Notas iniciais
Olá, pessoal, tudo bem? Vim postar mais um capítulo da fanfic. Por pouco esqueci: estou meio atarefada ultimamente e cansada. Porém, não se preocupem que não os deixarei na mão. :3
Boa leitura.

Eu estava deitado em meio a clareia coberta de neve. Nevava mansamente e os flocos gélidos acumulavam-se sobre mim, porém eu continuava imóvel. Meus olhos se mantinham no céu escuro. Poderia ficar daquela forma para sempre se fosse possível, afinal eu não morreria não de uma forma tão fácil e humana... Infelizmente.

Depois de discutir com Elizabeth, me senti terrivelmente culpado por não ter me controlado. Embora soubesse que fosse normal me comportar daquela forma por um by Savings Sidekick\" href=\"http://animespirit.com.br/fanfics/historia/fanfiction-animes-kuroshitsuji-kurohanayome-400894/capitulo9\">tempo, a voz embargada dela e sua expressão triste haviam se agarrado firmemente a minha mente. Aquela discussão me lembrou vagamente do dia que tínhamos doze anos e quase a bati por ter pegado meu anel.

Doze anos...

Agora eu estava congelado naquela forma infantil, enquanto ela envelhecia. A verdade era que eu podia ficar na forma que desejasse, tanto que estava infiltrado entre os humanos com o aspecto de um jovem rapaz, mas continuava preso em minha idade antiga. Aliás, eu vivia me disfarçando tanto naquela forma quase adulta que me esquecia disso.

Só que deitei sobre a grama congelada sem “disfarce” algum: um corpo pequeno e frágil perdido na imensidão branca. Para ser mais exato, um corpo pequeno e de aparência frágil que, aos poucos, ganhava características demoníacas: de acordo com Sebastian, essa transição de personalidade e aparência demoraria mais alguns anos até estarem completas e, finalmente, eu me tornar alguém como ele.

De repente, escutei a voz de Lizzy ecoando em minha mente, mas, dessa vez, ela rezava por mim. Sorri de lado e, olhando para cima, murmurei:

-Você não desiste, não é?

Nós tínhamos uma estranha ligação, de fato. Escutar seus murmúrios me fez reparar que ela estava tão desesperada quanto qualquer um e era por nada: eu voltaria em breve para a mansão, só precisava ficar um pouco sozinho. Mesmo estando seguro que eu voltaria, a agonia imposta na voz dela me fez por as mãos sobre os ouvidos inutilmente, não querendo ouvi-la. Mesmo que Sebastian dissesse que ela era apenas uma mortal, eu sentia algo muito forte fluindo da alma de Elizabeth.

Então, outra voz me chamou e, dessa vez, o som vibrou pelos meus ouvidos:

-Conde.

Reconheci o timbre e respondi sem olhar para a pessoa recém chegada:

-O que houve, Undertaker?

Ele se aproximou com um tom inconformado:

-Precisa acontecer alguma coisa para eu aparecer?

Me levantei da neve e voltei o corpo para frente:

-Geralmente, você aparece nesses momentos.

Ele riu, erguendo um dedo e deslizando na bochecha:

-De fato. Bem, admito que aconteceu uma coisa para me dar um empurrãozinho a fim de te procurar...

Eu ri e murmurei:

-Previsível. – me levantei e caminhei na direção dele.

-Você parece que encolheu. – ele brincou com a minha aparência.

Neste momento, me transformei na versão mais velha. Ele sorriu erguendo um polegar:

-Agora sim está “à minha altura”.

-Chega de piadinhas, o que aconteceu? – eu fui direto.

Ele virou-se de lado e fez um movimento com o ombro:

-Me acompanhe, por favor.

Parou de nevar e fomos caminhando entre as árvores. Ele subiu em uma e me chamou para acompanhá-lo na escalada. Nos galhos mais altos era possível ter uma visão mais ampla da floresta. Então, o shinigami apontou para o norte e disse:

-Temos visitantes inusitados nessa época do ano.

Ao avistar dois cães infernais ao longe brigando pelo corpo de um cervo, arregalei os olhos e reparei que corri o risco de me encrencar, pois eu não tinha forças o suficiente para derrotar um. Disse por baixo do fôlego, olhando para Undertaker:

-Quem os soltou?

Ele perguntou retórico:

-Você não faz ideia, Conde?

Olhei novamente para frente e resmunguei:

-Aquele maldito...

Charlie devia ter encenado que havia se ferido gravemente, apenas para nos deixar com espírito tranquilo e despercebido.

-O pior é que ontem tivemos que recolher algumas almas de uma família de nobres devido ao ataque desses animais. Lamento informar, mas eram conhecidos seus, pelo menos quando o senhor era “vivo”. – ele me informou. Passou a franja para trás da orelha e me encarou: — De fato, nós shinigamis devemos nos encarregar de recolher as almas, mas quem tem responsabilidade pelos cães do inferno não somos nós.

Balancei a cabeça:

-Entendi. Eu voltarei para a mansão e cuidarei disso.

Somente anjos e demônios tinham forças o suficiente para comandar Cérberos. Quando um dos dois tomava o controle desses animais, apenas ele mesmo poderia fazê-los voltar às profundezas. Se eu e Sebastian tínhamos que detê-los, seria de uma forma violenta.

-Jovem mestre! – Meirin veio correndo em minha direção.

Havia voltado a nevar e já estava escurecendo. Bard e Finny estavam logo atrás dela, me perguntando se eu havia me machucado ou trombado com um dos cães.

-Que bom que está de volta, mestre. – Sebastian dirigiu-se a mim quando subimos as escadas e chegamos à porta.

Eu franzi as sobrancelhas e dei os ombros:

-Eu não fugi, entenderam? Aliás... – olhei para os lados e perguntei já presumindo o que tinha ocorrido. – Onde está Elizabeth?

-Paula veio buscá-la. – Meirin me respondeu.

Eu balancei a cabeça e segui reto pelo corredor:

-Entendi.

Sebastian veio logo atrás e me perguntou sério:

-O que aconteceu?

-Precisei me isolar, mas agora temos problemas maiores do que isso. – parei e me virei para ele. – Há Cérberos soltos pela Inglaterra.

-Sim, eu identifiquei isso há um tempo. – meu mordomo demonstrou que já estava informado a respeito e, provavelmente, bem mais do que qualquer um ali. Pôs as mãos para trás e perguntou: — O que pretende fazer?

-Simplesmente, o que já estava marcado para bem antes... – eu dei as costas e fui até a porta do banheiro.

-Nós já teríamos dado um fim em Charlie aquela noite mesmo, se o senhor tivesse consentido. – Sebastian disse com uma voz vagamente enfadonha.

Olhei sobre o ombro e concordei com ironia:

-Certo, e deixar todos morrerem. – rodei a maçaneta. – Ele escapou aquela vez, mas agora é pra valer.

-Entendi. – Sebastian deu um meio sorriso. Pôs as mãos dele sobre meus ombros e disse em meu ouvido: — Precisa de ajuda para se arrumar, mestre?

-Eu não sou mais criança, Sebastian. – sacudi os ombros e retruquei.

Ele riu:

-De fato, mas eu sempre serei seu fiel mordomo. Estarei contigo até depois do fim.

Olhei para ele friamente. Ele apenas sorria de forma obscura e me encarando com ar misterioso. Respondi sem emoção:

-Eu sei.

-Eu ficarei ao seu lado... – ele enfatizou com complementos. -... Até depois de todos desse país virarem pó.

-Eu sei. – repeti sem vontade da mesma forma.

-Se eu estarei ao seu dispor eternamente, por que não sorri?

Fiz uma careta:

-O que você quer com esse interrogatório, Sebastian? Eu não quero precisar de você pra tudo.

De repente, o sorriso dele se desfez e ele disse sério:

-Entendo. Então, da mesma forma que você não precisa de alguém fiel como eu, com certeza não precisa se preocupar com aquela garota...

Cocei a cabeça impacientemente. Retruquei:

-Aquela garota é a minha prima, que, assim como muitos outros, acabei abandonando por falta de bom senso e agora estou tentando me redimir com eles e minha falecida rainha.

-Você pode não admitir, mas sinto que ela é bem mais do que um parente desamparado. – o demônio de cabelos negros apontou. – Não é a toa que vocês têm uma ligação espiritual.

-Como você sabe da ligação? – eu não me recordava de ter contado isso a ele. Apesar de que aquela conexão estava se tornando cada vez mais forte, pois eu conseguia escutar minha antiga noiva mais vezes durante o dia.

-Simplesmente, eu sei. – Sebastian não facilitava as coisas nunca. – Ela vai se intensificando com o aumento de afeto. O problema será quando você não tiver mais nada humano para oferecer a ela. Por isso eu lhe digo, mestre, se afaste daquela humana. Vocês foram separados desde o dia que seu corpo deixou de ser mortal.

-Você chega a ser extremamente ridículo falando assim. Até parece que eu a amo. Mas, escute bem, Sebastian, eu sei exatamente o que pode acontecer se ela se aproximar demais de mim. Por que você acha que a mandei se afastar de todos dessa mansão depois que cumprimos nossa missão? Não quero vê-la sofrendo, aliás vê-la chorar e gritar daquela forma já foi o suficiente para me sentir um verdadeiro lixo em não ter mais sensibilidade. Aliás, eu nunca tive isso mesmo... – involuntariamente, soquei a parede, que estrondou alto.

Enquanto os empregados que estavam longe se perguntavam o que tinha quebrado ou o que Bard havia esquecido no forno outra vez a ponto de explodir, Sebastian continuava diante de mim sem se alterar. Então, ele suspirou e disse:

-Era sobre isso que eu estava falando.

Olhei para meu punho afundado na parede. Ele continuou:

-Se você continuar se culpando pelas suas indelicadezas, vamos nos atrapalhar e não ir a lugar algum. Primeiro devemos cuidar de Charlie. Aliás, primeiro e unicamente. – ele se inclinou para frente. – Estarei à disposição caso ainda precise de mim, mestre. – ele se retirou.

Enquanto eu me despia, pensava nas palavras de Sebastian e cheguei a uma conclusão de que ele poderia estar correto em partes – nesse momento, desejei que ele não conseguisse ler a minha mente de fato. Sem querer, eu estava me permitindo ficar próximo demais de Lizzy e isso era extremamente perigoso para ela.

Meirin, Finny e Bard eram humanos que tinham particularidades que os tornavam aptos para enfrentar as coisas que eram desencadeadas por minha causa há muito tempo atrás, mas Elizabeth sempre foi uma jovem dama, que tinha mais valentia do que técnica com espadas ou qualquer outro tipo de arma. Talvez, fosse isso o que eu sentia de forte vindo dela: força de vontade de fazer o seu melhor, mesmo que suas forças físicas não fossem o bastante.

Quando sequei o cabelo, novamente a ouvi falar, mas não era comigo. Fiquei em silêncio e tentei me concentrar na voz fraca, porém eu escutava nada além de um vago murmúrio. Talvez fosse coisa da minha cabeça, afinal escutei tanto a voz dela ultimamente que poderia estar ficando ouvindo coisas que não existiam.

Todos jantaram silenciosamente e eu apenas observava. Sebastian estava ao meu lado, até que me levantei e pedi que me deixassem sozinho.

-Não está se sentindo bem? – meu mordomo perguntou.

-Preciso pensar um pouco. – respondi sem olhar para trás.

De fato, eu tinha que planejar como encontrar Charlie e rendê-lo. Encostei-me no parapeito e ergui a cabeça para observar as estrelas. A lua estava na fase nova e, com o céu mais escuro, era possível ver melhor os pontos prateados cravados nas alturas.

A conversa com Undertaker aquele dia me deixou inquieto a respeito dos planos de Charlie: será que ele tinha uma lista com os nomes para serem eliminados na ordem? Ou então...

Abaixei a cabeça. Esperei que estivesse errado, mas a outra hipótese martelava em minha mente: será que ele atacava as pessoas que podiam chamar mais a minha atenção com o objetivo de me atrair para alguma armadilha?

Com esse pensamento forte, concluí alto:

-Acho melhor garantir... – sem hesitar, saltei pela janela e corri pelo jardim.

Atravessei todo o caminho pelo escuro, sem precisar de luz ou ajuda para me recordar do trajeto. Cheguei à entrada da mansão Middleford mais rápido do que se fosse de diligência. Passei pelos cães de guarda, subi na árvore que ficava ao lado da janela do quarto de Elizabeth e passei para dentro do cômodo.

Fiquei tranquilo ao vê-la deitada adormecida na cama. Aproximei-me com cuidado e sentei no chão, olhando para seu rosto na escuridão do aposento.

-Desculpe. – sussurrei e senti que o ruído feriu o silêncio profundo do local. Pus as mãos sobre a boca e olhei assustado para ela, mas Lizzy nem se alterou.

Passaram-se algumas horas e achei melhor voltar para casa antes que houvesse outra onda de pessoas desesperadas e um mordomo de mau humor. Por mim, ficaria ao lado dela o resto da noite até ter certeza absoluta que aquele anjo maldito não a tocasse. Era um desejo egoísta, pois havia outras vidas correndo risco, mas eu sentia uma vontade imensa de ficar sentado ali como um cão de guarda.

Quando tentei me levantar, Elizabeth abriu os olhos. Achei que ela se assustaria, mas minha prima apenas estendeu o braço e me puxou de leve pelo colarinho. Murmurou com voz sonolenta:

-Fique.

-Você sabia que eu estava aqui? – perguntei perplexo, me sentando outra vez e sentindo os dedos quentinhos dela em meu pescoço.

-Na verdade, achei que você ia ficar desaparecido por um bom tempo. Fico feliz que voltou. – ela sorriu de lado. – Eu te escutei chegar, mas fingi estar dormindo para que voltasse logo para casa e, no final das contas, acabei adormecendo de verdade.

Rolei os olhos:

-Não precisava fazer isso.

-Preciso fazer isso. – ela me soltou e puxou a coberta à altura do nariz com as duas mãos. Virou-se de costas. – Peço desculpas por todo incômodo.

Levantei do chão e sentei na cama, me inclinando sobre ela e balbuciei:

-A culpa não é sua. Eu falei muita besteira, me perdoe. Apesar de que... – abaixei a cabeça e me encolhi um pouco. – De qualquer forma, estamos próximos demais.

Ela virou de barriga para cima, descobriu o rosto e me encarou perplexa:

-Como assim?

Por sorte, eu não tinha sangue circulando em meu corpo ou um coração para ficar vermelho de vergonha. Me lembrei do que Sebastian disse e emudeci. Fechei os punhos, dei as costas para ela e murmurei:

-Nada, nada. Apenas me perdoe.

-Estamos o quê? – de repente, reparei que o rosto dela estava há alguns centímetros longe do meu. Elizabeth estava de joelhos e com os braços para frente, tentando me encarar no escuro.

Aquilo pareceu me hipnotizar e repeti vago:

-Perto... Demais...

Maldito ser metade humano e metade demônio, que tinha explosões de sentimentos estranhos e fazia coisas terríveis. Maldita criança mimada e vingativa que desejou tanto se satisfazer em nome de seus pais e, no final das contas, tornou-se numa besta. Por mais que tentasse se afastar e cumprir seu novo destino, parte do seu antigo “eu” ainda estava viva e disposta a se cumprir nem que fosse parcialmente.

Naquele momento, reparei o quanto os olhos dela brilhavam e, com aquela ausência de luz, concluí que seu brilho se devia a sua alma pura e seu espírito forte.

Então, a sensível e ousada Elizabeth avançou em minha direção, estendendo os braços ao redor de meu pescoço e com os lábios entreabertos, enquanto eu, confuso e atraído, a abracei pela cintura e a beijei. De repente, senti duas lágrimas quentes descendo pela face dela e me afastei um pouco para secá-las. A jovem me abraçou novamente e pediu com voz quebrada:

-Não vá embora, por favor.

Eu não respondi. Apenas inclinei o corpo a fim de deixá-la deitada e coloquei meus braços ao seu redor. Tirei uma mecha de cabelo do meio de sua face e sorri:

-Eu não vou. Eu prometo.

-Obrigada. – ela sorriu de um jeito melancólico e mais uma lágrima teimosa escapou do olho esquerdo.

Eu brinquei:

-Sua chorona. – sequei novamente. – Ficará tudo bem.

Lizzy ficou vermelha e olhando para o nada. Aproximei o rosto do dela e a beijei com um pouco mais de ímpeto. Ela tateou meu cabelo no escuro e fincou os dedos nele cuidadosamente.

Desculpe, Sebastian, isso não vai sair conforme o planejado.