Kiwi!
1 Kiwi EP01 – Auch!
Ele saltou da janela do seu quarto a toda a velocidade, como se a casa o tivesse cuspido por não suportar a sua energia hiperativa de criança. Levava a “espada lendária” na mão, que na realidade se tratava de uma estaca de madeira que encontrou deitada no sótão naquela manhã. Também trazia na mochila as suas luvas de boxe rotas e alaranjadas que usava para derrotar os “demónios do submundo”, os seus peluches. Aterrou na rua à frente da sua casa, estatelando-se ao comprido no chão de pedra musgosa. Levantou-se como se nada fosse, sempre com o seu sorriso estridente, que ocupava metade do espaço que tinha disponível na sua cara. Era o Kiwi, e estava pronto para mais um dia místico e repleto de monstros e magos negros.
-Cuidado com as silvas! Não vou passar mais duas horas a tirar os espinhos todos do teu corpo! – avisou a mãe enquanto arrancava algumas basílicas do jardim com as suas mãos de fada. Kiwi apenas levantou o seu polegar, como fazia sempre, enquanto corria em direção ao Parque Kent.
Decidira ir pelo atalho, que, apesar de só salvar um ou dois minutos, era bem mais empolgante. Para Kiwi, antes um carreiro em ruína cheio de raízes, cobras e insetos do que a mesma rua banal da mesma aldeia calma e rotineira. Derrubava com a sua “espada lendária” todos os arbustos que se metessem no seu caminho, saltava cada calhau que ameaçasse riscar as suas sapatilhas de corrida e sobretudo, assegurava-se sempre que ia pelo caminho mais arriscado. Trepou as paredes de uma casa velha que servia de sepultura a um jardim antiquado e murcho, cravando bem as unhas por entre as fendas fundas arenosas. Faltavam telhas ao telhado, e as vigas que o sustentavam estavam ocas como a cabeça daquele pobre miúdo. Conseguiu, de alguma forma, pôr-se em cima do telhado sem provocar uma avalanche de madeira podre e pregos ferrugentos. De cima observava-se o parque. As suas colinas verdes lembravam as bossas de um camelo, caminhos serpenteavam por entre as flores amarelas e as árvores em forma de cogumelo. O vento fazia dançar as sombras que refrescavam a relva ainda orvalhada. Também era contornado por um rio fluido e cristalino que servia de autoestrada aos raios de sol.
Entre a casa velha e o parque, servia de muralha um maciço de caules, folhas, espinhos e amoras prematuras. Kiwi estudava cautelosamente a quantidade de balanço que ia precisar enquanto dava lentos paços para trás de olhos encolhidos.
- Fácil! — afirmou ele enquanto alongava.
Correu de barriga paralela ao chão, e braços esticados para trás como faziam nas bandas desenhadas. O som dos seus passos rápidos imitava um tambor enquanto saiam poeiras dos buracos da tábua. Chegou o momento de saltar. Kiwi preparava-se para dar um salto olímpico, e teria sido um salto perfeito se a tábua não tivesse rachado no momento do impulso. Acabou por mergulhar no meio daquele emaranhado de coisas-do-mato enquanto as arranhadelas o faziam questionar se estava, na realidade, numa jaula cheia de gatas assanhadas.
- A mãe vai matar-me. – disse crucificado no meio das silvas, a meio palmo do chão. Riu baixinho. Despiu os espinhos que o agasalhavam com dor e, lentamente, calçou as suas luvas de box para proteger as suas mãos. Enfiou a sua mochila vazia pela cabeça e tronco dentro, servindo de armadura. – Desculpem-me pernas… — Kiwi inclinou-se como um míssil prestes a ser disparado, e intersetou como uma flecha os ramos e as silvas que o emprisionavam. Os seus gritos de gladiador eram abafados pela mochila. Sentiu momentos depois que já tinha saído, mas os seus pés não conseguiram contrariar a velocidade a que ele ia. Despistou-se nas areias de um dos caminhos do parque e bateu com a cabeça no que lhe pareceu ser uma pessoa.
-Auch! – era uma menina.
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