Kiwi!
3 KIWI! Capítulo 03 – Ela.
– Bolas bolas bolas bolas bolas…
Enrolado no seu casulo de colchas, cobertores e lençóis, Kiwi rangia os dentes de punhos colados à cara. Foi a primeira vez nos seus cinco anos de vida que sentiu vergonha de si próprio e o desejo de poder voltar atrás.
Primeiras impressões nunca foram o seu forte, já não era novidade para ele. Por alguma razão, sempre teve o poder divino de afugentar outras crianças. O seu cabelo verde-claro à tigela também não o ajudava a sua normalidade já quase inexistente. Nunca foi uma criança de muitos amigos. A elasticidade mental necessária para acompanhar uma das suas brincadeiras tornavam as coisas muito complicadas. O que para eles era mandar calhaus contra uma árvore velha era para Kiwi disparar esferas de aura dourada contra as labaredas de um dragão esfomeado. Não percebiam a adrenalina que era vencer uma luta, encontrar tesouros ou conhecer novos lugares. Os rapazes dos carrinhos apontavam muitas vezes o dedo e as meninas achavam-no patético, mas ele apenas punha a língua de fora e virava costas. Algumas crianças gostavam dele e ficavam maravilhadas com as histórias que inventava, mas ainda assim não brincavam com ele porque sabiam que iam acabar por desiludi-lo. Apesar de tudo, era muito feliz. Nunca estava sozinho! Apenas vivia num mundo à parte.
Então por que raio estava ele tão afetado com o que se passou? Tudo bem, nunca é agradável ser-se imobilizado por uma menina, principalmente quando há urina envolvida. Mas isso normalmente não seria o suficiente para tirar o sono àquele rapaz. Além disso, achou genial ter feito o seu xixi nas calças. Não podia haver melhor ocasião para pôr em prática as suas capacidades de ninja no seu regresso a casa… Algo se passava para estar assim.
– Aquela reação instantânea… a forma como quase deslocou o meu braço… aqueles olhos… — o seu rosto colidiu com a almofada. – Como é que eu pude deixar escapar esta oportunidade? Porque é que tenho sempre que fazer figura de estúpido?!
Levantou-se da cama em direção ao seu saco de box.
– Porra! – carimbou o seu primeiro murro bem no meio – Porquê?! – seguiu-se um segundo murro. Preparava o um pontapé quando…
– Au! – murmurou massajando a cabeça com uma mão. Virou-se para trás.
– Não devias estar a fazer barulho a esta hora, amanhã tens tempo para descarregar a neura toda – disse Ember, o seu irmão, sorrindo à porta do quarto.
– Hey! Eu não estou com a neu… o que é que foi isso?
Ember apontou para o chão, atrás de Kiwi, onde estava um berlinde ainda a girar pelo chão.
– Mandaste-o daí?!
– E se tivesse acertado no saco deixava uma cratera maior que um dos teus murros. Agora vai dormir! – E fechou a porta sem esperar por uma resposta.
– Vai-te lixar! Um dia vou ser mais forte que tu!... – Voltou para a cama de braços cruzados e sobrancelhas franzidas. Suspirou. – Estou mesmo com a neura… é melhor dormir…
Fechou os olhos, ainda tenso, e adormeceu rapidamente.
O ambiente do quarto também acalmou assim que fios de baba começaram a escorrer pelas bochechas de Kiwi ao som das rãs e das corujas. Aquela menina sem dúvida que ficou presa na sua cabeça, e ele não contava em esquecê-la tão depressa.
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