Kurai - A Dark Necessity
1 Morto, mas ainda não por dentro.
Naquela noite, eu poderia jurar que vi as estrelas caindo em câmera lenta, diminuindo até caberem em meus olhos e preencherem minha cabeça como um céu limpo, exuberante e escuro como o limiar do crepúsculo. Como se todo o universo desistisse de sua própria existência em simpatia ao meu luto, e decidido em minha mente fazer morada. O dia em que eu perdi tudo foi o mais calmo da minha vida. Talvez tenha sido o carma, ou talvez fosse meu destino terminar daquele jeito. A morte se apresentou para mim em dezesseis de dezembro, quando perdi meus pais em um grave acidente de carro. Embora tivéssemos condições financeiras admiráveis, nenhum dos melhores médicos foi capaz de impedir a partida daqueles que eram meu tudo. O ponto alto da minha infância não foi o bullying rotineiro, ou as notas mais altas da escola, e sim o modo como me tornei “o órfão mais rico de Wooden” em dois dias. Boa parte da cidade deveria estar se perguntando o que alguém com menos de dezesseis anos faria com uma herança bilionária, e o resto, talvez, se perguntasse sobre o quanto a dor da perda afetaria minha mente juvenil.
Tudo o que me lembro é de uma imagem nítida de meus pais no banco da frente, meu pai ao volante e minha mãe ao lado, comentando sobre seu último almoço com uma das sócias de sua empresa e do desastre social que havia sido. Embora a vida de meus pais fosse extremamente corrida e comercial, eles sempre encontraram tempo para me educar pessoalmente e com todo o afeto que uma criança precisa. Charles e Lilian Graham poderiam ganhar um prêmio pelos esforços que faziam para me manter por perto em meio as turbulências de sua carreira empresarial, e por serem os pais mais atenciosos que se pode conseguir nesse jogo de azar que a vida é. Perdê-los foi como acordar e descobrir que perdi metade de mim num sonho, e que por estar adormecido, não havia nada que pudesse fazer. Foi num piscar de olhos em um cruzamento que desviamos de um animal, provavelmente um bovino, e deslizamos de encontro a um dos postes de trânsito, o acertando em cheio.
Um acidente comum, eu diria. Nada catastrófico, ou que nunca houvesse acontecido na cidade nos últimos meses. Para as pessoas era apenas mais uma família desfeita por um acidente. Para mim, era o fim da calmaria e o início da tempestade. Acordei com uma forte dor de cabeça, a visão borrada não me permitiu enxergar o estado deplorável no qual meus pais se encontravam. Senti mãos maiores que as minhas me puxando para fora do carro e me levando para longe. Minha mente pensava em resistir, mas meu corpo estava dolorido demais para qualquer reação física. Meus olhos se fecharam por instantes, e quando consegui abri-los novamente a única coisa que vi foram duas macas carregando enormes embrulhos negros para um carro de mesma cor, enquanto uma terceira me levava para dentro do hospital. Demorou um pouco para eu entender que aquele momento havia sido meu último ao lado de mais pais, mas o choque não me permitiu chorar, ou esboçar qualquer reação.
Passei metade de uma tarde no hospital, não é atoa que dizem que o cinto de segurança salva vidas. Embora futuramente eu viesse a desejar nunca tê-lo utilizado naquele dia. A imprensa rodeava a saída do hospital mas a polícia não me permitiu chegar perto de quaisquer câmeras ou microfones. Wooden sempre foi uma cidade pequena, mas a mídia sempre foi seu principal poder propagação de notícias, embora o poder da fofoca nunca tenha sido extinguido. Todos queriam conhecer o herdeiro dos Graham. Quantos anos ele tem? O que come? Qual o futuro de todo esse dinheiro? Tantas perguntas, cujas respostas nunca foram obtidas. Agradeço ao Oficial Hardy até os dias atuais por ter mantido minha identidade em sigilo assim como meus pais sempre fizeram. Por nossas condições, a quantidade de pessoas que nos odiavam era quase que proporcional a nossa conta bancária. Atentados aos meus pais nunca faltaram no dia a dia, e me expor não era seguro, de modo algum.
Restavam poucas pessoas da família Graham com as quais eu podia contar para cuidar de mim naquela situação, meus avós sempre foram ausentes e até hoje não sei em que continente vivem ou se sequer estão vivos. O que me dava apenas uma possibilidade entre meus dois tios paternos e minha tia materna, cujos nomes eram a única coisa que eu sabia sobre cada um deles. Max, Brandon e Alice, respectivamente. Eu não tinha ideia do que toda aquela mudança faria em minha vida, tanto no presente como no futuro. No dia seguinte, fui obrigado a ir a escola. Cerimônia de conclusão do Ensino Fundamental, uma grande porcaria. Tudo que eu queria era ir para a minha casa, e pegar as poucas memórias que me restavam dos meus pais.
Uma enfermeira me trouxe um embrulho com roupas limpas e alguns produtos de higiene, provavelmente dadas pela polícia depois da visita que fizeram à minha casa. Não demorou muito para que viessem me escoltar até a cerimônia. E antes que se perguntem sobre o velório dos meus pais, ele não aconteceu. Os corpos estavam machucados demais e a família optou para a cremação. Não me permitiram participar. Não demorou muito para que o Oficial Hardy chegasse ao meu quarto e me levasse para a cerimônia. Eu não tinha nada contra Wooden High, era uma boa escola, num bom lugar, com bons professores, e alunos horríveis.
A maioria da escola simpatizava comigo, por ser a única escola particular da cidade, alguns dos alunos não invejavam minhas condições já que as suas eram relativamente similares. As roupas que recebi eram sociais, uma camisa branca de mangas compridas e uma gravata preta de textura fosca. A pior parte era o sapato, sempre detestei sapatos sociais. Me sentia um pinguim perdido fora do Polo Norte. Wooden High nem sempre foi um inferno, minha tortura começou dois anos atrás quando alunos bolsistas foram aceitos na minha classe. Em especial, a pessoa que mais me odeia no universo, Ethan Jones.
Desde seu primeiro dia em minha classe, não perdia tempo quando via o momento de me confrontar, zombar, e bater. Por suas notas nunca alcançarem as minhas ele sentia como se a minha presença fosse um problema para ele e os outros bolsistas. Eu nunca reagi às agressões de Ethan quando criança, nunca vi necessidade na violência. Enquanto o espancamento era rotineiro, para minha alegria, o resto das coisas também. Ao fundo da sala sentava-se sem silêncio a única coisa que me dava calafrios bons, e aquele borbulhar na barriga que todos falavam tanto. Eu nunca saberia dizer isto enquanto garoto, mas hoje eu posso afirmar. Eu amo Lucy Lewis desde o primeiro momento que a vi. No começo, algumas crianças não falavam com ela por puro preconceito. Lucy é albina, seus cabelos brancos e a pele extremamente clara assustava as crianças idiotas de Wooden. Mas eu? Me encantei por sua palidez, seus olhos que pareciam um perfeito céu, e pelo doce som da sua voz.
Lucy foi uma das únicas pessoas que esteve comigo durante o Ensino Fundamental, éramos inseparáveis. Ao chegar na cerimônia, apesar da presença do Oficial Hardy ela correu até mim e me deu, sem dúvidas, o abraço mais reconfortante que eu receberia depois daquele dia.
— Louis, o que houve? Meus pais disseram que, os seus pais... — Ela nunca conseguiu concluir aquela sentença. Seus olhos pareciam cansados e as lágrimas os mantinham abertos. Eu apenas concordei com a cabeça. — Eu sinto muito...
Ela deitou sua testa sobre meu ombro direito, e eu a abracei o mais forte que um garoto magrelo conseguiria. Aquele foi um belo momento, e breve também. O Oficial Hardy se retirou por instantes para procurar nossos assentos, e isso bastou para que algo mudasse o curso do futuro.
— Ei, garoto. Seus pais morreram, seja homem. Não cansa de correr pro colo da namorada? — Eu conhecia aquela voz, tão bem quanto conheço a mim mesmo. Ethan nunca me deixaria em paz, nem naquele momento de dor.
— O que você quer? A escola acabou, não precisa mais se preocupar comigo. — Retruquei separando meu corpo do de Lucy para encarar o garoto propriamente. Ela segurou firme em minha mão direita. Pude ouvir o barulho da cerimônia começando ao centro do pátio.
— Você não cansa de se sentir melhor que todos aqui, não é? — Ethan sorriu, seu cabelo castanho caia por cima do rosto num corte de cabelo mal feito. Ele segurava algo entre os dedos, mas eu não pensei rápido o bastante para evitar. — Acho que chegou a hora de te mostrar que você não é nada. Que tal visitar seus pais?
O grito assustado de Lucy chamou a atenção de todos na cerimônia para aquela cena. Ethan me empurrou ao chão e acertou meu olho direito com o que deduzi que fosse um caco de vidro. Mas ele não era tão esperto. Ele não perfurou meu olho, apenas cortou a pele da testa até o início da bochecha, num traço retilíneo e vertical. Eu gritei, e o empurrei para longe. Mas eu sempre fui fraco. Pude ver com meu outro olho Ethan se preparando para socar minha face quando o Oficial Hardy segurou seu punho e o arrastou para fora do local.
Não demorou muito para que a ambulância chegasse. Levei alguns pontos nos olhos e fui alertado de que a cicatriz não sairia. Mais uma vez, sentado naquele quarto branco e vazio. Algumas horas depois, Lucy veio me visitar. O lado direito do meu rosto estava enfaixado, então ela beijou minha bochecha esquerda e se sentou ao meu lado.
— Eu não acredito que ele fez isso. O que ele tem na cabeça? Por quê ele poderia querer ferir você? — Lucy indagou analisando minhas ataduras.
— Eu não sei. Ethan me odeia desde que colocou os pés em Wooden. — Respondi, com um suspiro. Fitava o fundo da sala, ainda sem reação para tudo aquilo. — Talvez ele estivesse certo, e eu deveria estar com os meus pais.
— Não ouse dizer isso, Louis! Nunca mais! — Ela se levantou da maca em um pulo, ficando de frente para mim. Seu rosto expressava preocupação demais para os traços suaves que tinha. — Ouça, seu lugar é aqui. Comigo. Como poderia me deixar sozinha? Você prometeu.
Lucy estava certa, Wooden era meu lugar. Seus braços eram minha casa, e a nossa promessa seria cumprida. Mas eu não sabia disso. Apenas passei minha mão direita por seu rosto e o levantei até a altura do meu, como se soubesse que aquela seria a última vez que eu a veria por um longo tempo. Ela sorriu com os lábios fechados, assim como seus olhos. Os hormônios não me permitiram agir com a cabeça.
— Não importa pra onde eu vá, eu vou voltar para Wooden, e para você. É uma promessa. — Permiti que meus olhos admirassem seu rosto uma última vez, e os fechei assim como os dela. Meu coração parecia pular para fora do peito quando selei nossos lábios. Lucy não parecia surpresa, era como se ela quisesse aquilo tanto quanto eu. Ficamos alguns minutos naquela cena, conhecendo o que seria nosso primeiro beijo. A textura, o sabor, o toque e o corpo do outro. Infelizmente não durou tanto quanto eu desejava.
Minha enfermeira retornou ao quarto, e tivemos que voltar à compostura. Ela anunciou que um dos membros da família viria me buscar no dia seguinte, e que minhas malas já estavam prontas. Lucy entrou em desespero, e começou a me perguntar tantas coisas que eu sequer me lembro o que ela realmente queria saber. Eu tentei acalmá-la, e a lembrei de minha promessa. Algumas horas depois, adormecemos lado a lado naquela cama de hospital desconfortável. Lucy não estava lá quando eu acordei, mas ela havia deixado uma foto nossa no sofá ao lado da cama. Guardei aquilo como se fosse a minha vida, e era. Não demorou muito para que o Oficial Hardy chegasse, junto com o começo de uma nova vida para mim. Um novo Louis, um novo lugar, uma nova alma.
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