino?

Blaine acaricia minha mão por debaixo do cobertor, assim Wes não pode ver. É como se fossemos só nos dois naquele quarto, nada de Wes.

“Ainda vem conosco pra invadir a sala da Dra.Sylvester?” Pela primeira vez, Blaine se dirige a mim.

“Preciso saber meu diagnostico. Estou dentro.”

Que tipo de doença me faria sair daqui em um ano e qual me faria sair em mais de três? Alguma coisa me deixaria para sempre aqui, como Jeff?

Quando chega de noite, estou tão quieto no quarto na hora da revisão das enfermeiras antes de dormir. É então que os Warblers vem ate o nosso quarto, todos de pijamas.

Os pijamas da Dalton eram basicamente camiseta e calca e não variava de cor, azul claro.

Vamos todos na ponta dos pés, contendo as risadinhas, nos esquivando das enfermeiras.

Somos demais.

Me sinto em algum tipo de missão, sinto que estou vencendo.

Blaine nos guia pelo porão, depois subimos po uma passagem ate o Bloco D, onde ficava a sala da Sylvester. Nunca a vi antes daquela noite, mas o que eu ouvia era apenas coisa ruim, não queria me meter em problemas com ela.

Não podemos ligar nenhuma luz. Estamos todos tropeçando e caindo uns nos outros, achamos a sala com dois sofás enormes e nos jogamos lá. Hunter e Blaine começam a ver os arquivos.

“That!” Blaine finge a voz entediada e arrogante de uma das professoras. Todos rimos.

“Jeff! Sebastian! David! Kurt!” Ele continua, todos vamos por vez pegar nossos diagnósticos, meus pés mal tocam no chão de ansiedade.

“Wes! Austin!” Blaine acaba de distribuir os prontuários e começamos a ler.

Eu acho que nunca tomei um susto tao grande em minha vida.

–--------------------------------------------------------------------------------

Hospital Dalton

Paciente: Kurt Elizabeth Hummel

Idade: 19

Estado civil: 0

Numero de filhos: 0

Encaminhado pelo Dr. Hapburn, o paciente apresenta não apenas indícios de depressão, mas grandes acessos de raiva que as vezes o torna incontrolável. Observamos a necessidade de permanecer em grupo, escolhendo alguns pacientes peculiares.

As mudanças de humor e as atitudes autodestrutivas, com vida mudando sempre de foco. Me levam a crer que não se trate de uma simples depressão. O psiquiatra do bloco B do hospital concorda comigo, isto se trata de um desordem de personalidade boderline limítrofe. Nos dois acreditamos, que para o bem do paciente o melhor seja transladá-lo para o bloco C.

–-------------------------------------------------------------------------------

Sinto que vou vomitar, ou que vou quebrar algum vaso desta sala. Cubro a boca com a mao e fico ali, encarando o papel. Distúrbio de personalidade?

“Vai se danar, Sylvester.” Comenta Sebastian, sentado na mesa. “Estou a um passo de ser mandado para o bloco A. Não é possível.”

“Vou ficar no bloco C por mais tempo.” Diz Blaine. O peso no meu coração diminui porque vou ficar no mesmo bloco dele.

“Bom, pra mim só saiu merda aqui.” Diz Hunter, fechando o prontuário dele e jogando de volta na prateleira. “Queria poder queimar tudo isso.”

Permanecemos calados, absorvendo a ideia, seria possível que me diagnosticassem com algo mais leve se este arquivo sumisse? Espio por cima do ombro de Jeff e la vejo um menininho loiro e feliz abraçado de sua mãe. Me sinto pior.

Ao voltar pros dormitórios, não faco nada além de me jogar na cama e encarar o teto. Isso foi como receber algum aviso que minha vida acabou, ou que preciso passar o resto dela em alguma cadeira de rodas ou usando muletas.

Sinto o peso do colchão afundando. Blaine se deitando comigo novamente.

“Você vai dormir aqui todas as noites?” Pergunto.

“Nah. Só quando você estiver deitado aqui também.” Ele apoia a cabeça no meu ombro. Sinto a necessidade de desabafar.

“Me mudaram para o bloco C” Não consigo encarar ele nos olhos pra dizer isso. Ele parece não saber o que dizer, como se tivesse sido pego de surpresa.

“Sinto muito.” É tudo que ele é capaz de dizer, e é tudo o que preciso ouvir no momento.

“Pavarotti esta apodrecendo no meu casaco.” Comento, querendo desviar a minha atenção para outra coisa.

“Quer ajuda com o caixão?”

“Não, não. Arranjo sozinho.”

Seu hálito faz cocegas no meu pescoço. O sono consegue chegar, mas não quero dormir, sinto que preciso ficar acordado.

Quando ver a Dra. Sylvester, vou jogar vísceras de Pavarotti nela.