Kraus Rostova No 02
12 Convicção
Naquela mesma noite, cheguei à casa da qual eu estava hospedado. Era a mansão de uma velha amiga, que morava na Grécia, mas que havia me dado permissão de ficar em seus aposentos pelo tempo que fosse necessário. Enchi o copo com uma generosa dose de whisky e percebi que Dembe ainda estava de pé próximo as janelas. Sua cara era como se quisesse me perguntar algo.
— Poupe-se de tantos rodeios, Dembe.
Falei enquanto sentava a uma poltrona e degustava o copo de scotch.
—Quando você contará toda a verdade, Red? Questionou Dembe
Eu olhei para ele, com meu jeito bem característico, e dei uma suspirada olhando de volta para o gelo dentro do copo.
— Não apressarei as coisas. As respostas estão aqui, mas as perguntas... Acho que demorarão um pouco mais.
Tomei mais um grande gole da minha bebida, e acabei fazendo uma careta involuntária por causa do sabor forte. Dispensei Dembe e fiquei ali sentado quase a noite toda, refletindo o que aconteceria no dia seguinte. Adormeci um pouco e tive mais um flash de imagens, um maldito pesadelo sobre o meu passado. Geralmente eu não pensava sobre ele, mas desde que Kraus havia retornado, a imagem da morte me perseguia. Não consegui mais dormi naquela noite. Sentei frente à janela de vidro e observei a aurora do dia, checando meu relógio ocasionalmente, vendo as horas se passarem.
Com o dia já claro, fui tomar um banho. Desabotoei minha blusa lentamente, e olhei por cima dos meus ombros. Acabei vendo o reflexo das minhas costas no espelho. A cicatriz enorme que trazia a história que em breve Liz saberia. Era dada a hora das respostas de algumas perguntas adormecidas, e de novos questionamentos que surgiriam. O desafio no momento não era responder ao que Elizabeth queria saber, mas sim fazê-la me dar ouvidos novamente.
...
Elizabeth chegou ao post-office e sentiu uma vaga alegria por voltar àquele ambiente. Era trabalhoso, era estressante, mas ela amava aquela equipe. Ao sair do elevador, percebeu que todos já estavam frente aos monitores, inclusive Red.
— Bom dia! Cumprimentou a agente.
Red a encarou de um jeito firme. O homem, como sempre vestido de forma impecável, parecia não aguentar mais olhar para a agente sem disfarçar o desejo devorador e o misto de saudade. Elizabeth retribuiu a olhada, mas Reddington foi o primeiro a desviar o olhar.
— Perdi muita coisa? Questionou Lizzie.
— Estávamos falando sobre três irmãos responsáveis pelo fornecimento de arsenais de guerra, a grupos terroristas.
— Clark Hill, Davis Hill e Wilson Hill. Informou Aram divulgando as imagens no monitor. – Davis e Clark foram presos duas vezes, mas conseguiram escapar por meio de fugas cinematográficas. São altamente escorregadios.
— Sim, eles são um dos muitos pilares que sustentam um “peixe-grande” do tráfico de armas internacional. E para derrubá-lo, precisamos enfraquecê-lo primeiro.
— E quem seria esse “peixe-grande”? Questionou Cooper.
Red se virou para todos.
— Kraus Rostova.
Ao ouvir o sobrenome, Elizabeth ficou estupefata. Os agentes não sabiam da identidade verdadeira da agente. Nem ela mesma sabia direito sobre seu passado, e não seria interessante que o FBI soubesse disso naquele momento. Mas quem seria esse Kraus Rostova? Esse homem tinha o mesmo sobrenome que ela, então qual seria seu grau de parentesco?
— Vocês saberão muito mais sobre ele quando prenderem os irmãos Hill. Informou Red.
— Ok, as equipes da SWAT já estão preparadas. Não podemos perder tempo. Cada agente irá com uma equipe para os esconderijos dos irmãos Hill.
Navabi e Ressler seguiram para o elevador. Red sabia que Elizabeth queria questionar sobre Kraus, mas não faria isso naquele momento. Os agentes seguiram para o elevador e Reddington decidiu ir junto, com Dembe o acompanhando. Chegando ao térreo, ele saiu a passos rápidos, quase não dando chance de Elizabeth se aproximar e fazer qualquer tipo de pergunta. Porém, quando ele entrou em seu veículo e pensava que havia se livrado da agente, a porta do carro foi aberta bruscamente e Lizzie entrou.
— Será que você pode me dizer quem é Kraus Rostova?
— Você está perdendo tempo, Agente Keen! Disse Red colocando seus óculos escuros.
Naquele momento, Lizzie teve um ataque de fúria e arrancou os óculos do rosto de Red. Fazendo-o quebrar e cair nas pernas do homem.
— Olha para mim! Gritou ela. Red ignorou o berro da agente, juntou os pedaços dos óculos, colocou em um compartimento na porta do carro; e por último, com uma paciência infinita, ele decidiu encarar Lizzie.
— Ele é seu tio, Lizzie. Mas não espere muito afeto da parte dele.
— Por que você nunca me falou dele, Reddington?
— Lizzie, você está perdendo tempo! Informou Red, olhando para o seu relógio de pulso.
Elizabeth continuava olhando para Red, que já não a encarava mais.
— Você é um desgraçado, Red. Você some por quatro anos e volta como se não tivesse acontecido nada.
Naquele momento, Red voltou a olhar para Elizabeth.
— Se aproxima da minha filha, fazendo papel de bom “pai”, enquanto no âmago do seu ser, você espera abandoná-la novamente e muito em breve.
— Não fale do que você não sabe, Elizabeth. Eu não abandonei você e Alice.
Disse Red em um tom de voz firme e mais alto do que de costume.
— Fique a vontade para tirar suas conclusões. Nesse momento você não entenderia nem a mais convincente das explicações. Concluiu ele.
A agente balançou a cabeça como forma de reprovação para o que acabara de ouvir. Sem dizer mais nenhuma palavra, Elizabeth saiu do carro e bateu a porta com força. Red respirou fundo pedindo paciência aos céus. Pouco tempo depois, Dembe, que não havia sequer entrado no veículo para dar privacidade a Red e Liz, entrou e deu partida no automóvel.
...
As equipes seguiram para os endereços informados. Todas as operações foram bem sucedidas, pois os acusados foram pegues de forma altamente desavisada. Armas de todos os modelos foram apreendidas. Inclusive, um forte armamento de guerra que seria vendido para grupos terroristas. Não tardou muito para que a informação chegasse ao topo da pirâmide.
Em uma mansão na França, Kraus Rostova dava delicadas pinceladas em uma tela de tecido, utilizando tinta a base de óleo. Seus aposentos eram tão silenciosos, que seus capangas eram proibidos de usar qualquer tipo de sapato, que viesse a fazer barulhos bruscos no chão. A bonança do local foi interrompida quando três homens chegaram ao cômodo onde Kraus estava.
— Sr. Rostova! Chamou um deles.
— Eu espero fielmente que seja algo de extrema importância, Joseph.
Disse Kraus mantendo-se virado para a tela.
— Senhor, os irmãos Hill foram presos pelo FBI.
Naquele momento, Kraus parou de pintar, depositou o pincel em um recipiente sobre a mesa e ficou observando a imagem por algum tempo. Diante da reação, os homens se entreolharam.
— Vem cá, Joseph. Por favor!
Joseph, que era um homem de cabelos negros impecáveis e pele clara. Seu porte era forte, e tinha cerca de 1,80 de altura. Ele se aproximou calmamente, e ficou quase ao lado de Kraus, que ainda permanecia olhando a pintura. Naquele momento, Rostova sacou uma arma da parte da traseira de sua cintura e deu um tiro no joelho do homem, que soltou um berro de dor. Com feições altamente frias, ele se aproximou do homem e colocou-lhe a arma na boca.
— Sei que você não tem nada a ver, Joseph. Mas eu não consigo prender a minha raiva por muito tempo. Nesse momento, eu preciso descontar em alguém. E você é o mais insignificante dos meus homens, então não fará falta.
Os outros homens encaravam a cena, mas se mantiveram neutros. Joseph chegou a fechar os olhos esperando o pior, mas acabou abrindo-os novamente quando percebeu a demora em o tiro ser disparado. Surpreendentemente, Kraus mantinha o cenho franzido, como se estivesse pensando em algo.
— Você é um cara de sorte, Joseph. Disse ele tirando a arma da boca do homem. – Vocês sabiam que tudo aquilo que intimida foi feito em formato fálico? Questionou ele para os outros homens — As armas sugerem o formato do órgão sexual masculino. E a forma como a pistola ficou em Joseph foi algo que me fez lembrar alguém, que adora colocar um mastro na boca.
Naquele momento, ele pegou o pincel e voltou a dar alguns retoques na tela.
— Eu sei exatamente quem foi o responsável pela prisão dos irmãos Hill. Reddington, claro. Mas eu sei quem o ajudou. A arma na sua boca me fez lembrar um único nome.
Disse ele olhando para Joseph, que pressionava o ferimento à bala.
— Aditi Kajal! Aquela bela indiana e enorme traidora, pelo jeito. Vocês dois... Ordenou Kraus apontando para os homens de pé. -... Levem esse imbecil daqui. E preparem meu jatinho, vou à terra do Tio Sam fazer uma visita a minha querida Aditi.
...
No quartel general da força-tarefa, os três acusados eram submetidos a interrogatórios, mas nenhuma ameaça ou pressão era capaz de abalar os homens, que permaneciam friamente calados.
— Mas que droga, não adianta! Eles não estão cooperando. Revoltou-se Ressler.
— Bom, vamos transferi-los para outro local, não podemos deixá-los aqui. Depois daquele ataque coordenado por Anslo Garrick, não podemos arriscar. Ressler e Navabi, vocês acompanharão a equipe até o quartel geral do FBI. Ordenou Cooper.
Os três homens foram levados em um único veículo, acompanhado por mais cinco carros da SWAT. Ressler e Navabi estavam no último automóvel do comboio. Tudo ocorreu de forma tranquila até a metade do caminho, mas ao chegarem a uma área mais aberta, Navabi observou pelo retrovisor que um helicóptero se aproximava.
— Ressler, pedimos algum apoio aéreo?
— Nada que tenha sido me informado, por quê? Questionou Donald, cujo estava na direção.
Samar que tinha visão treinada para ver uma ameaça de longe, percebeu que a aeronave começara a se inclinar, e foi possível avistar um homem segurando um lança míssel. De forma impulsiva, ela girou o volante do veículo, fazendo-o ficar atravessado na via. Os demais veículos continuaram, e foi naquele momento que um míssel atingiu de forma certeira o furgão onde os irmãos Hill estavam. Depois disso, a aeronave seguiu imediatamente em fuga.
— Atenção, helicóptero de cores vermelha e preto sobrevoando o céu da capital. Veículo de transporte de acusados acaba de ser atingido por míssel, nas redondezas do Memorial Lincoln. A cerca de 1 km de quartel geral do FBI. Provável queima de arquivo!
Alertou Navabi enviando uma mensagem para o quartel general da força tarefa.
...
A alguns quilômetros dali, Kraus Rostova sentava à mesa do bar de Aditi Kajal. O local estava quase vazio. Ele aproveitou e pediu uma taça de vinho e começou a degustá-la. Foi naquele momento, que Aditi se aproximou de Rostova.
— O que você faz aqui, Kraus?
— Ora, não posso tomar uma taça de vinho no seu bar? Não se preocupe, tenho dinheiro para pagar.
— Não quero você aqui nem por todo dinheiro do mundo.
Kraus sorriu e afastou a cadeira ao seu lado.
— Sente-se Aditi. Dê-me a honra de sua companhia.
Dando-se temporariamente por vencida, a mulher resolveu sentar.
— O que você quer?
Kraus tomou um gole de vinho antes de falar.
— Sabe, eu vim da França porque tomei conhecimento que três dos meus associados foram presos pelo FBI. Aliás, acredito que a essa altura eles já estejam mortos. Zombou Kraus olhando o relógio em seu pulso.
— O que eu tenho a ver com isso?
— Você tem visto Raymond Reddington?
A mulher soltou um sorriso ao ouvir o questionamento de Kraus.
— Está querendo insinuar algo, Rostova?
— Insinuar? Não, não. Eu não gosto de insinuações. Ainda mais quando eu tenho certeza de algo, que é o caso da circunstância que me trouxe aqui. Estou convicto que você entregou as informações dos meus associados para Reddington. E olha só... Você me trouxe um baita problema. Disse Kraus soltando uma risada.
— Está se sentindo no inferno, Kraus? Faz o seguinte...Disse a mulher se aproximando bem do rosto do homem. — ...Vai se acostumando porque é lá que você vai estar em breve.
Kraus manteve um sorriso frio enquanto tomava mais um gole de vinho.
— Bom, hora da festa! Disse ele batendo palma.
Havia quatro capangas de Kraus observando a cena. Ao ver o sinal das palmas, eles sacaram metralhadoras e abriram fogo contra todas as pessoas que estavam no local. As mulheres que era funcionárias de Aditi foram todas mortas, e os poucos clientes também. Além de todo o prejuízo material que foi destruído pela chuva de balas.
Aditi se levantou e assistiu a cena aos prantos, principalmente pela vida das mulheres que eram suas funcionárias. Ela levou as duas mãos ao rosto, por não acreditar no que acontecia diante dos seus olhos. Kraus, de uma forma diabólica, continuava bebendo seu vinho.
— Chega! Gritou ele.
Naquele momento, ele levantou a cabeça tentando ver se havia sobrado alguma garçonete.
– Por favor, Clay, veja se sobrou alguma garota para me servir mais uma taça.
O capanga deu uma olhada ao redor, mas balançou a cabeça negativamente.
— Que droga. Praguejou Rostova, que se levantou e foi até o local onde ficavam as bebidas. Havia estilhaços de vidro por todo canto. Ele foi à procura de uma garrafa de vinho atrás de um balcão e avistou três corpos no chão, que ele fez questão de passar por cima.
— Ah aqui está!
Comemorou pegando uma das poucas garrafas de vinho que não havia sido quebrada. Ele a abriu e encheu a taça. Depois tomou um gole e analisou o recipiente na altura dos seus olhos. Antes de sair, ele percebeu que seus sapatos haviam sujado de sangue, e foi aí que ele os limpou nas roupas das mulheres mortas. Depois, caminhou lentamente e ficou frente a frente de Aditi.
— Você não deveria ter feito isso, Aditi! Você deveria ter previsto que eu descobriria.
A mulher matinha uma face de choro e ao mesmo tempo de fúria.
— Vai pro inferno, Kraus.
O homem sorriu, assentiu e depositou a taça sobre a mesa. E com um movimento brusco, agarrou a mulher pelo pescoço e a puxou de forma violenta. Depois, sob os gritos de desespero de Aditi, ele a arrastou com extrema força até uma fonte decorada de deuses indianos, que ficava no meio do bar. Lá, ele empurrou a cabeça da mulher dentro da água, fazendo-a bater-se de forma desesperada para se salvar.
— Vamos ver quem irá para o inferno primeiro.
Sussurrava Kraus com uma expressão diabólica, enquanto mantinha a cabeça da mulher submersa. Pouco tempo depois, a mulher parou de relutar e se entregou a morte iminente. Logo depois, ele soltou o corpo da mulher já morta, e se recompôs. Ajeitou seu terno, seu impecável cabelo e respirou fundo.
— Próximo alvo, as mulheres da vida de Raymond Reddington!
Fale com o autor