Notas iniciais
Boa madrugada, pessoal, e sejam muito bem vindos ao terceiro capítulo da minha história! Hoje tem capítulo novo e, spoiler alert, nossos narradores vão finalmente se encontrar! O que será que vai rolar? Acho que aqui é onde realmente começa a história. Ela vai ser um pouco slow paced, mas espero que gostem! Caso tenham alguma dúvida, sempre podem me mandar críticas! Estou evoluindo como escritora, então todo conselho sempre é bem vindo :) Boa leitura! —MC

Imediatamente eu sabia que não pertencia a um lugar como aquele. Talvez fossem minhas roupas mais recatadas em comparação com a, hm… falta de roupa dos dançarinos, garçons e barmans. Talvez fosse o meu comportamento mais introvertido em relação a todos os homens no bar, que estavam dançando ou estavam nos cantos fazendo coisas quase obscenas. Ou talvez fosse a minha sobriedade em relação às outras pessoas no bar. Tudo em mim gritava desconforto e eu só queria sair dali correndo.

Talvez eu estivesse velho demais para isso. Velho de alma, pelo menos.

— Então, Tetsu! O que acha? Não é incrível? — Aomine parecia uma criança no parquinho, sorrindo de orelha a orelha.

Eu não sabia como responder meu amigo sem possivelmente acabar ferindo seus sentimentos. Não era que a atmosfera do BLACKNUDE não fosse interessante, muito pelo contrário. Tinha um pouco de strip club, vi de relance uma apresentação de pole dance e os funcionários com roupas que lembravam temáticas BDSM eram algo inesperado, mas atraente. Com a luz negra, os drinks neons chamavam bastante a atenção. A música também era boa, um estilo bom para se dançar, mas não atrapalhava quem estava no bar apenas querendo conversar e beber.

Infelizmente, aquilo não era bem o que eu chamava de diversão.

Diversão para mim era ir ao parque com a minha filha nos fins de semana, vê-la brincando no escorregador, empurrá-la no balanço, ajudá-la a subir na casa de madeira. Diversão para mim era montar uma casa de bonecas com ela, imitar vozes diferentes para cada personagem e vê-la se divertir imensamente com isso. Diversão para mim era inventar histórias para ela dormir. E às vezes, diversão para mim era ver uma série ou um filme, mas a maioria das vezes eles envolviam coisas da Disney para que a Haru pudesse assistir também.

Então sim, eu estava completamente fora do meu elemento ali e não fazia ideia de como eu poderia responder àquela pergunta. Meu amigo deve ter percebido meu conflito interno porque logo respondeu.

— Ah, qual é! Você acabou de chegar, não vai tirando conclusões precipitadas. — Disse revirando os olhos — Vamos beber um pouco, vai te ajudar a relaxar. A primeira rodada fica por minha conta.

Aomine-kun foi me empurrando em direção ao bar, cumprimentando pessoas ao longo do caminho. Meu amigo provavelmente era um cliente frequente, já que ele parecia conhecer todos naquele lugar. Fiquei distraído olhando os dançarinos enquanto ele pedia nossas bebidas.

— Você não disse que tinha uma festa hoje? — Perguntei na estranha expectativa de achar balões e talvez bolo. Ultimamente essa era minha associação à festas.

— Hum… É mais um evento. Noite de pole dancing. Tinha que te convencer a vir de alguma forma. — Ele disse me passando um copo com conteúdo duvidoso.

— E o que é isso?

— Nossa primeira rodada. Não se preocupe, não vou te envenenar. — Apesar da reafirmação, eu não me sentia tão seguro.

Só precisei aproximar o copo de mim para que o cheiro forte agredisse minhas narinas. Aquilo cheirava à ressaca e decisões ruins com toques de gasolina. Encarei meu amigo incrédulo, esperando que ele tivesse me dado o drink errado ou que, não sei, talvez estivesse brincando.

— Acredite, o sabor é melhor que o cheiro. — Dito isso, ele virou o copo como se fosse um shot. Meu estômago estava embrulhado só de olhar.

— É seguro tomar isso? Quero dizer, se eu derrubar esse… "líquido" no balcão, eu vou abrir um buraco nele? — Perguntei genuinamente preocupado.

— Só bebe, caramba.

Beberiquei um pouco e… Bem, Aomine-kun não estava mentindo. O gosto realmente era melhor do que o cheiro, mas isso não queria dizer que era bom. Segui o exemplo dele e virei tudo para não precisar lidar com aquilo por muito tempo. Eu sabia que ficaria enrolando para tomar e Aomine-kun não me deixaria em paz enquanto meu copo não estivesse vazio.

— Esse é o espírito! — Ele riu dando batidas leves no meu ombro — Eu vou fazer o seguinte: tem alguns amigos aqui que eu quero apresentar pra você, então eu vou dar uma volta e trazê-los até aqui, tudo bem?

— Tudo bem. — Não que eu pudesse responder qualquer outra coisa.

— Ótimo! Mas Tetsu… — Ele ficou sério de repente e se aproximou de mim — Eu tenho uma regra hoje e ela não pode ser quebrada.

— Qual é a regra? — Perguntei um pouco confuso.

Ele respirou antes de me responder.

— Você está proibido de falar sobre a Haru hoje.

Pisquei incrédulo para ele. Tão chocado eu estava que nem consegui responder.

— Deixe eu me explicar. — Ele começou antes que eu pudesse pensar em protestar — Você sabe que eu adoro sua filha, que ela é a criança mais linda e fofa do mundo, e que eu faria de tudo por ela como o padrinho não oficial que sou. Porém eu te trouxe aqui hoje para você aproveitar a noite.

— Você está achando que eu só sei falar da Haru? — Eu finalmente me lembrei de como falar e retruquei irritado.

— Eu não acho nada, eu tenho certeza. Há quantos anos nos conhecemos, Tetsu? Eu sei tudo que se passa nessa sua cabeça dura. — Disse usando aquele tom de superioridade que eu tanto odeio — Eu só quero que hoje você não esteja com a cabeça em outro lugar. Foca em você, no que você gosta, no que você quer. Hoje você não é pai, hoje você é um cara no bar querendo curtir.

Eu não gostei nem um pouco daquela regra. Talvez ele tivesse um pouco de razão sobre não pensar muito em mim, mas aquilo também era exagero.

— Caso você descumpra essa regra e eu descobrir, eu conto para esse bar todo a sua experiência mais embaraçosa. E você sabe que eu sei qual é, já que eu estava lá e sei os mínimos detalhes.

A memória do episódio passou como um flash na minha cabeça, me fazendo engolir seco. Realmente era algo que nunca deveria ser exposto ao mundo. Apenas concordei com a cabeça e observei meu amigo se afastar para chamar as pessoas que ele conhecia.

. x .

Se um olhar pudesse matar, acredito que o rapaz aleatório (cujo nome eu esqueci) sentado no colo de Kiyoshi-senpai já estaria a sete palmos do chão. Hyuuga-senpai encarava os dois, que conversavam animados do outro lado do bar, praticamente sem piscar. O pior disso tudo? Qualquer cara que tentasse se aproximar dele, e consequentemente de mim, acabava saindo correndo sem trocar uma palavra conosco. Seria assim que minha noite acabaria? Numa mesa no canto do BLACKNUDE, vendo meu colega de quarto se remoer, sem conversar com ninguém e nem poder apreciar o show de pole dancing que estava rolando?

— Você consegue acreditar nisso? Ele realmente me chamou só para vê-lo com outros caras! — Meu colega de quarto se afundou na mesa, finalmente derrotado — Não acredito que minha noite vai terminar assim.

— Hm, somos dois. — Não queria soar tão amargurado, mas estava difícil. A situação estava deprimente demais.

— Eu não deveria ter vindo. É isso, eu vou embora. — Ele levantou-se de repente e parecia estar pronto para correr dali.

Por um segundo, eu fiquei tentado a deixá-lo ir. Eu estaria mentindo se dissesse que, com aquele clima, eu não toparia qualquer desculpa para voltar pra casa. Porém eu não gostava da ideia de Hyuuga-senpai ir pra casa, ficar se remoendo por dias, só para logo depois voltar correndo assim que Kiyoshi-senpai estalasse os dedos. Não que ele seja sádico, ele só é meio avoado e nisso acaba ignorante aos sentimentos do meu colega de quarto.

— Nem pense nisso. — Peguei ele pelo pulso antes que pudesse escapar e forcei que ele sentasse de novo — Você me fez vir aqui pra que? Para testemunhar sua humilhação? Fala sério. Não gastei minha noite e meu dinheiro para ficar aqui trinta minutos e voltar porque você não tem culhões para fazer alguma coisa.

— E o que você quer que eu faça? Tire o cara do colo dele e fale "com licença, tem dono"?

— Seria melhor do que ficar parado só encarando eles do outro lado do bar como um maníaco.

Ele bufou cruzando os braços. Ugh, nesse momento eu gostaria de ter uma bebida em mãos. Talvez a situação ficaria mais palatável. Eu deveria ter chegado e ido direto pro balcão, mas nããão… Me deixei ser arrastado por Hyuuga-senpai que precisava de "apoio emocional". Eu não vou conseguir aguentar essa merda sóbrio.

— Você podia, sei lá, dar uma chance para outros caras? A gente sabia que a probabilidade do Kiyoshi-senpai fazer isso era alta, então não tem surpresas.

— Não sei se consigo fazer isso. — A medida que falava, ele ia se afundando cada vez mais na mesa — Eu não sou bom em chegar nas pessoas… Além do que, eu gosto do mesmo cara há o quê, dez anos? Flertar é algo que eu não só não tenho costume, eu simplesmente não aprendi.

— Você não flertou com ninguém nos últimos dez anos porque você estava a fim de uma pessoa específica que nunca te deu uma chance? — Não consegui conter meu choque, mesmo sabendo o quanto ele não iria ajudar — Você é o quê, um protagonista de shoujo?

Com a música e seu rosto em contato direto com a mesa, não consegui ouvir o que ele estava resmungando, mas pelo tom de voz assumi que eram obscenidades sobre minha pessoas.

— Okay, deixa isso pra lá. Escuta, aqui é o lugar perfeito para você, hm… "praticar". Então novo plano: a gente vai até o balcão, bebe alguma coisa para, sabe, dar coragem, e você tenta conversar com alguém que achou atraente.

— Do jeito que você fala parece tão simples.

— O álcool vai dar uma força, prometo. — Deixei claro que não haveria discussões e comecei a empurrá-lo para fora da mesa.

No início ele até tentou resistir, mas logo acabou cedendo e se deixou ser arrastado até o bar lotado. Um grupo em particular estava ocupando boa parte do espaço, então tivemos que nos espremer ao lado deles para conseguir um vaga. A música nem estava tão alta naquela área, mas ainda foi difícil chamar a atenção do barman porque as pessoas daquele grupo estavam um pouco mais alteradas, falando e rindo alto.

— Duas gin-tônicas, por favor.

— Eu não gosto de gin-tônica. — Mesmo falando comigo, Hyuuga-senpai não estava olhando na minha direção. Provavelmente ainda estava se torturando, observando Kiyoshi-senpai ficar com outras pessoas.

— Não ligo, é a bebida mais em conta daqui e é bem forte. Custo-benefício perfeito e sou eu que estou pagando, então sem reclamações.

Ele aceitou ainda um pouco relutante quando o barman colocou as bebidas na nossa frente e fez uma careta quando tomou um gole, mas não falou nada. Teria que distraí-lo para que ele parasse de pensar tanto.

— Okay, você vê alguém que te interessa? — Comecei a escanear o bar — Que tipo de cara te interessa, afinal?

— Não sei, caras altos? Cabelos castanhos, relativamente curtos… — Ele deu os ombros, não realmente tentando achar alguém — Com sorriso bonito, um pouco distraídos, com braços bem definidos… Talvez uma personalidade gentil...

— Tá, tá. Eu perguntei que tipo de cara que você curte, não pedi para você descrever o Kiyoshi-senpai. Eu sei como ele é. — Revirei os olhos — Ah, que tal aquele ali? Ele é alto, parece estar sozinho…

— Não, ele não. — Hyuuga-senpai tinha essa péssima mania de me interromper antes que eu pudesse completar uma ideia — Ele parece um pouco estranho, não sei.

— Ahn, certo. Ah! E aquele cara ali? — Apontei para um que estava olhando na nossa direção, parecendo interessado — Acho que se você for falar com ele, seria bem tranquilo.

— Ugh, não. Ele é muito baixo.

— Hyuuga-senpai, ele parece ser tão alto quanto você.

— E-eu não sou tão baixo! — Altura sempre foi um tópico sensível, então decidi ignorar.

Continuamos avaliando opções por um tempo enquanto bebíamos. Três gin-tônicas depois, Hyuuga-senpai já tinha rejeitado praticamente todos daquele bar. Achei que o álcool pudesse, não sei, soltá-lo um pouco, deixá-lo menos crítico? Mas teve o efeito oposto, já que ele começou até a criar teorias da conspiração para cada pessoa. "Aquele cara? De jeito nenhum, ele parece ser o tipo que stalkeia ex nas redes sociais" ou "Aquele tem cara de serial killer. Vi um documentário de como poderia ser o Assassino do Zodíaco e esse cara se parece com ele". As teorias ficavam cada vez mais elaboradas e eu estava começando a desistir.

Eu estava prestes a pedir a conta para ir embora quando de repente...

— O que você acha daquele cara?

Olhei na direção geral que ele estava apontando e fiquei temporariamente confuso. Ele parecia estar apontando para o Kiyoshi-senpai, mas… ele estava usando aquelas roupas quando chegamos? Ele também parecia um pouco mais magro, nariz mais arrebitado… Okay, era outro cara. Mas era muito parecido com ele e isso me deixou um pouco desconfortável.

— Ahn… A intenção não era procurar outros caras? Sei lá, esquecer o Kiyoshi-senpai, partir para outra?

— Mas não é o Kiyoshi, então sem problemas. — Ele virou o resto do drink, tomando coragem para ir.

— É, mas… Cara, você poderia não investir num doppelganger? Realmente tentar ver outras pessoas… Fazer uma loucura, tipo superar? É só uma ideia, sei lá.

— Não, curti aquele cara. Vou tentar falar com ele. — Dito isso, levantou-se num pulo e começou a caminhar na direção dele. De repente, ele parou e voltou para falar — Ahn, como eu posso iniciar uma conversa?

O tapa que dei na minha testa foi tão forte que cheguei a ver estrelas.

— Tá, tá. Deixa pra lá, eu invento alguma coisa no caminho.

— Espera, Hyuuga-senpai! — Tentei chamá-lo, mas foi em vão, ele já estava longe.

Tinha que ir atrás dele, definitivamente não era saudável ficar com alguém só porque era um sósia da pessoa que ele gostou a vida toda. Tentei alcançar meu drink que estava no balcão, mas no meu movimento rápido, deixei ele cair e molhar tudo. Pelo menos não caiu muito em mim e não tinha ninguém do meu lado para molhar.

— Ugh… Barman, preciso de um guardanapo, por favor!

Naquele momento senti uma mão gelada, provavelmente vinda do além, tocando meu ombro, seguida de uma voz quase inaudível.

— Ahn… Você poderia pedir pra mim também? Você derrubou um pouco em mim.

Acho que o bar inteiro deve ter ouvido o grito de susto que dei. Talvez o bar ao lado deve ter ouvido também. Sinto que por um instante, o BLACKNUDE inteiro ficou em silêncio, mas logo depois voltou a funcionar normalmente, ignorando meu súbito "ataque".

— Desculpe, minha intenção não era assustá-lo. — A voz continuou, parecendo pouco surpresa com a minha reação.

Quando me virei na direção geral de onde a mesma estava vindo, me deparo com um rapaz baixo e pálido, com cabelos de um azul tão claro que quase parecia esbranquiçado, olhos azuis penetrantes, com feições inexpressivas e… molhado? Talvez encharcado seria mais correto. Ainda assim, parecia um fantasma.

— Ah, meu Deus, que susto! Você estava do meu lado esse tempo todo?! — Era raro eu levar sustos, ainda mais num lugar como aquele, mas esse cara parecia ter surgido do ar! Claro que fiquei irritado.

— Sim, e você derrubou o seu drink em mim. Sem querer, imagino.

Aquelas palavras me fizeram voltar a realidade. Eu derrubei minha bebida num completo estranho e estava reclamando dele ter me assustado?

— Ah… Me desculpe. — Eu disse pegando os guardanapos que o barman tinha deixado na minha frente e passando todos para ele. Tentei ajudar a secar a camisa, mas pareceu um pouco inapropriado, então me foquei a secar o balcão.

— Tudo bem, pelo menos o drink é incolor e não vai manchar. — Ele respondeu parecendo indiferente — Mas acho que ainda preciso ir ao banheiro me lavar… Não quero ficar com cheiro de… vodca?

— Gin. — Dei um sorriso amarelo.

— É, isso. Bom, vou indo.

— Ei, espera! — Eu agarrei o pulso dele antes que ele pudesse ir — Eu posso ajudar em alguma coisa? Foi minha culpa, afinal.

Ele pareceu pensar um pouco, mas era difícil saber o que exatamente. Parecia ser uma pessoa difícil de ler.

— Você pode pagar um drink pra mim como pedido de desculpas quando eu voltar.

Assim que concordei, ele se levantou parecendo um pouco instável. Cambaleou um pouco, mas logo o perdi de vista quando ele foi em direção aos banheiros. Pedi duas gin-tônicas enquanto aguardava seu retorno e esqueci que tinha que ter ido atrás de Hyuuga-senpai.

. . .

Devo dizer que estava um pouco desconfortável. O cara estava tomando a gin-tônica que eu paguei como pedido de desculpas, mas não parecia muito a fim de conversar. Eu fiz algumas perguntas, tentando quebrar o gelo, mas ele apenas respondia com uma ou duas palavras e voltava a beber em silêncio. Talvez eu tenha realmente o deixado irritado, mas ele não aparentava. O cara parecia… não sei, aéreo? Como se não estivesse prestando muita atenção em nada, mas era difícil ler sua expressão.

Talvez fosse a hora de procurar por Hyuuga-senpai. A situação toda me deixou tão desconcertado que a presença dele me fugiu da memória. Mas uma olhada pelo bar e já consegui achá-lo. Bom, digamos que ele já estava… íntimo do sósia do Kiyoshi-senpai. Fiquei um pouco chocado com ele, já que ele me disse que nunca tinha feito isso e estava inseguro em se aproximar de alguém. Não pareceu, mas tudo bem. Não poderia ir ali atrapalhá-lo, então fiquei ali plantado ao lado do meu colega mudo.

— Isso é bom, o que é?

Fui pego de surpresa pelo colega ao lado com sua pergunta inesperada.

— Gin-tônica…? — Não era exatamente um drink incomum. Comecei a me questionar se ele era maior de idade, por causa de suas feições. Ele definitivamente parecia muito jovem, então decidi investigar um pouco — Ahn… Você costuma vir aqui no BLACKNUDE?

— Na verdade não. É minha primeira vez num bar. — Ele admitiu e tomou um gole mais prolongado pelo canudo, parecendo um pouco letárgico.

— Okay… Quantos anos você tem?

Para minha surpresa, toda sua feição inexpressiva se quebrou em um riso baixo.

— Eu sou maior de idade, não precisa se preocupar. Tenho 28, mas se quiser checar…

— Não, não! Eu acredito! — Menti — Mas você não parece… Espera, 28?! Você é mais velho que eu! — Não gostaria de admitir que tinha quebrado com aquele informação, mas foi o que aconteceu.

— Genética é algo milagroso. — Ele disse com um sorriso leve enquanto tomava mais um gole do drink — Acho que não cheguei a me apresentar. Kuroko Tetsuya.

— Ah, Kagami Taiga. — Estiquei a mão para cumprimentá-lo. Aquele nome não me era estranho, por algum motivo. Algo nele também me soava um pouco familiar, mas eu não conseguia me lembrar o quê — Então, você nunca veio num lugar como esse e decidiu hoje vir sozinho?

— Não, não. Eu vim acompanhado de um amigo. — Ele apontou para o grupo atrás dele — Mas ele se ocupou um pouco e eu fiquei bebendo sozinho.

Eu não consegui entender exatamente quem era o amigo, já que o grupo atrás dele era grande e espalhafatoso, mas não me admira que ele tenha acabado mais quietinho no canto.

— Ah, isso eu te entendo. Estou quase na mesma situação. — Disse apontando para Hyuuga-senpai. Ele estava bem… ahn. Ocupado.

Ele soltou um "oh" indicando compreensão quando avistou meu amigo e voltou a beber, parecendo indiferente.

— Fomos abandonados, huh…Mas você parece mais à vontade do que eu, não parece se importar tanto em não estar com seu amigo. Vem muito aqui?

— Assim… Não é a primeira vez que venho, mas não diria que sou um cliente assíduo.

— Hm… — Eu achei que ele estava pensando em algo para responder, mas ele só ficou quieto e voltou a tomar calmamente seu drink.

Aquela conversa parecia um pouco travada. Ele era assim mesmo ou talvez ele já estivesse um pouco bêbado? Difícil dizer. Eu deveria continuar a tentar ou, não sei, sair para conversar com outras pessoas? A possibilidade de ir embora até se passou pela minha cabeça, mas eu tinha bebido e queria deixar o álcool baixar um pouco.

Olhei ao redor e todo mundo parecia estar com alguém. Ugh, essa era uma boa hora para admitir que eu não deveria nem ter saído de casa. That sucks. Tentaria puxar um pouco mais de conversa com aquele cara. Apesar de tudo, ele bem que fazia meu tipo e ainda me era familiar. Vai que eu conhecia ele ou que, sei lá, pudesse rolar alguma coisa.

— Ahn, o que você faz da vida, Kuroko-san? — Pergunta meio básica, eu sei. Mas tinha que começar por algum lugar.

— Eu trabalho numa editora, mas não mexo a parte de edição. Sou do RH da empresa. — Ele percebeu que o drink tinha acabado e fez menção de chamar o barman — E você?

— Ahn, eu sou professor.

— O que você gosta de beber? — Ele disse de repente.

— Quê? — pisquei, meio perdido — Ah, não! Você não precisa pagar um drink pra mim.

— Mas você pagou um pra mim, certo? Agora eu pago de volta, não? — Ele pareceu confuso.

Eu não sei porque, aquilo me fez rir um pouco. Ele realmente não estava confortável naquela situação de bar, era um novato inexperiente.

— Gin-tônica? — Eu sempre pedia aquilo porque era o drink mais barato do cardápio e minha mentalidade de professor sem grana não me permitia sair disso.

— Não era isso que você estava tomando? Pode pedir outra coisa, eu te acompanho. — Ele me encarou esperando por uma resposta.

— Que tal um shot? Você gosta de Jäger?

— Do quê? — Ele virou um pouco a cabeça, parecendo um cachorrinho. Lutei um pouco para não deixar o riso não escapar.

— Jägermeister. Relativamente barato, tem sabor de ervas. Eu gosto. — Não deixei ele pensar muito e chamei o barman. Acho que ele só não tinha vindo antes porque Kuroko Tetsuya era… hm… pouco visível.

Como os shots eram mais simples, o barman encheu os dois copinhos na nossa frente e já estava pronto. Entreguei um para Kuroko e brindei.

— Bottoms up! — Virei o shot rapidamente, sentindo aquela refrescância boa que vinha com o Jäger. Só então percebi que Kuroko estava bebericando e fazendo caras estranhas — Ah, desculpa. Eu falei em inglês. É para virar.

— Tem gosto de xarope… — Ele não pareceu muito animado para virar, mas ainda o fez — Tem… muito gosto de xarope. E não aqueles gostosos… — Ele completou se sacudindo um pouco, como se fosse expurgar o gosto se mexendo. — Por que você fala inglês? Não é japonês? Ou você é professor de inglês?

— Ah, não. Eu morei nos Estados Unidos boa parte da minha infância e um pouco da adolescência, então às vezes escapam algumas palavras. E eu sou professor de Educação Física na Seirin High.

— Seirin? Huh… — Ele disse de uma forma como se conhecesse.

— O quê, você já estudou lá?

— Não, por quê?

— Ah, não sei, estou com a impressão que te conheço de algum lugar. Quem sabe nós éramos colegas no Ensino Médio. — Dei os ombros, cogitando pedir mais um shot. Ou uma água.

— Você estudou lá? — Ele disse analisando um pouco o meu rosto — Hm… Acho que me lembro de você…

— Mas você não estudava lá…

— Eu não, mas minha irmã sim. — Ele completou, brincando com o copo vazio no balcão.

E então finalmente clicou pra mim.

— Espera, irmã… Você é igual a Kiyoko-chan!

— É, Kuroko Kiyoko. Irmã gêmea. — Ele disse com um sorriso um pouco estranho.

Nossa, como não tinha percebido antes. Eles eram quase idênticos! Não que eu e ela fôssemos próximos, nada disso, mas tive um pequeno crush nela no meu primeiro ano na Seirin. Não durou muito, já que ela tinha um namorado, e eu logo fui para outra… Ou melhor, outro. Acho que foi nessa época que me descobri bissexual.

— Caramba, que mundo pequeno! Como ela está?

Ele pareceu instantaneamente desconfortável e desviou um pouco olhar. Hm, acho que peguei num tópico sensível…?

— Ahn… Ela faleceu há uns três anos.

Oh, shit. Eu queria sair correndo naquele instante.

— Oh, eu sinto muito. — Não sabia exatamente o que fazer ou no que pensar. Era uma notícia um pouco chocante, mas ao mesmo tempo eu causei um desconforto. Como reagir?

— Ah, não se preocupe. — Sua expressão suavizou um pouco — Já aconteceu há um tempo e não é como se você soubesse. Mas eu não me lembro de você só por isso, você era do time de basquete, não?

Pronto, agora era a minha vez de ficar desconfortável.

— Hm, é. — Sorria, Kagami Taiga. Você tocou num trauma dele, agora era sua vez de revisitar traumas.

— Eu também era. Bom, não da Seirin, mas da Touou. — Disse com uma expressão pensativa — Fiquei até metade do meu segundo ano? Talvez menos… Não consigo me lembrar, foi há tanto tempo…

— Sério? Eu não me lembro de você. — Respondi um pouco confuso, mas logo percebi o quão rude eu fui — Quero dizer… Ahn… Sabe? Foi realmente há tanto tempo, haha…

— Tudo bem, eu não acho que joguei contra a Seirin. Seria difícil você lembrar de alguém que não conheceu. — Ele falou rindo um pouco, já recuperado do outro tópico — Mas você era famoso, Aomine-kun falava muito de você.

Ugh. Esse nome… Realmente, aquele babaca era da Touou.

— Coisas boas ou coisas ruins? — Semicerrei os olhos, esperando pelo pior.

— Coisas que você não gostaria de ouvir. — Conhecendo o bastardo, ele me xingava até não poder mais… — Mas ele pelo menos admitia que você tinha muito talento. Você ainda joga? — Ele perguntou inocentemente.

— Não...

Seria agora que começaria a pity party? Não estava muito a fim de ser olhado com pena naquele momento. Ou de tocar no assunto do porquê não jogo mais basquete ou como não estou numa liga profissional. Estava me preparando para o questionário quando…

— Ah, mesmo? Eu também não. Quem sabe a gente não se encontra um dia desses para jogar.

Acho que eu estava prendendo a respiração por causa da antecipação. Soltei o ar aos poucos, tentando não ser óbvio demais. Eu tinha escapado ou ele percebeu que era um tópico que eu não gostava? De qualquer forma, Kuroko Tetsuya tinha ganhado pontos comigo.

Daquele ponto em diante a conversa foi… divertida? Tranquila? Kuroko era uma pessoa bem diferente de mim, nada do que eu estava acostumado a conviver, mas aquela mudança de ritmo era bem vinda. Fiquei bebendo e conversando com ele e devo dizer que não faço ideia de quanto tempo se passou. Em algum ponto da noite trocamos telefone com a desculpa de jogar basquete algum dia. Se eu ia mandar mensagem ou ligar pra ele… Não sei, pensaria no dia seguinte.

Saímos do bar em algum momento e ficamos numa mesa mais afastada, conversando. Talvez fosse uma desculpa para ouví-lo melhor, mas provavelmente eu estava interessado na possibilidade de acontecer alguma coisa. Não sei, parei de pensar direito depois do segundo shot de Jäger.

Não sei bem como, quando ou quem iniciou, mas… é. Acabou rolando um clima e começamos a ficar. Realmente não esperava esse desenvolvimento para a minha noite, mas acabei só deixando acontecer.

. x .

Como eu cheguei aqui? Eu estava no BLACKNUDE e agora…? Estava numa cama estranha, num quarto estranho, com um completo estranho? Beijando o tal estranho, inclusive. Como exatamente isso aconteceu…? Minha mente estava muito confusa e tudo parecia meio nublado.

— Ah, Kuroko… — O estranho de cabelos de fogo suspirou ao pé do meu ouvido, me fazendo arrepiar. Definitivamente uma situação na qual eu não estava nem um pouco acostumado.

Percebi que naquele momento metade da minhas roupas tinham ido embora e eu sentia algo duro pressionar contra mim. Tudo estava tão confuso que decidi tocar para ver o que era. Um gemido cortou o ar do quarto.

Oh.

Talvez eu não deveria ter feito isso? Ou será que deveria? Tão confuso… Mas interessante. Talvez Aomine-kun estivesse certo, eu deveria fazer isso mais vezes.

O som de beijos ofegantes eram predominantes e enchiam a minha cabeça nublada.

— Ka...gami-ku… — Consegui dizer quando ele começou a me tocar com mais afinco em regiões mais... sensíveis.

Huh, então o estranho tinha nome afinal. Acho que eu salvei o número dele no meu celular… Mas importava? Talvez eu nunca fosse vê-lo novamente. Momoi-san falou que geralmente era assim que funcionava. Não estava muito habituado àquele tipo de situação, mas… Estava bom e eu não queria que parasse. Amanhã eu resolveria o que quer que resultasse daquilo.

Só consegui agradecer que Momoi-san cuidaria da Haru a noite toda… Talvez eu precisasse de uma babá fixa… Mas aquele definitivamente não era o momento para pensar nisso. Era o momento de me entregar, mesmo que só um pouco.

As palavras de Aomine-kun ecoavam na minha cabeça: "Aproveita um pouco a vida, Tetsu."

É… eu vou. Pelo menos hoje, eu vou.

Voltei a beijar Kagami-kun e deixei meus pensamentos de lado.

Notas finais
MC novamente por aqui! Espero que tenham gostado do capítulo! Espero que as transições entre narradores estejam suaves e não estejam causando muito confusão. Acho que os dois pontos de vista dão uma fluidez legal para a história, mas vai que só eu pense assim kkk De qualquer forma, foi muito bom escrever esse capítulo. Um pouco trabalhoso tentando finalmente juntar os personagens, mas acho que deu bom! Se quer me mandar críticas (construtivas ou não), comentários, dúvidas, erros de português que eu cometi, mensagens inspiradoras, recadinhos amorosos, dicas de beleza, me mandar pro inferno, falar que está com vontade de chorar, de cantar uma bela canção, ou simplesmente falar que gostou ou detestou a história, a minha caixinha de comentários estará sempre a sua disposição. Te aguardo no próximo capítulo! Com carinho, -MC