Kioku no Yami

1 Nada além do silêncio


— Parece que foi ontem, não é mesmo? Sim, foi ontem...estávamos juntos, lembra? Havia alguns dias que não nos víamos...você chegou em casa e abraçou-me. Ficamos conversando horas à fio...lembra? Por favor, você tem que lembrar! — dizendo isso sacudiu, levemente, o corpo prostrado na cama.

Fazia horas que ela não dormia, ficava, apenas, do lado do rapaz, à espreita. Na inútil esperança de que ele viesse a abrir os olhos. Todavia, ele continuava parado, inerte. Não havia barulho algum no quarto, a não ser a respiração quase que ofegante da jovem. De vez em quando, ela segurava-lhe a face e sussurrava. Entre um sussurro e outro, lágrimas rolavam.

— Por que você não me falou nada?! Por quê?! — gritava, enquanto sacudia o corpo.

Ela se recusava a sair de perto dele. Depois de pensar e repensar, decidiu que ficaria perto do amado. Afinal, ele não podia estar morto. Não mesmo.

— Abra os olhos, por favor! — agora, ela sussurrava, pedia de mansinho — Eu sei que você está brincando comigo...por favor...abra os olhos...

Mas não havia resposta. Em nenhuma das vezes houve. Mas ela insistia. Segundo o que presenciei, o rapaz era brincalhão, gostava de fingir-se de morto. Quando cheguei, ele estava fingindo-se de morto. Sorriam. Ambos pareciam estar felizes. Cheguei bem devagar, de mansinho. A garota não chegou a me notar. Mas o rapaz...de alguma forma ele sabia que eu estava lá, à sua espreita. Ele tentou se desvencilhar. Desistiu logo. Ele sabia que eu não tinha vindo de tão longe para voltar de mãos abanando. Decidi me aproximar deles, queria ouvir o que falavam. Ele a tinha pedido em casamento. Por sua vez, a garota o abraçava e beijava de forma calorosa. Estavam felizes.

Sim, feliz. Foi assim que eu o busquei. Levei-o embora. Decidi que era melhor buscar o que era meu agora, enquanto ainda estava ao meu alcance. Decidi levá-lo feliz. Geralmente, no meu trabalho, poucas pessoas ficam felizes em me ver. Sempre acabam me xingando, isso quando têm tempo. Prefiro levá-las sem que elas percebam. É mais excitante.

Foi bem fácil, rápido e simples. Na verdade, fazia tempo que eu não encontrava um "cliente" assim. Eu apenas me aproximei dele; em seguida, segurei-lhe a mão e puxei-o suavemente. Sua alma veio ao meu encontro de uma maneira tão suave...parecia uma criança. Sua alma sorria. Mas, ao ver o sofrimento da jovem, seu rosto ficou triste, muito triste. Ele a olhava e, em vão, tentava ampará-la em seus braços. Agora, ele era alma e ela era carne. Não mais podiam tocar-se.

Quanto mais ouvia os apelos desesperados da jovem, mais se entristecia. Estávamos prestes a sair do quarto, quando ele decidiu olhar uma última vez para a amada. Ela continuava abraçada ao corpo gélido, pálido e sem vida. O ambiente estava começando a ficar fétido; afinal, faziam-se três dias que o rapaz não tinha vida. Mas, para a jovem, o tempo havia parado. E ia continuar até ela o ter novamente vivo.

Ao ver esta cena, ele fez-me um apelo com os olhos. Não foi preciso palavras. Eu entendi o recado. Pedi que ele ficasse na janela. Aproximei-me do corpo sem vida e tomei-o para mim.

— Você acordou! — disse, extremamente feliz.

Sem dizer palavra, beijei-lhe os lábios. Queria sentir, pelo menos um vez, o que era aquilo que os humanos chamavam de "amor". Não senti nada. Ela sabia que eu não era seu amado. Antes que ela pudesse dizer algo, puxei-a para mim.

— O que você...? — recuou um pouco — O que você vai fazer comigo?

— Eu? — sorri, sadicamente — Vou levá-la comigo para o mesmo lugar que seu amiguinho ali — faço um aceno de cabeça, apontando para o cadáver, o qual eu estava usando.

— O que você fez com ele...? — seus olhos estavam cheios de lágrimas

— Apenas levei-o para um lugar melhor — fitei-a por uns instantes. Realmente, era uma moça muito bonita.

— Aonde ele está? Por favor, deixe-me vê-lo...nem que seja pela última vez, mas...quero sentir...eu preciso sentir... — chorou.

— Ele está bem próximo de nós, mas você não pode vê-lo.

— Ele está? — sorriu e ficou a procurá-lo — Por que não posso vê-lo?

— Porque ele não está vivo. — respondi.

— Como...? Então...o que...? — as palavras lhe faltavam; ela apenas me fitou por alguns instantes até conseguir falar novamente — O que preciso fazer para vê-lo?

— Entregue-se a mim, entregue-me teu corpo, deposites, em mim, vossa alma; só assim poderá vê-lo novamente.

Ela se levantou e ficou a observar-me atentamente. Fiz o mesmo. Olhei para a janela. O rapaz estava apreensivo. Por sua vez, a garota permanecia em silêncio o tempo todo.

— Se eu lhe der meu corpo e minh'alma, poderei viver com ele? Eternamente? — fitava-me seriamente.

— Claro que sim — dei de ombros — Mas, só faça isso se o amor de vocês for verdadeiro. Não devolverei sua vida. Sua alma será enviada para o local determinado e, seu corpo servirá como meu alimento.

Sem dizer palavra, ela aproximou-se de mim. Ajoelhou-se e beijo-me os lábios. Depois, como num piscar de olhos, feriu-se com um punhal. Fiquei a observar seu corpo ficando pálido e gélido. Nada é mais belo do que um corpo deixando de ser vivo. Sua vida vinha ao meu encontro. Voltei a minha forma original, deixando o cadáver do rapaz jogado em frente ao da jovem, que ainda sangrava. Não resisti. A fome... o sangue... eu estava sedento. Eu precisava fazer aquilo. Me aproximei dela e, sem mais delongas, feri-lhe o peito. Ela não teve reação alguma. Apenas fechou os olhos.

Depositei ambos os corpos, lado a lado. Ficariam assim até que os tirassem de lá. Quanto as almas, levei-as para o Paraíso. Deixei-as lá.

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